jades Jade Wu

A fantasma, metida a Robin Hood mais odiada do mundo, está de volta para mais um Natal. Em seu centésimo aniversário, ela está mais empenhada do que nunca a roubar impiedosamente dos ricos mais esnobes de Londres. Com o dinheiro, ela vai transformar o Natal dos menos afortunados de toda a cidade, no dia mais mágico de suas vidas.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Conto Original

#comediadenatal #sobrenatural #época
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Ho Ho Ho Fantasma!

Era uma noite fria em Londres. As pessoas de bem já estavam dormindo a horas. Por isso Robert ainda estava de pé.
O duque de Hemingwood estava muito ocupado pensando sobre como roubar mais dinheiro da família de sua esposa, Amélie Russell.

Sentado na mesa de seu escritório, Robert tinha um sorriso amplo e maléfico ao analisar as cartas que escreveu que declararam que estava passando por dificuldades terríveis e que a ajuda de seu sogro era muito necessária.

Robert Russell não era um homem inteligente, ele foi avisado que ''ela'' estaria vindo atrás dele. Todos sabiam o que acontecia com ricos idiotas que se achavam superiores a tudo e a todos.

Malia esteve observando-o durante todo o ano, esperando pelo dia em que finalmente o faria se arrepender de suas maquinações para prejudicar os outros. Ela se deleitaria durante seu castigo.

Uma olhada para o relógio revelou serem onze e cinquenta e nove. A fantasma já podia sentir seu poder aumentando.

As crianças achavam que era o Papai Noel quem saia para brincar a meia noite do dia vinte e quatro de dezembro, os adultos sabiam melhor. Ela visitou casas essa noite em que dava para sentir o cheiro do terror no suor dos lordes e damas da cidade. Eles de alguma forma sentiram que a cidade escolhida por ela este ano seria essa.

Robert finalmente se levantou e se encaminhou para o quarto. Em frente ao espelho, ele estava desabotoando a gravata quando o relógio finalmente bateu meia noite.

Lentamente na cadeira atrás dele, um corpo feminino envolto em um longo vestido vermelho começou a se tornar visível. O duque virou-se para ela com um grito, porém enquanto analisava suas características atentamente, o medo deu lugar a inquietação. Ele se deu conta de quem Malia era.
Percebendo isso a fantasma sorriu.

O homem já sabia que ela não o feriria fisicamente, mas sim aos seus bolsos, mesmo assim ele estremeceu.

— Surprise! — a fantasma lhe dá um aceno debochado.

Robert não sorri de volta, ele parece tentar reunir energia para debater seu destino, mas logo, assume um olhar resignado.

— Senhorita Flynn, por favor não me deixe completamente falido. Sou um homem de família com uma reputação a zelar.

— Vossa Alteza já destruiu sua família e eu pretendo destruir sua reputação até o final do dia, descanse e curta o passeio. — ela surgiu de repente a poucos centímetros dele. — Pronto para ficar pobre, Robert?

E então o homem de trinta e cinco anos gritou como uma garotinha.

— Eu simplesmente amo que eles só gritam depois que eu ameaço roubá-los, ao invés de quando eu apareço pela primeira vez. — ela diz com desgosto.

De frente para o espelho agora, estava um homem muito rico, possuído pelo espírito de uma fantasma muito disposta a gastar.

Ela analisou seu corpo novo, o cara era um bandido mas pelo menos não era ruim de se olhar. Prejudicar não só o bolso das pessoas, mas a visão também realmente seria um exagero.

Virando de costas percebeu que ele tinha uma boa bunda também. Ao levantar a mão para dar um tapinha, uma voz distante em sua mente lhe pediu educadamente para não o fazer.

— Bem, não pode culpar uma mulher morta e celibatária, contra a própria vontade, por tentar. — dando de ombros, Malia saiu do quarto.

Ela foi em direção ao local onde sabia que encontraria o criado pessoal do Robert. Sua primeira missão do dia começava já.

O plano de Malia para esse natal era dar um imenso baile em homenagem ao seu centésimo morteverssário. Nesse baile ela iria saquear a maior quantidade de pessoas que conseguisse. Mas antes do baile, ela tinha alguns lugares para ir.

