navled Delvan Sales

Uma noite de horror na vida de Eleanor. Qualquer coisa além disso ou entrega mais do que deveria, ou seria demasiadamente pretenciosa. Obs: essa história levou quase um ano para ser finalizada, começando num período em que eu estava completamente animado para ser um escritor, passando por períodos de total desinteresse e autossabotagem e enfim sendo finalizada em um momento em que me encontro totalmente indeciso sobre que rumo seguir na vida. Talvez publique outros contos, talvez este seja o último. Em qualquer caso, espero que gostem da leitura. obs²: torço para que peguem as referências :)


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#horror #conto
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É verdade que você conta os seus sonhos pro seu gato?

- Sonhei que chovia pássaros. O céu estava cor de sangue, - Eleanor pôs a mão direita no queixo, apoiando, e continuou - um sangue bem escuro, parecendo vinho, mas espesso como vitamina de abacate. É isso! Como se jogassem sangue numa vitamina de abacate!


O bicho a olhava com uma expressão de perplexidade, como se fizesse algum esforço para entendê-la.


Passos ritmados ao lado de fora do quarto anunciaram a chegada de Miguel - Já está na hora de dormir, filha! - Disse, encostando na porta.


- Mas eu ainda não terminei de conversar com o Limão, papai!


O gato se chamava Limão porque quando filhote costumava franzir a testa e pôr sua língua para fora, como se acabasse de lamber o limão mais azedo do mundo.


- Amanhã depois da escola você continua a conversa, meu bem. Precisamos acordar cedo, não quero que você passe o dia como um... - silenciou no ambiente por alguns segundos... então, repentinamente, a porta foi aberta velozmente com um estrondo - ZUMBIIII - e Miguel entrou no quarto imitando toscamente a voz e o jeito de um personagem de um filme de zumbi que ambos assistiram juntos há algumas semanas.


Eleanor e Miguel gargalharam. Limão assustou-se com a agitação repentina e saiu correndo do quarto.


- Papai veio aqui só para te dar um beijo de boa-noite e te dizer para sonhar com os anjos, meu bem.


- Papai, os anjos têm asas?


- Depende, docinho, conheço histórias de anjos de diversos tipos. Como você acha que eles são?


- Uhm… acho que têm! E têm harpas também!


- Show! Anjos à moda antiga!


- É! Mas… Será que não tem perigo deles caírem do céu?


- Claro que n - o som de uma buzina soou pela rua, invadindo as frestas da casa, entrando no quarto pela janela. Miguel imaginou o velho Clóvis resmungando e apertando a buzina de seu Ford F-6000 “cara larga” porque algum visitante do bairro havia estacionado de forma que o atrapalhava a sair, mas logo afastou essa suposição e recomeçou - claro que não, benzinho, os anjos nunca caem!


Em seguida Miguel cobriu Eleanor com uma grossa coberta com ilustrações de pássaros, deu um beijo em sua testa, levantou-se e se caminhou rumo à porta, quando escutou o barulho de um alarme destravando um carro, o que corroborou com a cena que criara mentalmente, então imaginou as próximas cenas dessa suposição: um morador saindo com seu convidado e desconcertadamente pedindo desculpas para o velho. Miguel sentiu como se acabasse de resolver de forma brilhante um grande mistério. Foi dormir.


Pelas frestas da persiana da janela entrava um pouco de claridade, em parte da lua, mas principalmente dos postes que, por estarem próximos ao quarto de segundo andar de Eleanor, tornavam os pássaros da coberta meio visíveis. Ao olhar para aqueles pássaros, Eleanor voltou a lembrar-se dos pássaros de seu sonho, caindo do céu como se fossem gotas de chuva.


- Benzinho… Está na hora de levantar, meu anjo - Eleanor abriu os olhos e avistou uma silhueta masculina, esfregou seus olhos esforçando-se para ver melhor, percebendo ser Miguel. A garota ficou com uma sensação estranha, pois jamais tivera dúvida sobre se a silhueta que lhe acordava todas as manhãs era de Miguel. Resolveu afastar essa sensação.


- Levanta e se arruma ligeiro que o café está nos esperando, querida.


- Certo, papai!


Ao chegar à mesa, Eleanor encontrou seu pai sentado mexendo em seu smartphone.


