diascarol Caroline Dias

Para que eu havia nascido? Nunca antes havia conseguido responder aquelas perguntas, que sempre rodearam a minha mente, mas talvez, talvez eu tivesse nascido apenas para dar ao meu irmão a chance de viver um pouco mais. Eu quero viver!


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#depressão #doença #morte
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Capítulo Único

Eu quero viver!

Era o que meu irmão caçula me dizia todas as vezes que estava prestes a entrar em uma cirurgia e eu permanecia ao seu lado, segurando a sua mão com força, agarrando-me a ela, tentando não pensar que poderia ser última vez que lhe veria.

A vida era ridiculamente injusta, e nada mudava meu pensamento sobre isso.

Eram naqueles momentos, naqueles instantes em que meu irmão me confidenciava seu desejo, que me olhava com aqueles olhos brilhantes pelas lagrimas, que eu tinha mais certeza disso.

Eu sempre lhe dizia a mesma coisa, e tinha certeza que ele já havia decorado minha fala, mas mesmo assim parecia ansiar por ouvi-la, como se ouvir aquelas promessas infundadas fosse o bastante para aliviar o sofrimento e o medo constante que lhe rodeavam.

Meu irmão não merecia viver aquele inferno e eu trocaria de lugar com ele sem nem pensar duas vezes.

Ele era o bom menino, o garotinho sorridente que sempre arrancava sorrisos e mais sorrisos de todos ao seu redor. Uma criança tão doce que era difícil não amar. Determinado, teimoso e inteligente.

Este era o meu irmão caçula, meu amado irmãozinho.

Mas eu?

Eu era o garoto problema. A criança explosiva que batia e mordia com a menor provocação, o cara que reprovara por desinteresse e que sempre matava aula para sair e se divertir com amigos. O adolescente rebelde que vivia de castigo, pulando a janela e saindo escondido no meio da noite, mentindo sobre dormir na casa de um amigo apenas para poder virar a noite em uma festa qualquer e, muito raramente, indo parar na delegacia ou no conselho tutelar por causa das coisas que aconteciam nessas festas.

Era eu quem merecia aquelas visitas periódicas a hospitais, aqueles meses de internação e tratamentos, aquelas cirurgias e a incerteza sobre viver ou morrer.

25%

Essa era a chance que tanto eu quanto meu irmão tínhamos de nascer com fibrose cística. De nascer com essa maldita doença que reduz quase pela metade a expectativa de vida.

Meu irmão infelizmente não teve sorte enquanto eu fui o completo oposto, nascendo sem absolutamente nenhum resquício da doença. Mesmo ela sendo totalmente genética.

Aos dez anos de idade, meu irmãozinho, já havia passado mais tempo em hospitais do que muitas pessoas passariam em uma vida inteira, aos treze já era quase praticamente um médico.

Fibrose cística é uma doença genética e terminal, com uma expectativa de vida de mais ou menos quarenta anos, o que pode não parecer ruim num primeiro momento.

Nossos pais nem mesmo desconfiavam que carregavam um gene mutante desse tipo, por isso foi uma surpresa terrivelmente desagradável quando meu irmão nasceu e os médicos se recusaram a lhe dar alta por conta de um inchaço no abdômen e também porque passara as primeiras vinte e quatro horas de vida sem uma única troca de frauda. Não demorou em descobrirem uma obstrução no intestino, e depois disso um exame comprovou tudo o que ninguém queria.

A doença, invariavelmente, termina em morte. Uma morte lenta, após uma vida inteira de luta e sofrimento.

Meu irmão passara por sua primeira cirurgia com menos de um mês de vida, para desobstruir o intestino, mas essa foi apenas à primeira de muitas.

A fibrose era uma mutação genética rara, existiam mais de duzentos genes mutantes diferentes que causavam a doença. Não havia cura, e cada caso era diferente.

Quando descobriram a doença em meu irmão é claro que eu também fiz exames para ter certeza de que não tinha a mesma coisa, mesmo o médico tendo deixado claro que não era muito provável já que eu nunca tive os sintomas.

Se eu tivesse então jamais poderia tocar no meu irmão, já que pessoas com fibrose podem passar bactérias umas para as outras, e dependendo da bactéria isso pode ser fatal.

Sinceramente perdi as contas do número de vezes em que meu irmão ficara internado no hospital, mas todas elas eram um inferno. Todos ficavam estressados, eu, meus pais... Apenas meu irmão que se mantinha calmo.

Às vezes eu matava aula só pra ir ao hospital vê-lo.

