u16015737231601573723 Marcos José da Silva

O que aconteceu durante os meses em que Daisy Johnson esteve vivendo como uma foragida, longe de seus companheiros da S.H.I.E.L.D? Além da morte de Lincoln, que outros traumas ela carrega consigo, ainda relativo ao período em que esteve sob o controle de Hive? Quais foram as missões em que se envolveu nesse período? As respostas podem ser algo que ela não está disposta a contar para seus velhos amigos, principalmente para Coulson.


Ficção científica Futurista Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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Prólogo

Daisy já estava sem dormir a quase 40 horas. A fadiga cobrava o seu preço e sem alternativa, tomou um banho morno, tentando deixar o corpo relaxado, antes de ir para a cama. Tudo o que ela queria era uma noite de sono sem sonhos. Fechar os olhos no escuro e só abri-los com a luz da manhã. Acordar sem sustos, sem o corpo suado, tomado por sensações diversas, sem sentir-se envergonhada por notar nele, os sinais de sua excitação. Sem ter de chorar por causa disso, por sentir-se enojada consigo mesma. Estava tão cansada de se odiar, desse sentimento de morte que a acometia, do desejo desesperado por algum tipo de paz. Raras eram as noites que as lembranças não vinham. No entanto, pior que as memórias daquele tempo, eram as sensações que, como ondas, atingiam seu corpo, sem que ela pudesse evitar. Além das lembranças dessas sensações, o que a atormentava era a constatação da perda, daquilo que era tão bom, e tão mau, ao mesmo tempo.

As lembranças que ficaram do período em que esteve sob o controle de Hive, eram dolorosas. Mais doloroso ainda, era lembrar a sensação de êxtase, sempre que se submetia ao seu comando. Da maravilhosa sensação de pertencimento que a criatura ocupando o corpo morto de Grant Ward lhe trouxe. Era um vazio que sentira a vida toda, que somente ao lado dele fora capaz de preencher. Ainda estava fresco em sua mente, o desejo de realizar todas as vontades daquela criatura, como se suas fossem, e na verdade eram naquele momento. Agora que tudo ficara para trás, só o que restou foi a dor de lembrar tudo isso. O sofrimento em ter de lembrar a felicidade perdida para sempre. A agonia que ela sentia agora, refletida em mais uma noite de pesadelos.

Era a mesma dor que ela sentia sempre que olhava para Fitz e Mack. O perdão do último só trouxe um alívio momentâneo em sua culpa e vergonha. Chorar abraçada a ele, sentir seus braços em volta, as palavras de carinho e perdão, só a fazia sentir-se pior. Daisy também não conseguia olhar para Fitz, àqueles olhos que ainda retinham certa inocência, e não lembrar como quase o sufocou até a morte. Era demais para ela sentir que desapontara Coulson e May, mesmo que eles tentassem assegurar-lhe que estava tudo bem, que estavam prontos a recomeçar. Olhar para Jemma, para aqueles olhos cheios de compaixão, e ver, lá no fundo, o receio refletido em ambos. Ela não conseguia ficar perto de nenhum deles. A morte de Lincoln só foi o gatilho que precisava para entender isso, para se afastar.

Daisy sabia que estava sendo procurada, principalmente por Coulson, mas sempre conseguia estar um passo a frente. Os dias seguiam agitados, com ela mantendo-se sempre ocupada, tudo para evitar ao máximo que sua mente vagasse por lugares sombrios, pelas lembranças que preferia enterradas bem fundo. Encontrar quem financiava os Watchdogs era a melhor maneira de conseguir isso. O problema era quando chegava a noite, quando a fadiga cobrava o seu preço e a jovem inumana precisava dormir. Os sonhos eram tão vívidos, embora quase não houvesse imagens. O rosto de Hive, na figura de Ward, aparecia para ela, sempre nublado e embaçado. Os sons vinham numa cacofonia que dificultava muito o entendimento. Ainda assim, havia as sensações.