- É isso mesmo, meu bem! Hoje temos torradas com um suquinho de uva e, para encerrar com chave de ouro, uma bela vitamina de abacate! Fica sentadinha aí que o papai vai deixar tudo preparado pra você. - Miguel colocou as torradas num prato de porcelana vermelho, ao lado de um pote com manteiga, depois colocou a vitamina de abacate numa xícara e em seguida pegou a jarra de suco de uva para colocar num copo que estava ao lado do da vitamina, porém acabou enchendo demais a jarra e quando passava por sobre a xícara, por descuido, derrubou um pouco do suco de uva dentro do recipiente com vitamina de abacate. Na parte superficial da xícara os líquidos se misturaram formando uma espécie de vermelho-turvo. Aquilo, de alguma forma, soou familiar para a garota.


Enquanto olhava para aquela mistura, Eleanor sentiu um leve cheiro de queimado. Imaginou que viesse das torradas. Antes de comer cheirou, mas as torradas só tinham o típico cheiro amanteigado das torradas do Miguel. Forçou-se a ignorar o cheiro.


- É você ou a mamãe quem vai me buscar no final da aula?


Miguel ajustou seus óculos com os dedos indicador e polegar da mão direita e disse - Hoje sua mãe não poderá te buscar, benzinho.


Eleanor percebeu que a voz de Miguel soou diferente quando falou de sua mãe, como se lhe doesse falar dela.


O pai da menina levantou-se e caminhou na direção da pia. Repentinamente um estrondo invadiu toda a casa, como se a turbina de um avião houvesse caído sobre o telhado. No instante seguinte tudo voltou ao normal.


- Precisamos seguir com nossas vidas, meu bem. Vamos indo que senão perderemos o horário.


No carro tocava uma antiga música dos Beatles “ah, look at all the lonely people” e Eleanor olhava para as árvores à margem da rua. Era uma manhã de muitos pássaros. Ela pôde jurar por alguns segundos que um acompanhava o carro, porém quando tentou focar melhor nele, o bicho voou para fora de seu campo de visão.


Enquanto olhava para o céu à procura do pássaro, Eleanor avistou um avião, bem no alto, pequenino, como se fosse também um pássaro. Um pequeno pássaro com asas de metal perfurando as nuvens e compondo a imagem daquela manhã como algo natural, embora não fizesse parte da paisagem original da natureza. “De que adiantava aquelas asas metálicas se não houvesse combustível e grandes turbinas… turbinas?” Lembrou-se do café-da-manhã, do estrondo como se uma turbina houvesse caído sobre sua casa.


O cheiro de queimado voltou violentamente, seguido de um som familiar que ela não conseguia se lembrar onde havia escutado. Subitamente um caminhão de bombeiros passou bastante rápido ao lado do carro.


Eleanor encontrava-se em pé na frente de sua escola. Olhou para trás e viu Miguel acenando, despedindo-se. Seu coração disparou. Ela começou a sentir uma falta de ar crescente que escalonou rapidamente do “dia sem vento” pro “debaixo do cobertor num dia fodidamente quente de verão.” O cheiro de queimado ficou mais forte. O som voltou, agora percebia ser claramente ser o som de uma sirene, talvez de uma sirene de ambulância.


Confusa, com dificuldades para respirar e com sensações estranhamente familiares, a garota caminhou para dentro da escola. Na portaria Carlos, o menos pior dos porteiros por consenso unânime dos alunos, disse-lhe uma palavra que ela não entendeu, mas que sabia que conhecia.


Caminhando pelo corredor até sua sala, notou que todos ao seu redor lhe olhavam e repetiam a palavra que Carlos disse. Eleanor ficou surpresa quando Lívia, sua inimiga declarada desde de a pré-escola, fez a mesma coisa. Surpreendentemente até mesmo Eduardo, o temido e mal-humorado professor de física lhe disse: “XXXXXX!”


Eleanor ouvia com clareza o que todos lhe falavam, mas não conseguia entender. Era como se escutasse um termo conhecido de outro idioma mas que não se lembrasse do significado.


Ao chegar em sua sala de aula encontrou a porta aberta, embora todos os outros alunos e a professora já estivessem dentro. Parecia que estavam apenas lhe esperando. Todos olharam ao mesmo tempo para Eleanor. Por alguns segundos tudo ficou estático, como se alguém houvesse pausado um filme.