Quando nossos pais descobriram fizeram um escândalo e deixaram bem claro para todos que se isso acontecesse era para ligarem para minha mãe na mesma hora. Mas eu sabia os horários da maior parte dos funcionários, e sabia quem me ajudaria e quem me entregaria para nossa mãe.

Meu irmão quase morria de rir depois que eu saia debaixo da sua cama, do armário ou banheiro quando um médico ou enfermeira aparecia de surpresa e eu não podia ser visto lá.

Ao menos eu o fazia rir, e isso era o bastante.

Essa doença faz com que o corpo produza uma quantidade anormal de muco, que, basicamente, se acumula pelo corpo inteiro, entupindo tudo.

Meu irmão tinha uma dieta controlada.

Na verdade, eles chamam de dieta, mas se eu comesse metade daquelas coisas certamente ficaria obeso em poucos dias. Seu corpo tinha muitas dificuldades em absorver nutrientes por causa do muco que bloqueia a passagem das enzimas digestivas e lhe causava azia, sendo assim ele precisava ingerir muito mais proteínas, carboidratos e gorduras.

Em contra partida também precisava tomar um monte de remédios junto da comida para facilitar a digestão e se estivesse internado ainda injetaria mais alguns nutrientes direto no estomago. E mesmo assim a quantidade de açúcar precisa ser controlada, pois seu corpo também não consegue produzir muita insulina e pode acabar desenvolvendo diabetes, o que complicaria ainda mais as cirurgias.

Aos dezessete anos meu irmão já havia passado por dois transplantes de pulmões, um de seus rins parara de funcionar aos nove, foi feito uma cirurgia para removê-lo a fim de evitar mais complicações. Precisou que o outro rim fosse substituído por um do nosso pai aos treze anos. Já aos dezesseis anos precisou que eu lhe doasse parte do meu fígado. Além de todos os transplantes já havia feito pelo menos cinco cirurgias para a retirada de cálculos renais, que se formavam com muito mais facilidade por causa da fibrose, mas não se dissolviam e nem sequer podiam ser eliminados naturalmente.

Nenhum adolescente deveria passar por tantos procedimentos, nenhuma pessoa deveria precisar passar por tudo isso, muito menos o meu irmão.

Ele era tudo pra mim.

Meu irmão era a pessoa mais importante do mundo para mim e por isso eu queria muito poder trocar de lugar com ele.

Acho que talvez meus pais também gostariam que fosse eu com fibrose cística ao invés dele.

Quer dizer, que futuro qualquer um poderia esperar de mim? Eu era o cara de vinte e um anos que ainda morava com os pais, não estudava, mal conseguia manter um emprego e simplesmente não tinha o que fazer com a própria vida.

Eu havia sido o garoto problema em todas as escolas que frequentara, fora expulso de algumas delas por sinal, nem sequer concluíra o ensino médio, abandonara a escola depois de me tornar a única pessoa na turma prestes há completar vinte anos.

Ainda ia a festas, e tinha amizades que meus pais consideravam como “má-influencia” e não me importava nem um pouco com nada disso. Tinha uma moto e adorava apostar corridas na madrugada, escapei por muito pouco de algumas prisões por causa disso e enlouquecia meu pai com a quantidade de multas por excesso de velocidade, ou por pilotar sem o uso do capacete.

Meus pais eram capazes de discursar por horas a fio sobre como eu estava jogando a minha vida fora, sobre como eu tinha tanto potencial e que o desperdiçava com coisas inúteis, que um dia eu me arrependeria de tudo aquilo, que eu precisava tomar jeito.

Meu irmão era o único que não me julgava.

Ele ria quando eu contava sobre essas coisas, às vezes me repreendia por arriscar minha vida sem razão, mas nunca parecia com raiva por causa disso.

Na verdade, haviam momentos, como quando eu pulara de bungee jumping com alguns amigos e lhe mostrara a filmagem, em que ele me olhava com aqueles olhos brilhando de empolgação, e eu sabia que ele queria ter estado lá.

E eu desejava poder tê-lo levado comigo.

Uma vez eu tentara leva-lo para fazer uma simples trilha comigo e alguns amigos, tudo bem, era uma trilha de quase dois dias e uma noite, e nós acamparíamos no meio do mato, mas o percurso em si não era difícil e não haveria riscos.

Meu irmão estava simplesmente empolgadíssimo, mas quando nossa mãe descobrira, eu quase pensei que seria esfolado vivo, tamanha era sua raiva.

