u15715377901571537790 Gláucio.

Renan esconde um segredo que Valentina nem pode imaginar. Após ele desaparecer no meio da noite, sem deixar pistas do seu paradeiro, finalmente depois de três meses de procura intensa na cidade de Hamamatsu, Valentina descobre que ele mudara-se para outra cidade. Será que seu amor resistirá à dura prova do abandono?! Ou não?! E também: o que fez com que ele desaparecesse sem ao mínimo avisá-la?! Terá sido por outra mulher?! Descubra as respostas em “FÚRIA”; um conto repleto com tensões conjugais, mistérios de tirar o fôlego, e com revelações surpreendentemente sentimentais.


Conto Todo o público.

#problemas-conjugais #traição #namoro #amor #relacionamento #romance #conto #drama
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Capítulo único

Sem que Renan estivesse esperando, Valentina apareceu em seu apartamento como um furacão. Ela chegou como chegam às chuvas tempestivas sobre uma noite calma, ou como chegam às ventanias frouxas que se encorpam e logo se transformam em grandes ventanias soltas. De longe era possível ouvir os roncos do motor potente do Camaro adentrando a área do estacionamento do edifício; os pneus derrapando por cima do cascalho, as pastilhas do freio só parando de chiar, quando enfim um estrondo emitido por um agressivo fechar de porta, denunciou a extrema fúria que o habitava.

O ambiente do condomínio, antes calmo e pacato, agora estava sendo molestado por um vozerio de resmungos somado a sequenciais passos descompassados, pisoteando com agressividade as escadas e o corredor, emitindo negativas vibrações que substituíam os resquícios das últimas, ou seja, aquela emanação sonora do motor que se extinguira de vez, por baixo do capô amarelo e robusto do automóvel.

Chegando à porta do apartamento de Renan, Valentina tacou logo os dedos na campainha. Apesar de Renan demorar quase que um século para atendê-la, ela segurava o impulso de gritar pelo seu nome corredor a fora: fechou os olhos e, respirando e inspirando profundamente enquanto o aguardava, mantinha as unhas de porcelana subindo e descendo, descendo e subindo, sequencialmente iniciando do dedo mindinho ao indicador, martelando as unhas afiadas no corrimão de metal às costas. Mas momentos após, angustiada por esperar, elevou o dedo de volta ao botão, apertando-o com agressividade.

“Renan, você me paga!”. — Ela sussurrou. Ela permanecia com o corpo rente a porta do apartamento; o rosto deformado, expressando um semblante sofrido sobrevivendo à mente naufragada em pensamentos desfavoráveis. Desde que descobrira seu novo endereço, Valentina estava sequestrada por grossas nuvens negras que orbitavam toda a beleza da história que um dia, pelo menos ela pensou, sinceramente pensou ter construído com Renan, o então namorado. E, naquela manhã fatídica, ela vinha de longe. Para ser mais exato, ela vinha de Hamamatsu. Agora, vou desvelar a história, e a história é assim; pois assim que ela descobriu por onde Renan andava, ou melhor, para onde ele tinha-se mudado sem avisá-la, ela burlou o trabalho com uma desculpa qualquer, e partiu porta afora; sequer expressou remorso na mentira escrita no papel jogado às pressas sobre a mesa da secretária.

Mas assim que seu veículo adentrou o perímetro urbano da cidade de Nagóia, ela sentiu o coração estremecer. Suas emoções, antes naufragadas de saudades por Renan, agora, naqueles poucos minutos que restavam até sua residência, vertia-se em grossos filamentos de lágrimas que a todo o instante tirava-lhe o foco do volante, dos outros carros e da estrada.

“Ah, que saudades de você, seu canalha!”. — Era o que, no fundo do seu coração, ela queria dizer, mas não conseguiu dizer assim. Apenas resmungos eram bufados, enquanto passava marcha a marcha, o ronco do motor cada vez mais alinhado com a raiva crescente.

Apesar dos contrastes, Valentina estava linda e exuberante. E, ainda que estivesse falando sozinha, bufando de raiva ou encenando olhares amendoados enquanto aguardava a porta se abrir, seus cabelos ruivos perfaziam o mesmo penteado; precisamente amarrados para trás, sem um único fio de cabelo fora do lugar, acentuando ainda mais o charme do rosto angelical pipocado de sarnas. Sem mencionar a jeans apertada, avolumando a beleza exótica que homem algum, estando em sã consciência ou não, jamais deixaria de reparar.

— O que veio fazer aqui?! — Renan vociferou assim que a viu rente a porta do apartamento.