Eleanor olhou para as pessoas lhe encarando, para o chão, para o teto e para as janelas. Tudo ordenado como sempre esteve, mas como se nada realmente estivesse ali. Era como se tudo ao seu redor não tivesse cor, embora tivesse, ou, na verdade, era como se ela soubesse que tudo ali tinha cor. Mas as janelas não revelavam paisagem alguma. Mais pareciam quadros do que janelas. Contudo uma luz passava, era opaca, como se atravessasse fumaça até chegar em seus olhos. A luz alternava tons amarelados, azulados e avermelhados, sempre opaca.


A dificuldade de respirar havia aumentado substancialmente, o cheiro de queimado irritava seu nariz, o barulho das sirenes lhe confundia, aquela luz opaca alternava seus tons… a garota voltou sua atenção para as demais pessoas. Todos na sala apontaram para o quadro. Havia algo escrito lá. Eleanor passou a tossir compulsivamente, seus olhos ardiam, lacrimejavam, seus pulmões não captavam ar limpo. Com enorme esforço Eleanor focou no que estava escrito.


ACORDA!


Repentinamente, Eleanor conseguiu entender o que todos diziam. “ACORDA”. O teto da sala despencou, ela elevou seus braços sobre sua cabeça num instinto de autoproteção e fechou os olhos.


Não sentiu nada por alguns segundos, então abriu os olhos novamente. Percebeu que era a primeira vez em horas que realmente abria-os. O horror desvendou-se à sua frente. Havia bastante fumaça e calor, na estante King queimava ao cair da noite, pelas frestas da casa entravam sons de sirenes e luzes de giroflex. Eleanor tirou a coberta de pássaros de cima do seu corpo e tentou abrir a janela que ficava alguns centímetros acima de sua cama encostada na parede. O fogo se aproximava.


Limão irrompeu para o quarto pelo buraco disforme onde antes havia uma porta, seus pelos chamuscados, seus olhos desesperados, não parecia aquele gato que inspirava autoconfiança mesmo em noites de chuva forte.


Eleanor abraçou Limão e chorou. Gritou por seus pais, sentiu sua garganta arder como seus olhos, sabia que em questão de minutos não teria forças para levantar-se, então foi até a janela e tentou abrir, mas ela estava emperrada; o calor havia bagunçado toda a estrutura das paredes da casa. Chorou mais. Limão, por instinto de sobrevivência, começou a arranhar a janela. O bicho sabia que aquele era o único caminho viável para fora daquele quarto.


Eleanor colou seu rosto na janela e viu lá embaixo ambulâncias, carros de bombeiro, o Velho Clóvis, reconheceu alguns vizinhos e percebeu alguns rostos desconhecidos. Quando as pessoas viram o rosto da jovem na janela, fizeram um alvoroço de gritos e gesticulações para que ela pulasse. Eleanor tentava abrir a janela em vão, limão arranhava a janela igualmente em vão. Ela viu seu rosto refletido na janela, assustado, avermelhado, seus cabelos desgrenhados e aquela pequena cicatriz horizontal três centímetros acima do olho esquerdo. Lembrou-se de quando a obteve.


Outubro de 2012. A chuva começou dar as caras depois de alguns meses de seca. Eleanor brincava com Marcela no quintal da casa dos Silva. Amarelinha. Os adultos estavam entretidos com as fofocas da vizinhança e eventualmente com o churrasco, as garotas resolveram colocar alguns obstáculos dentro dos quadrados porque estavam ficando entediadas. Começaram com algumas pedrinhas, então evoluíram para pedaços de tocos, pedras maiores e pequenos objetos quebrados e largados, até que encontraram uma janela velha encostada no muro.


Tamires, mãe de Eleanor, por descuido, deixou a porta dos fundos aberta, oportunidade perfeita para que Barão, o Vira-Lata Caramelo dos Silva, saísse de dentro da casa e corresse para o quintal, ignorando os adultos e indo até as garotas. Eleanor tentava pular a janela deitada no chão por cima da marcação da amarelinha, quando, no meio do salto, foi atingida por Barão que pulou nela para brincar e acabou a derrubando. Eleanor caiu de cara na janela e apagou.


Pouco tempo depois a garota acordou no sofá rodeada de adultos preocupados, dois ventiladores que mais lhe tiravam o ar do que a ajudava respirar, e uma ardência na testa um pouco acima do olho esquerdo. Após retomar a consciência uma das primeiras coisas que ouviu foi o Sr. Gilson Silva dizer - Ô, menina, não é desse jeito que a gente atravessa janela! Cê deve tomar distância e se jogar com tudo em cima dela, mas ela num pode estar no chão! - Todos ao redor riram da pseudopiada, mais por alívio do que por sua qualidade. Eleanor de vez em quando se lembrava desse acontecimento.


