invisibilecoccinella Mary

Seria spoiler. Sim, seria. Clichê também. Óbvio de dar tédio. Seria também injusto não passar adiante um pouco do que a vida me ensinou. Já é spoiler, mas nada que estrague a leitura. A vida tem dessas coisas.


Histórias da vida Todo o público.

#bullying #escola #mulher #reflexões #ensino-médio #escritora-mary #adolescência
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Curitiba, 24 de novembro de 2020.

O primeiro ano do ensino médio é o início do fim. A contagem regressiva feita por uma ampulheta impiedosa. Fui aprovada no teste seletivo para estudar em um colégio situado a quinze minutos da minha casa. Os primeiros dias foram intimidadores porque no ano anterior eu mudei de escola quatro vezes e naquela, até o momento, os ditos conhecidos não eram amigos.

Minha classe, o 1ºH, era majoritariamente composta por garotas, quatro delas eram melhores amigas de uma vida inteira e combinaram de estudar juntas. Eu era avulsa, buscando um grupo para integrar e boa parte das estudantes se uniu por um motivo o qual o meu eu de hoje não se orgulharia nem um pouco: ranço da Ana Carolina.

Ana Carolina destoava daquele perfil norte-americano de garota popular por conta da estatura pequena, pele bronzeada, compleição física estreita, barriga sequinha, cabelos em corte reto na altura do ombro com luzes, olhos grandes e puxadinhos de jabuticaba.
Se eu não descrevesse a Ana fisicamente, você teria a liberdade de formular a imagem mental da típica loiraça dos olhos verdes e altivos, que vai para o high school numa caminhonete, desfila pelos corredores com os cabelos longos e ondulados de chapinha, roupas da moda e com duas asseclas a tiracolo, indo procurar o namorado, o capitão do time de baseball para trocar saliva logo cedo e, claro, infernizar as "esquisitas", entenda por fracassadas aqui todas as meninas que não pertencem a realeza. Ranço eu tenho é dessa cultura tão tóxica que cria monstros e deturpa valores e antes que você aí do outro lado revire os olhos ao pensar que estou fazendo digressões no texto ou lhes preparando para um clichê malfeito, nananinanão.

A Ana não era cheerleader porque, só para princípio de conversa, estamos no Brasil, na região Sul do país (e até na literatura nacional, a maioria das tramas são ambientadas no Rio ou em São Paulo), no estado do Paraná, na capital Curitiba, em um colégio de ensino médio da rede pública, advertindo também para o fato de que alguns alunos (a exemplo de mim) eram trazidos até o portão de carro pelos pais, alguns faziam o percurso a pé, a grande maioria ia e voltava de ônibus. Ela, assim como eu e tantos outros adolescentes dos mais variados estilos e personalidades, também estava conhecendo o ambiente que seria sua segunda casa pelos três anos vindouros.
Se Ana fosse herdeira de sobrenome tradicional, teria ingressado numa escola privada de renome já no maternal e conviveria com as mesmas pessoas desde então, não estudaria para passar no teste para aquela instituição de ensino, focaria para passar em Direito ou Medicina na UFPR e conseguiria, afinal de contas, é desleal comparar a bagagem intelectual de alguém que foi alfabetizado num colégio bilíngue com alguém que já ficou um bimestre inteiro sem ter aulas de matemática e como não quero falar sobre política nem arranjar encrenca para o meu lado, vamos voltar à Ana Carolina, ela foi o ponto de partida para esse texto existir.

Nos primeiros dias de aula, quando o uso do uniforme ainda era facultativo, Ana Carolina vinha ao colégio com blusinhas de alça com estampas tribais e calças jeans de cintura baixa. Ela, a típica aquariana de natureza comunicativa, havia se aproximado mais dos meninos da classe, aqueles com bonés de skatista e tênis de marca, que tinham ciúmes do Kayky Brito (crush de todas as meninas, menos o meu) e visavam diminui-lo com insinuações homofóbicas (na época naturalizadas, ninguém os repreenderia) e mais tarde, ainda naquele mesmo ano, do Felipe Dylon. Eles podiam achar as modelos gostosas, objetificar as mulheres, dizer quem era gata, quem era bagulho, mas abriam carranca quando elas falavam de outros caras. Bando de escrotos.

Nos intervalos, Ana estava sempre cercada de garotos, rindo e no dia em que a vi falando ao celular, bateu aquela invejinha, ela devia mesmo ser popular, tinha amigos fora da escola, então se porventura não se enturmasse, solidão na sua vida não seria problema.
Naquela época eu já conhecia algumas pessoas que tinham celulares, poucas, sim, e me ocorria o quão bacana era a possibilidade de conversar com os amigos sem ter que ouvir sermão dos pais por causa da conta do telefone, entretanto, um ano e meio depois, quando ganhei meu pequeno Nokia, a excitação toda veio por água abaixo, ninguém me telefonava e passados tantos anos, os SMS que chegam são os da operadora ou spam.

Ana era um mito. Cada passo dela era comentado pelas meninas por horas, cada trejeito era minuciosamente analisado. A menina era odiada e parecia ainda mais intragável à medida que rumores fervilhavam na rodinha de fofoca.
Hoje sei quem me acusou de ser "bruxa". E, dando um spoiler, não foi a Ana Carolina. Era fácil uma garota detonar outra, bastava colocar a culpa na Ana. Àquelas alturas, sem exageros, tudo era "culpa da Ana". Se chovesse, se a ponta do lápis quebrasse, se o ônibus se atrasasse...

