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mayaarman Maya A.

Quando uma misteriosa pérola, caída dos céus, se encontra nas mãos da jovem Mirian pouco ela sabia o quanto o mundo a sua volta mudaria. "A última coisa que me lembro? Eu estava em uma floresta com as crianças. Não! Em uma cama com minha pequena estrela. Eu estava cantando uma canção de ninar enquanto esperava minha amada se juntar a nós... Não, olhando uma pequena caixa de metal que eles disseram ter caído do céu. Foi aí que eu peguei uma pequena esfera brilhante de dentro da caixa e... Não! Eu senti algo afiado perfurar minhas costas e ouvi meu bebê gritar enquanto um líquido vermelho sujava os lençóis. Então meu corpo todo ficou frio de repente e minha visão escureceu."


Ficção científica Para maiores de 18 apenas.

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Fusão

A manhã está ensolarada, apesar de ser cedo as pessoas andam de um lado para o outro com diversas cestas carregadas de diversos tipos de frutas, verduras e flores. Ao fundo os sons dos animais ecoam pelo ar, os galos cantando para o sol, os cachorros latindo para as ovelhas.

Na cozinha, os raios do sol banham a mesa de madeira maciça onde posiciono os talheres e pratos. O café da manhã sempre servido pontualmente já estava pronto, apenas esperando os outros membros da família chegarem e lhe devorar com gosto. As gemas dos ovos fritos escorrem sobre as rodelas de pão enfeitadas com uma leve camada de queijo, junto de vibrantes pedaços de morango.

— O café está pronto! — Minha voz, ainda levemente rouca de sono, soa pelos dois andares da pequena casa de madeira.

A resposta ao meu chamado vem no som de dois pares de pés praticamente rolando escadaria abaixo, vozes infantis competindo a liderança para alcançar suas determinadas cadeiras, assentos que logo são tomados por duas figuras idênticas.

Crianças de rostos iguais, gêmeos, diferenciados apenas pelas roupas e corte dos cabelos caramelo, já os olhos, verdes como os limões de nossos pomares, as sardas desenhando constelações em seus corpos e a pele de leite, são cópias perfeitas.

Pelo visto só seremos nós três hoje, papai já deve ter se juntado aos demais na fazenda, percurso que logo todos seguiremos para nos atarefarmos pelo resto do dia, seguindo a mesma rotina assim como todos os demais moradores do nosso pequeno vilarejo.

Depois de averiguar que os pequenos monstrinhos estão alimentados, eu os libero para o mundo afora onde se juntarão aos outros arteiros de sua idade, eu apenas os sigo após limpar a pequena cozinha e substituir minhas sapatilhas por um par de botas pesadas.

A longa saia verde escuro de meu vestido passa levemente pelo chão de terra até a grama alcançar a altura dos meus calcanhares, lá me ajoelho ao lado das diversas mulheres que dividem o trabalho de colheita comigo e assim segue grande parte do meu dia, em frente a uma morangueira, depois trepando em uma macieira e por fim enfiando meus dedos na terra para o plantio de sementes. Até ser interrompida por um dos gêmeos, que mesmo de longe eu podia ver seus bracinhos balançando pelo ar para chamar minha atenção, mas sem despertar a curiosidade alheia.

— O que houve? — A resposta à minha pergunta vem na forma de duas mãos agarrando meu braço e me puxando mais para o fundo da plantação, quase alcançando a área de mata densa.

— Você tem que ver isso, estávamos brincando quando boom! Uma coisa caiu do céu! Acho que deve ser uma estrela ou coisa assim! — Sua resposta vem cheia de efeitos sonoros e em uma velocidade assustadora para uma criança de dez anos, suas pequenas pernas aceleram, como se estivesse com medo dessa “estrela” sumir antes de chegarmos.

Adentramos a mata e seguimos uma pequena trilha envolta pelas folhas grossas até que é possível ver um grupo de crianças, todas formando um círculo em volta de alguma coisa que ainda não me é visível, alguns parecem estar com medo e ficam em pé, outros usam gravetos para cutucar alguma coisa.

— Abram caminho, eu trouxe Mirian para dar uma olhada na estrela!

Logo que a frase deixa a boca do meu irmão mais novo, Max, o grupo se joga na minha direção, cada um tentando explicar mais alto do que o outro o que era aquele objeto estranho e suas teorias sobre de onde havia vindo. Com todas essas informações vindo a mil por hora já começo a sentir minha paciência se esvaindo e uma leve curiosidade aumentando.

