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silvamaro Gabriel Amaro

Amana Ventura Mantovani sempre viveu sua vida atormentada pelo trauma de ter sido abandonada por sua mãe, mas uma suspeita tentativa de contato estava prestes a transformar tudo o que considerava real. Quando Amana pisou em Cascares, a terra natal de sua mãe, ela descobriu que a mulher estava envolvida com forças além de sua compreensão. Parte do universo "Mundo Divino". História participante do desafio "A Melhor História - Horror" da Copa dos Autores 2020.


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Capítulo I - Fora de Lugar

O CAMINHO ATÉ A ESCOLA PARECIA INFINITO naquela manhã gelada de sexta-feira. Seu pai ouvia Detalhes, de Roberto Carlos, no rádio do carro em volume elevado. A melodia da música favorita do homem e o cantarolar baixo de sua voz rouca contribuíam para a fuga vagarosa dos pensamentos de Amana; lembrava da madrugada intensa construída através de pesadelos intermináveis e de uma sensação avassaladora de que algo se aproximava. A ideia de que sua essência, sua vida e sua realidade estavam prestes a entrar em rota de colisão era assustadora; sonhara com espíritos invadindo seu corpo, com seus pés descalços na mata e com doces vozes femininas que sussurravam a palavra que ainda a arrepiava no carro: venha.

Era só mais um pesadelo em uma semana repleta de acontecimentos estranhos, é claro. Não, quem eu quero enganar? Estava convencida de que seus sonhos eram tão reais quanto as palavras — naquele momento um tanto sinistras — de Roberto Carlos: “Você vai lembrar de mim”. Ela se lembraria daquela maldita semana pelo resto de sua vida. Na última segunda-feira, ao chegar em casa após suas aulas, descobriu que Caramelo, seu fiel vira-lata, estava morto. A morte do animal fora tão repentina que ainda se encontrava em choque; seu pai, por outro lado, chorara durante todas as noites desde então.

Por sua vez, a quarta-feira não desperdiçou esforços: Amana assistiu a um espetáculo de luzes ao retornar da escola; todos os aparelhos elétricos de sua casa piscavam, reclamavam e manifestavam sinais claros de que algo estava errado. A sensação assustadora de que esse mesmo algo se arrastava lentamente em sua direção resumia decentemente a ânsia de vômito durante e após seus pesadelos. A menina que enlouqueceu na última semana de aulas. Nem mesmo seu senso de humor orgulhosamente afiado seria capaz de salvar seu temperamento no início do dia final de sua tortura no Colégio São Basílio.

Fizera o Exame Nacional do Ensino Médio durante as semanas anteriores e não poderia estar mais grata por finalmente se aproximar do fim de sua trajetória escolar. Nunca mais lidaria com comentários maldosos de seus colegas, com a pressão constante por resultados ou com a necessidade de socialização que a atormentava. Até quando vou tentar me iludir? Precisaria aguentar a realidade cruel da maturidade pelo resto de sua vida; aquele era só o começo. Por poucos instantes, desejou se ajoelhar no assoalho abaixo do banco do carona e implorar para que seus futuros problemas envolvessem contas atrasadas e pressão profissional, e não mulheres murmurando estranhezas.

— Planeta Terra para Amana. — Emanuel Mantovani, seu pai, sorriu ao fim da música e a espiou pelo canto dos olhos. — Estamos bem?

Emanuel era um homem de 47 anos com cabelo curto, cacheado, preto e, tudo bem, ligeiramente grisalho; o rosto bronzeado enfeitado pela barba desleixada e os traços acentuados compunham sua aparência conservada. Ele era um empresário inteligente que se envolvia no mercado imobiliário e que florescia exponencialmente no Rio de Janeiro. A apresentação séria era de praxe para Amana, que sempre precisava explicar sua ligação com a recém-famosa imobiliária para os poucos amigos da escola. Se de fato precisasse descrever o homem, se certificaria de mencionar seu prazer genuíno em ser pai e a força que demonstrou ao criá-la sozinho. Sem dúvidas, era o dono original de seu senso de humor ácido; a dupla se divertia frequentemente.

