invisibilecoccinella Mary

"A reta firme que ligava Iury a mim foi apagada pela borracha cósmica do destino. Seria impossível voltar para onde estávamos antes do caos, às estruturas ruíram e olhar para trás não reconstruía o que já havia sido perdido em matéria de metáfora."


Romance Romance adulto jovem Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#paixão #descobertas #desejos #nostalgia #primeiro-amor #adolescência #spinoff #laly #confissões-de-laly
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Iury e eu não formávamos o casal mais pacato do mundo. Não obstante, fomos os jovens mais apaixonados da nossa geração, enfrentando a fúria dos religiosos, dos hormônios, de uma madrasta para lá de invejosa e encrenqueira que enxergava todos os meus atos pelas lentes da maldade embaçadas por um ódio sobrenatural e doentio que contagiava a meu pai também.

Antes de protagonizarmos uma trama escrita sem o nosso consentimento e nos vermos cada vez mais afastados um do outro, vivemos juntos uma grande história de amor e descobertas.

Depois de um primeiro beijo traumático, encontrei em Deus a força para sair da depressão. Ele mandou um anjo chamado Naira para cuidar de mim e me fazer confiar em alguém. Nós já éramos coleguinhas no primário, mas quando me apaixonei pelo Gustavo me afastei dela.

Se eu não conseguisse ser jornalista, me internaria em um convento e dedicaria minha vida a religião. Essa ideia não me soava nem um pouco absurda. Refrear os instintos, evitar as paixões mundanas, focar-me na salvação, na purificação da alma, desviando-me de tudo aquilo que me afastasse do caminho da verdade.

Dos treze aos quinze anos vivi uma rotina quase inalterável que me dava gosto pela aparente tranquilidade. Na parte da manhã eu estudava, à tarde brincava com Naira e Mayra e à noite voltava para casa. Aos sábados frequentava a catequese e depois a crisma, procurando ao máximo participar de todas as atividades promovidas pela paróquia. Adorava os retiros de carnaval, juntava dinheiro para participar das colônias de férias, dos festejos da grande padroeira de Guaratuba, tanto é que meu pai quando queria ironizar a ausência, me chamava de “arroz de festa”.

Quem não conhecesse minha verdadeira origem julgava que eu fosse a terceira filha da D. Emília Sanches, embora a considerasse minha segunda mãe em segredo e estimasse Naira e Mayra como as irmãs que não pude ter. E era uma premissa recíproca, posso lhes garantir.

Naira tinha uma voz bem afinada para quem nunca fez aula de canto, mas julgava de uma vaidade sem precedentes querer a popularidade, acreditava que o que preenchia de verdade o coração de uma pessoa era a caridade. Eu era desafinada pra caramba, no entanto preferia estar nos ensaios a aguentar as futricas de Eleonora.

Os dias em que por algum motivo eu não podia sair, esses se arrastavam como caracóis de casco quebrado. Um terror.

Naquelas férias que antecediam minha entrada no secundário, me dividi entre manhãs com muitas brincadeiras na praia, à tarde muito trabalho e à noite missas, entretanto depois que as aulas começaram, senti algo estranho acontecer comigo. Era como se eu soubesse que iria me apaixonar.

Naira e eu estudaríamos juntas. Éramos indiferentes aos meninos e não à toa conhecidas como as carolas do colégio. Não era raro que moleques aloprados viessem pedir a benção para a minha amiga e ela os enchesse de safanões com a bíblia.

Entre eles, a minha dor de cabeça: Iury Saciotti.

Iury integrava a turma dos meninos do corredor, aqueles que tiravam sarro de todos, puxando os cabelos das cdfs, irritando as beatas, matando aula e paquerando as mais saidinhas. Elas correspondiam, pode apostar.

Por algum motivo que desconheço, Iury tinha uma implicância particular comigo e todo santo dia se não fizesse pelo menos uma piadinha não ficava em paz.

— Ei, caxias! — Assobiava Iury, pedante.

— O que foi?

— Quantas Ave-Marias eu devo rezar hoje?

— O suficiente pra deixar de ser idiota.

