zephirat Andre Tornado

Começamos no ano 2217, século XXIII. O planeta Terra vive do consumo de hidrogénio. Todas as atividades humanas, desde as industriais, comerciais e lúdicas, até às pessoais e secretas, utilizam a energia limpa proveniente desse gás que é recolhido pela corporação multinacional Hydrogen Inc. em depósitos espalhados pelo Sistema Solar, nas luas dos grandes planetas gasosos. A corporação tem conhecimento, no entanto, que essas reservas estão praticamente esgotadas. Uma crise energética de proporções catastróficas desenha-se no horizonte, a não ser que se encontre rapidamente uma nova forma de aquisição de hidrogénio. A população mundial poderá revoltar-se se acontecer uma drástica diminuição do seu nível de vida por falta do combustível barato, abundante e não poluente que alimenta todos os seus vícios eletrónicos e virtuais, fazendo tombar a poderosa corporação que preside aos destinos da Terra há mais de um século. Num golpe de sorte e desespero, a Hydrogen Inc. descobre um vasto depósito de hidrogénio num extremo longínquo da Via Láctea, mas a missão de exploração revela-se incerta e arriscada. Será necessário reunir a melhor equipa do mundo para essa expedição que esteja disposta a todos os sacrifícios. Mas essa equipa tem os seus segredos, que poderão tornar a missão ainda mais perigosa…


Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 18 apenas. © Linkin Park não me pertence. História escrita de fã para fã.

#hidrogénio #amizade #LOATR #drama #nave #espaço #ficçãocientífica #381 #dave #joe #Rob #Brad #mike #chester #LinkinPark
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Em progresso - Novo capítulo Todas as Quintas-feiras
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I - Shinoda


A medalha estava baça e feia. Guardara-a no estojo depois de a receber e nunca se dera ao trabalho de a polir. Na verdade, nunca mais a tinha visto depois da cerimónia em que lhe fora atribuída, com toda a pompa devida à ocasião. Era um objeto desprezível e inútil, sem qualquer significado para o que ele era ou sentia que era. O seu profissionalismo não se media em medalhas, prémios, condecorações, diplomas, menções honrosas, reconhecimentos ou elogios. Gostava de demonstrar a sua eficiência e o seu empenho através da sua obra. E quando a tarefa ficava concluída com êxito, sem grandes falhas a apontar, com uma classificação elevada em todos os parâmetros, isso era tudo o que ele precisava para saber que, de facto e no seu íntimo, era um bom profissional.


Michael Kenji Shinoda remoeu a sensação de vazio. A medalha era necessária agora, contudo. Mesmo baça e feia era obrigatório que a usasse, presa na lapela da sua farda de comandante durante a entrevista.


O presidente da comissão de avaliação que o iria entrevistar era um rapazinho ambicioso que tinha fama de ser autoritário, déspota e injusto, que desconhecia ostensivamente o passado da corporação e que esmagava todos aqueles que ele julgava serem inferiores a si. Acontecia desprezar os ativos valiosos por mero capricho se não lhe agradassem, não se importando com currículos. Adorava a bajulação fácil e o supérfluo, detalhes que lhe comprovassem as impressões prévias que ele definia de um modo totalmente arbitrário. Uma medalha era um cartão de visita que o presidente iria adorar sem pudor, um elemento quantificável que ele podia identificar e classificar pessoalmente. Ser um herói condecorado era mais vistoso que uma lista fria de feitos, compilada de acordo com critérios duvidosos, segundo a opinião dele, por serem anteriores à atual política da corporação. Por aqueles dias a aparência, a qualquer nível, era fundamental para se assegurar uma promoção, uma missão, algum cargo de proeminência.


Nos últimos anos Mike tinha estado ausente, entretido com outros afazeres e desconhecia os truques atuais – pois que sempre houve truques de sobrevivência dentro da corporação, a Hydrogen Inc., que se orgulhava de estimular a competição entre os seus colaboradores para obter os melhores resultados e apresentar um trabalho de excelência.


Fora o amigo e antigo colega que se predispusera a ajudá-lo, deixando-lhe uma lista completa de instruções que ele devia seguir para ter sucesso na entrevista agendada para aquele dia. Aliás, fora o mesmo amigo e antigo colega que lhe falara na possibilidade de regressar ao ativo e de voltar a liderar uma missão ao espaço. A primeira mensagem que lhe enviara fora lacónica, misteriosa e persuasiva o suficiente para lhe despertar o interesse.