Naqueles tempos eu usava um cordão preto com um pentagrama no pingente porque vi Jovens Bruxas e achei a Sarah o máximo, queria ter poderes como os dela. Eu não tinha religião, mas não era agnóstica.

Por mais que na infância tenha frequentado missas, o catolicismo nunca tocou o meu coração, posteriormente aos fatos relatados aqui me interessei por uma denominação cujos cultos passavam na televisão tarde da noite e quando acompanhava aqueles testemunhos todos, acreditava piamente que se minha vida não prosperava, um encosto dos brabos estava atuando e mais adiante até frequentei cultos de descarrego noutro templo, contudo, eu não conseguia sentir Deus, só culpa. Não conhecia patavina sobre o universo Wicca, nem sequer o meu signo ascendente na astrologia ocidental eu sabia, e mesmo que fosse bruxinha, usaria meus dons extraordinários para outras finalidades e até onde sei, se a coordenação do colégio não vetou o uso do pentagrama, eu era plenamente livre para expressar aquela parte de mim.

E se eu fosse bruxa, qual é o problema?

Embora seja polêmico o que vou dizer, sei quem foi a recalcada que usou o nome da Ana para me insultar, era uma dessas crentes safadas que acham que tudo é do satanás, que só elas estão salvas por frequentarem tal denominação protestante, que só namoram de forma "cristã" dentro da igreja porque são as que mais engravidam antes do casamento, porém gostam é de fiscalizar os úteros alheios, julgar e condenar à revelia, num moralismo velado e nauseabundo. Se essa pessoa não destacasse trechos aleatórios da Bíblia para caluniar, difamar os outros, disseminar o ódio e criar contendas, saberia que Deus abomina a fofoca.

Escorpiana sangue quente como sempre fui, pretendia tirar satisfações com Ana.

— Ah, não liga não... — Argumentou a garota, sob a alegação de que a Ana disse que os meninos não queriam falar comigo por causa do pentagrama.

Faltou-me esperteza para juntar os pontos. Recordei-me agora, enquanto organizo as memórias, de que por acaso um amigo da Ana, um dos poucos meninos decentes daquela turma, era simpático comigo e eu lhe perguntei se era verdade o rumor de que eu era bruxa. Ele negou tudo, confirmou que Ana Carolina nunca falou nada e que nem ele pensava isso...

Aquela conclusão foi tirada pelas que consideravam tudo "coisa do capeta", tudo menos a fofoca, claro. Falar mal da Ana era a ocupação predileta do quartel das feias porque, sendo sincera, elas eram uns bagulhos, a Ana disparadamente era a mais bonita, não só isso, chamava a atenção.

Cada classe tinha um professor-tutor. Na nossa era o Eugênio, o professor de Biologia. Ele promoveu a eleição para representante de turma. A Ana se candidatou e o Thiago também. O meu grupo fechou com o Thiago, um repetente metido a piadista, era amigo da Ana e tal, entretanto, por despeito, votamos nele e o elegemos. Quando a Profª Luciana pediu para que formássemos equipes para apresentar seminários sobre as antigas civilizações, ficou atônita quando soube que o fundão formado por garotas seria uma equipe só.

Na quinta-feira depois do Carnaval, a Ana Carolina não apareceu no colégio. Algumas meninas comemoraram como se ela tivesse morrido, até que eu ouvi outra comentar que Ana estava ausente em razão de uma conjuntivite. Dias depois, com os olhos recuperados, nossa colega voltou com aparelho nos dentes. Os comentários todos eram depreciativos, com o intuito de dizer que a aquariana estava horrorosa, e pior ainda quando ela tentou escurecer o cabelo para voltar ao tom natural e os fios ficaram pretos, opacos, porosos. Sem comentários.

Eis que um dia discuti com meus pais antes de ir para a aula, provavelmente era um motivo muito sério na época porque eu cheguei chorando. Nenhuma das meninas do grupo sequer se importou com o que quer que estivesse acontecendo comigo. Nat, a menina que se dizia minha melhor amiga, deu de ombros e fez que não era com ela.

Mais tarde, quando eu já havia parado de chorar, a Ana em pessoa surgiu em frente à minha carteira e me perguntou:

— Tá tudo bem com você? Você já está se sentindo melhor?

E não havia deboche na entonação doce dela. Ana realmente se importava. Ela me viu chorar e só não foi me consolar num primeiro momento porque nós, em um mês de aula, ainda não tínhamos trocado uma palavra.

Depois que a Ana voltou para o lugar dela, duas meninas do grupo do fundão vieram me intimidar:

— Já virando a casaca, é?

Não era questão de virar a casaca. A verdade é que já estava irritando encontrar um motivo para diminuir a Ana como se ela fosse a pior pessoa do mundo.
Eu queria ter a segurança da Ana para me enturmar sem receio de soar ridícula e boçal, ser menos tímida. Eu curtia o jeito como ela se vestia. Foi por isso que comprei uma blusinha de alça verde-limão com estampas tribais e quando desenhei a Tita, ela usava uma blusinha verde, só faltou a estampa. Sentia vontade de fazer luzes no cabelo, mas minha mãe não deixava. Piercing no umbigo, menos ainda. Eu não queria que a Ana não tivesse amigos e ficasse isolada como eu fiquei no ensino fundamental, isso nunca me ocorreu.

