lualua_ Lua Silva

Herdeiros de reinos vizinhos que um dia foram um só. Elize e Attlas vivem em pé de guerra, mas o desejo comum de estabelecer uma aliança entre seus povos os aproxima e se sobressai frente a tantas desavenças.


Romance Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#medieval #romance #guerra #herdeiros #trono #irmãs #família #governo #monarquia #reino
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Capítulo I

Alternei meu olhar entre meu pai e minha mãe, as principais pessoas naquele quarto repleto de visitas.

Rei Xavier, soberano do reino Luthier, e sua filha Lorelai, eram presenças ilustres em nosso reino naquele dia.

ㅡ Ela é uma graça ㅡ o Rei disse se aproximando da cama onde minha mãe descansava e observou Juliet, nossa irmã recém-nascida.

ㅡ É tão linda, tem seus traços, senhora Grace ㅡ Lorelai completou enquanto enrolava um de seus cachos dourados na ponta do dedo.

ㅡ Para mim ela tem cara de joelho ㅡ Attlas resmungou ao meu lado, na porta do quarto, num tom tão baixo que só eu pude ouvir.

Attlas era dois anos mais velho que eu, ou seja, eu o conhecia desde que nasci. Apesar de morarmos em casas separadas ele vivia na minha, ou eu na dele, acompanhando meus pais. Isso quando não estávamos todos juntos na casa de nossos avós.

Ele era adotado, e todos, inclusive ele, sabiam e lidavam bem com isso. Meu tio Elias, que também era adotado, o achou ainda bebê, abandonado num cesto às margens de uma estrada numa de suas viagens a negócios, e ele o resgatou. Sua esposa, minha tia Odete, nunca conseguiu engravidar e o menino preencheu o vazio que havia em seu coração. Tio Elias era filho de uma das criadas da minha avó, ela adoeceu e morreu quando ele era apenas uma criança, então meus avós o criaram como um filho, assim como ele criava à Attlas.

ㅡ Não fale assim da minha irmã! Ela é linda ㅡ dei um tapa em seu braço e ele arregalou os olhos castanhos assustado.

Todos da família também tinham olhos castanhos, mas os de Attlas eram diferentes, eram como o mel, assim como seu cabelo, liso e curto. O medalhão em seu pescoço com o brasão de Fordes, um reino ensolarado e distante de onde vivíamos, e o nome “Attlas” gravado ao fundo dele, era a única lembrança que ele tinha de sua terra natal. O medalhão estava em seu pescoço desde o dia que meu tio o achou, e nunca saiu de lá desde então.

ㅡ Eu não disse que ela não era linda ㅡ ele me olhou irritado e continuou. ㅡ Só que ela tem cara de joelho... ㅡ ele deu de ombros e o choro de Juliet chamou minha atenção antes que eu pudesse respondê-lo.

ㅡ Vai começar o chororô... ㅡ ele resmungou mais uma vez e eu o olhei fervendo de raiva, mas Attlas continuou: ㅡ Você já está acostumada com isso, não é? Ouviu o choro de quatro bebês depois de você, agora cinco ㅡ ele riu ㅡ não se irrita em nenhum momento com isso?

ㅡ Não ㅡ cerrei os punhos. ㅡNada me irrita mais do que você ㅡ Attlas tinha o dom de me irritar como ninguém, nossos momentos de paz ficaram no passado, quando éramos bebês.

De certa forma ele estava certo. Eu havia me acostumado com bebês e todo trabalho que acompanhava seus nascimentos. Rebecca nasceu quando eu tinha apenas dois anos, não me lembro de muita coisa, assim como quando Hadley nasceu, um ano depois. Quando completei cinco anos e me acostumava com as duas irmãs, April nasceu, mais três anos e Cora veio ao mundo. E agora, aos meus onze anos, Juliet chegou.

ㅡ Chata ㅡ ele disse ofendido.

ㅡ Mimado ㅡ rebati.

ㅡ Crianças, comportem-se ㅡ minha avó paterna, Esther, advertiu fazendo um sinal de silêncio.

Ela estava mais próxima de nós, enquanto meu avô Olavo, governador de nosso reino, e meus tios conversavam distraidamente com o Rei e meu pai.

Diferente de outros lugares, em Ensys, não aderíamos a monarquia, mas sim a uma divisão de poderes em setores, com líderes em cada um deles, e meu avô era o líder soberano de todos. Semelhante a monarquia, havia a passagem de poder por hereditariedade, que estava na minha família desde a criação desse sistema pelo meu tataravô, talvez um dia esse poder chegasse até mim, ou Attlas.