Após reunir todos os criados da casa, se desculpando profundamente por tirá-los da cama tão cedo, ela lhes explicou a situação e lhes deu ordens para preparar a casa para um grande baile, mandar convites para os mais ricos da cidade e preparar um bufê.
Malia pediu para uma das empregadas preparar um banho e o traje menos discreto possível.

Com todos os detalhes arranjados e o sol já nascendo no horizonte, Malia finalmente pôs os pés fora de casa e deu início ao show.

O dia vinte e cinco de dezembro de mil oitocentos e treze, ficaria conhecido como o dia em que a sociedade londrina foi arrancada de suas camas poucos minutos após o nascer do sol por uma algazarra sem precedentes.
Pelas ruas da cidade um desfile de carruagens carregadas com ouro e pedras preciosas, acompanhado juntamente de uma enorme banda circulava pelas ruas. Na carruagem mais ostentosa havia um homem, não dentro, mas em cima dela, acenando para todos que via como se fosse um rei.

Suas vestes eram douradas e haviam jóias cobrindo todos os seus membros. Quando o povo viu o nome pintado nos estandartes com tinta ainda fresca, os ricos se arrepiaram e os pobres abriram imensos sorrisos. "Ela" chegou à cidade.

Com um sorriso debochado nos lábios, Malia jogava moedas de ouro para os pobres e piscadas brincalhonas para os ricos. Mais e mais pessoas se juntaram ao redor, alguns até mesmo acenando e gritando o seu nome. Seu verdadeiro nome. A sensação era incrível.

De repente um som de tiro soou, silenciando a todos. Olhando para baixo Malia vê um furo na sua bela camisa de seda indiana, por ser um fantasma no comando de um corpo mortal, não havia ferimento, mas sempre lhe ensinaram que o que vale é a intenção.
Com olhos de uma pessoa que já sofreu mais de uma tentativa de morte, ela esquadrinha a multidão e rapidamente encontra o larápio que ousou estragar seu desfile.

Deixando momentaneamente o corpo de Robert ela faz sua figura aparecer bem atrás do energúmeno. Os gritos da multidão se calam com apenas um olhar dela, e todos olham horrorizados para o barão de Ludwing.

Ele está aterrorizado olhando para o espírito flutuando ameaçadoramente ao seu redor.

— Não deveria brincar de morte com uma fantasma, Lucius. Achou que se me matasse estaria fazendo um favor a esses ricaços metidos? Que o veriam como um herói? — ela lhe lança um sorriso diabólico.

O homem imediatamente se prostra de joelhos ante ela, puxa uma cruz, um vidro com água e começa a rezar.

— Isso é sério? Pare de rezar seu idiota antes que eu lhe faça engolir esse frasco de água benta e enfie essa cruz onde nem Deus val alcançar.

— Madame, eu... — ele gagueja.

— Não trabalho com explicações, Lucius. Eu trabalho com ação e consequência. Sua ação foi tentar matar um fantasma, sua consequência poderia ser ter que viver pelo resto da vida com a cidade toda sabendo que você é mais burro que uma porta, mas eu acho que você precisa de algo mais.

— Eu faço qualquer coisa, minha senhora, apenas não me mate. — ele implorou com lágrimas nos olhos, mais falsas que o caráter da minha falecida prima, ela pensou.

— E correr o risco de ter que olhar para sua cara feia por toda a eternidade? Nem fu-

Ela se interrompeu, um grupo de crianças muito impressionáveis estava a alguns metros de distância. Malia resolveu não continuar o que ia dizer, para evitar traumatizar suas infâncias ainda mais do que já fez lhes mostrando que fantasmas são reais, melhor deixar por isso mesmo.

— Veja Lucius, humilhação pública é bem mais o meu gosto. Agora levante-se, de uma reboladinha sensual e me entregue todo o dinheiro que você tem nos bolsos.

O homem assume um olhar de pânico, se pela reboladinha ou pelo dinheiro, só Deus sabe. Ele entrega uma bolsa gorda de dinheiro, mas paralisa com o olhar impaciente da fantasma.

— Senhorita, eu não sei como exatamente eu deveria.. — ele hesita antes de dizer a palavra. — Rebolar.

Ele finaliza em um sussurro, desnecessário levando-se em conta a fantasma despudorada com quem ele conversava.

— A cada segundo que passa você fica mais burro, Lucius. Você vai a um cabaré a cada dois dias, às onze da noite, para ver damas dançando com pouca roupa e não consegue repetir seus movimentos nem um pouquinho?