— Ok, chega! Todos vocês, o que já lhe dissemos sobre ficar cutucando coisas estranhas que acham por aí? E ainda mais, quem deu permissão para vocês entrarem aqui sem um responsável por perto? — Seus rostos se contorcem em uma mistura de culpa e vergonha enquanto eu continuo meu sermão, graças a minha pouca idade penso que eles acharam que isso não iria acontecer, que eu simplesmente aceitaria participar de suas peripécias sem pensar duas vezes. Crianças são seres incontroláveis.

Assim que termino de dar um puxão de orelha neles, me viro para finalmente olhar para o objeto causador de tanto alarde, sobre o chão verde está uma caixa pequena o suficiente para caber na palma da mão, feita de algum material reluzente e cinza, metal talvez.

Mesmo com um pouco de receio me abaixo perto do objeto, olho ao redor e me movo para pegar um dos gravetos que as crianças largaram no chão, e me coloco a cutucar a coisa, infelizmente a curiosidade toma conta de mim ao ponto de ignorar meu próprio sermão. A caixa tomba para o lado mas nada acontece, com isso decido pegar ela em minha mão e passar meus dedos pelo seu contorno que está quente e seu material é liso e firme.

Pelo que vejo não existe nenhum tipo de fecho ou buraco para colocar uma chave, resolvi então fazer força em diversas partes esperando ver alguma coisa ceder e abrir, após um tempo sinto uma pequena risca sob meu dedo.

A risca segue por toda a caixa, uma tampa!

Um arrepio percorre minha espinha, talvez não seja uma boa ideia sair abrindo coisas aleatórias que acharam no chão da floresta, mas minha curiosidade e os olhares de expectativa sobre meus ombros falam mais alto.

Eu abro a caixa.

Dentro, uma pequena esfera brilhante semelhante a uma pérola, que já vi adornando os colares de senhoras finas que visitam de vez em quando, descansa em um tecido aveludado azul claro, como o céu. Encaro fixamente, apenas para ver refletido lá, não o meu rosto, mas uma face diferente que logo some e dá lugar a visão de um céu escuro e repleto de estrelas.

Agora não há como conter o sentimento de curiosidade que toma conta de mim, ignoro o arrepio que desce pela minha espinha e as exclamações das crianças me dizendo para não mexer, chamar um adulto, colocar a caixa de volta no chão e esquecer dele. Meu dedo indicador e o dedão formam uma pinça, que uso para pegar a pequena pérola, logo que minha pele encosta no objeto sinto meu corpo ficar frio e minha visão fica preta.

Quando meus olhos abrem novamente a primeira coisa que percebo é um teto de madeira escura, enquanto uma parte minha sente que já o viu antes, para a outra tudo é desconhecido e a sensação de confusão só cresce em mim.

Ao olhar em volta tudo se intensifica, como se o meu redor me fosse familiar e ao mesmo tempo desconhecido, como se duas pessoas diferentes estivessem olhando o mundo pelo mesmo par de olhos verdes.

Lentamente levo uma mão ao rosto, como se pudesse assim arrancar esse sentimento estranho e pressão no meu cérebro, só para me chocar mais ainda, essa não é minha mão.

Espera, é sim!

Não, não é!

Sem pensar duas vezes corro na direção em que uma parte minha diz ter um espelho, lá está o reflexo de uma jovem, pele cor de leite, cabelos negros e olhos de esmeralda. O que é leite e como eu sei como se parece?

Essa não sou eu. Minha mente se volta para a última vez que vi meu reflexo, minha pele era um preto reluzente, meus cabelos curtos e brancos e meus olhos negros, como as longas madeixas que agora enfeitam meu crânio.

Não, a última vez que olhei no espelho foi essa manhã e não foi esse o reflexo lá, mas sim o mesmo que aparece na minha frente.

Algo não está certo, minha cabeça dói como o ardor mil estrelas, mesmo que eu não me lembre de já ter tocado em uma. Espera, sim, eu lembro.

Essas memórias que rodavam em minha cabeça não me pertencem, mas sim a moça de pele preta ou essas são minhas memórias e a garota de olhos claros é apenas minha imaginação?

— Mirian! Finalmente você está acordada, e o que está fazendo de pé? — Uma voz corta minha confusa linha de raciocínio, parado a porta está um homem desconhecido, meu pai. — Minha querida, finalmente você acordou, já estava começando a pensar que tinha ido se juntar a sua mãe.

— O que houve comigo? — A voz, minha voz, soa rouca e falha, como se estivesse em desuso por vários dias. Diversas outras perguntas flutuam em minha cabeça, mas decido que é melhor ir com calma para não sobrecarregar mais ainda meu cérebro já deturpado.

