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C Clark Carbonera


É um típico Natal na casa de uma família cujos membros são...uh, diferentes? Talvez para aqueles de fora. Mas para Allegro, Jane, Mae, Dante, Ronan, Soren e Willa, todos eles são muito normais dentro de seus respectivos quartos (os incomodados que se mudem!).


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#romance-teen #natal #família #bruxos #místico #paranormal
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Mae


Dois dias antes do Natal, em uma casa de campo com fachada de pedras e um telhado com conexão de apoio até o chão, por onde subiam variadas trepadeiras coloridas, uma família de místicos (como costumava de dizer o delegado Gavanno por falta de um adjetivo melhor) se reunia para as festividades de final de ano.

Soren, o avô e patriarca da família se encontrava sentado no banco de madeira da varanda, uma manta xadrez nos joelhos ossudos, a olhar para o entardecer laranja arroxeado que cumprimentava o início da noite. A esposa Willa, que entrara brevemente para pegar a bandeja com o chá, já retornava depositando o bule e as xícaras na mesinha em frente.

– Soren, você não acha nada mesmo sobre isso? – Willa questionou novamente o marido acerca de uma manchete do jornal Sobrenaturalíssimo que reportava o sumiço de uma cidade inteira num dos países do norte continental.

Soren encolheu os ombros e voltou a atenção para a xícara de chá, o tom avermelhado da bebida lembrava sangue e por um estranho motivo aquilo o fez ter um leve arrepio. Ajeitou a manta nos joelhos e sorveu um gole: Ah, chá de pétala de hibisco!

– Uh! Dante está aprendendo muito bem com você, Willa... O chá está perfeito.

– Não mude de assunto, Soren – Willa também beberricou seu chá –, mas sim, Dante aprendeu o suficiente para levar as coisas adiante. Agora – ela lançou um novo olhar para o marido, ao que ele rolou os seus próprios e suspirou –, quero saber o que você acha dessa situação, aqui!

A cada palavra dita, ela dava tapinhas leves no jornal que estava entre ambos no banco de madeira.

– Willa, o que você quer que eu diga?! O jornal está falando que é um novo Croatoan! Talvez seja mesmo...eu não sei. Vamos, Willa. Vamos só tomar nosso chá enquanto o sol vai embora, vamos.

A esposa insistiu um pouco mais e pegou o jornal, colocando-o na frente do rosto de Soren: a foto de uma cidade deserta.

– Apenas olhe a fotografia e veja se há algo nela!

– Bah! Willa! A idade não está te fazendo bem, pare com isso. Tire isso da minha frente, não quero!

– Mamãe, pare de aporrinhar o papai – Mae, a filha mais velha do casal, arrancou o jornal das mãos da mãe assim que saiu para a varanda. – Se ele não quer ver, ele não verá. Papai já se aposentou.

Soren olhou agradecido para a filha e tentou se esconder da esposa com a manta xadrez.

– Ah, Mae, todos nós sabemos que não existe essa coisa de simplesmente se aposentar para a nossa família...

Mae, com sua bata cor laranja berrante, barrado dourado e escritos em sânscrito que variavam em tons do preto ao branco amarelado, cruzou os braços. Soren espichava o pescoço de um lado para outro, enquanto a filha e a esposa discutiam.

– Querida – Soren tocou levemente nas costas de Mae –, vá um pouco para lá. O sol está se pondo...

– Oh, Soren, o que há você com o sol ultimamente! – Willa levantou-se, batendo com mãos irritadas nas coxas grossas, e foi para dentro da casa a passos largos o suficiente para não perder o equilíbrio de seus 86 anos.

– Isso, e dê uma mão a Jane na cozinha! Senão não teremos torta de mirtilo na sobremesa! – Mae gritou de fora e voltou-se para o pai. – Uh, acho que Ronan e Dante sempre se atrasam de propósito para não ajudarem em nada. Eles só vêm para comer e pronto! Até parece o século passado...

Mas Soren estava praticamente hipnotizado pelo sol a se pôr e não parecia se preocupar em nada se os filhos não chegavam mais cedo de propósito ou se Jane queimava pela terceira vez a massa da torta de mirtilo. Mae observou os olhos aguados e quase cegos do pai de 89 anos e a ideia de que ele parecia estar se afastando da família pouco a pouco e a cada dia que passava no calendário se fez presente como uma pedra em seu estômago. Ela rapidamente afastou o pensamento e colocou um sorriso no rosto.

– O sol está mesmo maravilhoso hoje, né, papai? – Mae sentou-se ao lado de Soren, abrindo mais a manta xadrez e colocando-a nos joelhos de ambos. Soren passou um braço nos ombros da filha e Mae piscou várias vezes para afastar o brotar de algumas lágrimas.

– O sol sempre foi maravilhoso, Mae, não só hoje...

– Pai? – Mae chamou por ele, mesmo sem que precisasse. Mas o pai parecia olhar além do horizonte. – Papai. Papaaai?

