morganalefay Y. M. Dias

"[...] Eles não faziam ideia de tudo o que fizemos e nunca poderiam saber sem que a morte cobrasse o seu preço pela preciosa informação. Humanos eram frágeis demais para compreender toda a complexidade de nossa existência. Nenhum deles deveria saber todo o sangue que derramamos através dos milênios, encoberto pelas guerras e doenças. Essa era a cruz escarlate que deveríamos carregar até o nosso amargo fim."


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#vampiro
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Cruz Escarlate

 ❝E nós sabíamos que iríamos morrer antes de viver. Mas eu nunca vou deixar você ir❞

~In This Moment


OBSERVEI-A RODOPIAR COM a leveza de uma pluma ao vento. Sua face era um papel em branco, sem deixar qualquer sentimento ou sensação transparecer. Na ponta dos pés, uma elegância a transbordar, chegando até a ponta dos dedos longos e finos de suas mãos. O vestido que usava se moldava perfeitamente ao seu corpo feérico.

Contemplei além de sua dança; venerei sua pele marmórea e as veias azuladas que saltavam aos olhos de meu demônio interior. Encarei sua alma como um predador pérfido à caça de sua próxima vítima indefesa. Ela era tudo o que eu queria, tudo o que ansiava em mais de um século de existência, além do líquido escarlate que embebia seu ser.

No palco, sob a luz mal posicionada de um teatro caindo aos pedaços, a pequena bailarina brilhava como uma estrela em ascensão, sem nunca esperar que — no meio da plateia — um monstro, estático demais para um humano, escondesse toda sua cobiça atrás da boa aparência e débil iluminação. Vinha assistindo suas apresentações desde o primeiro dia em que botara os pés calejados no tablado. A cada instante, sentia-me compelido a cortejá-la e abrigá-la em meu mundo obscuro.

Quando tudo acabou e as cortinas desceram, deu-se início a uma salva de palmas que, minutos depois, intensificou-se ao verem-nas serem içadas mais uma vez. Minha caríssima surgiu em esplendor, com um sorriso estonteante, acompanhada de seu parceiro; um pobre coitado que fora ofuscado durante todo o ato. Pobre menina, não merecia estar em um lugar como aquele. Merecia mais. Merecia o mundo, e eu poderia oferecer o elemento que faltava para sua liberdade. Eu, e apenas eu, era tudo que ela precisava.

Algumas pessoas se levantaram enquanto aplaudiam e, no meio da multidão, arremessei uma rosa vermelha aos seus pés. Os olhos da jovem acompanharam a trajetória carmesim até se abaixar para apanhá-la. A expressão de curiosidade, mesclada à surpresa, era deliciosamente modesto, até que, por um instante, dor cruzou sua face. Ela levou o polegar à boca no mesmo momento em que senti o perfume agridoce de seu sangue. Um dos espinhos realizou o que eu pretendia fazer mais tarde naquela noite, como um presságio para que a inocente soubesse o que a aguardava.

De cima do palco, ela procurou pela pessoa que jogara a fonte de sua breve aflição e, dentre tantas pessoas, nossos olhares se cruzaram. Enxerguei a bondade em seu coração, assim como o orgulho, a surpresa e a gratidão. Em um gesto floreado, retirei meu chapéu e realizei uma polida vênia antes de deixar o teatro, abrindo mão de contemplar sua reação ao meu galanteio. Pude sentir seus olhos em mim, quase como se desejasse que voltasse, mas não havia necessidade de apressar o inevitável.

Sob o véu escuro da noite, encaminhei-me até o beco, na lateral do teatro, onde a porta que dava para o corredor dos camarins estava entreaberta. Não tardou até ser bombardeado pelos odores humanos fétidos que tanto desprezava. Esperei entre as sombras até que, no meio da podridão, senti o perfume dela. Ouvi seus passos leves indo em direção à porta e, quando a vi, um meio sorriso acendeu em meus lábios. Ah, minha querida, irá odiar-me antes mesmo de me conhecer. Espero apenas que compreenda tudo o que ganhará ao perder.

A realidade cortava minha pele e sangraria se pudesse, pois, naquela noite, estaria arriscando tudo por uma humana. Sempre presei por minha solidão, mas as décadas vinham se mostrando cruéis para com aqueles que receberam o beijo das trevas. Muitos ignoravam o perigo da alvorada e se permitiam virar cinzas sob o abraço do Sol.

No fundo, muitos ansiavam pela miséria que só uma criatura como eu poderia proporcionar, mas poucos estavam preparados. Os que mais a desejavam eram os meus inimigos fiéis; os mesmos que eram o sustento para a fome que parecia alimentar-se de mim e forçavam-me a viver na sombra da sociedade. Em busca da eternidade, cometiam um pecado sagrado de conceder o que não lhes era de direito: suas almas. Tudo isso para fazerem parte de uma raça em extinção, delegadas ao submundo e, ao mesmo tempo, com uma força capaz de sobrepujar toda e qualquer espécie. O poder era a chave. A chave para que qualquer humano arriscasse tudo... e eu fui um desses humanos há muito tempo.