— Por que você sumiu sem dizer nada?! — Valentina respondeu, mas em seguida, vacilou o corpo para trás, sentindo-se acovardada com a reação de Renan.

— Eu precisava de um tempo. — ele disse. Sua voz rangia. — Um tempo daquela cidade, daquelas pessoas, de você...

— De mim?! — Ela retorquiu — Só o que eu fiz foi te amar...

— Amar?! — Ele exclamou. E ao dizer isso o corpo de Renan demonstrava princípios de um nervosismo que não iria desvanecer tão cedo — Não me venha com essa, Valentina — ele tornou a dizer — você não sabe o que é amar.

— Não diga isso, bebê... — Ela sussurrou. E ao dizer isso, Valentia parecia já estar divorciada dos sentimentos que a levaram até ali.

— Não me chame de bebê! — Renan exclamou com indignação. E, como alguns vizinhos aportaram no pátio, se dirigindo às escadas para subir, ele se conteve e suprimiu o que iria dizer em seguida.

— Desculpe-me, Renan. — Valentina voltou a falar — Pensei que você gostava quando eu te chamava assim...

— Eu gostava de ouvir, — ele retorquiu — só que não nestas circunstâncias. Depois de dar voltas no olhar para ver se os vizinhos tinham sumido de vista, tornou a dizer: — Estamos brigando, esqueceu-se?!

Ao ouvi-lo dizer contradições, o coração de Valentina apaziguou-se. Percebeu nele um princípio de reconciliação subjetiva por trás de toda aquela recepção.

— É verdade, Renan, — ela disse em sussurros — estávamos brigando... — Em seguida, foi possível perceber um sorriso maroto brotando no cantinho esquerdo da sua boca.

— Estávamos não, — ele corrigiu — ainda estamos. Ao dizer isso, Renan abriu um pouco mais a porta, destravando o pé que mantinha travando o portal.

— Você tem razão, — ela disse, corrigindo-se — ainda estamos brigando. Mas você há de concordar comigo que todo casal, quando se ama de verdade, briga.

— Ah, — zombou Renan — Não me venha me falar de amor, ok?

— Por quê?! — Ela exclamou. Seu rosto demonstrou indignação. — Por que não devo falar de amor?!

— Por quê?! — Ele exclamou com tom de sarcasmo. — Você ainda pergunta Valentina, sério isso?!

Ao palmilhar um terreno aparentemente mais doloroso para ele, Valentina decidiu por se conter mais ao falar. Afinal, qualquer palavra que dissesse estando fora do lugar, poderia de fato, quebrar o clima de reconciliação que Renan vinha cooperando sem perceber. Mas impulsionada pela ansiedade, ela arriscou-se a dizer:

— Brigamos porque nos amamos, Renan. Quem não briga, não tem interesse em melhorar a relação. Ou demonstra, pelo menos de certa forma, que já deixou de se importar com o outro.

Renan franziu o cenho ao ouvi-la. Depois disse, com os olhos fincados nos seus — É sério que logo você quem está me falando estas coisas?!

— Por quê? Não acredita mais em mim? — Ela retorquiu desacreditada. Mas em seguida, com o olhar sutilmente enviesado para Renan, ditou palavras com leves toques de sarcasmo:

— Ah, esqueci-me que foi você que me abandonou...

— Eu te abandonei?! — retorquiu Renan. Em seus olhos era visível perceber certa segurança ao argumentar.

— É, — ela exclamou com desdém — quando uma pessoa some no meio da noite, sem avisar aonde vai, isso é abandonar, Renan!

Tentando evitar recordar-se daquela noite, Renan desviou os olhos de Valentina. Fincou o olhar no horizonte — É, — ele sussurrou depois de um tempo. Em parte, parecia se sentir culpado — Foi exatamente isso que fiz com você... Eu te abandonei.

Crendo que, enfim seus argumentos enfraqueciam um Renan agora retraído ao falar, Valentina, com propósito único de nocauteá-lo de vez, e quem sabe, reatar o relacionamento logo de cara, continuou a relembrar coisas antigas, sem em nenhum momento deixar espaços para que ele pudesse raciocinar direito.

— Você sumiu no meio da noite, Renan. — ela disse — Não avisou aonde ia. Sequer me telefonou. Quando cheguei do trabalho, te procurei como doida, por todos os lados, fiquei louca, telefonei pra todo mundo que te conhecia. Não despreguei do telefone...