Seria uma admiração velada?
Pelas linhas tortas quero crer nessa linha de raciocínio para compreender por que ela me chamou mais atenção do que qualquer um dos meninos.

Em 10 de abril aconteceu A Grande Reviravolta. Começou a época de apresentar os seminários de História, aqueles marcados lá em fevereiro, antes do Carnaval, pela Profª Luciana. Apenas três meninas do grupo, no dia, dentre essas três, eu, fomos até a lousa e nos apresentamos, de maneira que a docente deu nota apenas para nós, as outras não contribuíram com nada, nem apoio moral, tudo que sei é que naquele dia não tivemos a última aula e na sexta-feira a Nat me convenceu a trocar de lugar, colocando o maior terror, dizendo que as minas do fundão estavam com sangue nos olhos e queriam me bater.

Abril foi complicado, a Nat não era minha amiga de verdade, se aproximava de mim só quando era época de prova e trabalho, porém não era alguém com quem eu pudesse falar sério, mudar de lugar foi bom porque passei a ter contato com quem viria a fazer parte do meu grupo, aquele que se formaria e permaneceria junto até... a eleição de 2018. E isso é assunto para outro texto.

Num dia, lá pelo mês de maio, a Profª Dinara, que na ocasião lecionava PEC Português, pediu fotocópias de um conteúdo, custava cinquenta centavos. Eu não tinha um tostão no bolso e a Nat tinha um nível social melhor que o meu, mas alegou não poder me emprestar e eu angustiada porque precisava daquelas folhas, eis que quando estou à beira das lágrimas, aparece logo quem? A Ana. E me empresta uma moeda.

A Ana e eu não éramos melhores amigas, a melhor amiga dela na turma era a Kátia.

Devo muito à Kátia por ter um dia cortado o barato quando estavam falando mal da Ana, antes, bem antes de minha colega me emprestar uma moeda, quando todas as outras me disseram não e estavam pouco se lixando para mim.

— Por que vocês não gostam da Ana? O quê que ela fez pra vocês? — Quis saber a Kátia.

— A Ana se acha...

— Não, ela não se acha...

Kátia mandou a real: disse que a melhor amiga não merecia ser difamada daquela forma, que era uma menina legal, de bom coração, amiga como poucas e disso eu tenho certeza porque a mãe da Kátia morreu de câncer em maio de 2003, então presumo que a Ana a apoiou muito nesse momento de profunda dor e consternação. Se o mesmo tivesse acontecido comigo, sem bancar a vítima, eu estaria ferrada, não teria um ombro para chorar.

Em junho o jogo viraria ainda mais. A Profª Gisele, de Geografia, refez o mapeamento da turma e me alocou na primeira fileira de frente para a porta, no dia entrei em pânico e chorei, pois a Nat ficou do outro lado, mas as coisas estavam mudando porque me aproximei da Aline, cuja irmã gêmea Érica estudava no outro primeiro ano, da Andréia, pois o Lincoln eu já conhecia do ano anterior.

Bom, do grupo que se formou, eu nunca cheguei a estudar na mesma turma que a Andréia e a Érica, mas elas eram legais e junto ao Isaac, acabaram os problemas da caloura. Ao longo dos três anos partilhamos momentos bons e não tão bons assim, entretanto, apesar da gratidão que tenho pela passagem de cada um pela minha vida, sei que não fui a melhor amiga da vida de ninguém porque a Andréia e as gêmeas gostavam de axé, eu sempre gostei de rock, elas tinham as piadas internas, pegavam ônibus juntas e a Deh frequentava a casa das irmãs, privilégio esse que nunca tive porque apesar de a Aline ser boa comigo, nunca me incluiu em nada e ninguém tinha interesse de me visitar.

Isso explica o enorme carinho que tenho por Andréa, Júlia, Rodrigo, Gui, Tita, Van, Cris e Márcio, de Simplesmente Tita. Na maioria das vezes, de noite, quando eu estava sozinha no meu mundinho, eles eram meus amigos e ah como eu desejava ter amigos que não me excluíssem, que me chamassem para aniversários, festinhas, passeios no parque, no shopping, ter quem me defendesse numa briga, de uma fofoca, que me contasse segredos e não falasse pelas costas, queria ser importante na vida de alguém, não apenas mais uma que apesar de conversar com quase todos, sempre me sentia só. Imensamente só.

Às vezes eu sentia saudades do ano anterior, a fase em que a Sandra me ligava todo dia, me mandava cartinha e me chamava para passar a tarde na casa dela para a gente ouvir música, falar sobre o colégio e mexer nas nossas agendas. Eu sentia saudades da Sandra, da Júlia, da Profª Juliana, das tantas amizades que fiz, com diferentes pessoas e do quanto eu queria ter a assinatura deles na agenda para angariar forças e sobreviver à minha nova vida, onde voltei a ser avulsa... porque ter um grupo de amigos era melhor do que passar o intervalo inteiro sozinha e eu só fui ter uma melhor amiga exclusiva no último ano, a Paula, porém, como tudo de bom na minha vida, durou pouco, não tão pouco para ser lembrança e não o suficiente para me acompanhar de uma forma ou de outra até os dias de hoje.