A corporação está a efetuar um recrutamento secreto. Missão desconhecida. Para os melhores. Concorre. É uma ordem e um conselho de alguém que te adora e que gostaria de voltar a trabalhar contigo. Posso descobrir mais se quiseres… Mas neste momento é perigoso andar a esmiuçar os arquivos da corporação. Proteção máxima, ao nível do segredo de Estado.


Ele hesitara muito antes de responder, mas acabara por pedir ao amigo e antigo colega que tentasse efetivamente descobrir mais. Era a condição para ele concorrer, saber do que tratava esse concurso. Dados concretos. A segunda mensagem que recebeu continha um tom de urgência e de medo.


Impossível saber com exatidão de que missão se trata. Apenas consegui entrar no projeto inicial e descobrir qual será a comissão de avaliação e os parâmetros principais que irão classificar os concorrentes, que não são do conhecimento público. Vão ser exigentes e picuinhas. Acho que se relaciona com a exploração de hidrogénio e da possibilidade de ser mesmo verdade que as reservas estão a terminar, aquela notícia alarmante de há dois meses terrestres que foi subitamente desacreditada e abafada. Concorre. Se é uma missão tão delicada, então vamos precisar de ti, comandante. Todos nós.


O dramatismo enojou-o. Para aliviar o espírito desse sentimento pesado de repulsa, ignorou a mensagem. No entanto o amigo e antigo colega insistiu e enviou-lhe a composição da comissão de avaliação, com uma descrição exaustiva e crítica do seu presidente, com a tal lista, também extensa e pormenorizada, do que ele teria de fazer, de como se comportar. E lá estava a indicação sublinhada.


Durante a entrevista, usa a tua medalha que recebeste por bravura e prestação de serviços excelsos à Terra.


No fundo, ele não queria concorrer. Estava há demasiado tempo fora dos quadros da corporação e confortável no que fazia atualmente. Quantos anos se tinham passado? Cinco, seis… ao conferir o seu calendário eletrónico particular deu-se conta de que se tinham passado doze anos desde que estivera no ativo. Demasiado tempo.


O amigo e antigo colega insistiu de uma forma veemente, suplicara e zangara-se, reafirmando que ele era necessário no caso de ser, tal como ele achava que era, uma missão tão arriscada, sensível e indispensável, ao ponto de ser ultrassecreta. E ele cedera, pouco convencido daquilo que estava a fazer – se o fazia por si, pelo amigo e antigo colega, ou pela humanidade, naquele registo altruísta tão louvado que colocava os interesses coletivos acima dos interesses pessoais, apanágio dos grandes homens e das grandes mulheres.


Desde que se formara na mais prestigiada Academia mundial de engenharia que trabalhava para a Hydrogen Inc., a maior empresa e o maior empregador da Terra. Pertencer aos quadros da Hydrogen Inc. era o sonho da esmagadora maioria dos jovens da sua geração, das gerações que lhe seguiram, e fora também o seu sonho. A corporação prometia e cumpria escrupulosamente com as suas promessas – possibilidades e concretizações de enriquecimento, de reconhecimento, de uma vida desafogada e invejada.


Ele tivera tudo isso, reconhecia-o, se resolvesse aplacar o cinismo e analisar o que tinha sem outros artifícios conferidos pelo seu afastamento e algum azedume. Se não fosse pela sua folha de serviço, nunca teria sido capaz de viver doze anos desafogadamente da pensão que lhe fora concedida pela Hydrogen Inc., por conta da sua aposentação precoce, também de algumas poupanças que fizera enquanto servira como comandante. Estivera entretido com passatempos que não lhe deram um rendimento assinalável e não tinha qualquer razão de queixa.


Em abono da verdade, ele não precisava de voltar ao ativo – estava confortavelmente alheado da ribalta e satisfeito com a sua vida pacata. Mas o amigo e antigo colega insistira tanto que ele resolvera arriscar concorrer a essa missão que estava a ser preparada com tanto cuidado e minúcia. Ele também partilhava das desconfianças do outro – o secretismo podia relacionar-se com a exploração de hidrogénio e a sua eventual escassez num futuro demasiado próximo para deixá-lo indiferente ao problema.


