antonio-stegues-batista Antonio Batista

Seguidamente Ernesto sonhava com uma jovem, mas quando acordava nunca se lembrava do rosto dela. Indo a trabalho para uma cidadezinha no interior, ele tem a impressão de que já morou ali. Sequer imagina que vai encontrar a garota, num momento de extremo perigo.


Suspense/Mistério Todo o público.
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REENCONTRO

─ Você está com cara de quem dormiu mal esta noite. − disse Douglas quando entrei no escritório. Sentei-me em frente à mesa dele e respondi:

─ Ultimamente tenho tido sonhos estranhos.

─ Pesadelos?

─ Não, não são pesadelos, apenas sonhos, porém, sonho sempre com uma mulher.

─ Quem é ela?

─ Não sei, não a conheço e nunca vi.

─ E estás preocupado com isso?

─ Não, não muito.

─ Esteja certo por que já fiz reserva de um quarto para você num hotel em Ouro Verde do Sul. Você tem que ir para lá, conversar com o proprietário do terreno que nos vamos comprar. Quando você acertar tudo me telefona.

─ É necessário me hospedar num hotel?

─ Acho que sim. Essas coisas demoram alguns dias, além do mais, se tudo der certo você já pode providenciar uma construtora. Faça tudo que tenha que fazer para não ter que voltar lá outro dia.

****

Eu caminhava ao lado de uma jovem vestida com uma roupa de tecido leve, azulado. Caminhávamos por uma rua estreita e logo depois subindo uma escadaria, chegamos a uma praça onde havia tendas repletas de mercadorias. Uma pequena multidão transitava por ali, algumas pessoas usavam turbantes na cabeça. A jovem parou numa das tendas e de repente a perdi de vista.

Ao acordar, procurei me lembrar das feições dela, mas não consegui.

O quarto do hotel estava abafado, levantei-me e abri a janela deixando o ar da manhã arejar o ambiente. Olhando para fora, tive a impressão de que já conhecia a cidade, porém, tinha a certeza de nunca ter estado ali. Lavei o rosto, mudei de roupa e fui tomar o desjejum no restaurante do hotel. Logo depois, seguindo as indicações de Douglas, encontrei o endereço do proprietário do terreno, a três quadras do hotel.

A casa era antiga, robusta, de dois pisos, precisava de reparos, pintura nova. O jardim estava malcuidado, ervas daninhas cresciam nos canteiros de flores. A rua calçada seguia por um declive suave, fazendo uma curva terminava numa ponte de pedra sobre um riacho. Além da ponte, era de chão batido, cortando campos onde se viam grupos de árvores, casas esparsas e um antigo moinho. Com a sensação de já ter visto aquela paisagem, me dirigi para a entrada da casa. Subi por um caminho lajeado, entrei na varanda e apertei a campainha ao lado da porta. Uma mulher de meia idade surgiu limpando as mãos no avental.

─ Bom dia! Meu nome é Ernesto Carleto, da livraria Ônix. A senhora é dona Leonora Russel?

─ Não senhor, me chamo Vilma. Espere um momento, vou avisar Leonora que o senhor chegou.

A mulher se afastou e reapareceu logo em seguida, convidando-me a entrar.

Entrei numa sala mobiliada com moveis antigos e bem conservados. A cristaleira de jacarandá era uma verdadeira obra de arte. Segui Vilma por um corredor e entramos num quarto onde estava Leonora, deitada numa cama de cerejeira com guarnições de metal. Havia também um roupeiro e uma cômoda, sobre ela estavam alguns vidros de remédios, dentro de uma bandeja um copo e uma jarra com água.

A claridade do dia entrava pela janela envidraçada. Leonora Russel aparentava ter uns sessenta e cinco anos, tinha tez clara, cabelos grisalhos, olhos azuis e nariz afilado. Estava recostada nos travesseiros com um cobertor marrom com bordas cor de vinho cobrindo suas pernas até a cintura. Com um certo desconforto por estar invadindo um ambiente íntimo, parei aos pés da cama.