Iury puxava meu rabo de cavalo — penteado obrigatório no colégio — só para presenciar minha fúria adolescente:

— Me dá um pouco de cabelo aí, Rapunzel. — Iury afinava a voz, quando não colocava um dos pés na escada para eu tropeçar. Numa das vezes, chorei de vergonha, meus livros se espalharam pelo piso do nosso andar e ele cruzava os braços, todo cheio das gracinhas:

— Vê se olha por onde anda, ou melhor: compra uns óculos.

Detestava aquele magricelo dos cabelos encaracolados metido à surfista e numa das vezes em que fui provocada, perdi a paciência e dei um tapa no rosto dele que se calou, olhou dentro de meus olhos com firmeza e me roubou um beijo.

Na boca.

Fiquei em estado de choque e matei a aula após o intervalo chorando dentro do banheiro. Se alguma das Irmãs tivesse visto, no mínimo teria tomado uma bela e merecida advertência ou na pior das hipóteses seria expulsa do colégio, manchando o meu imaculado histórico e arrumando uma encrenca daquelas com papai e Eleonora.

Depois disso, evitava ao máximo ver Iury Saciotti. Em vão. Sempre estávamos nos cruzando.Ele já não me aporrinhava mais, apesar de continuar o mesmo bobão de sempre e foi aí que percebi que me importava, de alguma forma. Era estranho pensar em alguém tão inconveniente que como uma música grudou na minha memória.

À medida que os dias passavam, Iury continuava cochichando quando eu passava com Naira, no entanto parecia ter medo de se aproximar.

— Acho que você deixou bem claro que contigo não tem gracinha. — Naira comentou.

Naira abriu uma exceção naquele ano e deixou um garoto sentar-se conosco. Não à toa. Nilton era muito achincalhado pela classe, não tinha amigos e não revidava às ofensas dirigidas ao sobrepeso e o fato de ser estabanado por natureza. Dedicado aos estudos e bastante disciplinado, meu novo amigo sempre tirava as melhores notas da turma.

A primeira observação feita pelos meninos espertalhões não poderia estar mais correta: Nilton sentia “algo a mais” pela Naira.

Embora Nilton Pereira Lopes estivesse vulnerável às chacotas da panelinha de Iury, era completamente invisível para os moleques que até o cumprimentavam quando ele passava. Aquela situação era estranha para mim.

O mistério foi desvendado quando escutei alguém comentar que Iury e Nilton eram primos.

***

Já era junho, o primeiro semestre se aproximava do derradeiro fim, tal qual o intervalo em que um menino do grupo de Iury aproximou-se de Naira e não foi para pedir a tradicional bênção que resultava num cascudo da garota. Nas mãos dela um bilhete amassado.

Nilton e eu tentamos extrair alguma informação de Naira e até o último instante ela relutou em se manifestar, dizendo que devia ser besteira dos aloprados.

— É um bilhete daqueles aloprados a você. — revelou Naira, seca.

— Paramim?

Nilton arregalou os olhos míopes.

— Não sei o que está escrito aí, mas ele me pediu pra entregar a você. — prosseguiu uma Naira contrariada.

— Tratando-se daqueles surfistinhas marrentos, coisa boa não é. — Revirei os olhos me lembrando das tantas peças que os moleques pregavam em mim e em Naira.

Pensei em amassar de novo e só não o fiz porque Nilton não parava mais de me cutucar.

— Recebeu bilhete?

— Sim — respondi um pouco sem vontade, só para meu amigo não ficar no vácuo.

— De quem?

Nilton puxou de leve a manga de minha camisa:

— Dequem?

— Não interessa. — Naira lançou um olhar furtivo para Nilton como se em vez de amigo, ele fosse seu filho. — Vamos prestar atenção na aula, por favor.

— Estou curioso.

Psiu.

Irmã Silvana era bastante intolerante a conversas paralelas.

— A professora aqui sou eu. Quem quiser conversar pode até ir para fora, mas vai assinar o caderno de advertências. — repreendeu a professora batendo com a régua de madeira no quadro-negro.

— Eu quero saber de quem é esse bilhete. — pressionou Nilton, animado. — Tenho certeza de que é algum garoto, Lalinha. Diz quem é... Está namorando e nem conta aos amigos...

— Dá para falar baixo, Nilton? — admoestou Naira, sussurrando e esforçando-se até o limite para mostrar interesse na matemática.