ㅡ Desculpe vovó, mas foi o Attlas quem começou ㅡ apontei para o garoto que agora estava mais alto do que havia percebido na última visita. Attlas estava crescendo rapidamente.

ㅡ Foi o Attlas quem começou ㅡ ele me imitou forçando uma voz fina e anasalada.

ㅡ Lizie ㅡ minha mãe chamou minha atenção antes que eu voasse em cima dele.

ㅡ Sim, mamãe ㅡ dei um passo para dentro do quarto e ela gesticulou para que eu me aproximasse.

ㅡ Faça companhia à Princesa Lorelai. Vou dar um banho na Juliet, depois amamentá-la, sua avó e sua tia vão me ajudar ㅡ ela sorriu cansada e eu foquei meu olhar em seus olhos rodeados de olheiras.

ㅡ Tudo bem ㅡ assenti e sorri me despedindo da minha tia e avó. ㅡ Vamos ㅡ apontei para a porta onde meu pai saiu com o irmão, meu avô e o Rei, sendo seguidos, para meu alívio, por Attlas.

ㅡ Trouxe um presente para você, um vestido, pedi que deixassem em seu quarto, vamos vê-lo ㅡ minha amiga disse sorridente assim que saímos do quarto.

Lorelai era um ano mais velha que eu e era tão amiga minha quanto de Attlas. Nos conhecíamos desde pequenos, nossos pais sempre foram bons amigos e parceiros de negócios. O Rei Xavier mantinha a paz de seu reino com o nosso, já que éramos fronteiriços.

ㅡ É muito lindo ㅡ aproximei o vestido azul ao corpo e dei um giro ㅡ obrigada Lorelai, é minha cor favorita.

ㅡ É, eu sei. Por nada ㅡ ela riu animada e sentou-se em minha cama enquanto eu me olhava no espelho.

ㅡ Não vou ganhar nada dessa vez? ㅡ Attlas surgiu na porta do quarto e eu vi seu reflexo no espelho.

ㅡ Não Attlas, papai achou inapropriado que eu desse presentes para um menino que não seja meu pretendente ㅡ Lorelai explicou enquanto eu guardava meu presente no armário.

ㅡ Credo ㅡ Attlas falou com seu típico tom de nojo. ㅡVocê não é muito nova para isso?

ㅡ Sou ㅡ ela expirou. ㅡMas papai se preocupa com meu futuro e quer arranjar alguém para me assegurar um bom casamento em alguns anos.

ㅡ E você não pode fazer nada? ㅡ voltei minha atenção para Lorelai.

ㅡ Não Elize, só fugir por quanto tempo conseguir... ainda brinco de bonecas, não quero me casar.

ㅡ Eu também não ㅡ Attlas completou. ㅡ Espero que meu pai nunca pense nisso ㅡ ele balançou a cabeça e se encostou na parede.

ㅡ E se pensar, as chances de alguém aceitar se casar com você são quase nulas ㅡ falei o tirando de devaneios.

ㅡ E com você também ㅡ ele retrucou e endireitou a postura.

ㅡNão briguem por favor, vamos fazer algo juntos ㅡ Lorelai interveio.

ㅡ Eu vim aqui a pedido da tia Erin ㅡ Attlas disse após respirar fundo. ㅡ Ela nos convidou para um piquenique nas árvores dos fundos.

ㅡ Aquelas com os balanços? ㅡ os olhos azuis de Lorelai se arregalaram de tanta alegria.

ㅡ Sim! Vamos ㅡ o garoto caminhou para fora do quarto e minha amiga o seguiu.

ㅡ Vamos ㅡ ele gesticulou para mim quando percebeu que eu permanecia imóvel.

ㅡ Acho que vou ficar aqui e ir ver se a mamãe precisa de ajuda ㅡ desconversei. A verdade era que eu gostaria de ouvir a conversa de meu pai e seus amigos, e assim talvez, descobrir o porque dele andar tão esquisito nos últimos meses.

ㅡ Elize, sua mãe está bem, você precisa se divertir um pouco ㅡ Lorelai tentou me convencer.

ㅡ Suas irmãs, todas elas ㅡ Attlas enfatizou ㅡ vão também. Ajude a tia Erin a controlá-las.

ㅡ Elas não precisam serem controladas ㅡ rebati sua ofensa.

ㅡ Não é o que parece... ㅡ ele sussurrou.

ㅡ Liz... ㅡ Lorelai me olhou e eu lembrei do pedido de minha mãe. Não podia decepcioná-la ou desobedecê-la.