Talvez aquela tenha sido a pior briga que eu já tivesse tido com meus pais.

Eles queriam manter o meu irmão por perto, sempre de olho em tudo o que ele fazia e no seu estado de saúde, mas eu queria leva-lo para se divertir e fingir ser uma pessoa normal por apenas dois dias. É claro, tínhamos o número da guarda-florestal nos celulares e não nos embrenharíamos muito no mato para conseguir ter algum sinal de telefone, levaríamos todos os seus remédios, e eu estava até mesmo estudando a ideia de levar um inalador ou oxigênio para emergência.

No final é claro que eu perdi a briga, tive de sair sem o meu irmão e forcei meus amigos a mudarem nossa rota de última hora porque queria passar mais tempo longe de casa, sem sinal de celular e também fazer um trajeto com uma dificuldade um pouco maior.

Quando voltei para casa, se não fosse por meu irmão eu até poderia pensar que tivesse ficado invisível, pois nossos pais estavam me evitando a todo custo. Sabia que era porque estavam irritados que eu não tivesse feito nada do que dissera que faria e ainda ignorara todas as ligações.

Ficamos quase um mês no tratamento de silencio, até que meu irmão decidiu dar um basta naquilo tudo. Foi à única vez que vi meu irmão levantar a voz, e percebi que nós o estávamos magoando ao agir daquela forma.

Ele havia gritado e chorado a mesa de jantar e desde aquele dia meus pais se esforçaram muito mais em disfarçar a decepção que sentiam com relação a mim, mas eu sabia a verdade.

Com exceção a doença, meu irmão era o filho que todo pai gostaria de ter. Um garoto simpático, amigável, com excelentes notas, que nunca se metia em confusão, que nunca dava trabalho.

Ele era o filho perfeito, enquanto eu era o filho problemático, o filho pródigo.

Nunca tive dúvidas de que nossos pais queriam que fosse eu a nascer doente e meu irmão saudável, mas é claro que aquele de nós que podia ter um futuro brilhante foi o que nasceu sem a perspectiva de um futuro.

Chegava a ser ridículo o quanto esse mundo podia ser injusto.

Eu quero viver!

As palavras ecoavam em minha mente.

Quantas vezes eu já as tinha ouvido? Quantas vezes eu ainda teria de ouvir? Quando seria a última vez? Quando é que esse mundo injusto iria negar um desejo tão simples como esse a aquele garoto?

Àquela altura eu já havia perdido a conta do número de internações que meu irmão tivera, e certamente que também não seria capaz de calcular quantas mais ainda teria no futuro. Eu sabia de todos os transplantes que ele já havia feito, mas quantos mais ainda precisaria fazer ao longo da vida?

Aos dezessete anos, prestes a completar o último ano do colégio, a fazer o vestibular e começar a sua tão sonhada faculdade, meu irmão estava sendo internado para aguardar um novo transplante de pulmões, já que sua capacidade respiratória se encontrava baixa demais.

Eu lhe ajudei a levar suas coisas para o seu novo quarto de hospital, lhe ajudei a decorar tudo da forma como ele queria, organizei os livros em sua estante, colei seus posters e desenhos favoritos na parede e o vi tirar uma foto de nossa família de sua mochila e coloca-la no criado mudo, logo ao lado da cama.

Aquela foto havia sido tirada num dos poucos momentos de trégua entre eu e nossos pais. Ainda me lembrava daquele dia.

Meu irmão havia dito que havia sido um dia perfeito. Ele tinha apenas treze anos, mas eu sempre fui um tanto baixinho, como nossa mãe, então meu irmãozinho era apenas um pouco menor do que eu.

Como de costume, eu estava fazendo careta para a câmera, meu irmão ria, dessa vez sem tubo de oxigênio, e nossos pais logo ao seu lado, superprotetores como sempre, mas mesmo eles não podiam negar o quão inofensivo era passar o dia jogando videogame, ou assistindo series, mesmo que tivessem implicado um pouco com a quantidade de doces que seus dois filhos tinham ingerido.

Aquele quarto dizia muito sobre o meu irmão, mas para ser sincero, me partia o coração vendo-o arrumar e decorar um quarto de hospital como se fosse o seu próprio quarto em nossa casa.

Quando meus pais e eu o deixamos eu já sabia como seriam as próximas semanas, e infelizmente eu não havia me enganado nem um pouco.