— Lê aí...

— Posso ler depois.

— Que depois o quê. Lê agora. — ordenou Nilton.

— Eu não lerei nada.

Claro que era mentira.

Minha ponderação tinha um motivo bastante claro: eu não queria de novo idealizar um garoto perfeito e me decepcionar com o real. As fantasias pueris me machucaram o bastante para jamais repetir o mesmo erro. Além disso, sobressaltava-se o temor de olhar para dentro de mim e me dar conta de que naquele ano havia um pretexto a mais para não faltar à aula. Reconhecer era a pior etapa e eu não faria isso nem em um milhão de anos.

Concentração, Lalinha. Você precisa ser aprovada em Álgebra. Faça o favor de prestar atenção, olhar fixamente para o quadro-negro e acompanhar o raciocínio lógico da Irmã Silvana.

Se eu conseguisse domar a apreensão e imperceptivelmente desdobrar o pedaço de papel tão somente para desencargo de consciência.Se.

Guardei o bilhete dentro da agenda e a fechei, tentando resolver os exercícios propostos. Assim que Naira e Nilton voltaram a copiar o dever, coloquei a agenda no colo, vagarosamente a abri e tão logo fui surpreendida por Nilton.

— Está lendo...

Respirei fundo e fechei a agenda.

Com a desculpa de ir ao banheiro, saí da sala de aula e li o papelzinho amassado no corredor. Iury estava atrás de mim. Encabulado e sozinho. Não aparentava disposição para provocações.

Aproximou-se:

— Leu? — Iury, sempre tão seguro de si, não sabia o que fazer com as mãos. Ora coçava a cabeça, as colocava para trás, dentro do bolso da calça, esfregava os pés no piso de mármore do nosso corredor. Não devia estar muito acostumado a esperar.

— Que ridículo! Pensa que eu vou cair nessa de bilhetinho.

— Isso é um não?

— Você é muito insuportável, sabia?

— Eu já disse?

— O quê?

— Que você é a menina mais linda de todo o colégio.

— Vem cá: você está pensando que eu vou acreditar em conversa furada, é? Por sua causa, estou perdendo aula.

— Você gosta de matemática? — Quis saber o curioso.

— É da sua conta?

— Nilton me disse que você escreve bem.

— Ele disse?

— Ele vive dizendo que você tem dom pra ser escritora, que você é a menina mais inteligente da sala... Se ele não gostasse da Naira, eu diria que é de você que ele gosta...

Nilton nunca demonstrou nada de diferente no comportamento. Porventura me ocorreu que ele podia ter ajudado o primo a redigir àquele bilhete, o que explicava a ansiedade com a minha resposta. Ele e Iury eram mais do que primos,amigospromovidos a irmãos.

Nilton devia saber de muita coisa, eis a razão pela qual vivia botando lenha e me fazendo perguntas estranhas, do tipo se eu gostava de alguém, se namoraria antes de terminar os estudos, se meu pai era muito furioso. Eu sempre desconversava, ainda mais com as encaradas de Naira, a grande beata, a mesma que ao ver um casal andando de mãos dadas, rezava veementemente por suas almas.

— Por que não formamos um casal? — Sugeriu o surfista, muito à vontade com a ideia.

— Você está de brincadeira comigo, só pode...

— Meu primo gosta da sua amiga, eu gosto de você... Poderíamos todos namorar.

Foi inevitável a risada.

— Ou não me diga que vocês duas vão ser freiras? — Comentou Iury.

— Isso mesmo! — Balancei a cabeça me deixando abater pelo tremor na voz. — Saindo do colégio, eu vou me tornar freira. E tenho dito!

Não podia negar que já não éramos exatamente os mesmos do primeiro dia de aula. Caminhávamos para a metade do ano e nossa preocupação não era a recuperação semestral. Ao menos não para mim que disputava o posto de primeira da classe com Nilton, levando vantagem por ter aptidão para as ciências exatas, enquanto eu me destacava em Educação Física e ele parecia um porquinho suado sem conseguir nem mesmo dar uma volta ao redor da cancha.

Iury estava diante de mim e poderia muito bem segurar em minhas mãos, me dar um beijo e ao mesmo tempo as palavras se confundiam em nossas cabeças, como se confessar esse amor que nasceu entre provocações fosse um pecado. E pelas normas do colégioera.

