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riadalap Thays Diniz

Ana nunca esteve tão bela como naquele momento que a mantinha em seus braços. Lembrava-se do seu último sorriso quando a viu admirar um Ipê Amarelo e capturou o exato momento que um beija flor sugava o seu néctar. O sorriso que iluminou o seu dia, que fez o seu coração bater descompassado e que a fez desejá-la somente para si.


Horror Histórias de fantasmas Para maiores de 18 apenas.

#Minas-Gerais
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As várias faces do amor

(…) Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz ...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.

E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

Serra do Rola-Moça

Mário de Andrade


Ana respirou o ar puro da serra e com os olhos atentos admirava as belezas locais. Distanciou-se um pouco do grupo para fotografar uma canela-de-ema com as pétalas lilases ainda banhadas pelo orvalho.

Quando voltou para a trilha avistou Beatriz esperando-lhe próxima a bifurcação, a garota loira a observava com um sorriso largo no rosto. Correu até ela, no fundo se sentia um pouco culpada por atrasar a caminhada da amiga. Parou colocando a mão sobre os joelhos e perguntou um pouco ofegante:

- Obrigada por me esperar. Então qual é o caminho?

- Por aqui.- Beatriz apontou a trilha da direita. - Não devem estar muito longe.

Os minutos passaram agradáveis a medida que caminhavam pela trilha. Ana caminhava distraída com a fauna e flora local, parando uma hora ou outra para eternizar uma bela imagem com sua câmera.

Beatriz a observava de soslaio admirando os cabelos castanhos bagunçados pelo vento e a tez queimada pelo sol. Com a proximidade de Ana, podia sentir seu perfume de flores silvestres. Deleitava-se ao observar o corpo esbelto da garota a medida que as roupas aderiam cada vez mais ao corpo suado. Obrigava-se a memorizar cada gesto da outra para guardar para sempre aquele momento em suas lembranças.

Os minutos transformaram-se em horas e quando o calor se tornou insuportável Ana parou a beira de um riacho para se refrescar. Em seu íntimo sabia que haviam se perdido não havendo sinal do grupo em lugar algum, apenas o barulho das aves e da água cristalina correndo entre as rochas. Escolheu as melhores palavras para não apavorar Beatriz, sabia o quando amiga possuía um humor instável.

- Acho que deveríamos voltar pela trilha, podemos ter virado na direção errada na última bifurcação.

- Não se preocupe Ana, estamos no caminho certo apenas nos atrasamos um pouco. Os outros devem estar nos esperando em alguma sombra, precisamos apenas apressar o passo para alcançarmos.

- Não há pegadas na trilha Bia, nada que indique que passaram por aqui.

- Você virou uma especialista em selva agora? - Beatriz assumiu o seu peculiar ar zombeteiro. - Se não confia em mim, ligue para o João.

- Celulares não possuem sinal aqui.

- Então é melhor continuarmos em frente, tenho certeza que o grupo seguiu a trilha da direita.

Ana levantou-se em silêncio e seguiu Beatriz pela trilha que se tornava cada vez mais estreita e cheia de obstáculos. Exaustas, caminharam até as ruínas de um velho forte que se erguia no meio da mata. Dividiram os alimentos e o restante da água que possuíam

Ana encostou-se em sua mochila sentindo a dor que se espalhava pelas suas pernas, seria incapaz de levantar-se e dar mais um passo, resolveu permanecer ali por alguns minutos antes de continuar. Olhou para Beatriz que ainda estava distraída tirando pedrinhas que haviam entrado em seu tênis, resolveu fechar os olhos e relaxar um pouco.

Levantou-se com um salto ouvindo o barulho dos tambores, com o coração acelerado enxergou apenas a luz pálida que entrava pelas frestas banhando o interior do forte. Dirigiu-se em silêncio a entrada tentando não tropeçar nos entulhos espalhados pelo chão.