A aspereza das mãos grossas, mãos que eram de Ward, em seu corpo, era a primeira dessas sensações. As sentia primeiro em seus ombros, ambos sendo segurados por essas mãos. Os dedos indicadores deslizando por suas clavículas, provocando-lhe arrepios, fazendo com que ela incline a cabeça em sua direção, sorrindo. Uma das mãos deslizando até a parte de trás do seu pescoço, apertando-o levemente. Era assim que Hive sempre começava a tocar nela, como que marcando a sua posse. Ele nunca tocou dessa maneira, nenhum dos outros inumanos que tinha sob seu controle, apenas ela. Hive lhe contou que retinha a memória e os sentimentos de todos os hospedeiros cujos corpos tinha ocupado. Fora isso que o fez poupar a vida de Jemma na Romênia, as lembranças de momentos com ela, que herdara de Will. A ideia de que o toque dele fosse um reflexo dos prováveis desejos de Ward, era mais um motivo para sua vergonha e desespero.

Daisy acorda pela primeira vez, será a primeira de outras ao longo da noite, assim como aconteceu em noites anteriores. Ela tinha um ar cansado, a respiração acelerada e um sentimento de tristeza que a consumia. Seu primeiro olhar foi para a cápsula de comprimidos no criado-mudo. Mal tendo surgido, a ideia morreu em seus pensamentos. A última coisa que precisava era se viciar em medicamentos para dormir. Pegou seu laptop, mas logo viu que era um gesto inútil. Estava cansada demais para ficar mais uma noite sem dormir, mesmo que fosse um sono intercalado pelas terríveis lembranças daquela época. Ela teria uma missão importante amanhã, um mínimo de descanso era necessário. A jovem inumana se deitou novamente, esperando por um pouco mais de sono, antes de tudo começar outra vez.

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Ela acorda gritando dessa vez, o corpo todo suado, a respiração acelerada, o coração batendo forte e um enorme sentimento de vergonha e nojo, ao notar os sinais de excitação em si mesma. Era como se ainda sentisse a aspereza das mãos dele em seu corpo, junto com todas as sensações que isso lhe causava. Desta vez os sons foram bem audíveis embora as imagens continuassem turvas. A voz de Hive, sussurrada em seu ouvido, sempre num tom baixo e monocórdio, a fazia arrepiar-se inteira, deixando-a tonta, inebriada, pronta para obedecer. Ela vê o reflexo de seu rosto no espelho, lembrando, para seu embaraço e desgosto, como nunca deixara de estar plenamente consciente de si mesma naquela época. Ainda era Daisy Johnson, fizera questão, aliás, de dizer isso a ele, que a chamou de Skye várias vezes, antes de se acostumar. Ela ainda amava os amigos que deixara na S.H.I.E.L.D, ainda os queria junto a ela. Queria para eles o que tinha naquela época, o que só aumentava a sua culpa e vergonha.

Daisy corre para o banheiro. Logo está nua debaixo do chuveiro. A água fria deixava-a trêmula, e era assim mesmo que queria. As lágrimas deslizavam abundantes por sua face, ao se dar conta, mais uma vez, que mesmo o frio não era capaz de manter as lembranças afastadas. Logo está enrolada em torno de si mesma, a água continuando a cair sobre seu corpo. Uma nova lembrança surge agora. Ela queria evitá-la, desesperadamente, mas não consegue. A imagem da mão de Hive em seu pescoço, apertando-o, ela encostada contra uma parede, indefesa. O pior de tudo, ela se lembrar que naquele momento sentia que merecia estar naquela situação, que era tudo culpa dela por tê-lo desapontado.