Assim, como ato final antes de seguir para a crucial entrevista que o iria avaliar, prendeu a medalha no casaco, do lado esquerdo, sobre as insígnias que determinavam o seu posto de comandante na hierarquia inflexível da corporação. Não estava pronto, mas a hora aproximava-se e não se devia atrasar. O amigo e antigo colega também incluíra na sua lista de dicas que o presidente da comissão de avaliação adorava números, regia-se por números e decidia tudo com base em estatísticas rígidas. Incluindo o fator cronológico.


Ficou a contemplar-se no espelho de corpo inteiro defronte do qual se fardava e se preparava para a reunião. No lado superior esquerdo do espelho, um contador digital com números em azul estava em contagem decrescente, indicando o tempo que ainda lhe restava. Levou as mãos ao casaco devidamente abotoado até ao pescoço, gola engomada a contornar-lhe a pele, a dar-lhe uma certa altivez, queixo barbado espetado, lábios contraídos, olhos escuros, tão baços quanto a medalha. O seu peso minúsculo a repuxar delicadamente as fibras do tecido, a invocar a memória do dia soalheiro em que a recebera, naquela última cerimónia oficial a que assistira ao lado dos seus companheiros de jornada.


Vacilou ligeiramente ao notar no reflexo da superfície espelhada as marcas do inexorável passar dos anos – as rugas na pele mais flácida, os fios brancos no cabelo escuro, o cansaço disfarçado no olhar inteligente e na postura magnífica. Estava mais velho, mais experiente, mais desconfiado. Menos idealista e ingénuo, também.


Sabia que teria de convencer o presidente da comissão de avaliação, mas não aceitaria nada incondicionalmente. Ele não precisava daquilo, mas a Hydrogen Inc. precisava dele e ele tinha uma única exigência a fazer. Queria reunir a sua equipa, a tripulação em quem confiava, ao ponto de entregar sem hesitar a sua vida nas suas mãos. Todos. Incluindo… Experimentou um arrepio e logo se abriu uma janela no espelho, no lado oposto ao do cronómetro, com a indicação de que os seus sinais vitais apresentavam uma perturbação. Todos, sem exceção, portanto.


Os seus colegas. Os seus companheiros. Os seus amigos. Os seres humanos mais extraordinários que se tinham cruzado na sua vida. A quem ensinou e com quem aprendeu. Aqueles que viram as suas lágrimas, as suas gargalhadas, os seus sofrimentos e as suas alegrias. Todos eles tinham uma medalha idêntica à sua. Ele tocou-a com a ponta dos dedos da mão direita, braço cruzado sobre o peito. Receberam-na na mesma cerimónia, naquele dia soalheiro de celebração tensa. Mal sabiam que se tratava de uma despedida. Cada um foi para o seu lado e depois nunca mais se tinham visto, ou estado todos juntos no mesmo espaço físico. Ele mantivera contacto, claro, mas a equipa jamais se reunira com todos os seus elementos, de uma vez só, num único dia, num único lugar.


Afastara-se, reaproximara-se, acontecera tudo através da plataforma digital de comunicação. Com ecrãs de permeio, recorrendo a hologramas, mensagens escritas, mensagens gravadas, partilha de imagens e de filmes.


Havia assim tanto ressentimento?


O peso do sucesso tinha sido demasiado, explicaram-lhe uma vez, numa sessão de terapia que foi obrigado a aceitar para renovar os requisitos da sua aposentação antecipada. Nunca, em nenhum momento, Michael Kenji Shinoda sentira a pressão da fama ou do poder, em todos aqueles anos no ativo e na ribalta. Nunca se julgou diferente do mesmo rapaz que, cheio de sonhos e de vontade, finda a Academia, quisera mudar o mundo. Limitara-se a fazer o seu trabalho o melhor que conseguia, sempre com a meta pessoal de ser excelente, sem que isso fosse essencial ao seu desempenho. Por isso, aceitou os conselhos da sessão terapêutica com uma leviandade sobranceira que lhe era, de certo modo, característica.


Ele era o melhor naquilo que fazia e orgulhava-se dessa nota breve, mas imponente, no seu currículo. Tinha sobressaído, tinha sido homenageado, essa notoriedade rendera-lhe prémios, condecorações, aquela medalha. No fundo ele sabia que não passava de um ilustre anónimo numa empresa reconhecida. Fugira, sempre que pôde, da feira das vaidades que vinha com o cargo, laborara na sombra possível, diminuíra a luz do holofote que constantemente lhe apontavam. Ele não costumava comparecer nas festas que a Hydrogen Inc. promovia amiúde para destacar os seus melhores funcionários. Escolhia as ocasiões que lhe pareciam apropriadas, que pudessem significar alguma coisa para o seu trabalho. E na última dessas cerimónias recebera a medalha.