— O que? — a pior fofoqueira de Londres, a Baronesa de Ludwing, exclama na multidão. O olhar da esposa ao marido era ferino. — Como você pôde, Lucius?

— Querida, essa fantasma não sabe do que está falando.

— Estou sem tempo para essa palhaçada. Senhora Ludwing, se você precisa de mais provas além de minha palavra e o conhecimento do caráter do seu marido, é mais burra do que as fofocas deram a entender e você seu traste de uma figa, seu castigo por estar me fazendo perder tempo é doar mensalmente dinheiro para um abrigo de uma mulher que cuida de crianças bastardas.

As duas últimas palavras foram ditas em um tom baixo e cortante, a maioria das pessoas não entendeu, mas o Barão sim.

Imediatamente o homem começou a mover os quadris em círculos lentos, foi terrível, mas fez ela se sentir melhor. As pessoas riam por toda a parte e o homem parecia ficar mais vermelho a cada segundo.

A fantasma rapidamente voltou ao corpo de Robert que soltou um ruído lamentoso, assim que ela afundou as garras nele novamente. Colando um sorriso no rosto, Malia terminou seu desfile com aplausos altíssimos da multidão que exibiam sorrisos igualmente respeitosos e amedrontados.

Ás vezes é mais prático você ser temida, do que ser amada.

As carruagens a deixaram no mesmo abrigo sobre o qual tinha comentado com Lucius.

Ao entrar, todo aquele cinza e solidão a deixaram quase de joelhos. As crianças imediatamente paralisaram. Algumas estavam sentadas conversando, outras correndo umas atrás das outras, mas todas imediatamente olharam para ela, com aquela mesma mistura de respeito e terror.

— Hey, isso não é necessário. Vocês claramente sabem quem eu sou e o que eu vim fazer aqui. — ela deveria ter ficado surpresa com a velocidade das fofocas, mas não ficou. Sua reputação a preceder já lhe poupou muito, metaforicamente falando, fôlego.
As crianças continuaram a olhar para ela, algumas com esperança, mas a maioria desconfiada.
— Público difícil, gostei. Que tal uma história então? Vou lhes contar quem eu sou e vocês decidem se vão ou não confiar em mim.

As crianças acenam e fazem um círculo ao redor de uma almofada para ouvir a fantasma no corpo do duque.

— Era uma vez uma duquesa bonita, talentosa, rica, generosa, sensível, influente, humildade infelizmente não era umas das suas qualidade, mas ninguém é perfeito... — as crianças interrompem sua divagação.

— Continua a história, senhorita Flynn.

Ela cerra os olhos levemente na direção deles, mas volta a falar.

— Certo, o ponto é que ela era muito incrível. Sempre que podia, procurava ajudar aqueles que não eram tão afortunados como ela. Ela era uma viúva, o que lhe dava muita liberdade. Em seu testamento, ela só fez um pedido, que toda a sua fortuna não fosse dada a algum primo distante que já tinha mais dinheiro para gastar do que tempo de vida, mas para aqueles que mais precisassem.

Lentamente, as crianças viram o olhar perdido do homem exibido se transformar de um azul límpido em um verde floresta. Elas só conseguiram notar a transformação por estarem presas em cada palavra do sujeito(a). Eles não eram bobos, no momento que o homem entrou, eles perceberam que estavam diante da pessoa a qual dezenas de lendas foram feitas.

— Bem, em um belo natal, ela estava se preparando para entregar presentes em uma casa para crianças sem lar. A duquesa estava ajudando os empregados a levar as centenas de caixas de presentes empilhadas como uma pirâmide para as carruagens, quando um som de arranhar soou atrás dela, ao se virar um gato terrível saltou em seu rosto. No susto, a duquesa deu um passo para trás o que desequilibrou as centenas de caixas. Quando finalmente conseguiu desgrudar as fera horrenda da sua face, a última coisa que viu foi a montanha de presentes cair em sua cabeça.

A fantasma conta a história com floreios e uma voz dramática, as crianças riem discretamente, tentando ser respeitosos.