Em silêncio, Renan ouvia-a retroceder ao passado, enquanto em sua mente, chafurdava desentendimentos antigos, vividos entre os dois. Mas ele ainda permanecia com o pé travando o portal.

— Está me entendendo Renan?! — Ela disse, sem saber que ele estava em transe.

De fato, Renan não estava mais ali. Seus pensamentos orbitavam outro lugar. Pois aquele zunido que já durava trinta minutos de um zum-zum-zum frenético, fez sua psique adormecer; os pensamentos acovardaram-se e, totalmente oco, a única coisa que restava foi fazer “cara” de quem a ouvia.

— Está me ouvido Renan?! — Ela repetiu a pergunta. Valentia mantinha as mãos na cintura. Mas a forma que ele se comportava, ou seja, expressando aquele olhar opaco, distante e desinteressado, lhe tirou do sério.

Foi só quando Valentina perguntou pela terceira vez: — Está me ouvido Renan?! — foi que ele foi importado daquele seu “mundo” particular. Disse baixinho:

— Eu necessito de paz...

— O que disse?!

Renan suspirou, olhou em seus olhos, e falou novamente, só que num tom mais alto.

— Eu necessito de paz...

— Como é que é?! — Exclamou Valentina. E antes que ela pudesse argumentar coisas de volta, Renan a interviu. Só que dessa vez ele foi bem grosso:

— Eu não te amo mais.

Então, toda a segurança que, a princípio a inflaram para argumentar coisas antigas, em um piscar de olhos minguaram de vez do seu rosto. Silenciou-se. E, quando por fim assimilou o significado real na junção das palavras que ouviu, o que restou no seu coração foi um misto de insegurança e medo, somando-se a um princípio de desespero.

De tudo o que ouviu de Renan naquela manhã, o que de fato insista martelar em sua mente era: “Eu não te amo mais!”. Isso lhe arrancou o chão. Mas depois de um tempo digerindo o que acabara de ouvir, ela mudou de postura. Alteou o olhar. Ela mantinha o corpo encostado na pilastra às costas e, a bolsa Prada que tanto amava estava jogada ao chão, molestada pelo palmilhar do salto alto.

— Qual é mesmo “aquele nome” que você gostava de me chamar, Renan? — Valentina disse. Foi muito sexy a mordida que ela deu no cantinho dos lábios.

“Aquele nome?” — Ele desconversou. Mas a postura corporal de Renan denunciou que ficou interessado no assunto.

— É! — Ela disse, como que o ajudando a recordar-se — Aquele nome que, sempre que a gente estava, bem, você sabe...

Depois de sacar o que estava rolando, Renan lhe respondeu, ainda que, resistindo à própria voz vibrando indícios de excitação:

— Ah, por favor, Valentina, não começa. — ele disse — Creio que o momento não é adequado, né?

— Desculpe Renan, — Ela sibilou, mas não demonstrou constrangimento ao falar. E em seguida, com os olhos amendoados, tornou a insistir com ele — Eu concordo com você. E sei que é uma pergunta boba, talvez inadequada, mas veja bem, é só uma pergunta, Renan. Respondê-la não vai arrancar nenhum pedacinho de você, vai?

— O que está tramando, hein? — Ele disse. Sua sobrancelha sobressaindo à outra.

— Tramando?! — Ela indagou permanecendo com o mesmo dengo na voz — Não estou tramando nada, juro. Só quero te ouvir falar, Renan, nem que seja só mais desta vez. Depois de ouvi-lo, juro que saio da sua vida pra sempre. Nunca mais irá me ver...

Alçado majestosamente no topo da sua segurança pessoal, Renan, sem perceber, estremeceu ao ouvi-la dizer aquelas últimas palavras. De fato, ele permanecia, pelo menos desde o início do encontro com Valentina, firme e ancorado nas mágoas que ainda refletiam sofrimentos diversos relacionados à vida que vivera com ela. Mas ao ouvi-la dizer o conjunto das palavras: “pra sempre”, e “nunca mais”, algo dissolveu dentro de si.

— Valentina, veja bem... — ele disse — Também não precisa falar desse jeito — Em seguida afrouxou a mão da maçaneta.

— Mas não é isso que você quer Renan?! — ela retorquiu, afastando-se dele. Valentina sentia que, de alguma forma, o “peixe” havia fisgado a “isca”. No entanto, segundo os próprios cálculos, era cedo para comemorar.

— Sim, — ele balbuciou, sem jeito — mas não é da forma que você está falando.