ㅡ Tudo bem, eu vou ㅡ caminhei até ela. ㅡ Por você e pela tia Erin. Somente ㅡ encarei Attlas antes dele se virar e nos guiar até o local escolhido por nossa tia.

Tia Erin estava sentada numa toalha xadrez, protegida pela sombra da árvore, e distribuíndo alguns sanduíches da cesta sobre ela. Hadley lia um livro encostada numa árvore sem balanço, April se balançava em um dos balanços, Rebecca comia e Cora tentava desmanchar o penteado no cabelo longo de nossa tia.

Após cumprimentá-las Lorelai correu para o balanço vazio, só havia mais um além do ocupado por April, e Attlas se ofereceu para balançá-la. Depois de alguns minutos, Lorelai desceu e apontou para que eu fosse.

ㅡ Sua vez. Eu te balanço ㅡ Attlas disse segurando as cordas do balanço.

ㅡ Você vai me derrubar ㅡ analisei o brinquedo e não me sentei nele.

ㅡ Não vou te machucar... Lizie ㅡ ele usou o apelido que eu só permitia ser usado por minha mãe.

ㅡ Para você é: Elize ㅡ corrigi. ㅡ E não foi o que aconteceu no dia que quase me matou afogada.

ㅡ Eu estava te ensinando a nadar.

ㅡ Seus métodos eram duvidosos e perigosos.

ㅡ Talvez... mas você aprendeu a nadar comigo e é o que importa, Lizie ㅡ ele sorriu convencido, aquele sorriso que me dava raiva.

O encarei brava mais uma vez.

ㅡ Tudo bem Mileide Elize, sente-se no balanço ㅡ ele fez uma reverência e apontou para o balanço.

ㅡ Eu vou, mas não preciso que você me balance. Posso fazer isso sozinha ㅡ segurei as cordas do balanço.

ㅡ Eu quero ir agora! ㅡ Rebecca gritou saltitando em nossa direção.

ㅡ Não Rebecca, é a vez da Elize ㅡ Attlas explicou e eu previ o que estava por vir.

ㅡ Mas eu quero! ㅡ Ela bateu o pé no chão, cruzou os braços e começou a chorar.

ㅡ Vai, pode ir ㅡ me rendi, o que eu menos queria agora era aturar a birra de minha irmã. ㅡEu vou comer com a tia Erin.

ㅡ Então eu também vou, vamos Lorelai ㅡ Attlas disse me seguindo e sendo acompanhado por Lorelai.

Nos sentamos com tia Erin e ela nos deu sanduíches e frutas deliciosas.

ㅡ Hadley! Larga esse livro, vem pegar um pedaço de bolo ㅡ Erin gritou tentando tirar minha irmã do mundo da lua. ㅡ Nunca pensei que fosse dizer isso há uma criança, “largue esse livro" ㅡ ela balançou a cabeça confusa.

Tia Erin era tutora, nos ensinou tudo que sabíamos e ensinava a muitas crianças e adultos do reino, pobres ou ricos, ela sempre estava tentando ensinar a todos. Ela era irmã mais nova de meu pai, e ainda não havia se casado, não por falta de pretendentes, mas porque não quis. Ela dizia que não tinha vocação para ser esposa ou mãe, e que ensinar era o que a fazia feliz. Ela era tida como a estranha da família, e meu avô nunca desistiu de fazê-la se casar, já minha avó compreendia sua escolha.

ㅡ Ela puxou ao papai ㅡ comentei pegando mais um pedaço de bolo. Hadley veio, a contragosto, pegou o bolo e voltou para seu canto isolado.

ㅡ Vamos apostar uma corrida? ㅡ Attlas disse abruptamente chamando nossa atenção.

ㅡ Com a barriga cheia vai ser um pouco estranho ㅡ Lorelai limpou as migalhas de seu vestido rosa.

ㅡ Essa é a graça ㅡ ele se levantou num pulo. ㅡ Sabem que ninguém ganha de mim na corrida.

ㅡ Não pode ter tanta certeza ㅡ o encarei.

ㅡ Claro que posso, tenho treinado bastante, meu pai quer que eu seja um ótimo guerreiro, e eu gosto disso... não é tia?

ㅡ Sim meu bem, você tem treinado bastante, mas isso não significa que a vitória é certa.

ㅡ Vamos ver quem ganha, eu e Elize podemos te passar ㅡ Lorelai o desafiou.

ㅡ Vamos ver, mas garanto eu estou mais treinado ㅡ ele apontou para si mesmo.

ㅡ Podem ir, eu vou ficar, quero descansar ㅡ me deitei na toalha.