— Na próxima vez que a duquesa abriu os olhos, foi para ver seu cunhado energúmeno olhando com desgosto enquanto os empregados retiravam seu corpo sem vida de debaixo da pilha de caixas.
— Enquanto flutuava confusa pela sala, uma mão agarrou seu braço. Ele era um homem vestido todo de preto com uma capa horrenda, sua pele era branca como arroz e sua estrutura corporal lembrava os guardas reais. O homem tinha o rosto coberto e por um momento, ela pensou que sua casa tinha sido invadida por bandidos, até que a verdade a atingiu como um cabriolé sendo pilotado por macacos. Este homem é a morte.

"— Venha Malia, não precisa ter medo, o céu lhe aguarda." Foi o que a morte lhe disse, o que a duquesa exasperada respondeu. "Não tenho medo, sempre soube que iria para o céu. Tenho medo de ter que passar a eternidade com esse vestido vermelho.'' — as crianças nem ao menos disfarçavam suas risadas mais, o que deixou Malia contente. — A morte lhe agarrou o braço sem esperar mais e lentamente começaram a subir aos céus. O tempo passou mais rápido e a duquesa viu os presentes escolhidos com tanto carinho, serem vendidos ou jogados no lixo. Ficou furiosa, mas tinha esperança que o paspalho do seu cunhado faria a coisa certa na hora da leitura de seu testamento. Tola, o desgraçado roubou todo o seu dinheiro e fingiu ter sido roubado a caminho de uma instituição de caridade.

Malia faz uma pausa dramática na história e seus olhos assumiram um brilho diabólico.

— A duquesa não pôde aceitar tal afronta. Deu um chute na canela da morte e pulou de volta para a terra. Lá ela esperou, reunindo forças e no natal de mil setecentos e quatorze, ela assumiu o corpo de seu cunhado, pegou seu dinheiro de volta e toda a fortuna do homem. Entregou tudo nas mãos de diversas instituições de caridade e pouco antes de tocar a meia noite, deixou o cunhado semi nu em cima da estátua no centro da cidade, onde todos pudessem ver. Em seguida ela deu uma risada, jogou centenas de moedas para cima e subiu aos céus com a promessa de que faria os ricos pagarem por sua soberba todo dia vinte e quatro de dezembro e em qualquer lugar do mundo.

A sala ficou em silêncio e uma voz tímida fez uma pergunta.

— É assim que acaba a história?

A fantasma gargalhou e fez um afago na cabeça careca do rapaz.

— Não mesmo, tenho apenas 100 anos, vou torturar muita gente ainda. Mas eu quis lhes contar essa história para convencê-los a se juntar a mim neste natal. Tenho um plano maior para esse ano e preciso de ajuda, roubar um ricaço por vez é divertido, mas imaginem quão incrível seria se roubassemos todos eles?

As crianças rapidamente abriram sorrisos confusos que foram crescendo ainda mais com a explicação do plano de Malia.

Ao sair do abrigo infantil, com os planos acertados com a apavorada cuidadora das crianças, Malia circulou por toda a cidade, parou em abrigos de animais, mantendo-se bem longe dos gatos, caso estejam curiosos. Infelizmente ainda não inventaram cura para traumas de fantasmas.
Com as carruagens vazias e o coração mais leve, Malia voltou para a mansão. A esposa de Robert precisou de apenas um olhar para o ''marido'', para confirmar que os boatos estavam certos, a fantasma estava visitando.

Já eram oito horas e em breve as pessoas estariam chegando. No convite a fantasma deixou bem claro que não era um pedido e que ir contra ela teria graves consequências.

Ao olhar para o armário cheio de roupas masculinas de Robert, Malia ficou deprimida. A quantas décadas não usa um belo vestido de baile? Branco, dourado ou violeta. Apenas seu velho vestido vermelho na forma fantasma e já faziam muitos anos desde que havia possuído o corpo de uma mulher.

Observando a porta compartilhada que daria para o quarto da esposa de Robert, uma ideia começou a se formar na mente de Malia. Ela imediatamente pediu aos empregados que preparassem um banho para ela. Ao sair da banheira, precisou de um convencimento a mais, lê-se suborno, para fazer os empregados lhe ajudarem a pegar um dos vestidos de Amélie e os modificar até caberem no corpo volumoso de Robert.

Após essa dificuldade inicial, foi fácil fazê-los ajudar a maquiar e colocar uma peruca. Robert estava aos gritos em sua mente, implorando para ela não fazer isso.