─ Bom dia, senhora! Meu nome é Ernesto. Vim tratar da compra do terreno que é de sua propriedade. Meu patrão já esteve aqui falando com a senhora...

Ela fez um gesto com a mão.

─ Sente-se.

Virei-me a procura de um assento ao mesmo tempo em que Vilma surgia com uma cadeira.

─ Fique à vontade. – disse, e saiu do quarto.

─ Vilma é uma boa amiga. – afirmou Leonora, num tom suave. ─ Se não fosse ela, eu estaria aqui sozinha, passando dificuldades! A artrite tem me atacado e eu quase não posso fazer nada. Vilma tem vindo fazer o almoço, arrumar a casa e quando pode, dorme aqui. Mas ela tem a família, a casa dela para cuidar. Não tenho condições para contratar uma empregada doméstica.

Sacudi a cabeça em sinal de que estava prestando atenção e compreendendo.

Ela continuou: ─ Meu filho está para chegar a qualquer momento e ele vai tomar conta de tudo. Mas, você disse que quer comprar a casa?

─ Não senhora, o terreno ao lado. Nós pretendemos abrir uma livraria...

Leonora ajeitou os travesseiros e voltou a recostar-se.

─ Eu morava numa estância, antes de vir para cá. Meu filho Carlitos, nasceu lá, numa noite chuvosa. Quando comecei a sentir as dores do parto, meu marido veio à cidade buscar o médico. A carroça acabou caindo num riacho e Alfredo morreu afogado. Carlitos nasceu com a ajuda da mulher do capataz da estância. Com a falta do meu marido tive que me desfazer de tudo para conseguir pagar as dívidas. Vim para a cidade e comecei a trabalhar como cartomante. Houve um tempo em que muitas pessoas me procuravam para saber o futuro, em busca de conselhos, orientação. Sempre tive um dom para essas coisas. Mas não tive nenhum pressentimento sobre a morte de meu marido. Coisa que lamento muito. Talvez fosse porque eu estava com as dores do parto.

Leonora fez uma pausa. Me fitou por alguns segundos depois disse;

─ Alguma coisa te perturba, não é verdade?

Fiquei surpreso, pois sonhos estranhos me perturbavam.

─ Sim, mas não é nada grave.

─ Não se preocupe, tudo se esclarecerá. Você vai encontrar a mulher dos teus sonhos.

Fiquei em dúvida se o que ela disse foi uma metáfora ou um presságio.

─ Você será feliz aqui em Ouro Verde, ao lado de uma boa moça.

Aquela revelação me deixou surpreso e em dúvidas, nunca pensei em morar naquela cidade.

─ Me diga exatamente o que o perturba.

─ Na verdade vim conversar sobre a compra do terreno. Não quero incomodar a senhora com os meus problemas.

─ Trataremos de negócios depois. Sinto que você é um rapaz honesto, trabalhador e que se sente muito só. Às vezes também sinto solidão. Então, o que o aflige?

─ Bem, não é exatamente um problema. Ultimamente tenho sonhado com uma moça. Não consigo me lembrar às feições dela, mas sei que é sempre a mesma pessoa.

─ Pode me contar um desses sonhos?

─ Claro.

─ Espere! Preciso ir ao banheiro. Pode me ajudar?

Afastou o cobertor, jogou as pernas para fora da cama, ajeitando a camisola. Apoiou-se em meu braço e calçou umas chinelas de feltro, ergueu-se e caminhou lentamente arrastando os pés para o banheiro. Esperei no corredor, olhando alguns retratos emoldurados pendurados na parede. Vestida de noiva, uma bela jovem de olhos azuis sorria para a câmera num campo florido. Noutra, estava ela e o noivo. Numa terceira via-se um rapaz vestido de vaqueiro, apoiado na cerca de um curral.

No banheiro soou o ruído da descarga e depois o da água na pia. Leonora surgiu exalando perfume de alfazema. Ajudei-a a voltar para a cama e com um gemido ela recostou-se nos travesseiros.

─ Você disse que sonha com a mesma pessoa todas as noites?

─ Não todas as noites, umas duas vezes por semana talvez...

─ Você é casado?

─ Divorciado.