Mas não, eles não faziam ideia de tudo o que fizemos e nunca poderiam saber sem que a morte cobrasse o seu preço pela preciosa informação. Humanos eram frágeis demais para compreender toda a complexidade de nossa existência. Nenhum deles deveria saber todo o sangue que derramamos através dos milênios, encoberto pelas guerras e doenças. Essa era a cruz escarlate que deveríamos carregar até o nosso amargo fim. Não, eles nunca poderiam saber o que vínhamos fazendo. Nada de bom viria disto.

Então, por quê? Por que deveria cessar a vida da minha delicada bailarina, condenando-a? Colhendo-a de sua natureza apenas para vê-la murchar e sucumbir à sede que também me afligia.

Também não compreendia, ao certo, por que me importava tanto com ela. Tantas mulheres cruzaram o meu caminho através de oceanos de tempos. Poucas chamaram minha atenção e essas poucas foram apenas no início, quando ainda não fazia distinção de minha antiga natureza da atual; quando sentimentos eram muito mais banais. E então, depois de tanto tempo, vejo-me desejoso da linda ballerine, cheia de intensidade e vida ao dançar. Atributos que se tornaram quase desconhecidos para mim. Mas a dúvida que me corroía era: se roubasse sua vida, ela ainda teria sua essência exuberante?

Adentro ainda mais as sombras e a observo ajeitar seu cachecol, ainda segurando a rosa que eu jogara, como uma lembrança tão efêmera quanto a vida que preenchia seu corpo delicado. Meu demônio grita, tentando impedir-me de desistir do ato hediondo, mas vou embora sem olhar para trás, mantendo comigo apenas a imagem dos rodopios e o sorriso ditoso salpicado de esperança da jovem casta.

Afasto-me cada vez mais até que o som do disparo chega até mim antes mesmo de a bala atingir seu alvo.

Por que tive que ir embora? Por que me afastei tão rápido?

Outro disparo.

No beco, dois corpos jaziam no chão, enquanto um humano caminhava até eles; em sua mão, um revólver, em seu peito, um coração aos saltos. Ele não viu minha aproximação, mas sentiu o hálito mórbido da morte antes que meu punho atravessasse seu corpo. Seus olhos se arregalaram e observaram-me com incredulidade.

Retirei-me de dentro dele e volvi na direção dos dois corpos no chão enquanto seu corpo caía já sem vida. O companheiro de palco da minha bailarina estava no chão com uma perfuração em sua cabeça. Não havia nada que eu pudesse fazer. Ao seu lado, a menina tentava tampar o ferimento em seu peito. Ajoelhei-me junto a ela e pousei sua cabeça em meu colo. Mais uma vez nossos olhares estavam em harmonia. Ouvi seus soluços e rocei sua pele, tão aveludada quanto a rosa — caída próxima à poça de sangue — enquanto afugentava suas lágrimas.

Minha estrela evanescia aos poucos por entre os meus dedos e eu não podia permitir que isso acontecesse. Meu demônio gritou mais uma vez enquanto a jovem estava prestes a dar seu último e doloroso suspiro; ordenou que não a deixasse ir. Ah, minha bailarina, serei seu até o dia em que eu me for para sempre. Não posso... não hei de vê-la sangrar.

Eu sabia. Sabia como isso iria terminar, ainda que minhas ações fossem contrárias ao destino que, naquele momento, era empurrado em nossas direções, esmagando-nos contra a parede. De qualquer maneira, a bela rosa em meus braços estava prestes a morrer antes mesmo de viver, por isso não podia deixá-la partir.

Afastei uma mecha de cabelo da sua face e, com delicadeza, trouxe seu rosto até o meu. Senti o seu medo, não de mim, mas de deixar de existir em mundo que mal conhecera. Beijei seus lábios e provei o gosto de sangue e candura.

— Scarlet... — Ela murmurou seu nome contra minha boca, temendo que fenecesse assim como a vida que a abandonava.

— Minha Scarlet. — Beijo sua testa e, de alguma forma, a bailarina entendeu o que a aguardava.

Meus lábios tocaram o seu pescoço e senti o arrepio em sua pele. A morte estava tão próxima que conseguia ouvir seus passos, mas, naquela noite, o seu arauto seria mais veloz. Cravei meus dentes em sua carne e sorvi o pouco sangue que restava. Seu corpo amoleceu em meus braços, mas só parei quando atingi o limiar. Não havia mais dor. Por sua boca entreaberta, derramei o meu sangue, meu veneno, compartindo de minha cruz.

Minha cruz escarlate. Minha Scarlet.

FIM

21 de Outubro de 2020 às 13:17 0 Denunciar Insira Seguir história
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