silvamaro Gabriel Amaro moonna Lua Baldonado

Dois cavaleiros finalmente se encontram para um duelo final em nome da honra, mas um dragão atrapalha o momento decisivo. Quem sairá vivo? História participante do desafio "O Dragão de Duas Cabeças" da Copa dos Autores 2020.


Fantasia Medieval Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#medieval #duelo #dragão #theauthorscup #TheTwoHeadedDragon
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Sobrevivência

REVEZO A MINHA ATENÇÃO ENTRE O DRAGÃO que acabou de invadir o local onde estou batalhando com o homem diante de mim, recordo-me de suas feições mesmo após três anos. O tempo parece não ter sido bondoso com Sir Cadman, seus traços duros eram visíveis através do elmo e as várias cicatrizes em seu rosto demonstram o inferno que enfrentou até ali; os olhos azuis estão destacados e cintilam com o prazer de finalmente duelar ao meu lado. O homem foi guiado àquele momento motivado pelo rancor, alimentou diariamente a dor que sentiu ao perder o pai. Porém, eu suspeito que Cadman sequer imagine a motivação que me levou a assassinar aquele maldito homem.

O sujeito era um ladrão conhecido na vila em que vivíamos, se preparava durante as madrugadas para atacar os moradores desavisados. Porém, teve a infelicidade de, em uma noite, esbarrar comigo. Com a minha vida ameaçada, precisei decidir rapidamente sobre qual atitude tomaria, visto que somente um de nós sairia vivo daquela situação. Ele estava em desvantagem pela lentidão causada pela idade, sendo assim, aproveitei um momento de distração e desferi um golpe certeiro em sua garganta com uma faca que carregava estrategicamente em minha cintura. Desfrutei o momento seguinte com pesar e alívio: o homem levou suas mãos ao pescoço, em uma tentativa inútil de estancar o sangue que jorrava através do corte. Entre arquejos e engasgos, o observei até o momento em que desabou no chão sobre os joelhos e, finalmente, morreu.

Volto a minha atenção para o animal que se prepara para nos atacar: é uma criatura bela e terrivelmente pavorosa, suas escamas possuem um tom avermelhado e os olhos são tão amarelos quanto um vasto campo de girassóis. O mais surpreendente não é o seu tamanho em si, mas as duas cabeças que coexistem no pescoço protuberante que se divide ao meio, abrigando-as. Estamos em uma masmorra profunda e escaldante, o que aumenta consideravelmente o risco de eu ser morto a qualquer momento.

Uma das cabeças se volta em minha direção e se prepara para me atacar, enquanto a outra se vira para o meu oponente. Seguro minha espada e o escudo com força nas mãos e utilizo os poucos segundos de vantagem para me desviar de uma cuspida de fogo lançada pelo animal. Lanço-me contra o chão da masmorra na direção oposta às chamas e, quase imediatamente, preciso me desviar novamente. Arquejo e me levanto com esforço, encaro os olhos da criatura que deseja me aniquilar e preparo-me para a investida seguinte. Olho rapidamente para Cadman e noto um sorriso no rosto do desgraçado. "Aparentemente alguém está se divertindo com o meu esforço", penso. Sinto a fúria invadir o meu peito e desejo ardentemente voltar para o nosso confronto.

Minha distração momentânea quase custa a minha vida: não noto quando uma das cabeças do dragão abre a enorme boca e cospe mais uma labareda em minha direção, ergo o escudo a tempo desajeitadamente. Porém, imediatamente sinto a dor excruciante em meu ombro esquerdo e meu corpo cai de encontro ao chão; as chamas me atingem em cheio. Não sei o que se passa nos momentos seguintes, mas ouço o grito angustiante de algo ou alguém. Rapidamente, recordo-me e associo a voz a acontecimentos traumatizantes de batalhas contra impérios inimigos. Vilas invadidas, mulheres estupradas e crianças mortas em forma de retaliação. Gritos e choros desesperados, pedidos de socorro, pessoas implorando por um pouco de comida. Fogo. Levanto desesperado e sinto a dor dilacerante em meu ombro mais uma vez. Olho ao redor, estou de volta a masmorra e tento localizar o meu escudo. Porém, visualizo-o completamente contorcido e derretido pelas chamas; o dragão está me encarando com uma das bocas aberta e pronto para me atingir com mais uma rajada flamejante. Não consigo me mover.