Essa agenda perdida seria a prova cabal de que por um breve período na minha vida eu deixei de ser a esquisita renegada para ser... uma garota normal. Isso mesmo. Uma garota normal. Essa agenda perdida era que nem o Cauê, aquele menino de quem eu ouvia falar sempre, que queria me ver na hora da saída para ficar comigo, porém meu pai ia me buscar, esse encontro nunca rolava e ainda assim ele não desistia.

Para me confortar, apetece-me imaginar o Cauê fisicamente parecido com o intérprete do Reese (Justin Berfield) da série Malcolm in the Middle, gostava de skate, das bandas que eu também gostava, tinha um papo bacana, não acharia estranho eu viver com o fichário a tiracolo, beijava bem e tinha bom hálito, além de ser carismático, risonho e diferente de todas as pessoas pelo simples fato de me notar, já que no novo colégio eu sempre fui invisível. Nos antigos também, é bom reiterar. Eu era farejada caso o intento fosse zombar.

O Cauê existiu, não é caô. Ele não devia ser aquele da minha imaginação, mas gosto de pensar que na vida existem pessoas que nos notam e gostam de coisas em nós que nem mesmo imaginamos porque o que alguns dizem ser defeito costuma ser encanto quando contemplado pelos "olhos certos". Oh, Olhos Certos, hit daquela época.

Até eu ter o meu grupo verdadeiro e conhecer as pessoas que realmente fechavam comigo, aguentei muita fofoca, falsidade, falsiane vindo tirar satisfação do que fulana disse — e colocou no meu lombo, já que o ranço da Ana havia cedido — e a Nat só fazendo cara de sonsa, do tipo que não defendia e ainda colocava mais lenha na fogueira, mas toda máscara cedo ou tarde cai e no dia 13 de junho, quando o temido Prof. Divo, de Matemática, que raramente faltava, não veio, a Alice, uma das poucas meninas de coração puro daquele grupo que se formou no início do ano, me chamou, meu sangue gelou.

— Por que você não fala mais com a gente, Maria? — quis saber a Alice. — A gente sente falta de você.

Contei a verdade.

Pior, Nat me passou a perna com aquela lorota!

As meninas nunca quiseram bater em mim e ficaram chateadas porque eu debandei do grupo e parei de falar com elas sem motivo porque daí já não tinha mais relação com a Ana, inclusive, as meninas mais mente aberta estavam se aproximando dela, da Kátia, da Priscila, da Karimy, da Mariane e cada um passou a se conectar com quem realmente tinha alguma afinidade.

O simples fato de eu ter conversado com a Alice fez com que a Nat me lançasse um olhar de reprimenda. Ela, covarde, não tinha coragem de vir dizer o que pensava de mim, mandava indireta, recadinhos pelos outros.

Alice sempre fez justiça ao nome porque era evangélica, de modos recatados, daquele tipo que seguia os preceitos da religião e era contra violência, intrigas, além de ser sensível e empática. Definitivamente, eu não consigo imaginar a Alice se envolvendo em brigas corporais, ela estaria mais para uma pacificadora, uma consoladora, aquela pessoa que gostava de ver as outras felizes. A discórdia não dialogava com a alma dela.

Tudo bem que nem todas as meninas do grupo do fundão eram doces como a Alice, mas cada qual com suas virtudes era especial, ainda bem que elas pararam de infantilidade porque eu me odiaria muito se porventura tivesse praticado um ato de bullying que viesse a comprometer a autoestima e a vida social da minha colega. Um lamento que as pessoas que me fizeram mal nunca fizeram semelhante reflexão.

A Nat não tinha motivo para tretar comigo. As meninas não queriam bater nem nela. Ninguém queria bater em ninguém. O que ela ganhou inventando esse rumor eu não sei, porém se nos momentos em que precisava de uma amiga, me via sozinha, então, por que tanto ódio do fato de eu apenas dirigir a palavra com a Alice?

A Nat não era amiga, a Dinha sim.

No início, antes de nos fundirmos com o fundão, éramos a Dinha, a Nat e eu.

A princípio pensei que a Nat e eu seríamos melhores amigas porque no antigo colégio as meninas odiavam Avril Lavigne, ela e eu éramos fãs, gostávamos das mesmas bandas, detestávamos axé, usávamos esmalte preto, sombra branca nos olhos, assistíamos Os Simpsons, a Dinha brincava que por pouco não passou no teste para ingressar naquele colégio, ela andava de skate e usava o cabelo bem curtinho pintado de vermelho, mas o tom ficava mais puxado para o tom de beterraba, não era nada feminina e fresca, nenhuma de nós namorava e todas completariam 15 ao longo do ano: a Dinha foi a primeira já em março, a Nat em julho e eu em novembro. (os meninos fizeram uma lista de quem era a mais feia e a Dinha foi eleita, espero que ela nunca tenha visto essa lista maldita)

Da Dinha eu sempre gostei porque ela era simples e verdadeira, treinava para ser skatista profissional ainda numa época em que meninas no skate eram malvistas, não era fominha por nota e não curtia exatas. A Nat, por ter uma condição social melhor, era um pouco esnobe, quando comentei meio despretensiosamente que assistia Chaves, ela fez comentários bem depreciativos, até me disse que eu deveria parar de assistir, que era "coisa de gente retardada"... foda-se Nat, eu trocaria todas as pessoas falsas como você por um abraço do meu Don Ramon. Chaves é tudo de bom, aceita que dói menos. Você não tem ideia do ranço que tive quando achei seu Facebook e te vi bancando a good vibes, escrevendo Namastê, sendo que conhecendo como eu te conheci, você está mais para a serpente que ferrou com a Eva lá no paraíso. Hipócrita, desgraçada... com quem você está implicando agora?