Daisy lembra-se bem de sentir tudo aquilo. Do seu corpo preso contra a parede, por nenhum outro motivo que apenas a vontade dele; de achar merecido a mão dele em seu pescoço, sentindo um aperto leve, mas nunca a ponto de sufocá-la.. Não que importasse, ela nada faria para impedi-lo. “Por que não matou o Fitz quando teve a chance?”, a pergunta veio num tom calmo, sem qualquer resquício de raiva, mas a decepção em seu olhar doeu mais nela do que se tivesse levado um soco. “Me desculpe”, ela disse com uma voz estrangulada, seu corpo ainda imprensado contra a parede, sentindo seu pescoço sendo apertado mais forte agora, sem que esboçasse qualquer reação para impedir. Em vez disso, tudo o que ela fazia era implorar, “Me desculpe”.

Poucas horas antes ela quase matara Fitz, o sufocara até perto do seu último fôlego, chegando bem próximo de quebrar-lhe o pescoço. Ver seu amigo de tantos anos sufocando, desesperado por conseguir respirar, a traqueia a ponto de se partir, a vida esvaindo em seus olhos, devia deixá-la triste. Em princípio, deixava sim, mas nada comparável ao que sentiu; ao se dar conta da decepção que provocara em Hive, por ter deixado Fitz vivo. Tudo o que Daisy sentia naquele momento era uma enorme tristeza por ter decepcionado Hive. Tudo o que ela queria, desesperadamente, enquanto era imprensada na parede, sentindo os primeiros sinais de falta de ar, era provar que faria todas as vontades de Hive. Seu único desejo naquele momento era mostrar-se digna de sua confiança, garantir que todos os seus planos se realizassem.

“Eu trouxe o Dr. Radcliffe, como você queria” – ela tenta se justificar, a mão dele ainda apertando, agora um pouco mais forte, seu pescoço, ela permanecendo sem esboçar qualquer reação para impedi-lo.

“E isso me deixou muito orgulhoso, Daisy” – ele responde, ainda mantendo o pescoço dela apertado, mas agora sorrindo para ela, que mesmo sufocada, esboça um sorriso também.

“Então por que está fazendo isso comigo?” – uma lágrima desliza por sua face ao notar que ele não sorri mais.

“Era para você ter matado o Fitz, seria o recado perfeito para todos eles” – o tom de voz de Hive ainda era baixo, sem sinal de raiva, mas as palavras seguintes dele feriram-na como ferro incandescente – “sua atitude me deixou muito desapontado, Daisy”.

“Me desculpe, me desculpe” – as lágrimas desciam abundantes pela face dela agora, enquanto implorava o perdão de Hive, o perdão por não ter matado o seu amigo.

Daisy continuava enrolada em seu corpo, a água fria ainda caindo abundante sobre. A lembrança daquele momento aumentando a sua angústia e o seu embaraço. “Nós estamos ligados”, ela podia ouvir a voz de Hive, como se ele estivesse do seu lado. “Eu sei”, era o que ela sempre respondia. A jovem inumana ainda lembra o quanto o som da voz dele deixava-a num estado de felicidade que nunca experimentara antes. O olhar dele sobre ela era quase sempre vazio, os olhos de um morto. Espreitava nesse olhar, algo que ela sabia ser maligno, mas não conseguia desviar-se. Muito ao contrário, ela sentia-se plena sob aquele olhar. Daisy podia ter matado Fitz se quisesse, esteve bem perto de fazê-lo, mas ainda o amava, ainda tinha esperança de tê-los todos com ela. Hive não gostou da piedade dela, da ligação que ainda mantinha com seus amigos. A decepção no rosto dele era como uma faca em seu peito, sentia-se triste por tê-lo desapontado, queria voltar no tempo e poder matar Fitz, tudo para mostrar que estava do seu lado, em qualquer situação.

“Eu vou perdoar você, desta vez, mas ainda estou muito decepcionado” – ele deixa de apertar-lhe o pescoço, passando a acariciar o seu rosto. Ela já não está mais imprensada contra a parede. A felicidade e o alívio que sente com o perdão de Hive é indescritível – “Me prometa que da próxima vez você não hesitará” – Daisy ouviu a demanda imperiosa.