— Da forma que estou falando?! — ela exclamou tendo a absoluta certeza que já podia recolher a linha. Disse: — Renan, você sumiu sem avisar!

— Sim, eu sei. Mas o que quero lhe dizer é, tsc, tsc — Renan pigarreou um pouquinho antes de continuar — o que eu quero realmente lhe dizer é que eu precisava de um tempo...

— O quê? — Ela exclamou — Você precisava de um tempo, Renan?

— Sim, é isso. — Ele respondeu cabisbaixo. Depois saiu do apartamento e fechou a porta atrás de si.

— Ok, deixe-me ver se entendi, — ela disse cor ar de sarcasmo enquanto retirava fios de cabelos lhe atrapalhando a visão — Você precisava de um tempo longe de mim, é isso mesmo que está me dizendo?

— Sim — ele respondeu.

A partir daí ela não se segurou: — PORRA RENAN! — vociferou como um trovão — E SÓ POR ISSO ACHA QUE NÃO DEVERIA TER ME AVISADO NADA CARALHO?!

— Por favor, Valentina, fale mais baixo — suplicou Renan — não vamos incomodar os vizinhos...

— ELES QUE VÃO À MERDA, RENAN!

— Valentina, por favor — Renan insistiu. Foi só depois de um tempo, quando deu indícios que iria cooperar, foi que ele falou em uma tentativa de sequestrar sua atenção — Não queria saber qual era o “nome” que eu te chamava quando a gente estava...

— Quando a gente estava “fazendo amor”, Renan — Valentina completou, ainda resistindo à fúria burilando sua mente.

— Sim, — Ele continuou — quando a gente estava “namorando”.

— Ok, — ela disse com o rosto corado — então fala pra me acalmar...

Como já fazia três meses que não recitava o nome carinhoso que, do nada, acabara inventando bem na hora do ápice, ele disse baixinho.

Titica...

Ao ouvi-lo, Valentina caiu em gostosas gargalhadas. Mas esse seu gesto espontâneo deixou Renan com cara de taxo.

— Qual a graça, Valentina? — ele exclamou coçando a cabeça.

— A graça, — ela respondeu — é que eu nunca te disse Renan, mas titica significa bosta de galinha...

— O que?! — Ele logo se defendeu — Nada disso! Titica é um derivado do seu nome, ok? Fui eu quem inventou.

— Derivado do meu nome?! — Valentina zombou. — Sem essa, vai...

— Sim, seu nome!

— Não acredito em você, Renan.

— Veja bem, — Ele disse. Depois ficou escrevendo o nome Valentina no ar — Seu nome possui a sonoridade do t, ou seja, a sonoridade é ti. Va- len- “ti”- na.

— Certo. E daí? — Ela disse em deboches.

— Bom, e daí que o nome titica é derivado do ti, que é uma das consoantes do seu nome, sua boba! Nunca pensei em bosta de galinha.

— Está bem, eu te perdoou.

— Você me perdoa?! — Renan a confrontou permanecendo com a mesma cara de tacho — Não entendi Valentina. Você me perdoa do quê?! Não fiz nada demais em criar este apelido carinhoso para você...

— Estou brincando, seu bobo, — ela disse — eu sempre adorei este apelido que você me deu, quero dizer, eu ainda adoro. Para falar a verdade, Renan, mal posso esperar para ouvi-lo sussurrá-lo no meu ouvido novamente. Já que estou aqui, por que não aproveita e me convida para entrar.

— Desculpe-me, Valentina, hoje não vai dar...

— Por quê?!

— Por que não. — Renan respondeu curto e grosso, e de pronto se arrependeu por ter sido tão seco na resposta.

Desconfiada, Valentina mantinha o olhar fixo em cada ruga do rosto de Renan; procurou movimentos suspeitos nos músculos dos seus braços e pernas e, principalmente na expressão dos seus olhos.

Em seguida, ela falou devagarinho, mas já com suas mãos trianguladas na cintura, sincronizando um olhar inquisidor com uma respiração bem pausada:

— Por que não,... Não é uma boa resposta, Renan — Você vai precisar se esforçar mais para me convencer a não entrar aí na força...

— Por favor, — ele tornou a repetir — hoje não é um bom dia...

Dito isto, Renan tornou a abrir a porta do apartamento, ficando entre ela e o portal.

— Me fala uma coisa, Renan, por acaso tem alguém aí dentro com você?

— Por favor, vai embora — ele disse. Mas Valentina não arredava o pé da porta.

— Quem é a “piranha” que está aí dentro com você?!