─ Qual é a tua idade?

─ Trinta e um anos.

─ Mora sozinho?

─ Sim.

─ Me fale sobre você, sobre sua vida...

Fiz uma pausa. Levantei-me e fui até a janela. Dali via-se o pomar, alguns pés de laranjeira, pessegueiros e pereiras. Um sabiá cantava na copa de uma árvore. O lugar era tranquilo, a rua sossegada, a brisa trazia os odores do campo, das matas. Leonora não tinha pressa para tratar de negócios e eu também não estava com pressa.

─ Nasci na capital. Foi onde cresci, estudei e ainda vivo. Conheci Aline, namoramos e nos casamos. Uma união como se fosse para todo a vida, mas durou apenas cinco anos.

Vilma entrou no quarto carregando uma bandeja contendo dois pratos de comida, dois copos e uma jarra de suco de laranja.

─ Vilma, sirva o senhor Ernesto, por favor.

─ Obrigado, não estou com fome.

─ Me acompanhe. Não tem cabimento ficar sem comer.

Não pude recusar. Peguei o prato contendo feijão, arroz, um pedaço de carne, batatas e salada de tomates. Enquanto comíamos, Leonora perguntou:

─ Por que o teu casamento não deu certo?

─ Por vários motivos.

─ Tem filhos?

─ Não.

─ Você ainda vai encontrar a pessoa certa.

Afirmou Leonora. Terminando de comer, ela disse:

─ Você não quer comprar esta casa em vez do terreno?

─ Esta casa? - perguntei, enquanto procurava raciocinar.

─ Sim, é um chalé antigo, mas bem conservado. Vocês podem muito bem transformá-lo numa livraria.

─ Não é má ideia. Vou precisar conversar com meu sócio. E, a senhora vai morar onde?

─ No terreno ao lado, onde você vai construir uma casa.

─ Eu vou?

─ Sim, este chalé é grande demais para mim. Só preciso de uma casa pequena onde eu possa passar o resto dos meus dias. Então, aceita a proposta?

─ Tenho que conversar com meu sócio e se ele aceitar, vou precisar da avaliação de um engenheiro.

Leonora sorriu.

─ Vai dar tudo certo. Você disse que já sonhou com essa cidade, sem mesmo conhecê-la?

─ Sim, mas não lembro todos os detalhes. Sonhei que caminhava por uma rua de onde se via uma ponte de pedra e um moinho. Eu caminhava ao lado de uma mulher jovem.

─ Você a conhece?

─ Não.

─ Pretende procurá-la?

─ Não, acho que não...

─ Naturalmente há uma explicação para esses sonhos. Existem duas teorias, uma delas diz que, quando dormimos o espírito se desprende do corpo e viaja por um mundo paralelo. A outra afirma que pessoas que viveram vidas passadas quando dormem, buscam encontrar-se e por isso, sonham com pessoas que julgam nunca ter conhecido. Naturalmente a ciência explica de uma forma mais racional.

Leonora continuou falando sobre sonhos. Aproveitando uma pausa, afirmei que precisava ir ao cartório, antes que fechasse. Finalmente ela me deixou partir. Logo que cheguei ao hotel telefonei para Douglas e contei-lhe sobre a proposta de Leonora.

─ Quando eu estive aí, não prestei muita atenção nas condições físicas do chalé...

─ O chalé é antigo, mas está bem conservado. De qualquer maneira, vou pedir para um engenheiro fazer uma vistoria, avaliar as condições da estrutura.

─ Ótimo! Por mim, não vejo inconveniente.

Na manhã seguinte contratei um engenheiro e me dirigi à casa de Leonora. Vilma varria a varanda.

─ Bom dia! Leonora já acordou?

─ Sim, o doutor Walter está com ela, fazendo exames de rotina.

─ Vilma, Leonora conversou com você sobre a venda da casa?

─ Conversou.

─ O que você acha? Vai ser bom para ela? Não quero que Leonora se veja forçada a fazer uma coisa que depois poderá se arrepender...

─ Essa casa é muito grande para uma pessoa só. É bom que ela viva numa casa menor.