“Eu prometo, eu prometo”, ela responde. O toque de Hive buscava ser delicado, mas as mãos dele permaneciam ásperas, deslizando pelo corpo de Daisy. Ela o abraça suspirando, grata, excitada e inebriada, como nunca estivera antes.

“Eu acredito em você”, ele diz, enquanto sorri para ela, que sorri também.

Agora, no entanto, enrolada sobre si mesmo naquele banheiro, a água fria encharcando todo o seu corpo, tudo o que ela sente com esta lembrança, é desespero. Ela queria ter morrido no lugar de Lincoln. Ele ter se sacrificado no lugar dela só aumentava a sua culpa. Não conseguia suportar ter decepcionado Coulson e May, não conseguia olhar para Mack e Fitz, não depois do que fez com ambos. Com Fitz foi uma tortura cruel, mas apenas como forma de ameaça, mas ela teria matado Mack se não a tivessem impedido. Teria feito isso e sentido uma enorme felicidade. Tudo o que Daisy queria era se provar leal a Hive, mostrar que se mantinham ligados por um laço indestrutível, que estava disposta a fazer tudo o que ele quisesse.

Daisy se lembra de tudo isso, se lembra da felicidade que não conseguia deixar de sentir, mesmo quase matando aquele que já considerava um irmão mais velho. Um irmão que ela nunca desejou tanto ter tido, até conhecê-lo. A jovem inumana tinha plena consciência disso na hora em que quase o matou. Ainda assim, a felicidade por seu ato fraticída esteve presente em cada soco que deu nele, em cada grito de dor que lhe infligiu. A felicidade dela num crescendo, toda vez que ouvia o barulho dos ossos dele quebrando, a cada gota de sangue que lhe arrancava, a cada demonstração de seu poder. Tudo o que ela queria naquele momento era se provar leal a Hive, e foi o que ela fez, até ser impedida por um tiro de ICER dado por May. Enquanto sua antiga OS e os outros fugiam com Mack, Daisy permanecia nos braços de Hive. Ela sentia o corpo dolorido pelo tiro que levou, mas a tristeza maior foi por não ter conseguido fazer a vontade daquele que a tinha nos braços naquele momento. Daisy se lembra de ter chorado de tristeza nos braços dele, não pela dor que estava sentindo, mas por não ter feito o que lhe prometera.

“Eu não consegui matá-lo, sinto muito”, ela implora pelo perdão de Hive mais uma vez.

“Está tudo bem”, Ele disse, enquanto a acaricia. Daisy é mantida em seus braços e sente-se imersa em total felicidade. Uma das mãos dele desliza suavemente do rosto ao pescoço, apertando-o delicadamente, dali continua descendo até o colo, o ventre e a perna, retornando rapidamente para voltar a acariciar o rosto dela – “Estou muito orgulhoso de você” – Daisy se lembra disso muito bem, da enorme felicidade que sentiu ao ouvi-lo dizer que se orgulhava dela.

“Eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida”, ela responde. Um enorme sorriso, em seu rosto banhado de lágrimas.

Era verdade, a jovem inumana constata isso, enquanto a água continua caindo sobre seu corpo. Daisy nunca se sentira tão feliz e completa como naquele momento, nos braços de Hive, ouvindo-o dizer que tinha orgulho dela. A felicidade que sentia era verdadeira, não era o resultado de algum tipo de possessão ou controle mental. Era parte dela, de um vazio que sempre sentiu dentro de si, finalmente preenchido. Ela faria tudo por Hive, mataria por ele, morreria por ele. Essa lembrança é tão dolorosa quanto verdadeira, Daisy sabia disso. Era uma verdade que não poderia negar, com a qual teria de conviver, até o fim da sua vida. A dor de compreender isso é tanta que a faz gritar em agonia, enquanto a água do chuveiro ainda cai sobre o seu corpo.

Notas Finais

19 de Novembro de 2020 às 16:38 0 Denunciar Insira Seguir história
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