— Foi só uma madrugada complicada — disse Amana.

— Pesadelos? — A expressão de seu pai se tornou severa instantaneamente. — Querida, isso envolve o Caramelo?

— Acho que não, mas com certeza não quero pensar sobre isso. — Compensou pela firmeza de suas palavras com um sorriso tímido. — Vou ficar bem.

— Só mais um dia. — Ele parou o carro na frente da escola e suspirou. — Minha pequena já vai partir e conquistar o mundo.

— Sua pequena ainda vai aproveitar a moradia gratuita até terminar a faculdade.

Eles riram juntos e Amana se despediu com dois beijos no rosto de seu pai antes de abrir a porta do carro e sair.

— Me liga se precisar de algo? Mesmo se for só uma conversa. — Emanuel se esticou sobre o banco do carona para falar com ela. — Prometo que vou atender.

— Não precisa se preocupar! — Amana ajeitou a alça solitária da mochila no ombro direito. — Fica focado em nos enriquecer.

Ele ofereceu um último sorriso antes de acelerar para longe dali. Amana respirou fundo e caminhou vagarosamente na direção de seu prédio: era um feio edifício de médio porte; precisava de reformas externas urgentemente e uma renovação de emergência na decoração interna de toda e qualquer sala. O visual antiquado da escola era um defeito ínfimo perto da qualidade de ensino, era verdade, mas o comportamento de alguns dos alunos era irremediável. A maioria dos rapazes se contaminara com a tediosa onda conservadora que assolava o país e, por consequência, decidiam atormentar diversos alunos com base nos arquétipos que odiavam.

Como esperado, ela fazia parte do grupo de alunos perseguidos: era uma garota alta e tímida de 17 anos, possuía traços indígenas e estilizara seu cabelo preto em um corte chanel recentemente. Volta pra sua tribo! Quantas garotas você beijou hoje? Provavelmente mais do que vocês, otários. Entretanto, a impertinência constante de seus colegas de classe não era novidade; suportava o tormento diário desde sua infância. Sentiu suas raízes identitárias se enfraquecerem durante o começo da adolescência, mas aprendera a aceitar sua ascendência com mais facilidade com o passar dos anos.

Não dá pra fugir do sangue. A frase invadiu seu pensamento como se não pertencesse a ela naturalmente; mesmo sem relação direta com seus pesadelos, sentiu outro arrepio percorrer o corpo. Merda de dia. Precisava apenas sobreviver ao último dia de aula sem sucumbir à loucura e estaria livre para aproveitar suas tão merecidas férias. Não lhe restavam dúvidas de que o tempo estava, naquele exato momento, sorrindo maliciosamente e decidindo avançar como uma tartaruga para que sofresse cada segundo com mais intensidade.

Amana atravessou a entrada da escola e ignorou os murmúrios eufóricos dos estudantes ao seu redor. Ela passou pelo pátio abarrotado e, quando estava prestes a abrir a porta da sala que abrigaria sua primeira aula, sentiu alguém arrancar a alça da mochila de seu ombro. Virou-se de imediato e flagrou o trio clássico de idiotas da escola: Gustavo, Vinícius e Luís. Eram seus colegas de classe no terceiro ano do ensino médio, rapazes franzinos de rostos espinhentos e sorrisos irregulares. O trio gargalhava e apontava para o rosto aquecido de Amana, que provavelmente exibia a careta mais raivosa possível.

— Até no último dia, seus babacas? — Ela bufou alto e estendeu a mão. — Me devolve isso logo.

— Vem pegar! — Gustavo, o mais falante e agitado entre eles, geralmente assumia a liderança do trio.

— Eu não tenho tempo pra brincar de...