Nossos pais sempre se tornavam insuportáveis durante as internações. Eu sabia que era por estarem preocupados, mas isso não lhes dava o direito de descontarem suas frustrações em mim. De me acordar aos berros de manhã cedo nos finais de semana, ou de ficar me comparando com todos os filhos de seus amigos que tivessem idade próxima a minha.

Normalmente era meu irmão quem mantinha a nós três sobre controle, sem ele, as coisas fugiam dos limites.

Meus pais estavam me atormentando tanto que várias vezes eu precisei pedir a algum de meus amigos que me deixasse dormir em sua casa. Em uma semana eu havia passado um total de quatro noites fora de casa, intercalando onde dormia, já que nem todos os meus amigos estavam preparados para visitas que passassem a noite.

Eu dormi uma noite em um colchão inflável, outra no chão coberto por um edredom, e outra no sofá.

Havia optado por dormir fora justamente porque estava cheio daquelas brigas e daquele ambiente tenso que meus pais haviam criado em nossa casa, mas não parecia que houvesse meio de escapar daquilo. Toda vez que voltava de manhã, geralmente para trocar de roupa ou buscar algo que havia esquecido antes de ir para o meu turno como atendente de caixa, era simplesmente terrível. Meus pais me acusavam de fazer todo tipo de coisas, especialmente de usar drogas, o que me deixava particularmente raivoso.

Viver com os meus pais parecia ser o meu inferno particular, mas eu simplesmente não tinha dinheiro para sair de casa.

Já havia sido muito difícil conseguir aquele trabalho de meio período como atendente de caixa, e eu estava por um fio de ser despedido por causa das vezes em que perdi a paciência e levantei a voz com um cliente. Não tinha dinheiro o bastante pagar um aluguel e bancar os meus custos de vida.

Eu já nem contava mais aquelas coisas para meu irmão. Não queria que ele se preocupasse comigo enquanto estivesse internado. Queria que sua única preocupação fosse consigo mesmo, que melhorasse e continuasse a surpreender os médicos com seu otimismo e bom humor.

Mas estava sendo difícil de aguentar. Eu sentia que estava no meu limite. Que qualquer dia iria sair daquela casa para nunca mais voltar.

Havia apenas uma pessoa que eu nunca desejei abandonar, e esse era meu irmão.

Depois de uma manhã particularmente terrível em casa, eu sai para trabalhar enquanto minha mãe continuava gritando comigo, gritando tanto que todos os vizinhos tentavam espiar pelo muro para ver o que o filho problemático havia aprontado dessa vez, eu voltei para casa no fim do dia, após ter sido despedido por perder a cabeça e dar um soco em um cliente por uma discussão ridícula sobre o preço de algo, que nem sequer me lembro mais o que era.

Eu já havia acordado com a sensação de aquele seria um dia infernal, mas o que eu poderia fazer sobre isso?

Meus pais enlouqueceram quando contei o que houve. Deixei que meu pai falasse sozinho enquanto me chamava de todo tipo de nome que certamente nunca ousaria pronunciar na frente de meu irmão.

Quando finalmente consegui ser deixado sozinho no meu quarto, com as paredes cobertas por posters cuidadosamente escolhidos para irritar ao máximo os meus pais, foi que tomei a decisão de ligar para meu irmãozinho.

Normalmente nada e nem ninguém me alegrava mais do que ele. Eu sempre sorria só por poder ouvir sua voz, e conversar normalmente com ele era o bastante para tornar mesmo o pior dos dias algo mais suportável.

Mas então eu entendi o porquê nossos pais estavam tão estressados naquele dia.

Meu irmão havia piorado durante a madrugada e por algum motivo eles não me contaram. Estava com muito mais dificuldade de respirar do que antes, todos os tratamentos para a retirada de muco de seus pulmões pareciam não estar funcionando.

Foi fácil perceber isso pela quantidade de pausas que ele fazia ao conversar comigo pelo celular, e quando questionei sobre aquilo foi que ele me contou.

Agora não podia mais passar um minuto que fosse longe do tubo de oxigênio, e mesmo que ele não tivesse dito eu sabia, estava precisando urgentemente de pulmões novos.

Era cruel desejar que alguém morresse, eu sabia disso, mas era inevitável para mim. Afinal, a única maneira de meu irmão ter uma chance de viver seria se outra pessoa morresse e lhe emprestasse seus pulmões. Ao menos isso lhe daria mais alguns anos de vida antes que esses pulmões também não fossem mais utilizáveis.

Mal havia encerrado a conversa com meu irmão e fui questionar os meus pais sobre o porquê de não terem me contado.