Aceitei de bom grado a ideia de me fixar onde deveria estar. Foi ótimo porque fiquei pertinho dos meus melhores amigos, lá no fundão tinha a Alice, a Emilly e a Samanta.

Volta e meia a Ana se sentava na carteira à minha frente e puxava conversa, começava a falar sobre o quanto eu era bonita, que eu deveria me valorizar mais, não deixar as pessoas me tratarem de qualquer jeito, escrevia poeminhas na minha agenda, às vezes vinha apenas saber se estava tudo bem comigo e não era para ir lá no grupo dela e me arremedar, o sentimento de bem querer era verdadeiro.

Assim foi até o último ano, sempre que eu me encontrava com a Ana, ganhava aqueles abraços bem apertados e ela queria saber como ia a minha vida, me apresentava aos amigos dela. Procurei-a no Facebook, já bateu a curiosidade de saber se a Ana encontrou um amor verdadeiro, se casou, teve filhinhos, se formou, se continua sendo simpática, carismática e atraindo as pessoas por inspirá-las, seja no estilo de se vestir, de ser, conversar, por estimular cada um a enxergar o melhor de si. Ana tem um nome cujas homônimas se replicam e desde o fim da escola nunca mais a encontrei, nem na época do Orkut, quando revi (e me decepcionei com) algumas pessoas.

No início do ano eu imaginava que quem faria da minha vida um verdadeiro inferno seria a Ana porque no fundamental eram as ditas "populares" que me perseguiam e usavam o seu poder para o mal, mas eu me enganei. A pessoa que literalmente desejou minha morte foi a Nat. Bom, considerando que ela tinha o costume de esticar as longas pernas na escada onde se sentava com as amigas para eu tropeçar...

Aquele ano foi movimentado. Já no início o colégio inteiro se preparava para um evento cultural no qual cada turma escolheria um país e apresentaria uma peça musical sobre ele na Ópera de Arame, no último sábado de setembro, além de montar as instalações para mostrar um pouco da cultura do local escolhido. As atividades valeriam nota.

Influenciadas pela novela O Clone, sucesso do ano anterior, as meninas escolheram o Marrocos, porém eu não me envolvi muito nessa parte, só de pensar em dançar com a barriga de fora para um monte de gente já me fazia querer ser do tamanho de uma agulha, mas fechei o primeiro semestre com nota vermelha em três disciplinas e foi bem triste porque meus amigos que estudaram mais entraram em férias já no final de junho e só voltariam no dia 29 de julho, enquanto eu passei as duas primeiras semanas do mês do rock fazendo prova de recuperação e nesse entremeio acabei caindo numa cilada: armaram um esquema para eu ficar com um menino boçal (de quem tirei o BVL), que grudou em mim que nem chiclete, sendo que eu nem queria nada sério.

Sem comentários sobre a ficada porque ela foi horrível, tanto quanto tirar 3,5 em matemática e precisar de NO MÍNIMO 6,5 para escapar do conselho de classe e da temida reprovação.

Esse menino foi uma dor de cabeça porque já não bastando o inferninho que a Nat estava fazendo, ele se sentia meu dono, eu evitava contato físico porque não gostava dele nem do papo, nós não tínhamos nada em comum, eu não tinha o direito passar o intervalo com os meus melhores amigos, ele podia jogar bola com os dele sem me dar satisfação. Ele não era carinhoso, não se empenhava em me conquistar, em saber de verdade como foi meu dia, quais eram meus sonhos, planos, o que eu gostava de ver na TV, que tipo de música eu curtia. Não era só o fato de ele curtir axé e forró, enquanto eu amava dance (house, trance, techno) e pop rock. Era tudo. A questão estética não entra no mérito. Ele só não queria estar "solteiro".

Toda vez que eu queria terminar na paz porque não estávamos indo a lugar algum com aquilo, o piá começava a chorar, ameaçava se matar, armava um verdadeiro pandemônio. Quando me mostrei irredutível, ele me constrangeu mandando mensagem em Correio Elegante para a escola inteira ouvir e eu ficar com a fama de megera sem coração enquanto ele era o garoto apaixonado e parecia ser a única opção para mim. Um dia a Ana comentou que os meninos lá da classe, que quase nunca falavam comigo, diziam que eu era muita areia para o caminhão "dele".

Como eu nunca soube disfarçar dor, raiva ou tristeza, qualquer um que passasse pelo bloco onde eu estudava e me visse sentada do lado do rapaz, saberia que eu estava infeliz, não tinha sentimento, nem espaço para uma amizade porque ainda que eu nunca viesse a amá-lo como homem, poderia conquistar um amigo, mas nem isso...