─ Mas e o filho dela?

─ Coitada! O rapaz morreu já faz quase um ano. Leonora finge que isso não aconteceu e o doutor Walter disse que não há nada de anormal com ela. Afirmou que, com o tempo, ela se convencerá da realidade.

─ Ela não tem outros parentes?

─ Não. Com a aposentadoria que ela ganha, não tem condições para contratar uma empregada e eu não posso ficar cuidando dela o tempo todo. Talvez fosse melhor interná-la num asilo, mas não tenho coragem para sugerir isso.

─ Estou disposto a ajudar. Se a senhora conhece alguém de confiança que queira morar com Leonora e cuidar dela, mande falar comigo. Pode ser um casal, eu vou precisar de um zelador.

─ Vou tratar desse assunto. - respondeu Vilma. O médico saiu da casa e ela foi falar com ele.

─ Como ela está, doutor?

─ Está bem. Tomando os remédios que receitei, Leonora vai melhorar bastante da artrite. Bem, vou indo, preciso passar na casa dos Ferreira para ver Laura. Se precisar, mande me chamar a qualquer hora. Até logo!

- Até logo, doutor e obrigada.

O médico afastou-se e Vilma comentou:

─ A filha dos Ferreira foi atacada ontem ao anoitecer quando voltava para casa. Alguém tentou matar a moça. Felizmente foi um ferimento superficial. Mas, senhor Ernesto, vá falar com Leonora...

Agradeci e entrei na casa. Leonora estava na sala, sentada numa cadeira de balanço.

─ Bom dia! Espero não estar incomodando logo de manhã cedo.

─ É claro que não! Então, já decidiram?

─ Sim, nós vamos comprar o chalé e construir uma casa no terreno ao lado para a senhora morar. Eu só gostaria de dar uma olhada na casa, se a senhora permite...

─ Claro! Pode olhar, não repare a bagunça.

No piso superior havia dois quartos, um banheiro e um gabinete. Os cômodos estavam vazios. Leonora usava apenas o dormitório no térreo para não precisar estar subindo as escadas. As paredes e janelas estavam em bom estado. Precisavam apenas de uma pintura nova. Teria também, que trocar a fiação elétrica, luminárias, colocar tapetes e fazer uma decoração no estilo rural. Um ambiente aconchegante onde as pessoas pudessem fazer suas compras com tranquilidade. No pátio havia espaço suficiente para acomodar uma dezena de carros. O jardim poderia ser remodelado, com um recanto de lazer.

Ideias não faltavam.

O relatório do engenheiro afirmava que a estrutura do prédio estava em boas condições. Dois dias depois voltei a visitar Leonora. Fomos ao cartório e na presença do advogado dela, formalizamos a compra do chalé. Logo depois a levei para casa. Vilma nos esperava no portão, em companhia de uma mulher de meia idade. Leonora a cumprimentou alegremente.

─ Esta é Matilde. – Vilma me apresentou. ─ Ela e o marido trabalharam na estância da Leonora e estão dispostos a cuidar dela.

─ Ótimo! - respondi e voltei-me para Leonora. ─ A senhora concorda em morar com eles?

A velha senhora abraçou Matilde.

─ É claro. Ela é como se fosse minha irmã!

Dois homens se aproximaram pela calçada, e Vilma fez-lhes um gesto.

─ Afonso! Alguma noticia?

O homem fumando um cachimbo desviou-se do caminho aproximou-se cumprimentando-nos com um aceno de cabeça. O companheiro também se aproximou.

─ Encontramos marcas de sapatos perto da janela do quarto de Laura. Sapatos de homem e isso indica que alguém a raptou e acreditamos que tenha sido Reginaldo. Nós vamos até a casa dele agora. Não podemos perder tempo, com licença.

Os dois homens se afastaram caminhando rápido.

