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O Duque Hernão de Magalhães

Da grande expedição do Duque Hernão de Magalhães, sobraram apenas ele próprio e um segundo cavaleiro de ordem inferior. O Duque tinha na armadura, além do cheiro acumulado pelos meses do empreendimento na selva amazônica, a marca dos embates contra os nativos. Era mais um trapo humano, a se arrastar pela mata fechada, do que o homem altivo, recheado de honrarias, que fora há alguns meses atrás, antes de ingressar na jornada doentia.

- Éramos trezentos homens - disse.

Homem de poucas palavras, ao menos quando sóbrio, via-se obrigado a falar com o seu companheiro de viagem, apesar da grande distância hierárquica que os separavam.

No meio do caminho que traçava na mata densa, parou para beber um pouco de água. Encostou-se em uma árvore antiga, abriu a bíblia para, no entanto, fechá-la logo em seguida. As pernas ardiam e já não tinha mais unhas nos pés. No entanto, não perdia as esperanças, conforme o manuscrito jesuítico, estava cada vez mais próximo daquilo que os indígenas chamavam de M'tanat.

- Foram-se os cozinheiros, os alfaiates, a minha guarda, sobramos apenas nós dois e eu não sei sequer o teu nome.

- Miguel.

- Pois, Miguel. Em nome do Deus, voltaremos vivos. Levaremos mais do que relatos, mas um pedaço dessa criatura, para a glória da Coroa Portuguesa.

E para a sua glória também. Olhou o seu companheiro, tinha uma das mãos amarradas em um pano sujo. Provavelmente herança de um dos tantos embates que tiveram contra os locais: os malditos que se escondiam na floresta com tanta maestria que não sabiam se, naquele exato momento, estava ou não rodeado por aqueles homens.

Avançava na mata, cortando os galhos, espreitando, abaixando-se. Não aguentaria outra luta contra aqueles homens pequenos, mas estava próximo, muito próximo. Pela altura do sol, do pouco do astro que se via através dos das copas fechadas das árvores, deveria ser três horas da tarde.

Aos poucos, percebeu que a mata começou a se abrir. Em instantes, estavam dentro de uma fenda, um campo aberto dentro da floresta. Era como se os campos verdejantes do velho mundo se reproduzissem ali, no novo continente.

- É aqui. É aqui.

Cambaleante, o Duque puxou a energia que tinha para avançar mais rápido. O descampado era um círculo exato de onde, exatamente no centro, um rasgo de terra se abria.

- É aqui.

Analisando a fenda, puxou a medalha de São Jorge que trazia no peito e beijou-a. Desceu como pode pela abertura, agarrando-se nos galhos que lhe nasciam à borda. Arranhou o rosto, mas avançou. Miguel veio logo atrás, utilizando apenas um dos braços para se apoiar. Já dentro da caverna, tirou a terra que se acumulava na armadura. O ambiente era enorme, como se estivessem em uma enorme e rústica sala de estar. Olhou ao redor e uma luz avermelhada chegava no ambiente. Avançaram na escuridão até avistarem a incandescente fonte da luz. Logo a frente, um rio de rocha derretida escorria em fendas maiores e seguia, iluminando o caminho. Apesar daquilo, o ambiente não era quente. Ao redor cristais translúcidos eclodiam das paredes da caverna, como gelo.

- A riqueza que me esperará quando eu retornar a Portugal! Por Deus, acharemos o monstro aqui dentro!

Olhou o jovem companheiro e sentiu uma obrigação de dizer-lhe alguma palavra bondosa.

- Poderás também voltar a tua família, o nosso Rei não há de esquecer de ti.

Mantiveram a linha reta do caminho. Sopros quentes eram intercalados com rajadas frias de vento. Por vezes eram galhos que brotavam das paredes, por vezes uma espécie de um cristal gelado. Então o barulho veio. Era como se passos de um gigante se aproximassem. O Duque sorriu e tirou a espada da bainha. Um rugido forte fez as paredes vibrarem, alguns cristais se racharam e a a borbulhas de lava saltaram do riacho vermelho.

- É ele!

Dois olhos brancos, répteis, brilharam no fundo da caverna. A M'tanat não era uma cobra, mas um dragão, um dragão como o enfrentado por São Jorge, seu protetor.

- És o demônio, criatura vil!

Ouviu a desembainhar da espada de Miguel ás suas costas. Começou avançar lentamente, em direção ao monstro. No entanto, de súbito, foi atacado pelas costas por seu último companheiro de viagem. A espada de Miguel bateu-lhe no ombro direito, entrando no pequeno espaço desprotegido e inutilizando seu braço. A espada do Duque caiu no chão. Hernão atirou-se no chão para pegá-la, mas a mão direita não respondeu ao seu comando. Pegou-a com a esquerda.

- Estás louco? Que pensas?!

Miguel não respondeu. M'tanat observava o embate. Em um bafejo, a criatura encheu o ambiente de fagulhas que se assemelhavam a vagalumes. Miguel ergueu a espada acima da cabeça e, gritando, investiu contra o Duque que já estava de pé. A espadas se chocaram, mas como o Duque não tinha destreza com a mão esquerda, a espada caiu novamente no chão.

- Queres toda a glória para ti, não queres? Irás morrer sozinho no retorno! De nada adiantará me matares!

M'tanat deu um rugido alto e gotas de água se precipitaram no teto da caverna. Miguel avançou uma última vez contra o Duque. A espada do jovem acertou o homem que tentava se levantar mais uma vez. A Lamina atravessou o pescoço de Hernão. A cabeça do reconhecido explorador rolou pelo chão e parou próximo a uma das patas de M'tanat. Alguns galhos, flexíveis como cipós, saíram da criatura e trouxeram a cabeça do Duque para si. A expedição terminou para o homem que a batizara.

10 de Dezembro de 2020 às 21:49 0 Denunciar Insira Seguir história
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