silvamaro Gabriel Amaro

Quatro arruaceiros invadem a casa mais famosa da cidade durante a noite de Halloween. Quem sairá vivo da Mansão Chagas? História interativa participante do desafio "O Show de Terror" da Copa dos Autores 2020.


Horror Histórias de fantasmas Para maiores de 18 apenas.

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Capítulo I - Os Arruaceiros


Os arruaceiros eram os garotos mais odiados de Jaboatuba, a pequena vizinhança da cidade pacata de Lumirim. Estavam sempre invadindo as casas mais vulneráveis em busca de comida, roubando rádios de carros que adormeciam nas ruas, vandalizando construções públicas e causando desordem geral. As reclamações se tornaram tão frequentes que provocaram uma medida drástica dos moradores: formaram uma patrulha voluntária para prevenir as ações do bando. A vigilância dos cidadãos de bem de Jaboatuba pouco prestava; eram lentos e ingênuos demais para os malandros do grupo.

O Halloween de 2020 fora meticulosamente planejado pela Prefeitura de Lumirim: desejavam revitalizar o turismo da cidade através das várias lendas aterrorizantes que ornamentavam o folclore local. A cidade sofrera com diversos acontecimentos inexplicáveis durante sua história; tornara-se famosa por abrigar o que havia de mais bizarro no Brasil. Se aquele era o martírio mais significante da cidade, que tentassem converter a infâmia em lucro.

A lógica dos arruaceiros não era tão divergente: eles também tentavam transformar seu aviltamento em privilégio. Quatro rapazes sem respeito ou pudor usufruíam da liberdade audaz que a margem da sociedade proporcionava. Seus planos para o Dia das Bruxas também se assemelhavam com os do governo em sua exorbitância; arquitetaram uma invasão à Mansão Chagas, a residência mais célebre de Lumirim. Estavam confiantes sobre a existência de tesouros ocultos na mansão amaldiçoada.

Hugo Boaventura curvou o corpo ao lado de seu Fusca vermelho-vivo e ajeitou o cabelo liso no retrovisor do carro. O fim de tarde quente em Lumirim fazia o pôr do sol atrasar o máximo possível. Sempre vaidoso, ele não hesitou em admirar sua aparência bem-cuidada: sua pele caramelo era livre de imperfeições; os olhos castanho-escuros estavam encobertos pelos óculos de sol Ray-Ban Aviador e o cabelo preto crescia até formar um topete antiquado. Seu visual retrô não era puramente estético; ele se orgulhava por ser um grande admirador dos greasers dos anos 50. Mesmo enquanto ainda vivia no orfanato de Jaboatuba — onde conhecera seus companheiros de aventura —, Hugo não deixava que olhares e cochichos reprimissem o estilo de vida que possuía. Nunca rechaçaria sua extravagância.

— O que esses merdas tão fazendo? — perguntou seu amigo do interior do carro. — Já esperamos muito.

— Você tem algum compromisso além do nosso? — Hugo virou o rosto e encarou seu companheiro.

Aos vinte e quatro anos, Igor Machado era o segundo mais velho do bando, quatro meses mais novo do que Hugo. Era um rapaz de pele negra, traços faciais firmes, cabelo raspado e músculos proeminentes. Ele vestia uma camisa preta e vermelha de mangas longas, calça jeans escura e sapatos surrados; a maquiagem irrisória assegurava a vulgaridade de sua fantasia de Freddy Krueger. O chapéu sujo repousava em seu colo e ele batia as garras de ferro no porta-luvas do Fusca; não era conhecido por sua paciência.

— Sabe quanto dava pra gente faturar com a cidade lotada e a patrulha ocupada? — Igor elevou as sobrancelhas enquanto reclamava. — Não? Nem eu. Mas tenho certeza de que seria muita grana.

— Conseguiremos muito mais na Mansão Chagas — decretou Hugo. Não estava disposto a lidar com as objeções de Igor. — Aquele lugar é uma mina de ouro.

— É, boa sorte tentando convencer o Bruno a entrar lá sem cagar nas calças. — O rapaz riu da própria piada e Hugo o entreteve com um sorriso discreto. — Dá uma olhada no beco.

Hugo se afastou do carro e caminhou vagarosamente até o beco mais próximo, bisbilhotando o progresso de seus outros dois amigos pela entrada da passagem. Com vinte e um anos, Bruno Duarte era o mais novo da gangue: um rapaz arredio que apanhava dos valentões do orfanato e fora acolhido pelo grupo de excluídos. Ele compensava a aparência medíocre — pele pálida defeituosa, corpo raquítico e óculos gigantes — com um cérebro formidável; era um garoto inteligente e amadurecido. Vestia um macacão azul corriqueiro e um capacete de porco que transformava seu visual no de um assaltante de banco. Não estamos tão longe disso, pensou Hugo.

Ao lado de Bruno estava Vicente de Ávila, de vinte e três anos, o arruaceiro mais inusitado. Branco, loiro e dono da aparência mais socialmente aceitável entre eles, Vicente vestia-se como um playboy e denunciava suas origens burguesas cada vez que abria a boca. Hugo e Vicente discordavam e brigavam diariamente; entretanto, Hugo não o considerava um pária menos digno do que eles: aos dez anos, Vicente testemunhou o suicídio de seu pai após um escândalo de corrupção em sua carreira política. Sua mãe desaparecera e o orfanato se tornara um novo e problemático lar. O garoto encontrara resistência no orfanato; seus colegas não se agradavam com sua origem. Além do passado conturbado, Hugo também apreciava as conexões de Vicente; elas eram indispensáveis para os esquemas do bando. Ele vestia uma longa túnica roxa, usava uma dentadura de vampiro e manchara seu queixo e pescoço com sangue falso.

Terminaram a conversa com um homem de terno e seguiram para a saída do beco, acenaram a cabeça para Hugo quando o notaram. Bruno parecia nervoso em resolver assuntos do bando, mas Vicente mantinha o queixo erguido e os ombros relaxados.

— Então? — Hugo apertou o ombro de Bruno levemente para acalmá-lo.

— As visitas terminam às nove. Podemos nos esgueirar para dentro da mansão assim que todo mundo sair. — Vicente foi até o carro para se acomodar no banco de trás enquanto explicava. — Moleza.

— Ele não disse só isso — disse Bruno. Ele também se espremeu no banco traseiro do Fusca. — Ele contou alguns relatos de aparições na mansão. A equipe da prefeitura tá precisando lidar com isso pra organizar as visitações.

Hugo guardou os óculos no bolso da jaqueta de couro e sentou-se no banco do motorista.

— Nem ligamos a porra do carro e você já tá se tremendo. — Igor reprovou com um aceno da cabeça.

— Pega leve com ele. Você sabe como é difícil na infância. — Vicente e Igor riram de Bruno, que se encolhia cada vez mais no banco.

— Chega. — O líder do grupo ligou o carro e respirou fundo. — Temos uma mansão mal-assombrada para roubar.

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27 de Outubro de 2020 às 15:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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