Observou estarrecida que homens cercavam as ruínas, rostos descarnados e corpos cobertos por chagas, o cheiro pútrido enchia o ar a deixando nauseada. Sentiu uma mão em seu ombro e em um impulso pôs-se a correr, tropeçou em algo e foi de cara no chão. Dedos ossudos seguraram seu braço obrigando-a encarar as órbitas vazias onde os vermes faziam morada, gritou horrorizada se debatendo contra aquilo que julgou ser um homem. O corpo se despedaçou sobre o seu quando Beatriz o acertou com um galho de árvore. Não teve tempo para se recuperar sendo puxada pelos braços da amiga e recomeçando uma corrida desenfreada pela mata. Sentia a vegetação cortar o seu corpo, mas não possuía coragem de parar e muito menos de olhar para trás.

Agarrou-se a um aglomerado de pedras tendo apenas o luar a guiá-la na descida ao grotão. Sentiu a pedra soltar-se na sua mão e em uma tentativa desesperada de se segurar puxou Beatriz consigo para o fundo da depressão. A dor invadiu seu corpo a medida que se chocava contra o solo, sentiu o gosto metálico do sangue invadir sua boca, quando finalmente parou de rolar permaneceu por alguns segundos estirada no chão escutando as batidas do próprio coração. Reuniu a coragem e as forças que lhe restavam para se levantar, sentiu uma profunda dor em seu tornozelo que a fez desistir de se manter em pé. A escuridão a impedia de enxergar a sua volta e um silêncio mórbido engolia até mesmo os barulhos característicos da mata. Gritou desesperadamente por Beatriz sem obter resposta. Tremendo de medo e frio abraçou-se ao seu próprio corpo deixando que as lágrimas banhassem sua face.

Uma voz doce sussurrou em seus ouvidos:

- Um amor por uma vida.

Olhou espantada em direção da voz e no mesmo instante seu coração parou de bater e o sangue gelou em suas veias. A mulher de cabelos negros desgrenhados ainda presos em um véu, metade do seu rosto estava deformado e os farrapos do vestido branco não cobriam a carne devorada pelos vermes e os ossos quebrados. Ela vinha montada em uma carcaça de cavalo, a encarando com olhos frios e mortais.

O impacto da pedrada a deixou atordoada, levou as mãos ao local sentindo o líquido viscoso que jorrava, virou-se encontrando os olhos verdes impassíveis de Beatriz. A sua cabeça ecoava, seus pensamentos se tornaram distantes e sentiu o seu corpo desfalecer. Bia largou a pedra no chão e amparou-a em seus braços, sussurrando palavras incompreensíveis ao pé de seu ouvido.

Ana nunca esteve tão bela como naquele momento que a mantinha em seus braços. Lembrava-se do seu último sorriso quando a viu admirar um Ipê Amarelo e capturou o exato momento que um beija flor sugava o seu néctar. O sorriso que iluminou o seu dia, que fez o seu coração bater descompassado e que a fez desejá-la somente para si.

Encostou os lábios nos dela que agora encontravam-se frios e rígidos, os olhos semiabertos ainda a fitavam de forma acusadora. Depois de tudo o que passou Ana deveria compreendê-la e amá-la, mas sua face mumificada demostrava apenas horror. Não era sua culpa se o destino de Ana não lhe pertencia, ela apenas pagou um pequeno preço pela sua vida.

24 de Novembro de 2020 às 15:29 2 Denunciar Insira Seguir história
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Biana Vendramini Biana Vendramini
É um conto bem enigmático com muita dose de mistério e suspense. Acho que no final fica aquela questão onde se abre um leque para várias interpretações, mesmo que vc já tenha deixado claro anteriormente que existe um final sólido. Vc vai postar a segunda parte?
November 24, 2020, 16:39

  • Biana Vendramini Biana Vendramini
    Acabei de ver que tem a segunda parte kkkkkkk é que não tinha aparecido pra mim antes kkkkk November 24, 2020, 16:41
~

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