– Uh? Sim, o que foi, filha? – Soren voltou o rosto enrugado de pele fina como folha de arroz, os olhos plácidos que se punham como aquele sol. Mae respirou fundo e suas mãos tremeram levemente ao sentir o formigamento tão conhecido nas pontas dos dedos. Ela tentou dar um sorriso, mas ele saiu solado como os bolos que Jane costumava fazer.

– Você estava vendo algo, papai?

– Ah, sim, claro. Seu mentor veio aqui me dar um alô. Não viu ele? Estava bem ali... – Soren apontou para um lugar do gramado a uns três metros de distância. De repente, seu rosto passivo ficou sério ao analisar a altura da grama. – Aaaah, Dante pode ter aprendido a mistura dos chás, mas esse garoto não tem jeito. Se não prestar atenção, ele deixa as plantas tomarem a casa assim, ó!

E fez um estalo com os dedos. Mae pigarreou para engolir a bolota de pressentimento que surgiu na garganta. Felizmente um carro branco avançou pelo caminho de cascalho e ela pôde fazer daquilo uma desculpa para sair do banco e se afastar do pai (não que ela se orgulhasse de ter aquele medo). Seus pés foram mais rápido que seus pensamentos, como se seu corpo reagisse instintivamente para resguardar aquela que lhe usava de qualquer perigo iminente.

Assim que a porta do passageiro abriu, Mae arreganhou uns dentes num sorriso sofrido e altamente forçado para a sobrinha que vinha correndo abraçá-la.

– Oi, tia Mae! Você está bem? – Allegro, ainda abraçada à cintura da tia, pendeu o tronco para trás e ergueu as sobrancelhas para o sorriso estranho dela.

– Mas é claro que sim, minha sobrinha favorita! Rárá. – Mae permaneceu com o sorriso que ficava cada vez mais bizarro e Allegro achou que a tia estava assim, pois ela tinha conseguido sair da casa escondida mesmo depois que as tias ordenaram que não saísse.

– Ãh...eu sou a única sobrinha, então, uh...eu meio que tenho que ser a favorita, né?

– Vá, vá – Mae rapidamente despachou Allegro em direção à casa, a sobrinha pareceu aliviada por um momento, talvez a tia tivesse esquecido da ordem. – E depois conversamos sobre essa sua saidinha com o tio Ronan, sim.

Allegro travou no gramado, os ombros encolhidos. Era como se Mae conseguisse ouvir o gemido de tensão da pequena, mas ela tinha outras coisas em mente no momento.

Do carro saiu um homem alto e elegante, vestido formalmente, de barba preta cerrada, nariz reto e olhos azuis hipnotizantes (ao menos para todos aqueles que não fossem sua família). Apesar de Mae querer dar uma boa bronca no irmão, ela correu para abraçá-lo, coisa que deixou Ronan, o mágico de rua profissional, estupidamente confuso: ele esperava mesmo que Mae e Jane caíssem matando em cima dele por ter aceitado tirar Allegro de casa; tinha até o melhor argumento de todos para firmar sua defesa!

– Mae? Está tudo bem?

A irmã mais velha fez que “sim” com a cabeça no peito do irmão.

– Aw, sério mesmo? Nem uma pedra a jogar? Nem um mísero pedregulho? Cascalho?

Mae ficou em silêncio e só abraçou Ronan mais forte.

Ronan, de sorriso largo e momentaneamente satisfeito por ter desviado de alguma bronca tola, retribuiu o abraço de Mae com estrondo.

– Ah! Sério mesmo? Aaaaaah! Faz tanto tempo que a gente não se abraça assim, não, irmã?! Isso me lembra infância com pipoca, não lembra? Ah! Que saudade! Não tem saudade, Mae?

Mae fez que “não”, o rosto ainda escondido. Ronan segurou os ombros dela, afastando-a de si. Por mais idiota e avoado que ele aparentasse ser, o mágico fazia aquilo apenas por mero fingimento mesmo. Mae estava estranhamente emotiva e isso não era normal: as únicas coisas que conseguiam abalar o emocional daquela mulher eram as relativas à família.

Os olhos dela estavam levemente avermelhados, bem como o nariz, mas as lágrimas já tinham secado na camisa branca dele.

– Oh, Mae, por favor, diga que não está usando maquiagem? – temeroso, Ronan esticou com as mãos a camisa impecavelmente alva e suspirou aliviado (nenhuma mancha de rímel, base ou batom, ufa!).

– Não pense que você não vai ouvir de mim e Jane sobre Allegro, Ronan. Mas...acho que...acho que papai não passa do ano que vem, ou talvez desse...

O céu já estava bem escuro àquela hora, com o sol já posto. Ronan mirou os olhos azuis na figura sentada no banco da varanda da casa.

– Por que diz isso?

Ele voltou para o carro a fim de pegar sua mala preta e uma mochila bege, além de uma capa vermelha. Mae grunhiu ao ver a capa.