Eu terminava com ele, daí começavam as chantagens e eu, por medo, acabava reatando, mas sempre evitando beijos, eu não tinha a menor vontade de passar o intervalo me amassando... pelo menos, não com ele... na verdade, eu não tinha ninguém em especial com quem quisesse estar, só que a ideia de ficar sozinha me era assustadora, eu assistia a essas comédias românticas e me doutrinei com elas, então acreditava que era uma nerd feia e fracassada, que minha volta por cima seria lá pelos 25-30 anos, quando eu seria fodona, poderia pegar quem eu quisesse, seria uma profissional como poucas e teria me transformado numa musa. (spoiler, isso não aconteceu)

Hoje sinto-me mais à vontade para contar sobre a Larissa, uma menina da sala desse garoto. Ela era mais alta que eu, também tinha um corpo mais desenvolvido, o rosto redondo e olhos verdes, era ruiva de farmácia e costumava usar bandanas no cabelo porque o uniforme era obrigatório, mas acessórios estavam liberados.

Eu sempre via Larissa cercada de gente na cancha. Ela popularizou a modinha de trazer bichos de pelúcia para escola, o significado, bem, eu não sei, mas tentei aderir, embora a ursinha soneca Samy e uma fuinha com a camiseta do Hard Rock Cafe não fossem tão interessantes quanto o tucano garboso dela.

Hoje sou mais indulgente comigo mesma e admito que sentia pela Larissa aquilo que a sociedade queria que eu sentisse pelo tal garoto e não aceitava isso, terceirizando a raiva que eu nutria por mim mesma. Eu queria vê-la todo intervalo. Se a odiasse, não teria o menor interesse na vida dela. Elogiar o tucano dela seria um bom pretexto para engrenar uma conversa. Se ela fosse blasé, vida que seguia. Desse detalhe ninguém nunca soube. Eu ainda achava que "gostava de garotos", que estava beijando sapos enquanto o príncipe não aparecia.

A Ana tinha 15, namorava sério, não era mais virgem e nunca me obrigou a nada, vivia dizendo que tudo teria o seu tempo certo de acontecer e que eu encontraria alguém que faria por merecer o meu amor. Ela sabia que o que eu vivia com aquele menino era uma ficada arranjada tóxica que se estendeu por demais, ela e todo mundo, só não via quem não queria.

E por mais que os conselhos da Ana sejam válidos para a vida toda, cometi o mesmo erro VÁRIAS vezes. Por medo de ficar sozinha aceitei migalhas, muitas vezes já senti vontade de me aproximar de alguém e uma voz interior me dizia que eu não era bonita o bastante, nem interessante, que com certeza a pessoa iria preferir uma loira dos olhos azuis ou uma ruiva, muitas vezes aceitei ser maltratada por caras como esse da ficada, que já se sentiu meu dono, por dó, por achar que "na minha condição eu não podia reclamar" e muitas Larissas passando pela minha vida, eu me enganando, à espera do príncipe inexistente, atacada pela rinite.

As pessoas dizem que sou muito bonita, inteligente e talentosa, que minha conversa é legal, que sou comunicativa, mas muito tímida. Eu só me irrito quando caras confundem minha simpatia com flerte.

Uma parte de mim quer se convencer e tomar as rédeas da própria vida, mas tem uma vozinha interior que insiste em me convencer do contrário e quem carrega as sequelas do bullying deve ter uma noção de que não é mimimi, é sério, a autoestima se estilhaça. Os traumas vivenciados lá na 5ª série me perseguem até hoje, só me dei conta disso a poucas semanas dos meus 32 anos.

A Nat não poupou esforços para me fazer chorar e temer, mas eu sobrevivi. Ela me tirava do sério a ponto de eu querer surrá-la porque paciência tem limite, eu aguento calada um arremedo ou outro, faço que não é comigo, mas não abusa, porque a hora que a panela de pressão estoura e as verdades jorram, meu lado meigo vai-se embora.

Hoje entendo por que no começo do ano a figura da Ana me soou uma afronta. As meninas descoladas e populares como ela nunca tinham interesse em fazer amizade comigo, tratavam logo de me chamar de esquisita, me zoar, me maltratar, me excluir, então eu tive aquela postura reativa na hora de julgar a minha colega, pensando que dessa forma estaria blindada de eventuais maldades... e como eu estava errada!

A apresentação cultural foi um sucesso. A turma se uniu. O sábado na Ópera de Arame foi inesquecível. Meus amigos e eu tiramos duas fotos, porém não sei se o Lincoln as guardou, mas posso garantir que eu apareço nelas. Agora ele reside na Espanha.

Na parte da manhã houve o Ensaio Geral, para fazer o teste de som e ajustar tudo, então houve a pausa para o almoço e meus pais providenciaram tudo para que eu ficasse bem: compraram uma fatia de bolo de chocolate e me deram dinheiro para almoçar. Fui com meus amigos até uma lanchonete, entretanto, alguma coisa dentro de mim me disse para não escolher nenhum daqueles salgados que estavam à venda, preferi um pacote grandão de Fandangos sabor presunto, uma lata de Coca Cola e depois desse almoço delicioso era hora de me arrumar.

