antonia-noronha1588257786 Antónia Noronha

Regressar à casa onde crescemos poderá trazer muitas recordações de um passado feliz. Mas e se vieram mais do que memórias?


Horror Histórias de fantasmas Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#arrepiainks
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Capítulo único

Estava a caminho da casa da minha avó. Ela havia falecido há algumas semanas e era preciso arrumar a casa para poder vendê-la. Durante o percurso fui inundada pela expetativa de como iria encontrar aquele lugar que me havia visto crescer e do qual guardava muito boas memórias.

Estacionei o carro na entrada e dirigi-me à porta. Meti a chave, abri a porta, suspirei fundo ganhando coragem e entrei. Abri as portadas das janelas e à pouca luz do final da tarde percebi que todos os móveis estavam cobertos com lençóis concedendo um ar fantasmagórico àquela casa. Levantei uma das cobertas deixando aparecer as teclas de um piano empoeirado. Lembrei-me das vezes que a avó tocava nele para me animar quando estava triste.

Caminhando pela sala de jantar, pareceu-me sentir o cheiro do frango assado no forno, do seu delicioso bolo de chocolate e de ouvir a sua voz a chamar-me para almoçar. Uma saudosa lágrima escorregou pelo meu rosto. Após alguns minutos comecei a arrumar as coisas.

À medida que anoitecia, começou a chover torrencialmente e uns trovões ecoavam lá de vez em quando. Por fim, decidi parar e ir descansar. Fui para o quarto da avó e deitei-me na sua cama. O tempo piorava lá fora e o vento entrava e assobiava nas janelas agora mal vedadas. Lembrei-me da história que ela me contava sempre que estava mau tempo.

...

- Avó, não consigo dormir por causa da chuva. Contas-me aquela história? - Perguntei.

- Deita-te aqui ao meu lado.

Ela, com a sua sábia paciência, começava:

- Era uma vez uma mulher que vivia com a sua filha. Numa noite de tempestade a mulher foi ver a sua filha que estava a dormir, mas ela não estava na cama. Pensando que a marota tinha ido brincar, decidiu entrar na brincadeira. Percorreu a casa dizendo: Maria, Maria, onde estás? Apenas ouvia a risada da menina. Então continuou: Maria, Maria, onde estás? E a risada da filha soava cada vez mais perto. De repente, a menina saltou do escuro e gritou. Mas a mãe assustou-se, gritou também e acabou por morrer.

...

Eu assustava-me sempre, mas nesse dia sorri e adormeci. A meio da noite acordei e fui beber água. Ao regressar para o quarto, pareceu-me ouvir passos de criança a correr levemente, seguidos por outros mais lentos acompanhados de uma voz de mulher.

- Maria, Maria, onde estás?

Pensei que ainda estava a sonhar, ignorei e voltei para a cama.

- Maria, Maria, onde estás? - Repetia aquela voz, mas agora mais perto, quase do lado de fora do quarto.

Sentei-me na cama assustada! Os pelos dos meus braços enriçaram-se todos, um arrepio frio desceu pelas minhas costas e todo o meu corpo tremia de medo!

A porta do quarto abriu-se, um gelo de morte apoderou-se do quarto e, instintivamente, deitei- me e cobri a cabeça com o cobertor.

- Maria, Maria, onde estás? - A voz agora estava dentro do quarto!

Fechei os olhos com medo e com esperança de serem as memórias antigas a pregarem-me uma partida!

- Maria, Maria... - A voz parecia estar perto da minha cama!

Ao fim de uns minutos, o silêncio reinava naquela casa. Até a tempestade havia parado lá fora. Respirei fundo, sacudindo todas as recordações e tirei o cobertor de cima da cabeça.

Um grito de morte apavorante e assustador ecoou no quarto, enquanto uns olhos vermelhos apareceram aos pés da cama!

Completamente em pânico e gritando, saltei da cama, deixei tudo para trás, pegando apenas nas minhas chaves e, com o coração na boca, saí daquela casa, decidindo nunca mais lá voltar! Por diversas vezes olhei pelo retrovisor do carro e via aquela casa a afastar-se cada vez mais!