A resposta de minha mãe foi de que não queria me preocupar, mas aquilo era ridículo. Afinal, eu sempre vivi em constante preocupação com meu irmãozinho. Ela ainda murmurou algo sobre saber que logo apareceriam pulmões para ele, como das outras vezes, mas aquilo me deixou com raiva.

Não era tão simples.

Pulmões saudáveis e aptos para transplantes não simplesmente apareciam por aí.

Eu conhecia todos os critérios.

O ideal era que o doador de pulmões nunca tivesse fumado, embora às vezes pudesse ser aceito o pulmão de alguém que parara de fumar, ou que fora fumante passivo. O doador e o receptor do pulmão precisavam ter aproximadamente a mesma estatura e tipo sanguíneo. E, é claro, o pulmão não pode estar prejudicado pela causa da morte, além de se ter um limite de tempo em que o órgão pode ser mantido fora do corpo vivo.

Achar um doador de pulmões para meu irmão não era assim tão fácil. A doença atrasava seu crescimento e desenvolvimento, aos dezessete anos ele nem mesmo atingia um e sessenta de altura, ainda deveria crescer mais nos próximos anos, o que por sinal o deixaria mais alto do que eu. E seu tipo sanguíneo era O negativo, que apesar de ser doador universal, só podia receber transplantes deste mesmo tipo, que por sinal não era assim tão comum.

Não sei dizer ao certo o que passou pela minha cabeça. Eu não estava pensando racionalmente, tudo o que sei foi que voltei para o meu quarto, batendo a porta enquanto ouvia o choro de minha mãe do lado de fora e os xingamentos de meu pai sobre tê-la magoado.

É claro que ninguém pensou que poderia ter me magoado.

Quem se importaria com isso afinal?

Eu era apenas o monstro que gostava de arriscar a própria vida enquanto o irmão caçula estava sempre entre a vida e a morte.

Eu quero viver!

As palavras ecoaram em minha mente, mas não eram minhas. Não era o meu desejo, era o desejo dele, e eu senti que precisava desesperadamente fazer alguma coisa.

Se eu fosse mais corajoso ou menos egoísta então talvez pudesse ter feito algo por meu irmão.

Tínhamos praticamente a mesma estatura, o mesmo tipo sanguíneo e, ao contrário do que meus pais acreditavam, eu nunca havia fumado. Como poderia acabar com os meus pulmões, prejudicar minha própria respiração, quando meu amado irmão simplesmente não conseguia respirar normalmente? Isso o teria deixado furioso comigo.

Sabia que haviam várias maneiras de causar a própria morte, bastaria que eu encontrasse uma que não danificasse meus pulmões e então meu irmão estaria salvo, então ele poderia viver como ele tanto queria.

Logo ele faria dezoito anos, e certamente seria muito mais esperto do que eu com a popança que nossos pais haviam feito para nós, ele com certeza não gastaria esse dinheiro todo em videogames e uma moto, como eu fizera. Era inteligente o bastante para conseguir uma bolsa universitária, e mesmo que não conseguisse, a poupança poderia sustentar seus estudos e um dormitório na faculdade por algum tempo, ele finalmente estaria livre para fazer tudo o que quisesse, sem precisar da autorização de ninguém.

Mas eu não tinha coragem o bastante para cometer suicídio e lhe dar essa chance.

Quando essa ideia me passou pela cabeça eu só conseguia me perguntar se meu irmão seria capaz de me perdoar por isso, e eu soube que não queria que ele me odiasse por ter escolhido a sua vida no lugar da minha.

Ainda assim eu sabia, lá no fundo eu sabia que estava disposto a qualquer coisa para mantê-lo vivo.

Devia haver algo estranho em mim quando sai do meu quarto, mesmo que eu não estivesse chorando, porque meu pai pareceu ter ficado alarmado ao me ver, me perguntando aonde eu iria, e o que iria fazer.

Minha mãe apenas chorava cada vez mais e não parecia ter condições de falar.

Eu não respondi, mas fui direto para a garagem, pegar minha moto.

Precisava sair daquele lugar.

Precisava de ar puro.

Precisava pensar.

Mas meu pai me puxou pelo braço com força. Ele era mais alto e mais forte do que eu, não que fosse muito difícil, mas não me deu outra opção a não ser encara-lo e ouvir enquanto gritava sobre o quanto eu era egoísta por abandona-los num momento daqueles.

Senti que estava prestes a chorar exatamente como minha mãe, então tudo o que fiz foi puxar o braço de volta e subir na minha moto.