No espelho a imagem era cômica e estranhamente agradável, realmente um vestido branco de renda, uma maquiagem bem feita e uma peruca loira fazem qualquer coisa ficar atraente.

— Sabe Robert, não sou uma pessoa injusta, mesmo sendo descendente do cretino do meu cunhado, se tivesse agido como uma pessoa decente, eu não teria lhe punido por algo que seu avô fez, mas claramente podridão é genético. Vamos ver se seus queridos amigos ainda estarão do seu lado após saberem que o sobrenome da fantasma que atormenta suas vidas se chama, não Flynn, mas Russel. — ela dá uma risada endiabrada e com uma rebolada a mais ao caminhar, vai até o salão de baile.

As pessoas estão conversando como se fosse um baile qualquer, até que ela aparece nas escadas. As mulheres a encaram vermelhas e os homens parecem desconfortáveis,
Escandalizar a todos, confere. Malia sorri o caminho todo ao descer as escadarias.

— Dancem, não deem atenção para mim, sou só uma fantasma curtindo a... — uma pausa dramática e um sorriso sarcástico. — Vida.

As pessoas vão até ela, com felicitações pelo morteverssário, elogiam seu visual criativo, a arrumação, e tão discretas quanto um lobisomem, deixam escapar as boas ações que fizeram no ano.
Malia, igualmente ''discreta'' deixa claro que o único motivo de ela estar possuindo o corpo de Robert agora e não o deles é porque ela já sabia de tudo isso.

Uma das convidas até mesmo lhe dá um presente, um belíssimo vestido azul oceano, nada discreto.
Seria ela tão fácil de ler assim? Pensou Malia segurando o traje.
Fez questão de agradecer ao casal e lhes dizer que Robert adorará vesti-lo amanhã já que como ela está morta, suas opções são meio limitadas.

Na mesa de banquete, a fantasma está olhando tudo e desejando poder comer quando um homem a chama.

— Senhorita Flynn? Me concederia a honra desta dança? — o homem é ninguém menos que Lorenzo Salvatore, o solteiro mais cobiçado da temporada.

Misterioso e estrangeiro, acompanhado de belos olhos azuis, um corpo trabalhado e cabelos negros, o rapaz é bom de se olhar.

— Eu acho que não, cavalheiro. Se você está me chamando por que quer dançar com um fantasma, eu o chamaria de necrófilo e se for com o Robert aqui, temo que ele esteja indisposto, mas o fato de ele ser casado tem muito a dizer sobre o caráter do senhor. — Malia rapidamente coloca um leque na frente de seu rosto e lhe da as costas para evitar passar mais tempo encarando os olhos da cor do mar dele.

— Bem, então pode me chamar de Lorenzo Necrófilo Salvatore. Se bem que eu não planejava dormir com a senhora, mas já que insiste. — ele começa a retirar o paletó e Malia fica em dúvida sobre encará-lo ou pedir que pare.

— Senhor! — ela exclamou.

— Ok, vamos deixar isso para depois da nossa dança. Vamos lá, o que a mulher que fez mais de um rei se ajoelhar à sua frente vestidos com nada além de suas roupas íntimas, tem a perder? — ele lhe lançou um sorriso deslumbrante.

— Nada, realmente. — ela responde lentamente com desconfiança, mas pega sua mão.
Imediatamente um arrepio sobe pela sua espinha e ela percebe que algo não está certo com o homem.

Antes que ela possa analisar muito os seus sentimentos, eles começam uma valsa.

É a coisa mais estranha que já fez na sua vida e até mesmo na pós. Normalmente ela olharia para ele alguns centímetros abaixo de seu queixo, mas ela está realmente um pouco mais alta que ele.
Seu corpo facilmente se lembra dos passos mesmo após anos sem fazer isso e logo a estranheza dá lugar ao deleite.

Quando a música acaba, Malia está ostentando um gigantesco sorriso, sem se importar com os olhares que as pessoas lhes lançavam. Lorenzo parecia prestes a falar algo para ela, quando uma mão puxando a saia dela, desvia a atenção da mesma

— Senhorita Flynn, temos que roubá-los agora, já está quase no nosso horário de dormir e se não estivermos em casa até meia noite a senhorita Josie vai nos deixar de castigo. — a criança fez uma cara tão deprimida que Malia não sabia se ria ou se o consolava.