— Eu penso em você o tempo inteiro, mas não sei como chegar até você...

— Eu também penso em você...

— Mas você não gosta de mim do jeito que eu gosto de você. — Desabafou Iury com um olhar perdido, frustrado. — Se ao menos você pudesse me dar uma chance de te mostrar que eu não sou um idiota, seria o menino mais feliz do mundo.

Iury se aproximou de mim e fez um enorme esforço para manter a firmeza das pernas. Encaixei minhas mãos por entre as suas. Dos olhos transbordou uma sobrenatural emoção, incontrolavelmente bela.

Estávamos matando aula no corredor sem o menor medo de sermos flagrados e punidos com um merecido memorando. Estávamos enfrentando milhares de convicções e experimentando sensações suprimidas pelo orgulho. O beijo era só o retoque final da obra.

Era bom. Muito bom. Era muito melhor. Era tudo que eu precisava saber e sentir naquele momento.

— Posso te falar uma coisa?

Iury assentiu amável.

— Você é idiota, mas não muito.

— Não muito “quanto”?

— Não sei...

Escutamos passos na escadaria e trocamos um olhar cúmplice, demonstrando que aquele seria o nosso segredo.

Iury beijou minha testa e abriu um sorriso tão genuíno que até hoje está gravado na minha memória fotográfica como a melhor lembrança daqueles incríveis três anos de namoro.

Passei algum tempo anestesiada, sem saber direito o que fazer, até que voltei à sala e a professora comentou:

— Que dor de barriga feia, hein Laly.

E a turma se pôs a rir.

Voltei para meu lugar e Naira parecia desapontada comigo, enquanto Nilton não parava de me cutucar ostentando um raro sorriso porque mais do que ninguém guardava essa expectativa. Estava tão óbvio.

Ainda que meu primeiro beijo verdadeiro tenha sido aos 12 anos com aquele idiota do Gustavo, considero(e eu exijo que me respeitem) a experiência com Iury como sendo a primeira.

Quanto a ele, sei que não. Iury e os amigos entrosavam-se com as ‘gostosonas’, aquelas garotas de quinze que aparentavam mais de vinte e agiam como as adultas; fumando, bebendo, fornicando. Não que fosse errado, afinal, cada um conduz a vida como quer, porém essas raparigas proporcionariam muito mais diversão que eu, a simples ajudante de salão de beleza, a grande Caxias que não faltava à missa.

Eu era uma chata aos padrões daquela gente. Só mesmo Nilton para nos aturar.

— E aí? Como foi?

Nilton queria detalhes de como foi o beijo; se eu gostei, o que senti, se o meu coração acelerou. Eu, como toda menina encabulada, não respondia, a face enrubescia e inevitável era a alegria, a mesma que escondia ao chegar a casa. Eleonora dizia que eu era tão feia que faria bem em me tornar freira.

***

Nos dias seguintes, mal vi Iury.

A escola tornou-se um verdadeiro caldeirão do inferno. Provas diárias e decisivas, recuperações, editais, palestras a respeito do grande retiro de férias, uma colônia a qual nós jovens descansávamos da rotina de estudante e aos adultos, um alívio, visto que não ficaríamos ociosos durante o tempo sem aulas. Não era exatamente o melhor passatempo para um adolescente, porém para mim era muito melhor que aturar Eleonora o mês de julho inteiro, ainda mais que o dia 20 em particular me entristecia: aniversário de Ingrid.

O grupinho dos surfistas era indiferente ao alvoroço das beatas. Eu iria por conta da pressão de Naira. Nilton, católico, mas não tão fervoroso, iria nos acompanhar para permanecer próximo da amada durante as férias. Para o primo de Iury era tão fácil escancarar os próprios sentimentos, entende-los, vive-los.

A certeza do amor que sentia sozinho era inabalável, como se estivesse à espera do dia em que Naira dar-se-ia conta do próprio desejo e o procuraria. Nilton era indiferente às outras meninas, só tinha olhos para a mais impossível que não era a abelha-rainha e sim a grande beata. Ele faria todos os cálculos de álgebra dela, escreveria as dissertações, explicar-lhe-ia minuciosamente o funcionamento de uma célula e descreveria a vida na Mesopotâmia com o mesmo brilho nos olhos a qual a escutava cantar no coral da igreja.