A seguir, afastara-se. Ele não aguentava mais e precisava de uma pausa. Poucos sabiam a verdadeira razão da sua aposentação precoce. Melhor dizendo, apenas a sua equipa é que sabia toda a verdade. A razão oficial fora o esgotamento e o desgaste derivados de uma profissão demasiado exigente. Ele tinha estado gravemente doente por duas ocasiões em que pensou seriamente que iria morrer, até fizera testamento e recebera os ritos de passagem. Ninguém soube, claro. A licença foi-lhe concedida sem acrescentar detalhes ao relatório final e ele continuou a ser discreto. Mas havia uma outra razão… mais forte, pessoal, irritante. E tudo voltaria à tona, ele sabia-o, em breve, e nem tinha ideia de como se preparar para esse facto incontornável.


Tudo a seu tempo. Na altura certa, decidiria o que fazer. Dependia muito da circunstância, do momento, do que iria encontrar do outro lado.


Aquela medalha… estava tudo dentro daquela medalha. Memórias de um tempo recuado, de há doze anos. Gargalhadas e uma amizade sólida como aço temperado. O esforço e os sacrifícios. A sua saúde fragilizada pelos tratamentos, as missões cada vez mais penosas, a solidão do espaço vazio e gélido, o isolamento a que se forçava para não sofrer mais, a sua vida pessoal a desmoronar-se como as falésias a esboroar-se entre as ondas violentas de um oceano zangado pelo inverno, todos os fins que suportou calado numa indiferença estudada para esconder o seu coração sangrante.


Estufou o peito, um último relance ao espelho. Desligou o sistema biónico e o espelho apagou-se, tornando-se num quadro preto, onde ele ainda podia vislumbrar um reflexo seu, opaco e cheio de sombras. Que era mais ou menos como se sentia – esmaecido e tomado por manchas escuras. Teria de esconder as suas mazelas, principalmente as psicológicas para poder passar no teste da entrevista próxima. Era a última etapa do processo de seleção. Enfrentar o jovem presidente da comissão de avaliação, impressioná-lo e convencê-lo.


Saiu do exíguo apartamento onde se alojara para conseguir cumprir o horário estipulado. Evitava, assim, pressões desnecessárias que lhe alterassem os valores padrão que o davam como saudável e apto.


Nos últimos cinco anos tinha mudado de casa com frequência, incapaz de se fixar em qualquer lugar. Estivera ocupado a pintar e chegara a fazer exposições dos seus quadros numa galeria de arte com algum gabarito. Vendera duas obras e aparecera num jornal importante dedicado a artistas underground, para o qual dera uma entrevista. Naqueles doze anos abandonara a estação espacial para se afastar da corporação e do lastro das recordações dos dias de glória e de queda. Agora regressava e não quisera ver como estava o seu bairro. Tinha lá casa à espera, o amigo e antigo colega continuava a habitar esse bairro e fizera o convite mais do que uma vez para que ele fosse para lá morar. Ele ignorou polidamente a proposta. Preferia a independência de ter um canto só seu, mesmo que fosse uma moradia minúscula arrendada à hora.


Apanhou uma cápsula individual de transporte. Inseriu os seus dados telemétricos e a rota foi imediatamente traçada para o complexo da Hydrogen Inc. A viagem decorreu com uma normalidade aborrecida, quinze minutos e estava a digitar o código de acesso que lhe abriu as portas para o átrio do complexo. Apanhou um elevador, foi recebido pelo autómato que fazia a gestão das entrevistas. Feito o apropriado reconhecimento facial, todos os seus dados foram prontamente inseridos no sistema. O autómato, após confirmação da identidade do humano comunicou-lhe, numa voz feminina sintetizada, que ele iria entrar. O horário era cumprido meticulosamente e ele chegara no minuto certo.


A porta do gabinete, situada ao lado esquerdo do nicho onde estava o autómato, escancarou-se e Mike entrou.


A sala era totalmente branca, minimalista, com um perfume suave que o deixou ligeiramente entorpecido e eufórico. Um soporífero leve destinado a acalmar-lhe os nervos e a condicionar-lhe as reações, embora ele não precisasse de semelhante subterfúgio, já que se sentia tranquilo e seguro de si.