─ Aquele era o meu marido, ele é delegado de polícia. - disse Vilma.- O outro é Tenório Ferreira, pai de Laura. Esse tal Reginaldo trabalhou no empório dos Ferreira e parece que ele se apaixonou pela moça, porém, Laura não gostava dele. O rapaz a incomodava tanto que Tenório teve que mandá-lo embora. Há quatro dias ela foi atacada quando saia do colégio. Um homem mascarado a ameaçou com uma faca e como ela reagiu, o sujeito tentou matá-la, mas apenas feriu-a no ombro. Laura estava em seu quarto, convalescendo, quando sumiu esta manhã.

─ Pobre moça! - exclamou Leonora.

─ Eu vou aproveitar que Matilde vai ficar com Leonora e vou até a casa de Laura.

─ Pode ir. - respondeu Matilde.

Acompanhei as duas senhoras até a porta da casa e me despedi. Passei numa construtora e pedi um orçamento para fazer a reforma da casa de Leonora.

Naquela noite tive um sonho estranho.

Eu caminhava por um campo onde outrora havia um milharal. Eu seguia uma jovem. Ela usava um vestido comprido até os tornozelos, tinha um rosto pálido e parecia angustiada. De vez em quando olhava para trás para ver se eu ainda a seguia, mas não dizia nada. Cruzamos um regato e subimos uma elevação. No terreno abaixo ao lado de uma colina, havia um barracão de tabuas amareladas. A jovem seguiu naquela direção e depois se desviou e parou próximo de um grupo de arbustos. Olhou para mim, inclinou-se, afastou as folhagens revelando um buraco negro de onde saia um som estranho.

Acordei com o ruído do despertador. Sentei-me na beira da cama e respirei fundo procurando regularizar as batidas do coração. Minha cabeça doía. Tomei um analgésico e logo depois deixei o hotel. Passei na construtora, peguei a nota com o orçamento da obra e remeti uma cópia para Douglas. Comprei algumas frutas e revistas e me dirigi para a casa de Leonora. Vilma estava lá, conversando com Leonora na varanda. Matilde estava na cozinha, fazendo o almoço. Entreguei as frutas e revistas para Leonora, que ficou feliz com o presente.

─ Como está o caso da moça que desapareceu? - perguntei a Vilma. Ela fez uma expressão triste.

─ Ainda não apareceu. E ontem...bem, eu estava aqui comentando com Leonora. Quando meu marido e o senhor Tenório chegaram à pensão onde Reginaldo mora, ele os recebeu a tiros. Afonso revidou e o rapaz acabou ferido. Morreu a caminho do hospital, sem dizer o que fez com Laura.

─ Que horror! - exclamou Leonora.

─ Policiais e voluntários a estão procurando em toda parte. Afonso teme que ela tenha sido morta por Reginaldo e enterrada na mata.

─ E como esse rapaz pode ter tirado a moça da casa sem que ninguém visse?

− Indagou Leonora.

─ Foi encontrado perto da casa, um chumaço de algodão com cheiro de éter. A moça estava desacordada. Reginaldo já tinha tudo planejado, ele arrombou a janela, entrou no quarto e usou o éter para que ela não acordasse. Afonso acredita que tenha usado uma carroça para poder transportá-la.

Enquanto Vilma falava, fiquei pensando no sonho que tive àquela noite.

─ Tem uma velha mina nas terras do Matias. - disse Leonora.

─ Os homens já estiveram lá. - respondeu Vilma. ─ Nada foi encontrado. Nenhum sinal de Laura.

─ Onde fica essa mina? - perguntei.─ Como posso chegar lá?

─ Pela estrada rumo ao sul. Passando uma ponde de madeira e um bosque de eucaliptos, olhando para a direita, o senhor vai ver um morro e uma estradinha que leva até lá.

─ Vou dar uma olhada.

─ Volte para almoçar conosco. - disse Leonora.

Voltei ao hotel, peguei o carro e me dirigi para o sul. Passando pela ponte de madeira, encontrei alguns homens examinando as margens do canal. Segui adiante e após uma curva passei pelo bosque de eucaliptos.

Alguns minutos depois avistei a estradinha que seguia na direção de uma colina rochosa. Deixei a estrada e segui pela trilha devagar, evitando os buracos no solo. Na base da colina havia um barracão de madeira e ao lado, tinha dois postes de ferro a uma distância de uns quatro metros um do outro. Entre os postes jazia a carcaça de um trator e sob as ferragens, alguns galhos secos, pedras e pedaços de madeira.