Iury estava afastado dos amigos e raramente era visto no colégio. Nem mesmo Nilton poderia me tranquilizar, muito menos ser o muro das lamentações do primo. Desconfiei mesmo de que fosse uma arapuca.

Quanto mais Naira alertava que um menino em minha vida estragaria meus planos e me desviaria dos propósitos de Deus, mais desesperada eu ficava porque estava me apaixonando.

— Você não pode se apaixonar, Laly. — Aconselhou Naira, com terror na entonação. — Amor é coisa do inimigo para afastar menina de bem dos caminhos de Deus...

— Mas eu não consigo parar de pensar nele, Naira.

— É melhor que você tire esse garoto dos seus pensamentos para o seu próprio bem, Laly. É obra do diabo colocar o Iury nos seus caminhos, ele é o objeto utilizado para te afastar do caminho da fé, da candura, da vida eterna. Ele pode despertar em você o pecado da lascívia, tão imperdoável quanto assassinar alguém. Não vá pela cabeça de Nilton porque ele é um rapaz e você sabe o que todos querem.

— Eu só tenho 16 anos, Naira. Nem penso nessas coisas ainda.

— Influenciada por um homem, quem poderá afirmar?

Amar era pecado. Beijar me condenava ao castigo eterno.

— Você tem que esquecer esse garoto para seu próprio benefício.

— Você não entende, Naira.

— E nem quero.

— Niltongostade você.

Para Naira Sanches, minha afirmação soava ultrajante. Não era à toa que Nilton sentia-se cada vez mais afugentado e temia dizer qualquer coisa que viesse a contrariá-la.

Se Naira presidisse o tão comentado “julgamento final”, 90% de meus colegas, incluindo eu, estaríamos no inferno.

— Nilton e eu somosamigos. — Declarou Naira, irredutível.

— Nilton gosta de você.

— Herege!

— Naira, amor não é sexo.

— Mas leva a ele. As tentações estão por todos os cantos. Devemos renunciar a elas com todas as forças. Elas são o passaporte mais curto para o purgatório.

Se aquelas coisas estranhas que eu sentia toda noite antes de dormir me levariam ao purgatório, eu não sabia, pelo menos não naquela época, que os meninos só tinham um pouco mais de liberdade para externar. Não éramos santos nem vulgares, apenas jovens descobrindo o próprio corpo e a sexualidade.

Assunto proibido. Os olhos de Naira arregalavam-se e a voz ganhava rispidez, firmeza, autoridade. Minha amiga renegava o amor associando-o diretamente à lascívia e julgava que todos deveriam fazer o mesmo.

Chorava até dormir. Desligava o rádio porque em cada música, em cada refrão, cada verso, em tudo eu via Iury, encontrava um pretexto para nele pensar e falar.

Eu me sentia a pior pecadora de todos os tempos, indigna de dobrar os joelhos e agradecer a Deus pelo dia, pedir perdão pelos meus desejos, o que me motivou a ir ao grande retiro para apagar Iury Saciotti do pensamento, de dentro do meu coração e tentar seguir minha vida como muito antes do beijo cuja memória fazia meu estômago queimar, o coração arder e as mãos suarem, o beijo que me afastava da infância e me aproximava de alguém que poderia ser tão imaturo quanto eu.

Escapei da recuperação, então entrei em férias ainda no final de junho, assim como meus amigos. Partiríamos em carreata para Rio Branco no dia 06 e lá permaneceríamos até o dia 22, quando retornaríamos e nos encontraríamos no colégio na primeira segunda-feira de Agosto.

Embarcamos ainda na madrugada do dia 06 de julho de 1989, uma gelada quinta-feira. A maioria de nós estava com feições sonolentas, muitos acompanhados pelos pais(eu de D. Emília)ouvindo recomendações mais extensas que os discursos da Irmã Flor formando uma fila indiana em frente à escola. Sairíamos de ônibus pontualmente às 06h00min.