— Então você ainda tem mais planos para essa noite? — o rapaz soou impressionado, não assustado como ela esperaria.
Malia não sabia muito bem como reagir a esse homem tão anormal. E se um fantasma acha alguém anormal, essa pessoa realmente deve ser o anticristo.

Ela se afastou sem se despedir e pegou a mão do rapazinho, que ficou visivelmente aliviado.

Malia quase riu, esse ano definitivamente estava estranho. Uma criança aliviada por estar indo cometer o maior roubo do século com uma pessoa morta.

Ao verem Malia subir em cima da mesa, o salão imediatamente se aquietou.

— Muito obrigada por virem passar o Natal comigo. Agradeço principalmente pela imensa doação monetária que todos deram.

— Senhorita? Nós não fizemos doação nenhuma. — o homem engoliu em seco, assim como diversas pessoas no salão.

— Oh, perdão. Eu quis dizer a doação que vocês vão fazer agora. — ao som de suas palavras as crianças começam a sair de tudo quanto é buraco.
Atrás das cortinas, debaixo de mesas, Malia pensa ter visto uma saltando até mesmo do lustre. Não lhe perguntem como ele chegou ali.

Parecia uma infestação de pragas, pequenas criaturinhas correndo para todos os lados.
As pessoas gritavam, se pelas crianças ou por ainda acharem se tratar de algum animal, Malia não fazia ideia e achava que na cabeça daquelas pessoas não havia diferença. Com um sinal dela, as crianças pararam, cada uma perto de alguém.

— Ok, vamos aos negócios. Quero todos tirando suas jóias e roupas caras, não se preocupem,podem ficar com as outras quatrocentas peças de roupa que usam por baixo. — a fantasma ameaça de forma entediada.

Os convidados fazem expressões idênticas de choque, devem ter aprendido na mesma escola de pilantragem.

Malia arqueia uma sobrancelha debochada diante do choque deles e larga o corpo de Robert sobre a mesa, antes de passar a flutuar tranquilamente sobre as cabeças deles.

— Horas, me poupe. Como se vocês não soubessem o motivo de eu ter convidado os piores e mais ricos de vocês em pleno Natal. Qual foi mesmo a frase que alguém me disse a muito tempo atrás quando vocês começaram a me chamar de Flynn ao invés do meu nome real? — ela faz uma pausa fingindo pensar. — Ah, sim. Flynn para representar, fantasma, ladra, natalina. Bem, me chamem de senhorita Flynn enquanto tiram tudo que tem de valor e colocam dentro das sacolas nas mãos dos meus adoráveis duendes. Se recusarem, vou ficar um pouco menos amigável.

Tudo isso foi dito com um tom de voz doce, mas todos entenderam aquilo como nada mais, nada menos que uma ameaça.
Rapidamente as pessoas começaram a tirar suas coisas e depositar nas sacolas nas mãos dos meninos.

Malia manteve um olhar afiado em todos, para garantir a segurança das crianças, mas ao observar o salão diversas vezes, logo percebeu que alguém não estava na multidão. O homem com quem dançou.

Ao ver as crianças se afastando com bolsas entupidas de coisas, ela pôde se sentir lentamente relaxar. Missão..

— Missão cumprida, Malia Russel.

Ela se volta na direção da voz e em um canto da sala, vê alguém que sempre imaginou quando reencontraria.

— Ola, senhor Morte. — ela lhe dá um sorriso tranquilo e discretamente começa a recuar. — Já disse que essa capa fica fantástica no senhor?

— Oh, sério que gosta dela? Eu posso lhe dar. — ele retira a capa e se ainda houvesse ar em seus pulmões mortos, ela teria suspirado.
Mas imaginou que seu queixo caído fez bem o papel de representar seu choque.

— Você? Eu já deveria saber. Sou azarada com homens até depois de morta. — ela balança a cabeça, levemente decepcionada.

Lorenzo solta uma gargalhada, os olhos azuis brilhando mesmo agora, com sua aparência meio esbranquiçada, característica comum dos espíritos.
Ele continua belíssimo e se ele tivesse usado sua aparência como um artifício para capturá-la anos atrás... talvez ela tivesse chutado sua canela com um pouco menos de força.

— Está decepcionada? Achei que ficaria contente, afinal estou no mesmo plano astral que você. Já foi beijada no pós vida? Dizem que é como uma experiência extracorpórea. — ele lhe dá um sorriso malicioso.