De repente, vejo Cadman avançar em direção ao dragão com a espada em punho; sinto um misto de surpresa e gratidão ao notar suas intenções. O animal não nota a sua presença e é o momento ideal para o ato que pretende executar: o homem atravessa a gengiva da criatura com a lâmina afiada, momentos antes de me incinerar com o fogo formado em seu âmago. Ele retira sua espada cravada na boca do animal, que ergue a cabeça e sopra a forte baforada no ar a sua frente. O dragão emite gritos dolorosos e observo quando o sangue escorre da abertura profunda em sua mandíbula. Encaro o homem e espero pelos seus próximos atos, temo que decida me aniquilar naquele exato momento, apesar de ter arriscado sua vida para salvar a minha.

— Essa cabeça é sua. Eu cuidarei da outra — Cadman diz, ofegante. — Faça seu dever direito ou nenhum de nós sobreviverá.

— Por que está fazendo isso? — Não consigo processar o que o homem diz, não faz sentido que tenha mudado de opinião tão rapidamente. — Você está aqui para me matar.

— Morrerei logo depois se não estivermos juntos na batalha contra isso. — O homem indica o dragão com o queixo, enquanto ergue o escudo. — Ataque as partes macias.

Mesmo atordoado com o golpe desferido por Cadman, o animal une as suas cabeças e foca os seus quatro olhos amarelados em nós. Por mais que o momento seja provavelmente breve, sinto como se esses instantes fossem eternos. Desvio o olhar para o meu antigo rival e pondero as possibilidades acerca das suas intenções: Cadman esperaria um momento de vulnerabilidade para me trair ou de fato estava disposto a cooperar em benefício de nossa sobrevivência? A dúvida só poderia ser sanada no decorrer da batalha, mas não me sinto confortável apostando minha vida de tal maneira.

Desvio o olhar para Cadman e tomamos a decisão silenciosa de nos separarmos, visto que não teríamos chances contra as duas cabeças se permanecêssemos juntos. Corro para o lado direito da masmorra e noto o homem seguir para a esquerda. As cabeças voltam a se dividir e o animal lança uma das patas contra mim logo em seguida. Atento, cambaleio o corpo na diagonal antes do impacto e corto um de seus dedos com um giro ágil da espada; a cabeça que se dedica a mim ruge com minha exibição audaciosa, puxando o fôlego para outro sopro de fogo.

O animal não se aproveitará de minhas distrações novamente. Ignoro a dor crescente do ombro carbonizado e salto para frente assim que o fogo irrompe da boca aberta do bicho, escapando da morte por pouco. Não perco mais tempo e decido adotar a estratégia mais arriscada possível, apostando na melhor recompensa que ela ofereceria: se eu conseguir escalar o pescoço do animal, poderei matar a cabeça pela qual me responsabilizei com relativa facilidade.

Enquanto ele ainda me procura após minha fuga desajeitada de seu sopro quente, lanço-me contra as escamas de seu pescoço e me agarro com a mão livre, elevando a outra perna para tentar montar no espaço mais estreito de seu corpo. Aparentemente ainda mais ultrajado com minha audácia, o dragão ergue a cabeça aos ares e tenta me chacoalhar para longe, sem sucesso. A dor em meu ombro aumenta gradativamente e é muito difícil permanecer ali enquanto seguro minha arma e resisto aos seus movimentos bruscos. Porém, minha sobrevivência depende de minha perseverança.

Escalo a superfície íngreme e monto no animal, que ainda tenta desesperadamente se livrar de mim. Engatinho cuidadosamente na direção de sua cabeça e noto que o outro crânio está imóvel: Cadman cumpriu seu objetivo corretamente. Ao atingir a altura máxima sem arriscar uma queda mortal, vejo que meu novo suposto aliado está preso nas garras do dragão; preciso agir rápido se desejo salvá-lo. Ainda que eu não esteja certo sobre a inesperada mudança de comportamento de Cadman, preciso retribuir o que ele fez por mim há pouco tempo. Firmando as pernas na nuca do dragão, seguro minha espada com as duas mãos e a finco em um dos olhos do animal, girando a arma e matando-o lentamente.

Com minha espada em mãos, salto da cabeça sem vida e observo meu antigo algoz caído ao meu lado. Ofereço a mão livre para ajudá-lo, mas ele se levanta por conta própria, afundado em sua teimosia. Eu repreenderia sua insistência em nos transformar em rivais, porém, nós encaramos as paredes escaldantes da masmorra assim que as ouvimos trepidarem, a lava começa a descer com mais velocidade.