Nenhuma surpresa: os freis nos separaram por turmas. Meninos de um lado, meninas do outro. A maior novidade não era me sentar com Naira, mas encontrar Iury entre os adolescentes que passariam quase vinte dias sob a vigia dos rigorosos padres e freiras.

Nossos olhos instantaneamente se encontraram. Presumo que ele também estivesse me observando quando tive a maravilhosa ideia de virar a cabeça para trás e avistá-lo com as mãos no bolso, mochila nas costas e um gorro de lã azul marinho.

Era ele.

Por que estava ali?

Iury Saciotti não se interessava nem um tiquinho por isso.

— Iury? O que ele está fazendo aqui?

— Já está falando de Iury? Está tão desencaminhada que já até vê o desgraçado na sua frente. — reclamou Naira.

— Quem? — Perguntou Emília, que apesar de raramente externar, não via a hora em que Naira apresentasse um namorado.

— Ninguém, mãe. — Naira rebateu por mim.

— Algum garoto?

— N-não... — Respondi esfregando os pés por entre as pedrinhas da inacabada fachada do colégio. — Nada de mais.

Nilton cutucava Iury, ria, cochichava no ouvido dele, o empurrava para frente. Naira encarava os primos e me puxava para trás.

Os meninos ainda sabiam tomar a iniciativa.

— Oi, meninas! — Nilton nos cumprimentou como habitualmente faria.

Iury acenou com a cabeça. Não tinha a mínima noção de como agir. Eu também não.

De ocasionais esbarrões pelo casarão de onde os freis comandavam o retiro, passamos aos arriscados encontros ao anoitecer, sempre após a última missa, enquanto as irmãs preparavam o jantar. Aquela era a maior emoção, o motivo pelo qual eu acordava.

— Vem? — Acenava Iury enquanto eu forçava a Naira a nos vigiar.

Iury gentilmente estendia a mão esquerda e me conduzia até um campinho próximo dali onde nos encostávamos a uma araucária e nos beijávamos. Inicialmente eu me sentia uma puta quando ele acariciava minha nuca e cintura.

— Para... Para...

Que nada! Ele continuava.

Ai que arrepio engraçado. Para.

— Que isso, Laly...

— Para!

— Se quiser, eu paro.

Odiava-me por curtir aquilo.

— Se você falar muito alto, eles descobrirão a gente. Você não quer isso, quer?

Lógico que não!

E eu ria como não costumava fazer. Não perto de Naira.

— Às vezes é bom transgredir as leis, não sabia?

E os beijos iam descendo até chegar ao pescoço, um de meus pontos fracos. Eu sentia cócegas, me encontrava totalmente relaxada. Aquela não era a mesma Lalinha que brincava de bonecas com Mayra. Não mesmo. Minha amiguinha ainda não estava pronta para ouvir certos relatos.

— Devo parar? — Iury perguntava bem ciente da resposta.

Para não. Isso é bom. Muito bom. Bom ainda é pouco. Estou pecando, estou me apaixonando e estou gostando de infringir as leis, aliás, eu sempre as contestarei.

Definitivamente não conseguia controlar instintos e anseios.

— Para...

Pare significa continuar. Continue, eu estou gostando. Não vamos nos enganar.

Se durante o dia Iury me azucrinava com os amigos, comigo se mostrava outro garoto e eu reconheço que se amar realmente for pecado, não reze por mim, pois não me redimirei. Beijos, suspiros, corações pulsando. Qualquer passo era motivo de alerta. Quase sempre, alarme falso. Por via das dúvidas, melhor não vacilar.

Dos amassos às escondidas ao namoro foi questão de dias. Nós dois chegamos à conclusão de que continuarmos nos escondendo seria mais desastroso. Estávamos apaixonados um pelo outro e não tínhamos por que resguardar, nos punir.

A partir daquele retiro, Iury e eu passamos a sermos vistos juntos, de mãos dadas, para quem quisesse ver. Naira passou alguns dias sem falar comigo, porém com o seu jeito frio de demonstrar afeição, aceitou que meu namorado se tornasse membro do nosso grupo, logo em agosto.

***

De uma dupla de meninas no início do ano, tornamo-nos um quarteto, sem dificuldades para fazer pesquisas em grupo, sempre unidos. Apesar das nossas diferenças causarem algum choque para Naira no início, ela reconheceu que Iury era um bom menino. A partir dali, nunca mais o grupo dos surfistas nos achincalhou. O máximo que podia acontecer era de um ou outro moleque atazanar o amigo apaixonado fazendo barulhinhos de beijo com a boca.