— Só o que me faltava — Renan disse —Por favor, vá embora. Tenho de me arrumar para um compromisso.

— Compromisso?! Que compromisso?! —ela disse com ar de desdém — Por acaso a “piranha” que está aí dentro tem algo a ver com este seu compromisso?!

Diante das provocações de Valentina, Renan permaneceu perdido entre: entrar e deixá-la falando sozinha, ou permanecer ali, ouvindo repreensões desequilibradas, desconexas com a realidade, como sempre foi.

Depois de um tempo, Renan voltou a pedir: — Valentina, eu tenho um compromisso às 10h30min, por favor, vá embora. Depois conversamos...

— Sei...

Como um relâmpago que corta o negrume de uma noite calma e, da pior forma que existe, logo anuncia o estrago que desencadeará o trovão, o que de negativo ainda pairava no ar, apenas aguardando o desandar, caiu na cabeça de Renan como um estampido de brasas inapagáveis. O rosto angelical de Valentina, antes expressando apenas desejos de reaproximar-se, agora estava todo deformado, voltando a energizar-se das antigas vibrações de desacertos que, pelo andar da carruagem, logo libertariam conhecidos demônios.

— PORRA, RENAN, ME EXPLICA O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM VOCÊ, MERDA! POR QUE VOCÊ SEMPRE ME TRATA ASSIM?!

— Valentina, por favor...

— POR FAVOR, UMA OVA, RENAN! — ela disse aos berros — EU TE PROCUREI PRA TODO LADO SEU SAFADO! ATÉ A POLÍCIA EU CHAMEI! — Depois de gritar isso, sentiu falta de ar. Por isso, se ancorou no corrimão. Mas como sua pressão arterial baixara a nível considerável, logo se agachou para respirar. Só depois que recuperou o fôlego, disse, só que em tom baixo: — Pensei que você tinha morrido seu canalha...

Ao vê-la assim, foi que Renan revelou:

Estou morrendo... — Mas no instante que falava, as palavras foram engolfadas por um barulho de quebrar de copos e pratos, oriundos do interior do apartamento. Valentina não conseguiu ouvi-lo, por isso ela tornou a perguntar:

— O que disse Renan?!

— Deixa eu te ajudar a levantar-se.

Apesar de tentar levantá-la, o máximo que ele conseguiu foi deixá-la ajoelhada. Renan tornou a repetir, com o rosto bem rente ao seu: — Estou morrendo, Valentina... Minha mãe ficará comigo no hospital. É ela quem está ai dentro organizando minhas coisas.

Ao invés de argumentar, ou, perguntar um: “Como assim?!”, ela permaneceu negando a realidade do que acabara de ouvir.

— QUEM É A MOCRÉIA QUE VOCÊ ESTÁ ESCONDENDO AÍ DENTRO, HEIN, RENAN?! ESSA VADIA JÁ ESTÁ ATÉ COZINHANDO PARA VOCÊ, HEIN, SEU CAFAJESTE?!

Ao invés de dar-lhe uma explicação, ou, repetir o que acabara de revelar, Renan suspirou pela última vez. Depois, virou-lhe as costas e fechou a porta, afinal, estava exausto de conviver com tamanha bipolaridade.

Valentina permaneceu ajoelhada, chorando diante da porta cerrada. Foi só depois de um tempo, que a fixa caiu.

Você está morrendo meu amor?”.

Então, com o celular e a chave do veículo lutando para, pelo menos permanecerem ancoradas aos dedos, lágrimas sem fim vertiam dos seus lindos olhos verdes. Por fim, com o sol da manhã sobressaindo-se às nuvens e dando mais do ar da sua necessária graça, ela ergueu-se e selou seu rosto junto à porta do apartamento. Renan estava sentado do outro lado. Também chorava. Mas bem que ele a ouviu falar, como se fosse uma promessa:

— Desculpe por agir assim, meu amor. Eu acho que temos muito que conversar. Mas fique tranquilo, tá? Enfrentaremos isso, juntos.

Fim


22 de Outubro de 2020 às 02:17 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Gláucio. "Às vezes, reescrevo um parágrafo por horas, até conseguir concluir uma doce e singela estrofe". Lei dos direitos autorais nº 9.610. Gláucio. é um escritor nipo-brasileiro que tem se destacado com seus contos carregados de temáticas familiares e enredos inundados de eroticidade. Entre outras coisas, o que mais se destaca em seu trabalho é a escrita poética, densa e cheia de reviravoltas, naufragando a mente do leitor no seu estilo estritamente descritivo.

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