O rapaz não esperou o fim da afirmação dela para arremessar a mochila contra o corredor; ela ignorou as novas risadas para iniciar sua caminhada até o local de aterrissagem. Quando se virou de costas para os rapazes, sentiu seu corpo gelar por completo: viu uma figura idêntica a si mesma na esquina do corredor da escola; o ser possuía cabelo tão curto quanto o dela, mas seus fios estavam arrepiados e desgrenhados, enquanto as vestes estavam ensopadas de sangue e algo que provavelmente era vômito. O rosto estava contorcido em uma expressão de horror, com o olho esquerdo totalmente erguido e o esquerdo fixo em Amana, a boca estava entreaberta e ensanguentada.

Amana engoliu em seco para não gritar e atiçar ainda mais seus algozes; entretanto, sabia que seria difícil resistir à tentação de manifestar seu medo por muito tempo. Por sorte, a aparição sorriu com seus dentes retorcidos e sumiu de vista na esquina do corredor. Ainda com os olhos arregalados, Amana voltou a caminhar até sua mochila e a recuperou; não olhou na direção dos rapazes risonhos ao retornar à sala de aula. Ninguém mais viu aquela coisa, né? Cogitou conversar com seus amigos sobre isso, mas alguém realmente entenderia? Todos vão me achar maluca.

A sala de aula ainda estava vazia de maneira considerável. Muitos alunos percorriam os corredores e pátio entre conversas e brincadeiras típicas do último dia em que conviveriam. Amana notou grupos rindo, outros choravam; todos pareciam intensificar suas emoções diante de uma data marcante. O próprio professor estava atrasado, mas ninguém se importava de fato: as aulas já haviam terminado, aquilo era só uma burocracia necessária para o cumprimento do calendário escolar. Estava certa de que poderia pedir ao pai para que faltasse; no entanto, os que motivaram sua presença na escola naquele dia estavam bem ali: Carla Santana e Jonas Yoshimura, seus dois melhores amigos.

Carla estava sentada atrás de Jonas, aguardava a chegada de Amana para que ela se sentasse ao seu lado. Era uma garota linda de cachos dourados, olhos azuis cansados e leves sardas ao longo do nariz e das maçãs do rosto. O uniforme da escola era uma camisa vermelha com o logotipo da instituição, calças escuras totalmente esquecíveis e tênis livres, sempre com bom senso. Jonas possuía cabelo longo, liso e escuro; sua pele era perfeitamente lisa e sua ascendência japonesa contribuía ainda mais para sua boa aparência. Espero que ninguém perceba nada. Amana se sentou ao lado de Carla e forçou um sorriso simpático aos amigos.

— Bom dia, Amaninha — disse Carla enquanto retribuía o sorriso.

— Alô, alô! — Jonas também sorriu.

— Bom dia, pessoal. — Ela suspirou e deixou a mochila em cima de sua mesa. — Como vocês estão?

— Doida pra escapar desse lugar. — Sua amiga indicou os três patetas com o queixo. — Como aguentamos isso por três anos?

— Sabem o mais irônico? — Jonas alargou o sorriso e se encolheu na cadeira para ficar mais perto delas. — O Vinícius me mandou mensagem ontem se desculpando por tudo. Agora ele encontrou os outros mosqueteiros e esqueceu de ontem, aparentemente.

— Típico. — Amana deu de ombros. — Não dá pra esperar muita coisa desses três.

Amana.

Seu corpo gelou novamente. Não ouvira seu nome através de sua audição, mas sim dentro de si. Ela agarrou a mochila de imediato e olhou em volta; lá estava a mesma aparição de antes, sentada em uma das fileiras ao lado da sua, o sorriso macabro alargado e único olho operante vazio e esbugalhado. Ao contrário do que aconteceu na primeira vez, Amana se espantou com o espectro e quase caiu da cadeira. Seus amigos a encararam com preocupação e, ao sentir o arrepio clássico percorrer o corpo, Amana se levantou.

— Preciso ir ao banheiro — disse ela enquanto agarrava a mochila e corria para a porta. — Já volto!