- NÃO É ASSIM QUE SE ATRAVESSA UMA JANELA! - Gritou a garota com a maior confiança que pôde ter naquele momento. Apanhou Limão em seu colo, abraçando-o. - Você deve tomar distância e então… - Eleanor tomou o máximo de distância que pôde, em seguida avançou em direção à janela e se jogou contra o vidro.


Escutou o estrondo do impacto de seu corpo contra a janela e pensou que o Sr. Gilson estava certo, a janela não podia estar no chão. Abraçou Limão com força. Olhou para baixo, viu todas aquelas pessoas, virou-se para o céu, a lua iluminava a noite, pensou ter visto um pássaro, mas agora era ela que caía.

1 de Agosto de 2021 às 01:10 4 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Delvan Sales Um dia eu escrevi uma bio bem legal aqui, mas o site apagou do nada (True Story), então finja que esta é uma bio bem legal. E aproveite as histórias! :)

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Rodrigo Borges Rodrigo Borges
Cara, eu acho show a sua linguagem, principalmente quando se é descrito algo lúdico dentro do texto (Eleanor no trajeto à escola e na escola, por exemplo). Porém, eu não achei que você usou tudo que você tem nesse conto em específico. Primeiro pelos diálogos; na minha opinião como escritor, os diálogos são as partes mais perigosas de um romance, ainda mais em um conto. Tenho a visão de que, nos contos, a narração prevalece mais que o próprio diálogo, sendo este usado para quebrar um silêncio irrequieto para demonstrar traços do personagem ou explicar parte da trama. Eu achei que você começou a história por meio de muitos diálogos e não tão proveitosos para os personagens. Outro ponto: a perspectiva. O narrador não dançou com a perspectiva. Quando o narrador foca puramente em Miguel, aí tudo bem, vejo sentido do narrador chamá-lo de "Miguel", mas quando a o narrador parte pra perspectiva da filha, acho que seria bom ele chamá-lo de "pai". Explico: a relação dos dois parece ser muito boa, pelos diálogos, e ver o pai - a filha nem tanto - sendo tratado por seu primeiro nome, não me aproximou muito da relação dos dois. Mais uma vez, sobre a perspectiva: teve um parágrafo, quando o Miguel vai dormir, que a perspectiva acompanha Miguel e tão logo, inesperadamente, muda para Eleanor, o que me deixou um pouco perdido, me fazendo ler de novo pra captar a história. Acho que também faltou uma maior variedade de pontuações, como dois pontos, ponto e vírgula, etc.... Há também muitos nomes; nomes de vizinhos, de amigos e amigas. Sei da sensação que esses nomes causam em um romance, mas num conto, onde não há espaço para aprofundar esses nomes e a relação deles com os personagens centrais da trama, não é uma boa, em minha opinião. Mas é isso cara, a gente pode conversar um dia sobre mais coisas. Espero que eu não tenha soado arrogante e que eu não o tenha ofendido com alguma das opiniões acima. Se sim, apenas ignore, não foi minha intenção.
August 03, 2021, 00:38

  • Delvan Sales Delvan Sales
    Obrigado pelo comentário, cara! Vou levar em consideração os pontos que você destacou nas próximas escritas. Tenho muito a aprender sobre escrever em si, materializar pensamentos etc. Então sua crítica é muito bem-vinda. E é claro que podemos ter essa conversa, pois há no texto formas de dizer que, ao meu ver, são justificadas pelos fins que elas conduzem. De qualquer forma, sei o quanto você é estudioso da escrita e que tudo que você me disse tem o intuito de me ajudar a melhorar. August 03, 2021, 12:21
Dayane dos Santos Dayane dos Santos
Parabéns, Delvan! O conto ficou muito bom, soturno e instigante! A história rica em detalhes e suspense, me prendeu do início ao fim. Captei algumas referências, haha excelente e genial!
August 01, 2021, 14:38

  • Delvan Sales Delvan Sales
    Muito obrigado pelo comentário, Day! :) fico feliz que tenha gostado e pegado umas referências hahaha August 01, 2021, 15:16
~