Quando cheguei a minha casa, acendi todas as luzes e deitei-me na cama estafada, mas descansada por estar longe daquele lugar arrepiante. Fechei os olhos, sorrindo por saber que tinha abandonado um pesadelo e regressado ao meu porto seguro. Imersa em planos para o dia seguinte, já sentido que iria adormecer a qualquer momento, uma voz de mulher sussurrou ao meu ouvido:

- Maria, Maria, onde estás?

25 de Outubro de 2020 às 15:58 20 Denunciar Insira Seguir história
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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
É hoje que o pessoal da embaixada vai ter problemas pra dormir, viu? Antes de começarmos o comentário sobre seu conto, gostaríamos de te parabenizar por sua história e agradecer por ter abraçado o desafio #arrepiainks! Ficamos muito contentes em poder contar com a sua participação. Temos de admitir que o final foi a cereja do bolo, mas o conteúdo foi muito bem desenvolvido também, e sentimos os arrepios subirem pelo corpo logo que chegamos à parte da história que a avó costumava contar à protagonista… e olha, estamos considerando não mais levantar pra beber água durante a madrugada. Novamente, deixamos os nossos parabéns pelo seu conto! A experiência da leitura foi incrível graças ao seu excelente trabalho. No mais, reiteramos que os vencedores do desafio serão anunciados em 29/10 — hoje — através do Facebook. Fique de olho! Seu nome pode estar na lista. (; Um abraço, Equipe de Comunidade da Embaixada Brasileira do Inkspired.
October 29, 2020, 19:14
Ruan Gabriel Ruan Gabriel
Como eu fico agora que estava prestes a dormir e lendo esse conto super leve para uma noite tranquila de sono? Adorei a ideia, e o lance da Maria me assustou muito mesmo. Parabéns pelo conto! Boa sorte no concurso :)
October 28, 2020, 04:26
amy ♡ amy ♡
Olá, Antónia! Como vai? Eu sou a Amy, uma das embaixadoras responsáveis pelo desafio #arrepiainks. ♡ Você receberá mais adiante um comentário mais elaborado feito pelo perfil da Embaixada, mas já vou adiantar que meninaaaaaaaaaaaa, que final foi esse? Eu estou aqui, arrepiadinha até agora. Nunca mais levanto à noite para beber água, é isso.
October 28, 2020, 02:36
Lorem K Morais Lorem K Morais
Esse finalzinho quase me mata do coração ashdgah
October 27, 2020, 16:15

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    muito obrigada pela leitura e pelo teu comentário. Fico contente que tenhas gostado. Obrigada :) October 27, 2020, 19:19
Junio Salles Junio Salles
Nossa, acho que avó da garota a traumatizou contando esse tipo de história para dormir kkk. Muito bom, da aquele frio na barriga imaginando uma situação dessas. Aquele clássico terror de ser perseguido.
October 27, 2020, 14:17

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    fico contente por teres gostado e da minha história ter provocado sensações físicas ;) muito obrigada pela leitura e pelo comentário. ;) October 27, 2020, 19:21
Lilac L. Lilac L.
Eu acho que esse medo de ser observada por espíritos em atividades cotidianas simples é algo que muito me assombra e, por isso, o conto me fez arrepiar até a alma. Jesus, no lugar dela eu teria caído durinha e morta. Muito bom o texto! ♡
October 26, 2020, 21:48

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Muito obrigada pela leitura e pelo teu comentário. Fico satisfeita por conseguir provocar tantas sensações físicas apenas com palavras. Muito obrigada. October 26, 2020, 22:47
Daniela Machado Daniela Machado
Socorroooooooo eu não vou dormir hoje kkkkk (rindo de nervoso) Seu conto brinca com um medo que eu tenho que é essa coisa de espíritos me observando enquanto estou deitada ou dormindo, então ele é muito assustador. Pra piorar o vento bateu a porta do quarto enquanto eu tava lendo e eu quase morri igual a mãe da menininha ahahah A forma como você constrói o suspense é ótima e, por ser gradativa, você não percebe o medo até estar realmente assustada, é possível sentir na pele o medo da protagonista e isso só torna o conto mais incrível. Parabéns por seu enredo criativo e por sua escrita fluida ♥
October 26, 2020, 21:21