Ouviu Jonas gritar seu nome após sair da sala, mas não poderia pausar sua fuga para tranquilizá-los. O que eu faço? Não se sentia confortável perturbando seu pai com um problema tão absurdo quanto aquele. Deveria tentar buscar ajuda médica com a escola? Só se tiverem psiquiatras por aqui. Pensou em realmente ir ao banheiro, lavar seu rosto e tentar ao máximo manter a calma. Porém, como a insaciável cinéfila que era, vira filmes de terror demais para aceitar a ideia de estar sitiada em um banheiro enquanto era perseguida por uma aparição sinistra.

Andava pelos corredores da escola desviando de grupos de alunos e ignorando o ruído persistente da fala humana; seus olhos buscavam qualquer sinal da aparição, mas nada encontravam. O coração de batidas aceleradas tornava o raciocínio confuso, então Amana decidiu interromper a marcha e repousar as costas na parede do corredor. Ela puxou o oxigênio com força e realizou os exercícios de respiração ensinados por sua psicóloga; precisava relaxar e pensar com tranquilidade para compreender sua situação inusitada.

Amana.

Não, não, não! Se pôs a correr instantaneamente, cruzou o corredor em que estava e virou uma esquina, se dirigia ao pátio central. A voz que ecoava em seu interior era feminina, rouca e profunda, tão perto e íntima quanto seria se alguém sussurrasse ao pé de seu ouvido. Não desejaria aquela sensação terrível ao seu pior inimigo; era como se sua mente estivesse sendo observada e invadida. Como poderia esperar privacidade aos pensamentos se ouvia uma voz dentro de si? Tem alguém aí? A ausência de respostas quase fez Amana sorrir durante a corrida; a fuga ao cômico era seu melhor mecanismo de defesa.

As circunstâncias surreais que a envolviam se tornaram ainda piores ao alcançar o pátio principal: a aparição que imitava parte de sua aparência havia tomado a forma de todos os alunos que estavam ali. Cada um deles estava com o cabelo arrepiado e desgrenhado e uniforme sujo de sangue; possuíam bocas abertas em sorrisos sinuosos e olhos ao mesmo tempo nocivos e sem vida. Isso não pode ser real. Os alunos distorcidos encerraram suas conversas e a encararam em conjunto.

Amana.

A percepção de dezenas de vozes chamando seu nome era impressionante. Nenhum dos alunos abria a boca, mas todos clamavam seu nome e esperavam sua reação. Vinte segundos se passaram e eles ainda a encaravam, as vozes repetiam seu nome várias vezes. Tá bom, acho que já chega. Ela respirou fundo, semicerrou os olhos, deu meia volta e retornou ao interior da escola. Buscou o celular no bolso da calça e selecionou o número de seu pai nos contatos rápidos.

— Pai? — perguntou Amana ao perceber que a chamada foi atendida. — Oi?

— Amana? Aconteceu alguma coisa? — Ela não precisava vê-lo para perceber que estava preocupado. — Sua aula não começou?

— Eu ainda estou no corredor. — Amana se esforçava para que não soasse assustada. — Algumas coisas estranhas estão acontecendo.

— Pode me contar qualquer coisa. — Assim que ele terminou de falar, Amana percebeu vozes ao fundo da ligação. — Só um segundo, senhores.

— Eu estou atrapalhando, né? — Ela suspirou antes de continuar. — Desculpa.

— Ninguém é mais importante do que você, querida — Emanuel falou mais baixo, como se estivesse escondido dos clientes. — O que aconteceu?

— Não sei como dizer isso sem soar maluca. — Amana andava lentamente enquanto conversava com o pai pelo celular; os corredores já estavam quase desertos. — Eu vi um espírito, eu acho.

— Um espírito? — Ele respirou fundo e gaguejou ao prosseguir. — Você viu isso na escola?

— Em todo lugar. Nos meus pesadelos, na sala de aula, no corredor, no pátio. — Amana parou de andar e fechou os olhos. — Eu não sei como fazer isso parar.

Silêncio. Diferente do que aconteceu antes, Amana não ouvia a respiração de seu pai ou a movimentação dos clientes no fundo. Era como se ninguém estivesse na chamada além dela.