Meus pais compareceram na apresentação que ocorreu à tarde. Eu não compartilharia isso se não fosse necessário, entretanto, como a maioria das meninas na época da puberdade, os ciclos eram irregulares e a monstra resolveu descer bem naquele dia. Tudo bem se fosse só o fluxo em si, mas a dor, eu sentia cólicas terríveis. Por sorte, absorvente não foi problema, várias meninas foram solidárias.

Eu não contei da cólica porque subir naquele palco e dançar para uma multidão valia a minha aprovação; se eu alegasse dor, deixaria meus colegas na mão. Não disse nem aos meus pais, depois que me encontrei com eles... na verdade, eu teria dito, mas não pude... porque colegas minhas que comeram aqueles salgados da lanchonete estavam passando mal (muitas delas tiveram uma infecção gastrointestinal séria e ficaram dias sem aparecer no colégio)... e eu teria de representá-las, a equipe estava desfalcada...

Já estava escuro quando nossa turma se reuniu para aguardar o início da segunda rodada de apresentações e a Nat comentou que estava com fome. Eu estava com tanta dor que mal via a hora de estar em casa, de banho tomado, enrolada debaixo dos cobertores, então me lembrei do pedaço de bolo que estava na minha bolsa, dei a um amigo meu, que entregou à ela. Minha bullie nem imagina que o bolo de chocolate tão gostoso que saciou a fome dela era meu. Da menina que ela queria que morresse.

No finzinho de outubro, faltando três semanas para os meus quinze anos, fui internada às pressas com suspeita de apendicite, eis que depois de passar horas em observação, fazer exame de urina e até ultrassom, terminei o dia na mesa de cirurgia e quando acordei da anestesia, sem sentir nada da cintura para baixo, ouvi Admirável chip novo, da Pitty, tocando, sabia que estava viva, ouvi até a voz da Ana Paula Padrão no JG, e com certeza em casa eu estaria vendo o jornal, afinal de contas, eu não usava cabelo chanel à toa, ela era minha inspiração.

— Mas tão nova, tadinha... — Comentou uma das auxiliares de enfermagem, verificando meu prontuário e minha reação pós-cirurgia porque as horas vindouras seriam decisivas.

Eu, crente de que haviam retirado meu apêndice, não entendia patavina.

Nem me passava pela cabeça que estava com um cisto que ocupava metade do meu ovário direito e quem sabe explicasse aquelas cólicas lancinantes que me custavam dias de aula e um sofrimento que qualquer mulher com o mínimo de empatia pode mensurar. Recebi alta após uma recuperação bem-sucedida, mas não foi nada legal quando voltei ao colégio e escutei a Nat dizendo a uma amiga:

— Por que ela não morreu, hein?

Ela disse alto o bastante para eu ouvir.

Santa eu nunca fui, mas nunca dei reais motivos para a Nat ser tão escrota daquele jeito. Ela desenvolveu um ódio visceral pela minha pessoa e fazia questão que eu soubesse disso. Pior foi essa que a desgraçada falou quando a professora de Química, a Eliete, estava fazendo a chamada e foi a minha vez de responder:

— Ela não veio. Tá com AIDS! — Zombou a Nat e só um garoto tão escroto quanto ela, o Erick, que por ser assecla dela, me tratava tão mal quanto, riu.

A Nat se enturmou com os embustes da sala, uns meninos que até poderiam ser tidos como bonitinhos por estarem dentro dos padrões, mas que não estudavam nada e alegavam "só pegarem modelos", achavam todas as meninas feias. Para eles, só loiras dos olhos azuis, morenas (de cabelo, não de pele) dos olhos verdes, a fulana de tal.

Do outro lado, eu trouxe a Dinha para o meu grupo e fiz meus aliados. A Joyce acendia uma vela para Deus e outra para o diabo, sabia que a Nat não gostava dela, mas a bajulava de um jeito que me dava nojo porque até a Dinha se mancou que a bruaca era maldosa e foi acolhida pelos meus amigos, a Joyce demorou mais para atinar que não era bem-vinda do lado de lá.

Tenho gratidão pela Carol, que fazia dependência de Matemática em nossa turma, pois quando lhe contei sobre a bruaca que me infernizava, de quando a Karimy tentou roubar meu diário e eu quase meti a mão na cara dela (a Nat queria o meu diário), a Carolzinha chegou nessa Nat e deu uma prensa nela, não necessariamente um merecido tapa na cara (presente meu!), só a colocou no devido lugar.

Então, não, eu não tenho um pingo de dó se o Prof. Divo reprovou a Nat. Ela fez por merecer. Ele não tinha piedade de reprovar aluno vagabundo, que passou o ano inteiro levando tudo na brincadeira, o caso dela.

Eu não passei em matemática na base do cambalacho, da cola. Logo que voltamos das férias e eu não recebi o boletim, me programei mentalmente: na aula de matemática eu não estava disponível para conversas e só tinha olhos para o Prof. Divo, no bom sentido. Prestava atenção em tudinho que ele dizia, fazia as anotações, voltando para casa já fazia as tarefas todas e adiantava os trabalhos, estudava muito para as provas e a recompensa veio: tirei mais do que precisava para ser aprovada por média e, sem querer me gabar, mas já me gabando, afinal de contas, foi mérito meu, meuzinho, contam rumores que eu era tida como uma das melhores alunas da escola.

Por quê?