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Muito obrigada por teres lido a minha história e pelo teu comentário :) fico muito satisfeita por ter conseguido que a minha escrita tivesse provocado todas essas sensações (também tive ajuda do tempo aí perto de tua casa ;) hahahaah) novamente muito obrigada. October 26, 2020, 21:40
  • C C C Clark Carbonera
    Eita, terror com capítulos?! Quando a publicação sair, já vou ficar de olho O_o October 26, 2020, 22:38
CC C Clark Carbonera
Aiaiaiaiaiaiaia O conto tá ótimo! A descrição está tão perfeita que me senti como se estivesse na pele da personagem, entrando na casa e vendo os móveis antigos. Na certa que minha atitude seria a mesma que a dela: pega a trouxa de roupas e zarpa já daí; mas nunca que conseguiria pregar olho de novo, mesmo em outro continente! hahaha E infelizmente a defesa do cobertor até a cabeça nunca ajudou, nunca...já tentei de diversas maneiras, com cobertores de diversas cores e tamanhos e nada... A breve ideia que temos de que a personagem está livre do que quer que seja é rapidamente tragada pela passagem final "Maria, Maria, onde estás?" que faz surgir um frio na espinha!! Muito bom mesmo, parabéns :DDD você tem jeito pra poemas e histórias de terror
October 26, 2020, 18:50

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Muito obrigada por teres lido e pelo teu comentário que me acalenta sempre por dentro! Fico muito contente que tenhas gostado de ler! tenho em mente uma história de terror com capítulos... Assim que tiver um tempinho irei partilhá-la por aqui ;) novamente muito obrigada e principalmente por te teres lembrado de mim :) October 26, 2020, 18:55
Lara One Lara One
Fala sério. Quem vai dormir pensando agora nessa frase que ficou grudada na mente: Maria, Maria, onde estás? Caramba, vou ter que dormir de luz acesa hoje! E olha que nem me chamo Maria, essas então nem vão mais pregar o olho! Ameiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!
October 26, 2020, 15:12

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    muito obrigada pelo teu cometário e pela leitura da história. Realmente é uma frase que fica marcada, tal como aquela música que nunca sai do ouvido... ahhaahh muito obrigada! October 26, 2020, 15:25
Isís Marchetti Isís Marchetti
Eu estava deitada no quarto com meu filho, as luzes apagadas e lendo e eu juro que por reflexo eu olhei para os pés da cama para ter certeza de que não tinha nada lá! Achei seu conto incrivelmente maravilhoso e a tensão não sai de uma linha sequer do texto. Quando acreditei que todo o medo havia sido deixado na casa de sua avó, a mãe de Maria apareceu! Foi incrivelmente maravilhoso a história e eu adorei lê-la. Parabéns.
October 25, 2020, 20:06

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Fico muito satisfeita que o conto tenha provocado o efeito desejado - medo, tensão, suspense, esperança por momentos. Agradeço a tua leitura, mas acima de tudo o teu comentário e o tempinho dispensado. Muito obrigada! October 25, 2020, 20:39
Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Nossa, não consegui desgrudar os olhos da tela enquanto lia hahaha Adorei a história, principalmente por conta do suspense que senti enquanto pensava se ela estava ou não sonhando com os chamados por Maria. Acho que o que mais gostei foi o fato de que tudo parecia que ficaria bem perto do final, mas aí o chamado por Maria retornou e a sensação de terror voltou também. Parabéns, ótima história!
October 25, 2020, 17:01

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    muito obrigada por teres perdido um tempinho para ler a minha história mas principalmente por teres gostado e comentado! Muito obrigada :) October 25, 2020, 17:04
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