diego-saldanhadss Diego Saldanha

Já que pode ser difícil de entender, explico: por aqui as premunições têm força de lei. Pode parecer um tanto absurdo, no entanto, tudo fica um pouco mais claro quando se descobre que o imperador, além de Chefe do Poder Executivo, acumula a função de Oráculo Oficial do Estado. Na verdade, desconsiderando os fanáticos do partido, todos nós sabíamos que nada disso aconteceria e que, das tantas premunições que não se realizam, graças às “intervenções prévias do governo”, essa seria apenas mais uma. "


Ficção científica Todo o público.

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I

Resolvi aproveitar o feriado prolongado na costa sul, única região cuja estadia tenho condições de pagar. Não tinha grandes planos, além de chegar na pousada, permanecer o tempo programado e partir. Não sou, aliás, alguém de grandes planos.

Para resumir, no primeiro dia, cheguei tarde da viagem e, como o sol já estava se despedindo, achei melhor não ir à praia. No meu quarto, liguei a televisão, atirei-me na cama e dormi até o outro dia. No segundo dia, aproveitei um pouco mais: acordei cedo e fui caminhar na praia, mais por determinação médica, na verdade, do que por prazer. Almocei alguns canilhos num bangalô, nadei por umas duas horas e depois voltei para a pousada. Sem nenhum motivo lógico, resolvi que tomaria um porre. Pedi algumas bebidas e acordei no início da tarde do último dia.

E assim meus três dias de descanso terminaram. Mais um quadro de poucas lembranças, este, por sua vez, emoldurado por uma dor de cabeça aguda que não esqueceria tão cedo.

Para evitar a luz do sol, pedi qualquer coisa para comer ali mesmo, no quarto, enquanto dobrava as camisas estampadas que mal usei. Liguei a televisão. Depois de alguns minutos de um programa de entrevistas, que deixei em volume baixíssimo, veio, finalmente, um hino heroico, combinado com as bandeiras dançantes de sempre. Era o comunicado do governo sobre o feriado. Eis o enfado:

- Caros cidadãos, comemoramos, nesta data, o feito do Grande Lotu que entraria, hoje, no quartel general da Ordem da Salamandra e, num ato de bravura, teria matado o líder rebelde Momom. Tenho uma felicidade imensurável de afirmar que, graças à premonição-lei número cento e vinte e sete, do Pai da Nação, Imperador Tortuma I, nosso governo desmantelou o núcleo insurrecional antes mesmo que ele existisse.

Era a voz do Imperador Tortuma VIII, nasalada, típica de um garoto mimado que eu gostaria de ter espancado durante o colegial, falando do feriado no qual celebrávamos algo que não aconteceu.

- Graças aos programas de distribuição de renda – continuou -, implementados desde a gestão de meu pai, o Imperador Tortuma VII, Lotu não precisou se tornar um guerreiro e hoje trabalha como assistente administrativo em uma grande empresa, uma das tantas que temos no nosso próspero país.

Já que pode ser difícil de entender, explico: por aqui as premunições têm força de lei. Pode parecer um tanto absurdo, no entanto, tudo fica um pouco mais claro quando se descobre que o imperador, além de Chefe do Poder Executivo, acumula a função de Oráculo Oficial do Estado. Na verdade, desconsiderando os fanáticos do partido, todos nós sabíamos que nada disso aconteceria e que, das tantas premunições que não se realizam, graças às “intervenções prévias do governo”, essa seria apenas mais uma.

Em consequência às várias premunições que referenciam o Grande Lotu, minha geração é recheada deles. Os pais, motivados pela mínima chance de que fossem os seus filhos os heróis da nação, batizaram-nos com o nome desse guerreiro hipotético. Na empresa em que trabalho, para ter uma ideia, somos uns dezoito Lotus, dos quais, incluindo eu, três são assistentes administrativos.

No fim das contas, nada muda, efetivamente. As vidas que couberam a nós independem dos nomes que tomamos. Esses dias até li uma reportagem que conjecturava o contrário. Segundo um sociólogo – sempre eles - cujo nome não me lembro, vivíamos, graças a esse movimento maciço de batismo, um fenômeno social: o país estava repleto de pessoas com personalidades difusas, melancólicas. Pura bobagem, eu não reclamo: graças ao futuro que não existiu, ganhei um feriado.

Arrumados os meus pertences, fui até a recepção para entregar a chave do quarto. A atendente olhou-me com cara de tédio.

- Sua conta deu quatro mil e duzentos e sete tortumos.

Caro. Mais caro do que eu havia planejado. Levei as bolsas até o porta-malas e dei partida. O carro deu uma engasgada, mas logo pegou no tranco. Meu automóvel, apesar de ter uns quinze anos, cumpre as suas funcionalidades. Sou um cara sozinho e não preciso de nada muito exorbitante.

Como serão seis horas de viagem, vou me dar o luxo de parar em uma quitanda e comprar algo para ir beliscando, ou uma fruta, ou um uope bem gorduroso. A vida que nos sobra, afinal de contas, é escolher entre as orientações médicas e o paladar.

17 de Novembro de 2020 às 23:35 0 Denunciar Insira Seguir história
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