— Está tudo bem querida, porque não se deita? Seu corpo deve estar fraco depois desse tempo todo em que esteve inconsciente. — Logo ele se posiciona ao meu lado, me guiando de volta a cama, onde me sento devagar, realmente estou fraca demais, o nervoso constante em minhas veias sendo a única coisa me deixando consciente no momento. — Bem, pela sua cara percebo que você não se lembra de nada. Certo, então vamos organizar as coisas com calma aqui, qual a última coisa que se lembra?

A última coisa que me lembro?

Eu estava em uma floresta com as crianças. Não! Em uma cama com minha pequena estrela.

Eu estava cantando uma canção de ninar enquanto esperava minha amada se juntar a nós... Não, olhando uma pequena caixa de metal que eles disseram ter caído do céu.

Foi aí que eu peguei uma pequena esfera brilhante de dentro da caixa e... Não! Eu senti algo afiado perfurar minhas costas e ouvi meu bebê gritar enquanto um líquido vermelho sujava os lençóis.

Então meu corpo todo ficou frio de repente e minha visão escureceu.

— Eu...eu não sei… — Meu tom era fraco, confuso. Me sinto tão perdida.

— Calma querida, está tudo bem, depois de ficar quase uma semana inconsciente é normal que sua memória esteja toda bagunçada — Uma semana?! — Ok, vamos com mais calma então. Seu nome é Mirian, você tem dezesseis anos, mora em uma fazenda no interior junto do seu pai que sou eu, seus dois irmãos, Max e Alex e sua mãe, Vivian que faleceu a seis anos. Algo soa familiar?

Tudo, sim, eu sei disso tudo, meus irmãos são gêmeos, minha mãe não morreu, ela fugiu depois de arrumar outro homem, mas você acha que nenhum de nós sabemos, por isso nos mudamos para o interior. Mas ao mesmo tempo que isso é real, o resto também é.

Meu nome é Cygni, eu tenho trinta ciclos, sou uma capitã da armada de meu planeta natal, Riume, sou filha única e a casa de minha mãe é ao lado da minha, no centro da cidade. Sou casada com Askella, uma jovem que minha mãe me apresentou, tenho um bebê lindo de apenas cinco centagens.

Agora, o que é real? Tudo? Nada? Eu sou Mirian a humana ou Cygni a riumes? Nada mais faz sentido.

Eu...eu, deveria estar morta, aquela noite eu fui assassinada em minha própria casa, então como agora estou aqui? Na terra, dividindo corpo e mente com uma criança, não eu não morri, o máximo que já me feri com uma faca foram pequenos cortes em alguns dedos.

Coloco as mãos em minha cabeça, como se isso fosse ajudar a aliviar a pressão no meu cérebro, tudo dói.

É muita coisa, eu não aguento.

E de novo, o mundo fica preto.

Novamente desperto para uma cena familiar, a visão borrada do teto, porém dessa vez não me levanto, meu corpo se sente pesado demais para isso. Apenas fico deitada e com calma tento digerir tudo.

Mirian, Cygni, duas pessoas com tantas memórias e experiências de vida, distintas personalidades, que de alguma forma estão fundidas agora. É isso o que está acontecendo agora, certo?

Eu rio, como se alguém tivesse uma resposta para isso.

Aquela pérola, uma esfera de memória, uma tradição funerária de Riume, planeta natal de Cygni, meu planeta natal?

Então eu realmente morri, mas de alguma forma a esfera caiu aqui onde Mirian, onde eu, encontrou e de alguma forma conseguiu absorver as lembranças que estavam lá, toda a minha vida, agora vivendo no corpo de uma jovem humana, meu corpo.

Um corpo, duas vidas.

Mas e agora o que eu faço?

Continuo tentando separar Cygni de Mirian? Tento fazer com que minha mente fique em sintonia de alguma forma? São tantas perguntas que não tenho a menor ideia de como responder. Deus, eu só quero minha Askella agora, ela poderia me ajudar, mas como eu faço para alcançar alguém que está tão longe? Como faço para consertar essa situação?

Se é que isso tem algum concerto, uma coisa nunca ocorrida antes em toda a história de uma civilização, e uma menina humana é a azarada a realizar este feito.

Um suspiro cansado sai pelos meus lábios, melhor não sobrecarregar meu cérebro de novo com tudo isso, descansar e ir com calma é o melhor por agora, como dizem na terra: ¨Vou atravessar essas pontes quando chegar nelas.¨

2 de Janeiro de 2021 às 22:00 0 Denunciar Insira Seguir história
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