— Pai?

— Não dá para fugir do sangue. — A voz masculina que invadiu a chamada era arrastada, profunda e quase etérea. — Deseja fazer isso parar? Encare-a. Encare a si mesma.

— Quem é você? Por que tá fazendo isso? — Ela afastou o celular do ouvido e olhou a tela; ainda estava na chamada com seu pai. — Cadê meu pai?

— São muitas questões e poucas ações. — Uma risada seca quase arruinou a seriedade de suas palavras. — Eu sou a natureza e eu sou a morte. Encare sua essência.

— O que isso significa? — Suas mãos tremiam e as pernas vacilavam. Isso é uma loucura completa. — Alô?

— A ligação ficou muda por um tempinho — disse Emanuel após uma interferência curta. — Você quer que eu busque você? Posso dar um jeito de sair daqui.

— Eu quero, na verdade. — Ela tentou mais exercícios de respiração. — Tem certeza de que consegue sair?

— Chego aí em vinte minutos. — Com a aproximação da conversa dos clientes, Amana deduziu que ele estava voltando até eles. — Se cuida.

Após desligarem a chamada, ela seguiu o caminho até o banheiro mais próximo. As palavras do ser que se comunicou com ela ainda reverberavam em sua mente; se tivesse que cumprir sua ordem literalmente, estava indo ao local certo. Claro que vou obedecer ao ser que passou a semana inteira me atormentando. Precisava aguentar por vinte minutos até que pudesse escapar do tormento — pelo menos da tortura escolar — com seu pai, mas não era tão ingênua a ponto de pensar que deixaria de ser assombrada ao estar em casa.

Qual era a outra opção além de fisgar a isca e jogar aquele jogo? Eu deveria passar o resto da vida fugindo de aparições? Não, a resposta era clara: Amana precisava encarar a si mesma. Se fosse conectar as palavras do ser com a intangibilidade de sua voz e de suas ações, sua ordem de certo era muito mais metafórica do que concreta. Entretanto, não acreditava que uma jornada em busca de autoconhecimento faria seus demônios desaparecerem; pelo contrário, precisava buscar uma solução objetiva para o problema. Muitas questões e poucas ações, né, seu babaca sádico?

Adentrou o banheiro feminino e se debruçou na pia enquanto aguardava um par de garotas fofoqueiras se retirarem. Não precisou esperar tanto tempo, visto que sua presença atrapalharia o passatempo favorito das donzelas. Lavou o rosto com a água gelada e respirou fundo; imaginava se aquele era um dos dias que relataria nos mínimos detalhes aos filhos e netos. Ou aos psicólogos e psiquiatras. Qualquer fã de filmes de terror estaria pronto para o que viria a seguir, portanto Amana estava confiante de que não se assustaria. Lá vamos nós. Ergueu a face lentamente e contemplou seu reflexo no espelho; como esperado, era o reflexo da aparição horrorosa que a perseguiu durante a manhã inteira. Amana arqueou a sobrancelha e esperou algo parecido, mas o rosto ensanguentado de sua imitadora permaneceu impassível. Tentou uma careta exagerada, mas o resultado foi o mesmo. É claro que o espírito não tem senso de humor.

Eju chendive! A voz rouca ecoou em sua cabeça novamente. Por mais que não compreendesse a língua falada, entendeu o pedido corretamente: venha comigo. Não fazia ideia de como possuía essa percepção, a certeza do que havia sido dito alcançava sua mente como um instinto; era como se as palavras acessassem uma parte adormecida de seu cérebro e se encaixassem apropriadamente em conhecimentos já esquecidos. Quem é você?

Che ha nde. Em outra resposta enigmática, o ser respondeu “eu e você”. A adrenalina voltava a tomar seu corpo, mas naquela vez não sentia medo, estava animada. Nunca se comunicara com espíritos ou aparições anteriormente e, por mais bizarra que a situação fosse, a ideia de ser capaz de dialogar com aquele ser a preenchia com curiosidade e interesse. Não havia como ter certeza da duração do momento de cooperação, então precisava fazer as perguntas certas. Onde você está?