– Não me diga que você ainda usa esse negócio brega?

– Eu uso a capa apenas quando minha acompanhante pede – Ronan sorriu descaradamente.

– Urgh, por favor, eu não me interesso por sua vida sexual. Apenas...não – ela foi se afastando.

– Certeza? Eu poderia te dar algumas dicas, sabe...tipo posições e...

– RONAN! – era o primeiro aviso.

Ele riu divertidamente e fechou o carro. Ambos andaram para a casa de onde saía uma luz amarela de cada cômodo, criando uma aura interessante ao redor do lar. Ronan coçou a cabeça e perguntou em voz baixa, os olhos voltando-se para o pai novamente.

– Por que disse aquilo?

– Porque agora há pouco ele disse que viu meu mentor ali naquele canto do gramado e eu não vi ninguém...além disso ele não para de ficar vendo o pôr do sol...

– Tsc, isso não quer nada.

– Como não? Você é cego?!

– Eu não sou cego, só não vejo espíritos. Além do que – ele baixou ainda mais a voz, pois já subiam os degraus da varanda –, você sabe que os espíritos podem enganar os outros. Eles já te enganaram sobre a morte deles no passado. Pai! Como vai?!

Mae fechou a cara para o irmão, que se abraçava ao pai, e entrou na casa pisando igual um elefante. De fato, alguns espíritos enganadores haviam premeditado a morte dos pais de Mae no passado, dizendo com vozes horripilantes que os dois morreriam mortes devastadoras e extremamente angustiantes e que nem Mae nem qualquer outro médium no mundo dos vivos poderia retirá-los do inferno que eles criaram para si próprios. Mae acreditou obviamente. Mas também, ela tinha apenas 14 anos na época...e aquela foi sua primeira lição no trato com o mundo espiritual: não acredite em qualquer coisa que um espírito venha lhe dizer, da mesma maneira que você não acredita em qualquer coisa que um estranho na rua venha lhe contar.

Na cozinha estilo aberto, Jane olhava avidamente as mãos da mãe que colocava a massa da torta para descansar.

– Viu como faz, filha? – Willa pegou a travessa onde a massa já estava devidamente aberta e colocou-a numa prateleira acima para que Miúdo não pegasse.

– Mas, mamãe, eu fiz exatamente isso tudo! Juro pelos arcanos!

Jane reclamava com ar espantado e um tanto cansado. Willa apertou os lábios bem de leve e lançou um olhar para Mae do outro lado da casa, sem que Jane percebesse. Mae deixou sair uma risadinha e passou a mão no rosto.

A irmã mais nova, vestida com a última moda das passarelas, cheia de penduricalhos nos dedos, pulsos e pescoço, voando pela cozinha dividindo o tempo entre os pratos a serem preparados para o Natal e seus clientes que exigiam uma última leitura de cartas para aquele ano que foi, no mínimo, caótico. A mãe Willa, que prestativamente recolocava ordem por onde Jane passava, retemperando os pratos, limpando as lambanças dos balcões, preparava já duas tigelas de sopa de gengibre para o marido e Ronan que acabaram de entrar na casa. Ronan ria abertamente ao abraçar a mãe e tirar uma tulipa detrás dos cabelos alvos dela; entre uma colherada de sopa e outra, ele atrapalhava Jane com as leituras, trocando de lugar as cartas de cada cliente postas numa mesa ao lado ou jogando seu dado mágico e contradizendo as predições dela (Jane dava-lhe tapas e chutes enquanto sustentava uma voz digna de taróloga ao celular). Soren se aproximara de Willa, os dois de costas olhando pela janela o amontoado de árvores por onde Dante havia se aventurado a contragosto da mãe para encontrar um elemental; segundo o filho, aquilo seria algo que faria desse Natal especial. Allegro, já de banho tomado e vestida com um vestido jeans, um cinto vermelho, botas verdes e lenço amarelo no pescoço, desceu as escadas pululante, lançou um olhar de desculpas para Mae e sorrateiramente se juntou aos demais na cozinha barulhenta.

Mae sentiu uma lágrima escorrer pela bochecha e ela rapidamente a secou. Penteou os cabelos crespos com as mãos, pigarreou e sentou-se na poltrona da sala de estar, observando a família à distância. Aquele cômodo parecia um mundo à parte: do fundo do coração Mae desejou ardentemente congelar o tempo e colocar todos eles num globo de neve, guardá-los para sempre junto dela (claro, ela só faria isso quando Dante chegasse, nenhum parente fica para trás).

Miúdo, percebendo que um colo acalorado e dolorido havia surgido abruptamente em seu lugar da casa preferido, pulou no braço da poltrona e mirou Mae, que bateu de leve nas suas pernas para que o gato lá se aninhasse, ao que Miúdo fez com vontade.

– Só precisamos que Dante chegue, né, Miúdo? E depois, pensar num bom castigo para Allegro.

7 de Janeiro de 2021 às 16:22 0 Denunciar Insira Seguir história
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