— Temos que ir agora! — eu grito e logo avanço para a saída. — Se apresse!

Tento manter um ritmo estável para que Cadman não fique para trás; o homem parece sofrer com os ferimentos conquistados ao fim da batalha. Chegamos ao longo corredor que leva à escadaria em espiral, a única saída da masmorra, e meu coração se acelera cada vez mais. Eu estaria nos braços de minha amada em pouco tempo. Estou pronto para ser recompensado por minha insistência em simplesmente sobreviver: viveria o resto da minha vida em paz, rodeado por amor e felicidade. O pesadelo da perseguição de Cadman finalmente teria fim.

Atravessamos o corredor e seguimos pelos degraus com pressa. Meu plano é contar toda a verdade sobre a noite distante que terminou com a morte do pai de Cadman assim que atingirmos a superfície. Mesmo se o homem decidir não compreender meus motivos, estarei em paz sabendo que ao menos tentei. Rochas flamejantes e detritos em geral despencam pelo meio da escadaria e atingem a masmorra abaixo de nós; este acesso não estará disponível por muito tempo.

Apesar do som tenebroso dos projéteis atingindo o piso inferior, consigo ouvir a respiração de Cadman se tornar mais e mais ofegante. Em breve, ele será incapaz de correr. Logo, sua exaustão e nossas dores não importariam tanto: estamos a poucos degraus da liberdade. Como uma resposta imediata e cruel à minha positividade, uma rocha imensa atinge a escada em minha frente e causa o desabamento fatal de nosso caminho. Interrompo minha corrida e suspiro. Preciso estar disposto a qualquer coisa para reencontrá-la. Sem mais hesitações, atraso alguns passos e salto na direção dos degraus superiores. Consigo pousar em segurança, mas a dor insuportável em meu ombro faz meus dedos se abrirem durante a adrenalina e minha espada despenca com os detritos. Uma pena, mas pelo menos estou vivo.

Cadman segue meu exemplo e também pula, mas é atrapalhado por seu cansaço, agarrando o último degrau e tentando erguer o corpo inutilmente. Eu nunca encontrarei paz se não esclarecer de uma vez por todas nossa rivalidade e, além disso, nunca conseguirei conviver com a certeza de que o abandonei para sua morte. Me aproximo do homem e levanto seu corpo pelos cotovelos na segunda vez que salvo sua vida naquela masmorra. Agora o débito é dele.

— Estamos quase na saída — digo e sorrio ao visualizar a imensa claridade que nos aguarda. Minha amada me aguarda e a felicidade em finalmente escapar daquele lugar maldito não poderia ser maior.

No momento seguinte, sinto uma terrível dor em minha nuca e uma lâmina atravessa a minha garganta. O gosto metálico invade a minha boca e não consigo respirar; tento dizer algo, mas apenas murmúrios inaudíveis saem de minha boca. Consigo ouvir o som de engasgo enquanto o desespero toma conta de meu ser, levo as mãos ao pescoço e o arranho na tentativa falha de encontrar ar. Sinto frio e minha cabeça é invadida por pensamentos de minha família; o medo assola o meu peito e lágrimas escorrem por meu rosto enquanto minha visão se torna cada vez mais turva. Eu estou morrendo. Sinto um forte empurrão em minhas costas e caio sem esforços sobre o chão, arranho a imundície da masmorra e tento me levantar, mas consigo sentir a vida se esvair do meu corpo rapidamente. Ouço a voz distante de Cadman antes de partir.

— Isso é por minha família, verme.

O homem passa por mim e marcha em direção a saída, arquejo inutilmente e a minha visão se concentra em meus dedos inertes. Já não sinto o meu corpo e tento me agarrar ao pensamento que se esvai rapidamente de minha cabeça: o sorriso de minha amada. De repente, apenas escuridão.

13 de Novembro de 2020 às 07:13 2 Denunciar Insira Seguir história
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Neno Fernandes Neno Fernandes
Gostei muito de toda narrativa, é de fácil imaginação, angustiante e envolvimento com personagem/narrador. Muito bom mesmo, parabéns!
November 28, 2020, 13:38

  • Gabriel Amaro Gabriel Amaro
    Muito obrigado pelos elogios e por ler! November 29, 2020, 06:18
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