Sentou-se numa cadeira rotativa confortável, presa ao chão, aparafusada defronte a uma mesa igualmente branca, onde estava a comissão de avaliação. O presidente ao centro, dois vogais a ladeá-lo, mais um secretário e um autómato que registava a reunião, em cada ponta. Um painel de cinco elementos, portanto. Diferente das comissões informais com quem ele lidava no passado. Eram só três elementos numa sala, todos de pé, a beber café e a comer bolinhos, uma exigência burocrática que era vista como desnecessária. Punham-se os carimbos, tudo aprovado, passava-se à fase seguinte. Simples. Nada daquele formalismo complicado e intimidante. Nada de concursos.


O sistema biónico da cadeira ligou-se aos seus braços para monitorizar os impulsos elétricos do corpo e para prevenir reações anómalas ou exageradas. Uma gaiola flexível envolveu-lhe o peito e uma haste munida de uma ventosa sensorial colou-se-lhe à nuca. Mike continuava a sentir-se relaxado e preparado.


Os olhos do presidente olharam, cobiçosos, para a medalha presa na lapela. O primeiro ponto positivo estava angariado. Previsível. Expectável. Mike controlou as suas emoções.


Tinha de conseguir um total de dez pontos positivos e podia ter um máximo de dois pontos negativos. Naquela fase, ele sentia-se mais do que preparado para aquela reunião. Para além do seu currículo impecável, havia a sua personalidade firme, o seu orgulho intransigente, a sua inteligência sempre elogiada pelos seus pares.


O presidente desviou o olhar da medalha. Entrelaçou os dedos das mãos que pousou no tampo liso e brilhante da mesa. Neste havia um monitor de toque que passava, em contínuo, informações vitais àquela entrevista. Eram os vogais que controlavam os dados que iam sendo compilados, mexendo em botões virtuais de opções com os seus cilindros pessoais.


– Comandante Shinoda – começou o presidente –, é um prazer tê-lo aqui hoje, perante esta comissão de avaliação. Começamos por informar que as nossas decisões são irrevogáveis e irrefutáveis, não serão admitidos recursos ou resolução através de processo jurídico em tribunal competente.


– Compreendido.


– Esta comissão é totalmente autónoma e a sua palavra tem força de lei. O decreto será posteriormente sancionado pela Administração da corporação e pelo Governo Central da Terra. Cabe a esta comissão, portanto, preparar e apresentar o relatório final que irá definir a próxima missão extraordinária patrocinada pela corporação. A conclusão do relatório acontecerá com a escolha da tripulação e é esse o nosso objetivo de hoje. Escolher a tripulação e fechar o relatório. Todos os demais elementos relacionados com a missão extraordinária já se encontram compilados no projeto que irá definir, como habitualmente e como com certeza se recorda, os vários protótipos e equipamentos que constituirão a base da missão. Naves, contentores, mantimentos, cápsulas, computadores, sistemas, planos de voo, rotas, controlos de qualidade.


– Compreendido.


– Um primeiro processo seletivo aconteceu, sancionado por um júri independente. Todas as candidaturas foram sujeitas a uma análise exaustiva que utilizou parâmetros restritos. As nossas escolhas resumem-se, atualmente, a três nomes. Comandante Shinoda, o senhor é um desses nomes.


– Compreendido.


– Esta entrevista tem como propósito fechar o processo seletivo e registar a sua avaliação final que será, posteriormente, comparada com as dos outros dois concorrentes. Será elaborada uma lista com o posicionamento de cada concorrente de forma decrescente. A missão será atribuída ao primeiro classificado. Nesta entrevista irá apresentar a sua proposta de tripulação. Essa proposta será registada e classificada de acordo com o sistema de pontuação do qual já tomou conhecimento. Depois tomaremos a nossa decisão, consoante essa classificação. Em caso de empate dos candidatos, serei eu, na qualidade de presidente, que farei o desempate, atribuindo um ponto positivo extraordinário ou retirando os pontos negativos.


– Compreendido.


O presidente entremostrou um sorriso débil.


– Pessoalmente, considero que será o homem ideal para esta missão, comandante Shinoda. Mas a decisão não me cabe apenas a mim.


– Obrigado, senhor presidente.


Continuava a controlar as suas emoções. O sistema biónico nada registava de assinalável.


O presidente baixou os olhos brevemente para o monitor.


– A sua tripulação costumava ser de seis elementos, incluindo o comandante.