Nilton e Naira desmentiam os supostos boatos de ser um casal, embora aquela ideia agradasse ao tímido primo de Iury, enquanto meu namorado e eu gostávamos de estarmos juntos e mantínhamos a discrição no ambiente escolar em função das rigorosas regras que proibiam estritamente qualquer envolvimento romântico entre os alunos.

Se os superiores na hierarquia do colégio soubessem de quantas histórias de amor nasceram ali sem que tomassem conhecimento e que muito provavelmente não estão registradas em parte alguma senão em diários esquecidos dentro da uma caixa qualquer perdida no meio de outros objetos, do próprio tempo que tem a modesta permissão de redigir reviravoltas e separar dois corações sem lhes dar sequer uma trégua.

O primeiro amor é uma experiência incrivelmente interessante de se explanar. Provoca alusões a suspiros, a versos que façam os pés saírem do chão. Descarte tudo aquilo que você sabia sobre o tempo. Abra mão do orgulho e dê férias à timidez. A cada toque se descubra em alguém. A cada olhar viaje e deixe esse sonho te levar para muito longe de qualquer receio ou incerteza.

A beleza será apenas a consequência.

Lembro-me com tanta nitidez daqueles sorrisos tontos e bobos, da voz meio rouca, das flores roubadas, da primeira carta com a letra tremida, do primeiro papel de bala que colei na minha agenda para nunca me esquecer de nenhum detalhe.

Tornei-me uma expert em namorar às escondidas e escrever meus sonhos de amor para o vento levar.Meu diário ficava escondido embaixo do colchão e as notas eram extremamente superficiais, como se fossem cartas a uma amiga distante para não me esquecer do que havia acontecido.

Meu corpo havia sofrido grandes mudanças naquele ano. Se antes eu fugia do espelho por não ter seios, passava horas tentando escondê-los. Sentia-me mais gorda, embora as pessoas de confiança me dissessem que estava adquirindo formas femininas, deixando de lado aquele corpinho infantil, transformação poderia assustar um pouco no início.

Osentimento por Iury só ganhava força em mim com o passar dos dias, a ponto de perder completamente a fome. Por esconder o relacionamento de meu pai e Eleonora, voltava para casa e ia direto para o quarto de onde não saía mais para que minha madrasta não deduzisse nenhuma sandice.

Eu mesma não percebi instantaneamente o emagrecimento, nem mesmo quando as roupas alargaram, porque apesar de não ter tanta facilidade para ganhar peso, meus quadris sempre foram mais largos. Meus amigos e professores comentavam a respeito e eu jurava de pés juntos que tudo estava bem. Melhor não poderia estar. Foi quando desmaiei no meio de uma aula que Iury começou a se preocupar com minha magreza sentindo-se culpado pela minha fraqueza.

Meus pais descobriram o namoro porque os progenitores de Iury queriam conhecer a família da menina que fazia o coração do filho caçula bater mais depressa. Edílson comportou-se polidamente e formalizou o relacionamento com a condição de que eu poderia sim passear com o meu namorado desde que estivesse em casa antes de escurecer. Nada de sexo antes do casamento, encontros a portas fechadas e notas baixas na escola. Dario e Estela concordaram com os decretos de papai, nada mais precisava ser escondido.

Nem lembro ao certo por que Iury e eu discutimos pela primeira vez. Exaltei-me tanto que terminei o namoro e alegava que era sem chance de retorno.

No dia seguinte a briga, entorpecida pela raiva, pensava deter a razão, no entanto quando a noite chegou e a poeira baixou, desatei numa terrível crise de choro e amanheci entre soluços. Chegando ao colégio nem mesmo precisei abrir a boca. Iury não aparecia por lá havia dois dias.

Naira não entendia nada sobre relacionamentos e se dizia satisfeita com o amor de Cristo. Nilton, mais inexperiente ainda, me cedeu seu ombro para chorar e me garantia que Iury e eu superaríamos essa crise o quanto antes. No alto dos dezesseis anos, perder meu amor era o fim do mundo.