ㅡ Descansar do quê? Você só comeu ㅡ Attlas disse numa risada.

ㅡ Eu não vou.

ㅡ Não precisa ir Elize, se quer descansar, pode descansar. Vamos lá Attlas, corrida até a cerca ㅡ Lorelai disse apontando para uma cerca distante.

ㅡ Você está se sentindo bem? ㅡ o garoto disse confuso.

ㅡ Estou Attlas, vai logo.

ㅡ Cuidado, não saiam da minha vista! ㅡ tia Erin disse enquanto os dois disparavam pelo gramado. ㅡ O que está acontecendo? Percebi que você anda bem tristonha, calada...

ㅡ É por causa do papai e da mamãe ㅡ me sentei novamente.

ㅡ Como assim?

ㅡ Você sabe tia, eles... eles não são mais os mesmos. Desde antes da Juliet nascer eles estavam distantes, a mamãe se afastou de todos, o papai passou a ficar mais tempo fora. Durante a gravidez eles mal se falavam, eles não pareciam felizes como nas outras vezes que a mamãe engravidou, e agora é como se eles nem se conhecessem, estou preocupada, estou... triste. Eles se amavam tanto, e agora tudo acabou. Eu não entendo.

ㅡ Minha flor, adultos são estranhos. Eles passam por problemas difíceis para os mais novos, como você, entenderem... tente não se abater com isso, sei que é difícil, mas tenha fé de que tudo melhorará ㅡ ela acariciou meu rosto.

ㅡ É difícil tia, mas vou tentar ㅡ suspirei afastando a vontade de chorar que me tomava.

ㅡ Não deixe de viver, você é uma criança e criança tem que brincar, ser feliz ㅡ ela completou e olhamos para o lugar onde gritos de vitória ecoavam. ㅡ Veja só, o atrevido do Attlas ganhou mesmo!

ㅡ Oh não ㅡ revirei os olhos.

ㅡ Ele vai cantar vitória pelas próximas semanas até ninguém aguentar mais ㅡ tia Erin transformou meus pensamentos em palavras.

Attlas saltitava ao redor de Lorelai que não estava com uma cara nada boa.

ㅡ Elize! Estou cansada, vem me balançar ㅡ Rebecca gritou do balanço.

ㅡ Xiu! Silêncio! ㅡ Hadley esbravejou e voltou sua atenção ao livro.

ㅡ Eu também Elize! Eu também! ㅡ April pediu do outro balanço.

Me levantei com muito esforço, um minuto de paz era algo raro.

Me revirei na cama sem sono. Desde que as visitas se foram, dias atrás, tudo estava irritantemente tedioso. Eu não tinha o Attlas para brigar, nem a Lorelai para brincar. A tia Erin e Odete, com quem gostava de conversar, também haviam ido. Meus dias se resumiam a ser vigiada pela rígida e sem coração Madame Josephine, evitar que minhas irmãs brigassem ou se matassem e ajudar mamãe com a Juliet.

Me levantei num pulo, meu estômago roncava e com fome é que eu não conseguiria dormir mesmo. Peguei uma vela e desci as escadas até a cozinha. Peguei o pote secreto, meu pote secreto, onde Candice, nossa principal cozinheira, sempre me deixava guloseimas. Ela era como da família para mim.

Comi os biscoitos com gotas de chocolate apreciando cada momento de sabor, cada gota se derretendo em minha boca. Queria um dia poder comê-los sem culpa. Madame Josephine me proibia de comer qualquer tipo de doce, ela dizia que eu tinha tendência para ser gorda e que isso não era aceitável.

Guardei o pote e limpei as provas do meu crime: as migalhas. Caminhei cuidadosamente em direção as escadas mas vozes e gritos abafados chamaram minha atenção.

ㅡ A Juliet fica! ㅡ Ouvi meu pai gritar e abri uma fresta da porta de sua sala particular, o local de onde vinham os gritos.

ㅡ Ela é minha filha! ㅡ Outra voz masculina soou na sala e eu tentei abrir a porta um pouco mais.

Um rangido me entregou. Meu pai escancarou a porta assustado e eu encarei Phillip, o Conselheiro do meu tio, e minha mãe que segurava em seu braço.

21 de Novembro de 2020 às 23:33 2 Denunciar Insira Seguir história
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Jen MarS Jen MarS
Estou amandoo😍
November 28, 2020, 20:28

  • Lua Silva Lua Silva
    Aaa que bom! Fico muito feliz 😍😍😍❤❤❤ November 28, 2020, 21:05
~

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