– Afirmativo, senhor presidente.


– Atualmente, as tripulações contam com dez elementos.


– A minha tripulação manterá os seis elementos.


– Isso é uma exigência? – perguntou o presidente, intrigado com a petulância, de sobrancelha levantada.


– Sim, é uma exigência – respondeu ele.


– Muito bem.


O primeiro ponto negativo, leu Mike no pequeno ecrã à sua esquerda. Tinha à partida cinco pontos positivos, atribuídos pela comissão de avaliação. Classificação de currículo e essas formalidades. Era uma base excelente para começar. Naquela fase, só estava a concorrer contra outros dois. Estaria numa posição vantajosa, dada a sua experiência, cogitou.


– O primeiro nome, comandante Shinoda.


– Pretendo manter a tripulação que sempre voou comigo, senhor presidente.


– Comandante Shinoda, nós conhecemos muito bem o seu currículo e sabemos quem voou consigo nas missões bem-sucedidas que liderou. Mas para efeitos de registo deverá nomear os tripulantes, acrescentando o posto de cada um. As suas escolhas implicam diretamente nos pontos que temos a atribuir à sua proposta.


– Os membros da minha tripulação têm currículos impecáveis e sempre serviram de uma forma diligente e profissional a Hydrogen Inc.


– Perfeitamente de acordo, comandante Shinoda. Mas já se passaram muitos anos desde esses tempos extraordinários de… glória. E os currículos são atualizados permanentemente dentro da corporação. Esta comissão poderá ter informações que contradigam a sua avaliação do empenho e do compromisso dos tripulantes que indicar.


– Compreendido.


– O primeiro nome.


– Delson. Primeiro engenheiro.


O presidente completou:


– Bradford Philip Kaplan Delson. Primeiro engenheiro.


Os pontos positivos subiram para seis.


– O segundo nome.


– Farrell. Segundo engenheiro.


– David Michael Farrell. Segundo engenheiro.


Sete pontos positivos.


– O terceiro nome.


– Hahn. Primeiro oficial.


– Joseph Hahn. Primeiro oficial.


Oito.


– O quarto nome.


– Bourdon. Técnico principal.


– Robert Gregory Bourdon. Técnico principal. E o quinto nome?


Nove pontos. Ele fez uma curta inspiração, para oxigenar os pulmões, manter a sua tranquilidade, continuar a controlar as análises do sistema biónico. Não iria fraquejar quando lhe faltava um mero ponto para atingir a pontuação máxima.


– Bennington. Cientista chefe.


Uma pausa.


Ele encarou o presidente da comissão. Um sorriso frio despontou no rosto do outro.


– Lamento informá-lo, comandante Shinoda, mas temos informações de que o cientista Bennington faleceu há dois anos. Doença súbita.


O seu coração acelerou e houve um apito breve que desestabilizou os níveis detetados pelo sistema biónico. A boca secou-se-lhe e ele tentou não engolir em vão. Não quis falar. Não queria e, muito provavelmente, não conseguiria articular uma palavra coerente. O choque deixou-o vulnerável. Ajeitou-se na cadeira, tornada subitamente desconfortável e estreita.


Esperou.


– Deverá indicar outro nome, comandante Shinoda – pediu o presidente.


– Não tenho outro nome para além do cientista chefe Bennington.


Falava a verdade. Mike não queria mais ninguém na sua tripulação para além daqueles indicados. Ainda pensou em Mark Wakefield que tinha feito parte da sua equipa no início, mas deixou de confiar nele quando se afastou sem lhe dar notícia. Fora depois apanhado em esquemas de corrupção e de falsificação de manifesto de cargas. Quando tentara explicar-se, Mike escutara-o, mas nunca mais o tinha considerado para o acompanhar nas missões. Continuaram amigos com uma certa distância, uma certa polidez forçada. Trocavam cartões virtuais pelas festividades e era só. Por outro lado, Mike não iria desfazer a sua equipa que sabia ser capaz dos resultados extraordinários que lhe seriam exigidos, em qualquer circunstância. O Wakefield estava riscado da lista.