Ela lhe dá um olhar plano.

— Se eu soubesse que tinha senso de humor, teria demorado mais antes de chutá-lo e flutuar para longe. — ela revirou os olhos, e então uma pergunta surgiu em sua mente. — Por falar nisso, nunca entendi por que não tentou me capturar de novo para me levar para o céu, mesmo que tivesse que fazer isso comigo chutando e gritando o caminho todo.

Lorenzo, ou Senhor Morte, apenas deu de ombros.

— Fiquei curioso para saber o que exatamente você faria. Não se engane, sempre estive por perto, te observando. Resolvi lhe dar uma chance para ver o que faria e vejo que eu estava certo. Você fez mais milagres de natal do que o bom velhinho, Senhorita Russel. Naquele dia a cem anos pode ter sido sua hora de morrer, mas claramente não era sua hora de partir deste mundo.

— O que acontece comigo agora? Cumpri minha missão? É por isso que você está aqui, para me levar para o céu? — Malia o questiona, completamente confusa sobre seus sentimentos.

— O quê? E estragar o natal de tantas pessoas no futuro? Seus métodos são pouco ortodoxos, mas ninguém pode dizer que não trazem resultados. Não mesmo, e aparentemente o chefe... — ele fez uma pausa e apontou para o céu. — Tem gostado do que você tem feito, então estamos lhe dando um cargo oficial de Mamãe Noel Controversa e uma promoção.

Ela o encarou incrédula, tantas informações jogadas sobre ela ao mesmo tempo fritaram o seu cérebro.

— Em que essa promoção consiste exatamente?

Ele se aproxima e sussurra no seu ouvido. Ela se afasta estarrecida. E então os dois compartilham um sorriso.

— Acho que tenho que dar a notícia aos meus convidados. — ela lhe dá um sorriso de despedida e começa a se afastar de volta para o centro do salão.

Ela ainda consegue ouvir uma última frase dele.

— Vou ficar por perto, para o caso de suas boas notícias matarem alguém do coração.

Ela ri e do centro do salão, ela vê a última criança finalmente sair. Ela dá uma olhada para o relógio, onze e cinquenta e sete da noite, perfeito.
As pessoas não olham umas às outras, todos estão muito focados esperando que dê o horário previsto para se livrarem da fantasma.

Meia noite em ponto Malia finalmente começa a desaparecer e todos no salão soltam um suspiro de alívio. Até ouvirem suas últimas palavras.

— Eu esqueci de mencionar, mas tenho uma boa notícia, o cara lá de cima me deu uma promoção. Ele me quer como fantasma do Natal e da páscoa, não é uma notícia maravilhosa? — exclamações horrorizadas, a melodia preferida de Malia. — Hohoho, feliz Natal e vocês sabem, sejam bons meninos.

Uma piscadela depois, e ela se foi do salão, agora em um completo caos.