Cascares.

O nome pronunciado pelo espírito fez o interesse, a curiosidade e a adrenalina alcançarem níveis estratosféricos. Não pode ser. Não ouvira aquele nome desde sua infância mais distante, mas sua pronúncia inundou sua mente com memórias antigas e uma saudade inexplicável. Lembrou-se dos pés descalços na mata, da cantiga sublime de mulheres fortes e, acima de tudo, se lembrou do rosto de sua mãe. Mesmo com os olhos fixos na aparição presa no espelho, sentia-se como se estivesse encarando o olhar severo e sábio da mulher que a gerou. A mulher que me abandonou.

Retirou-se do banheiro em passos largos e percorreu o corredor vazio com os olhos ardentes repletos de lágrimas. O coração acelerado doía; sentia a mágoa a dominando com força brutal. Seus passos se tornavam pesados e as bochechas se umedeciam; precisava alcançar a saída da escola o mais rápido possível. Precisava enterrar o rosto no travesseiro, gritar e chorar até que tudo aquilo desaparecesse. Ela nunca me quis. Conversar sobre sua mãe gerava momentos difíceis entre ela e seu pai, mas sabia o básico: o casal se conhecera em Cascares durante uma viagem de Emanuel; quatro anos depois, sua mãe a entregou ao homem no Rio de Janeiro e desapareceu.

Sentiu seu celular vibrar no bolso da calça assim que chegou na saída da escola. Seu pai ainda não estava ali, então teria tempo. Agarrou o aparelho e estreitou os olhos ao ler o aviso de número desconhecido, decidindo atender a ligação mesmo assim.

— Quem é? — disse ela imediatamente. Não estava em um bom momento.

— Amana?

A voz feminina era remotamente familiar, mas fez seus olhos se arregalarem e a boca se entreabrir. Se isso for outro pesadelo, preciso acordar agora.

— Sei que você está aí. — disse sua mãe. — Sou eu.

— Eu sei.

Não estava decidida sobre o que falaria. Por um lado, gostaria de xingá-la e acusá-la de tantos traumas que a afligiram durante toda sua vida; por outro lado, sempre fantasiava sobre o momento em que se reencontraria com ela. Por que eu a quero na minha vida? Ela não me quis na dela. A sensação agridoce era tão injusta; como poderia ansiar pelo contato que finalmente acontecia após tanta negligência e angústia?

— Venha para Cascares durante as férias. Alguém aguardará sua chegada na próxima segunda-feira, na rodoviária da cidade. — Ela soava casual demais para alguém que passara treze anos sem entrar em contato com a própria filha.

— Você só pode estar brincando. — Se ela estivesse, a brincadeira surtia efeito: Amana não encontrou outra forma de reagir ao convite além de libertar suas risadas. — Tá maluca?

— Qual é o problema?

— Você me abandonou aos quatro anos de idade e agora acha que pode aparecer do nada me convidando pras férias em família? — Sentia seu controle sobre a raiva se esvaindo aos poucos. — Acha isso normal?

— Ah. — Foi a vez de sua mãe rir. A raiva que crescia no peito aumentou consideravelmente ao ouvir sua risada desinteressada. — Então foi isso que seu pai contou.

— Como assim?

— Eu não te abandonei treze anos atrás. — O tom da mulher estava mais sério e firme. — Seu pai fugiu com você.

— O quê?

— Esteja em Cascares segunda-feira. Vou explicar tudo. — Ela suspirou antes de encerrar o assunto. — Sinto muito por ter demorado tanto.

Sua mãe terminou a ligação antes que ela pudesse responder. Ergueu os olhos marejados e, através do portão da escola, viu seu pai encostar o carro na frente do prédio.

Ela nunca estivera tão desesperada e confusa em toda sua vida.

8 de Novembro de 2020 às 22:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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