A desistência era agora opção. Ficava com a classificação de nove pontos, insuficiente, cogitava, para conseguir a nomeação. Não se importava. Seria uma derrota amarga, mas com uns meses de isolamento conseguiria curar mais essa desilusão. E chorar o que precisava de chorar depois de saber daquela terrível notícia…


– Deixou a indicação de que a sua tripulação é composta por seis elementos – insistiu o presidente lacónico. – É uma composição fora do padrão atual, altamente irregular. Não devemos aceitar uma tripulação apenas com seis elementos, mas abriremos uma exceção no seu caso, devido à sua reputação e ao seu currículo impressionante, comandante Shinoda. No entanto, certamente que não aceitaremos uma tripulação de cinco elementos.


– Só trabalho com a minha equipa, senhor presidente. Seis elementos.


– Certamente que terá alguém que poderá substituir o cientista chefe Lee Bennington.


O seu coração deu um salto. Dois apitos estridentes. O sistema biónico tentou estabilizar os seus sinais vitais, Mike bloqueou-o carregando no botão situado no braço esquerdo da cadeira. A sua testa humedeceu-se de suor.


– Lee Bennington? Foi o Lee Bennington que faleceu de doença súbita há dois anos?


Surgiu, a vermelho, o segundo ponto negativo. Demasiada emoção. Descontrolo. Sabotagem à avaliação do sistema biónico. Mike sabia que estava no limite, mas também sabia que a sua derrota amarga se transformava numa reviravolta inesperada, numa pequena vitória que lhe daria um novo fôlego. Era uma oportunidade e ele sempre soubera aproveitar as oportunidades.


– Sim. Foi o cientista chefe Lee Bennington – confirmou o presidente. – Doença súbita. Pulmões. Uma virose letal que atingiu o continente africano onde ele residia e onde desenvolvia as suas últimas pesquisas científicas.


– Nunca trabalhei com o Lee. O nome indicado por mim refere-se ao filho, Chester Charles Bennington.


Uma segunda pausa. O presidente recostou-se na sua cadeira. Observava-o com um certo interesse maligno, uma certa sobranceria condescendente.


– Chester Charles Bennington – repetiu. – É esse o sexto elemento que pretende para a sua equipa, comandante Shinoda?


– Afirmativo, senhor presidente. Bennington, Chester Charles. Cientista chefe. – Uma gota de suor desceu-lhe pela têmpora. Os dedos das mãos formigavam.


– As informações que tenho indicam que existiram problemas entre si e o cientista chefe Chester Bennington. Antigas quezílias já resolvidas, de acordo com as minhas informações, mas que foram um dos motivos para o seu afastamento voluntário do ativo, há doze anos. Tenho na minha frente o relatório de avaliação psicológica que recomendou a sua aposentação, comandante Shinoda. As suas conclusões referem, entre outras, a incapacidade de superação de um trauma profundo que causou depressão e distúrbios neurológicos.


– Como referiu, senhor presidente, esse relatório data de há doze anos. Fiz os devidos tratamentos, de acordo com as orientações dos médicos que seguiram o meu caso na altura e que me deram, posteriormente, como apto e curado. Decerto terá igualmente esse relatório e os meus exames mais recentes. Não tenho qualquer problema atualmente. Físico… ou psicológico.


– Confirmo, comandante Shinoda.


– Confio no Bennington e em nenhum outro – afirmou Mike, com convicção. – Não aceito outra equipa, senhor presidente. Seis elementos. Eu próprio, Delson, Farrell, Hahn, Bourdon e Bennington.


Dez pontos positivos. O presidente resfolegou, irritado. Um dos vogais declarou:


– O cientista chefe Chester Charles Bennington tem desenvolvido nos últimos meses trabalho importante na área dos quasares, senhor presidente. Os artigos que tem publicado não são abundantes, mas são… promissores. Ele é igualmente herdeiro dos excelentes estudos compilados pelo pai, Lee Bennington, sobre diversas matérias relacionadas com a astrofísica. Apesar de poder ser um elemento disruptor na equipa do comandante Shinoda, tendo em conta as informações que se encontram assinaladas no currículo que se relacionam diretamente com os problemas de saúde diagnosticados há doze anos, ainda assim será crucial para o sucesso da missão. Assumo o ponto positivo dado ao comandante Shinoda e proponho que se retire um ponto negativo.


– Proposta recusada. Mantêm-se os dois pontos negativos – contrapôs o presidente. – A presença do cientista chefe Chester Charles Bennington na equipa do comandante Shinoda será motivo de comoção desnecessária e poderá afetar o ânimo do grupo que se pretende coeso. Devemos evitar todos os possíveis contratempos e antecipar as entropias. Esta missão é delicada, essencial e perigosa, senhora vogal.