Eu sabia que se meu pai realmente não quisesse me soltar então não teria feito. Eu não tinha forças para lutar contra ele, mas naquele momento, por algum motivo, ele me deixara ir.

Talvez tivesse simplesmente desistido, ou achasse que não valesse a pena prolongar aquela briga ainda mais.

O fato era que eu havia saído.

Estava aonde queria estar.

Nas ruas.

Que infelizmente não estavam tão desertas quanto eu gostaria.

Acelerei o quanto pude.

Precisava sentir o vento no meu rosto para me lembrar de que ainda estava vivo, para sentir, ainda que fosse ilusória, aquela sensação de liberdade.

Muitos carros buzinavam quando eu passava por eles em alta velocidade, ou quando desviava em cima da hora.

Tinha certeza que levaria pelos menos uma ou duas multas naquela noite, fosse por excesso de velocidade ou por ultrapassar sinal vermelho.

Não me importava nem um pouco.

Ainda sentia que estava prestes a chorar.

Ainda me sentia afogado com minhas próprias emoções, como se elas pudessem me sufocar, como se fosse eu quem estivesse prestes a morrer asfixiado e não meu irmão.

Eu queria desesperadamente saber por que justamente ele não poderia ter uma vida normal. Mesmo que tivesse sorte, e não vinha tendo muita até agora, ele não poderia viver muito mais do que quarenta anos e ainda seriam quarenta anos muito sofridos.

Ele nem sequer poderia ter filhos, já que sua doença deixava a maioria dos homens completamente estéreis, e mesmo que tivesse, ou que adotasse, de que adiantaria se não poderia vê-los crescer?

Era cruel demais que lhe fosse negado sequer à chance de viver.

Porque é que o máximo que este mundo poderia oferecer era a chance de sobreviver? Porque nem sequer isso lhe poderia ser garantido?

Porque as melhores pessoas precisam morrer cedo, enquanto tantas outras que meramente existem seguem vivendo longas vidas sem sentido?

Meus olhos ardiam e eu sabia que não era por causa do vento no meu rosto, que bagunçava completamente os meus cabelos, atravessava minhas roupas e causava arrepios de frio.

As lagrimas estavam se formando de novo.

Meu peito estava sendo esmagado, e eu só conseguia implorar mentalmente para que meu irmão pudesse viver como ele tanto queria.

Acelerei a moto e fechei os olhos com força para espantar as lagrimas.

Ouvi a buzina antes de abrir os olhos e ver os faróis do carro que vinha na contramão, bem a minha frente.

O motorista freou, mas eu estava rápido demais, não havia tempo.

Virei o guidão bruscamente para tentar desviar. Senti o solavanco da moto abaixo de mim quando o pneu encontrou o meio-fio e eu fui bruscamente arremessado para frente.

Não aconteceu em câmera lenta como nos filmes.

Na verdade, foi tudo extremamente rápido e eu não vi a vida passar diante de meus olhos como muitos dizem que acontece.

Meu corpo parecia mole e seguia rapidamente em direção ao solo.

Lembrei-me que o capacete estava em casa, lembrei-me de todas as vezes que meus pais e meu irmão me repreendiam por não usá-lo.

Pensei, por um microssegundo apenas, que se eu batesse a cabeça, mas meu peito não fosse esmagado então estaria tudo bem, porque meus pulmões podiam salvar a vida do meu irmão. Porque eu poderia lhe dar mais alguns anos de vida pela frente e o preço nem sequer seria tão alto assim.

Pensei na carta que havia escrito em meu caderno, meses atrás, em um momento de pura angustia. Algo que talvez pudesse ser interpretada como uma carta-suicida, e que deixava guardada em baixo do travesseiro. Uma carta escrita numa tentativa de aliviar e externar meus sentimentos.

Talvez àquela altura minha mãe já a tivesse lido e saído a minha procura. Ou talvez não se importasse o bastante para isso. Talvez quisesse manter o seu filho caçula em segurança e já tivesse desistido do caso perdido que eu sempre fui.

Afinal, qual era sentido da minha vida?

Para que eu havia nascido?

Nunca antes havia conseguido responder aquelas perguntas, que sempre rodearam a minha mente, mas talvez, talvez eu tivesse nascido apenas para dar ao meu irmão a chance de viver um pouco mais.

Eu quero viver!

Suas palavras ecoavam em minha mente, e pela primeira vez em toda a minha existência, percebi que tais palavras também poderiam ser minhas.

17 de Outubro de 2020 às 19:49 0 Denunciar Insira Seguir história
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