Até aquele ano, todo final de semestre era aplicado um Provão, ele valia três pontos na média final em TODAS as disciplinas. O formato desse Provão me lembra o antigo vestibular da UFPR, três dias de prova separados por área: primeiro dia exatas, segundo dia português e redação, terceiro dia história, geografia e biologia.

Minhas notas do primeiro semestre foram razoáveis, mas acima da média dos meus colegas, embora eu não estivesse me dedicando tanto. No final do ano, meu desempenho foi excelente. Para uma negação em Física, tirei a nota mais alta em exatas e olha que estudei com uma moça que hoje é médica, em Português fechei com outro recorde, não à toa quando fui visitar meus amigos no começo das férias, o pessoal me tratava como se eu fosse uma lenda. Mérito meu, amore.

Oportunidades o Prof. Divo deu: tarefa de casa, trabalho para entregar, marcava prova com antecedência, sem falar que os preparativos para o Provão também ajudavam. Se a Nat preferia gastar o tempo dela me aborrecendo, sinto muito. Não tenho dó.

Sim, parece que eu falei um monte e não disse nada, não é?

Mas você se engana.

Eu não estou me expondo ao contar situações que passei em minha vida à toa. Às vezes você confia seus segredos para uma Nat e tem ranço de uma Ana sem nem sequer conhecê-la e numa das tantas voltas que a vida dá, há grandes chances de que quem venha a te estender a mão seja a Ana... porque a ajuda vem de quem você menos espera.

A Nat está só no aguardo de um tropeço seu para te dar um chute na boca do estômago. Você pensa que a Ana te julga assim ou assado, mas às vezes ela só não se aproxima porque sua postura pode ser reativa ou por... medo. Isso mesmo, medo. Talvez ela te queira bem, talvez quanto ela pergunte se "está tudo bem" não seja algo mecânico e banal, ela tenha real interesse em saber o que se passa.

Se eu pudesse dar um bom conselho para o meu eu de 14 anos, aquele que começou o primeiro ano com ranço da Ana só porque a via rindo com os meninos, eu diria para essa garota que a outra não era inimiga nem um monstro de sete cabeças e quarenta e nove tentáculos, mas uma menina como ela, uma menina também estranhando o ambiente numa nova escola, tentando de todas as formas encarar o medo.

Ser educada e gentil, abrir um sorriso, dizer uma palavra amiga, nada disso custa caro. Fazer o bem nunca será uma tolice. Julgar, sim. Porque quando agimos com a empáfia de nos apossarmos de uma razão que não nos pertence, nos esquecemos de que quando apontamos o dedo indicador em riste para acusar a outra de algo, há TRÊS dedos mirados na nossa direção.

Não, ela não é assanhada por dar risada, não é piranha porque faz isso e mais aquilo. Ela não é o problema. Tem algo mal resolvido dentro de você que te torna obcecada em perseguir a Ana, crente de que apagando a luz dela, a sua brilhará, mas se existe luz nela, por que não existiria em você?

O gramado dela só é mais verde porque ela toma conta dele no lugar de jogar ervas-daninhas nos gramados alheios. Se você cuidar do seu, lindas flores brotarão. Pode demandar um tempo de dedicação, você terá de ser paciente, mas vale a pena ser mais você e não ver a outra, que pode se chamar Ana ou não como inimiga.

Afinal de contas, qual é a disputa?

Não há um pódio imaginário nem medalhas de bravura em jogo.

Se a questão é estilo, você pode se inspirar no da Ana e dar um toque pessoal, pode transformar esse "ranço" numa inspiração para ressaltar tudo de mais belo que existe em VOCÊ. Fofoca é tempo desperdiçado. Tudo bem também se não rolar empatia e a sua Ana ter mais aspectos de Nat, você não é obrigada a gostar de uma pessoa, mas respeitá-la é o mínimo, só nunca permita que ninguém pise na sua dignidade.

É fácil se sentar na carteira do fundão, ver a Ana linda e sorridente e criar suas próprias teorias da conspiração, usar o nome dela para criar contendas entre colegas, levantar falso testemunho, mas faça uma análise de consciência se vale a pena nutrir ciúmes, inveja, sei lá... se talvez seja apenas o seu orgulho freando o desejo de fazer uma nova amiga.

A Ana é como você e eu, também tem dias sombrios, problemas, sofrimentos, espinhos no peito. Fico feliz de hoje escrever sobre minha colega e pensar no quanto ela me ensinou e que a lição que aprendi com ela tem ternura porque todas as fake news que circulavam caíram por terra quando a garota mostrou solidariedade, empatia e bondade nos momentos em que as outras agiam com egoísmo, indiferença e má vontade.

O ódio só mudou de alvo, mas no coração dela permaneceu o mesmo. O que Nat ganhou me machucando eu não sei, nem quero saber, porém me orgulho de nesse sentido saber que agi da maneira mais correta, parar de falar mal da Ana Carolina e conhecê-la de verdade, me permitir isso, porque o tempo, senhor de razão, mostrou quem fechava comigo e quem queria puxar o meu tapete.

A vida tem dessas coisas.

25 de Novembro de 2020 às 17:14 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Mary uma joaninha itinerante que atende por Maria, Mary, Marisol, que ama previsão do tempo e também contar histórias. na maior parte do tempo, invisível.

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