A mulher não respondeu, limitando-se a anotar os apontamentos do presidente, manipulando o seu cilindro pessoal.


O segundo vogal votou a favor do primeiro vogal e o presidente assumiu a pontuação final de dez pontos positivos, dois pontos negativos. O presidente também inscreveu as suas reservas derivadas dos aspetos observados naquela entrevista e colocou-as como nota de classificação cinco, bastante relevantes. No caso de empate de classificação entre candidatos, aquela nota serviria para a tomada de decisão final. O autómato registou a ata eletrónica e a entrevista foi dada como concluída.


O presidente disse:


– Muito obrigado por nos conceder o seu tempo, comandante Shinoda.


Mike aguardou alguns segundos, o tempo suficiente para que a cadeira o libertasse, desligando-o do sistema biónico. Os dedos das mãos permaneciam dormentes, o coração batia apressado. A calma estilhaçada, um fingimento patético de controlo e de superioridade. Continuava a deixar-se afetar quando a questão envolvia Chester Bennington e esse era, realmente, admitia-o envergonhado, uma fragilidade que afetaria a coesão da sua equipa magnífica.


– Muito obrigado por me concederem o vosso tempo – devolveu ele, cordato, pondo-se de pé.


Antes de abandonar a sala, reparou que o presidente dispensou um derradeiro olhar à medalha. Cheio de cobiça e, agora, de desdém. O seu estatuto tinha-se alterado, subtilmente, depois do contacto entre eles. O presidente quis que ele soubesse que mesmo com um currículo tão impressionante, acompanhado de uma medalha vistosa, continuava a ser um mero empregado da corporação, que tinha de passar pelos mesmos processos de seleção se quisesse vencer o concurso. Ele, o brilhante e afamado comandante Michael Kenji Shinoda, estava no mesmo patamar que um comandante acabado de sair da Academia e que se propusesse a candidatar-se à mesma missão.


Ao regressar à cápsula individual de transporte, sentia-se agoniado e exausto. Retorcia-se internamente, irritado por ter de passar por aquele tipo de processo seletivo, perguntando-se, ao mesmo tempo, se parte do ónus de tanta desconfiança e embaraço não se deveria à sua aposentação precoce há doze anos.


Se ele não tivesse desistido, talvez…


Apoiou a testa numa mão, cortando a luminosidade artificial da via cosmopolita que a cápsula percorria a deslizar suavemente e que o levava até ao seu apartamento. Ele não tinha desistido. Ele tinha quebrado… e tivera de se reconstruir.




Hydrogen Inc. Início de VLog 1000LP

Data: 2217, julho, 20. Dia 1. Agente: Shinoda, MK. Comandante

Shinoda, Michael Kenji. Comandante. Eh… Hoje foi o primeiro dia. Julgo eu… não tenho a certeza se conseguimos a missão. Estou desabituado da burocracia e já não me conhecem no meio. Espero ter-me portado bem na entrevista. A classificação final foi de dez pontos positivos. É o máximo que se pode obter. Mas tive também os dois pontos negativos máximos que se podia ter e isso pode ser complicado. Esforcei-me. Os pontos negativos foram… de certo modo arbitrários. Não tiverem que ver com critérios isentos, no meu entender. Um ponto negativo deveu-se à composição da equipa e o segundo ponto negativo relacionou-se com a minha reação à notícia da morte de Lee Bennington, pai do Chester. Tenho todos os motivos para desconfiar que o presidente armou-me uma armadilha, para que eu me descontrolasse e assim me atribuir um ponto negativo. Compreendo que estava no seu direito a fazê-lo e que as normas obrigavam-no à penalização, mas ele provocou esse ponto negativo. Enfim, não posso fazer mais nada, a ata da reunião da minha avaliação foi encerrada. Ah… Em relação aos meus motivos pessoais. Sim, quero voltar ao ativo. Estou preparado para voltar. Os meus exames médicos estão em ordem e não existe qualquer entrave, que seja do meu conhecimento, para me recusarem esta missão. Aguardo o resultado, confiante de que… nos iremos reunir outra vez, a bordo de uma nave. A trabalhar. A fazer o que sabemos fazer melhor. Somos bons. E… acho que é tudo, para um primeiro relato. Não quero dizer mais nada também. Desligo.

Hydrogen Inc. Fim de VLog 1000LP

7 de Janeiro de 2021 às 13:48 0 Denunciar Insira Seguir história
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