17 de Dezembro de 2020 às 22:23 5 Denunciar Insira Seguir história
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Olá, Jade! Primeiramente, gostaríamos de agradecer a sua participação no nosso desafio #ComediaDeNatal! Ficamos muito felizes em vê-la nos surpreendendo com sua história, assim como fez no desafio passado. Já podemos contar com a sua participação no próximo desafio? Este, infelizmente, acabou não atingindo a meta de participações para ser validado. Entretanto, se a Srta. Flynn conseguiu mostrar para aquelas crianças que ainda havia esperança no Natal, também acreditaremos! Não há tempo para desânimo, afinal, ainda temos muito o que fazer, certo? Confessamos que nos surpreendemos muito com a sua história! Um fantasma metido a Robin Hood? E ainda por cima uma mulher! Nas primeiras linhas soava algo tão sério, mas logo à frente já começamos a esboçar os primeiros sorrisos seguidos de gargalhadas. De fato, a forma como a história é contada e os elementos que a integram são únicos. A premissa totalmente original e aplicada com maestria contribuíram para que tivéssemos uma experiência muito gostosa lendo sua história! Em relação aos personagens, foram bem desenvolvidos e apresentados. A forma como os mais ricos foram representados soou vaga e, sendo proposital ou não, acreditamos ter contribuído para a imagem que eles mesmos passam. Dinheiro acima de tudo, mas ainda sim é mais aterrorizante perder sua riqueza do que sua vida? Bem, para eles, perder a bufunfa toda deve ser como perder a própria vida (já que ela se resume a isso). Deixamos aqui um destaque para a Srta. Flynn, que possui uma motivação realmente interessante para fazer o que faz e nos diverte com a forma que realiza suas “vinganças”. Podemos defini-la como um fantasma vingativo ou apenas uma alma boa que aparece em todo Natal? Seria Papai Noel também apenas um velhinho bondoso que morreu de vermelho enquanto entregava presentes a crianças carentes? Ah, e a escrita! Muito fluida. Alguns erros estão presentes, como pontuação e ortografia, mas nada que não seja fora do comum ou que possa ter prejudicado a experiência de leitura. É sempre bom dar uma última olhadinha antes de publicar ou até mesmo depois, mas entendemos por ter chegado ao finalzinho do desafio. As falas de Malia foram muito divertidas e com certeza o carisma dela nos conquistou. Como mencionado anteriormente, infelizmente o desafio acabou não vingando; o que o invalida pela quantidade baixa de participações. Mesmo assim, não poderíamos deixar de dar o devido destaque a todos vocês, autores, que abraçaram mais uma de nossas propostas e mergulharam de cabeça em mais um desafio, apesar da correria do fim de ano. Poder contar com a sua participação já nos deixou imensamente felizes e gratos, e sendo assim não vamos deixar de dar o merecido destaque por seus esforços. Fique de olho nas mídias oficiais do Inkspired Brasil e do nosso grupo no Facebook. No mais, um abraço e boas festas! 🎄💛
December 19, 2020, 13:58
amy ᘛ 🦋 amy ᘛ 🦋
Olá, Jade. Que bom te ver novamente participando de um desafio. ♡ Malia é uma personagem cativante que arranca tanto risos quanto inspira reflexões. Mesmo tendo um status social favorável, nunca deixou de pensar naqueles que não desfrutavam das mesmas regalias; infelizmente, não se pode dizer o mesmo de seu cunhado e sua descendência, quem dirá de muita gente rica que vemos por aí hoje em dia. Inclusive, acho que ela precisa fazer uma visitinha pra alguns, viu? E eu que fiquei shippando ela com o Lorenzo/Morte? E agora, como faz? O espírito de fanfiqueira que me consome já me fez ficar surtando imaginando esse casal aprontando poucas e boas por aí. Como o próprio Lorenzo disse, o match pode dar muito certo já que ele fica de plantão caso alguém enfarte. hahahah Muito obrigada por ter participado! Fico contente que tenha conseguido publicar sua história apesar dos imprevistos; pelos quais já deixo aqui minhas devidas desculpas. Um abraço! A gente se vê logo mais. ;)
December 18, 2020, 17:28
Raíssa Novaes Raíssa Novaes
Jade eu amei seu conto, de verdade. Está muito bem escrito e a Srta. Flynn é maravilhosa kkkkk todas as peças que ela pregou nessas pessoas me fizeram gargalhar. A relação dela e da Morte foi muito boa, adoraria poder ver mais coisas deles kkkk (será que eu shippei? talvez). Parabéns pelo conto. Boa sorte s2
December 18, 2020, 17:16
IH Izzy Hagamenon
Oi Jade. O que posso dizer dessa protagonista além de MARAVILHOSA? Adorei a forma que a Malia lida com os "maus meninos" ao mesmo tempo que trata as crianças com toda a doçura do mundo. Também queria dizer que eu quero um Lorenzo para chamar de meu. Em pouco tempo ele me ganhou com o seu senso de humor sarcástico. Fechou esse conto com chave de ouro com a notícia de que ela vai aparecer mais de uma vez ao ano agora, fazendo os nobres quase morrerem. Simplesmente PERFEITO esse conto. Bjs e boa sorte <3
December 18, 2020, 01:00
Pri Inácia Pri Inácia
Jade que isso??? Eu amei sua história, tá sensacional e muito bem escrita. Dei muitas gargalhadas. Adorei a modéstia da Malia rsss. A reboladinha de Lucius e usar Robert para vesti-lo de moça foi demais morri aqui rssss. Foi muito criativo a forma como ela faleceu, ah esses gatos são fo....kkkkk adorei tudo. Parabéns;)
December 17, 2020, 23:12
~