Iury e eu nos reconciliamos jurando que nunca mais brigaríamos daquele jeito. Discutimos outras vezes. Nesses entremeios fomos conhecendo os defeitos um do outro e por isso sempre voltávamos a nos falar.

Assim foi até 30 de novembro de 1991, até Gustavo e Aimée, cada qual com suas intenções, nos separar.

O que eu faria com todas aquelas lembranças boas dos melhores anos da minha vida?

Gustavo jamais substituiria Iury. Nem que se esforçasse e deveras amasse. Meu coração já estava entregue a alguém que poderia prosseguir sem mim e, no entanto, ainda era minha grande razão de viver.

Quando Iury viajava, eu só chorava, nem me alimentava de tanta tristeza.Ao invés dos longos abraços de meu amado, quem me fazia companhia era o vento frio da saudade que não se contentava com a certeza de que “ele iria voltar”.

Foi ao lado de Iury que encontrei forças para deixar de ser aquela garotinha submissa que vivia no mesmo trajeto desde que me entendia por gente: casa – escola – igreja – escola – casa.

Nosso relacionamento enfrentava uma grande turbulência antes da noite em que Gustavo Figueira Antares tirou o meu direito de decidir quando e com quem perderia a virgindade. Iury pretendia estudar em Santa Catarina de qualquer maneira porque perdeu a data das inscrições do vestibular da UFPR e por ser Florianópolis a cidade natal dos pais dele.

Eu, por minha vez, dependia do resultado daquele vestibular para reestruturar meus planos para o futuro. Se eu fosse aprovada, estava tudo certo para eu me mudar para a casa dos meus tios Abílio e Conceição que até novena na igreja estavam fazendo em nome da minha causa. Se meu nome não estivesse naquela lista, eu iria embora de Guaratuba de qualquer maneira porque não poderia sonhar alto morando lá.

Iury e eu tínhamos consciência de que com exceção do período de férias, seria bastante difícil manter o contato físico, até mesmo trocar cartas regularmente e fazer telefonemas mostrava-se preocupante. Medicina sempre foi um curso ministrado em tempo integral, exigindo do estudante dedicação total.

Antes fossem os obstáculos logísticos, os piores surgiram após a tenebrosa noite de formatura, sucedendo-se por uma centena de desencontros, mal-entendidos e “terceiras pessoas” que trataram de antecipar o desgaste que seria mais digno se ocorresse naturalmente e nos permitisse um período de transição para que nos acostumássemos com a ausência.

Não havendo, segue em meu coração a lembrança daquilo que um dia foi o meu ar e hoje, entretanto, me deixa sem ele. Não coube a mim a pronúncia da última sentença, tampouco me sobrou alguma paciência para recortar o tempo e trabalhar nos pormenores das ínfimas ações no intento de que elas pudessem me revelar outro caminho que não desembocasse em uma Lalinha com o coração despedaçado.

O pranto embargado que despontava na garganta, libertando-se das amarras premeditadas pelo orgulho, seria meu companheiro até que um dia a misericórdia do tempo aliviasse a lancinante dor que castigava meu coração noite e dia desde aquela noite em que a inocência foi assassinada sem o meu consentimento.

A reta firme que ligava Iury a mim foi apagada pela borracha cósmica do destino. Seria impossível voltar para onde estávamos antes do caos, às estruturas ruíram e olhar para trás não reconstruía o que já havia sido perdido em matéria de metáfora.

Continuaria sendo amor, mais uma história de amor perdido.


N/A: Obrigada por ter chegado até aqui. Vocês do Inks serão privilegiados por lerem o spin-off do Iury e da Laly, enquanto os do Nyah terão de esperar até 19 de janeiro de 2021. A propósito, estou postando Confissões de Laly no Nyah porque quando postar aqui será a versão 2021 ou 2022, se Deus permitir, com ajustes no prólogo. Espero que vocês tenham gostado de conhecer essa história e que tenham interesse em ler as aventuras da Lalinha. Até uma próxima, beijão! =)

1 de Dezembro de 2020 às 01:22 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Mary uma joaninha itinerante que atende por Maria, Mary, Marisol, que ama previsão do tempo e também contar histórias. na maior parte do tempo, invisível.

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