Deixei o carro e me aproximei do local. Afastando aquele monte de lixo, encontrei uma chapa de ferro com um vão quadrado no meio, que parecia ser uma peça de caldeira, ou forno. A chapa cobria a boca de um poço, um buraco profundo e escuro. A luz do sol chegava até uns três metros para dentro e pude perceber que havia traves de madeira escorando as paredes. Aquilo parecia ter sido o respiradouro de algum túnel.

Os homens do resgate já estiveram naquele local, mas talvez eles não tivessem conhecimento da existência daquele poço, tampouco tiveram a ideia de examinar aquele entulho. Se Reginaldo jogou Laura ali, provavelmente estaria morta. A única coisa que eu podia fazer era voltar à cidade e perguntar ao delegado se alguém examinou aquele poço. Mas e se ela ainda estivesse viva? Inclinei-me sobre a abertura e gritei:

─ Laura! Laura!

O som da minha voz ecoou na escuridão do poço. Não ouvi nenhum ruído em resposta. Repeti o chamado e esperei. Silencio. Estava disposto a ir embora, quando ouvi um murmúrio. Achei que tinha sido imaginação minha, mas logo em seguida um grito abafado subiu pelas paredes do poço e me deixou estarrecido.

─ Aqui! Socorro!

─ Como você está?

─ Acho que quebrei o braço. Me ajude, me tire daqui!

Era ela mesma, estava viva. Pensei em procurar ajuda, mas talvez quando voltasse fosse tarde demais. Decidi eu mesmo resgatá-la daquele poço cheio de sombras sinistras. Inclinei a cabeça e gritei:

─ Vou descer aí.

Corri para o barracão. A porta estava só encostada, o pessoal do resgate já estivera ali. O chão era de terra batida, manchado de óleo. Num canto havia um monte de tábuas velhas, um exaustor quebrado, um balde amassado e um lampião sem vidro.

Encontrei dois pedaços de corda de náilon e uma corrente de ferro com uns três metros de comprimento. Uni as cordas e amarrei uma das pontas no primeiro elo da corrente, reforçando as emendas com um pedaço de arame. Voltei ao poço, amarrei a ponta da corrente no carro e joguei o resto para dentro do poço. Calculei que devia ter chegado a uns doze metros no fundo.

─ Laura, você vê a corda?

─ Sim, mas não vou conseguir me segurar.

─ Fique calma, vou descer.

Segurei-me na corda e comecei a descer, apoiando os pés nas traves. Lentamente e com cuidado, fui descendo para interior do poço.

À medida que eu descia, minha vista foi se acostumando com a penumbra. Continuei descendo e por fim cheguei a uma espécie de plataforma, formada por algumas tábuas pregadas nas traves.

Laura estava encolhida junto à parede. Ao movimentar-me, bati com o pé numa tábua solta que despencou por um vão e logo depois ouvi o barulho da queda na água. Apoiei-me numa viga e me inclinei sobre a jovem. Eu mal distinguia suas feições nas sombras do poço.

─ Consegue se mover?

─ Vou tentar. − respondeu numa voz fraca. Ergueu-se e as tábuas rangeram com um ruído sinistro. Rapidamente passei um laço sob os braços dela.

─ Agora você fica nessa posição enquanto eu subo para te puxar, certo?

Ela respondeu com um sussurro e eu comecei a subir.

Através da abertura lá em cima, vi o céu claro e me pareceu que a saída estava muito mais distante do que a realidade. Depois de alguns minutos que pareceram horas, atingi à superfície. Pisei no solo firme com um tremor nas pernas.

Peguei a corda, finquei os pés no chão e comecei a puxar. Ela não era muito pesada, mas com o tempo, meus braços começaram a ficar doloridos e o medo de que a corda rebentasse me deu mais força para conseguir içá-la rapidamente.

Quando ela surgiu na boca do poço, peguei-a por baixo de um braço. De repente soou um ruído de madeira se quebrando e a chapa de ferro cedeu alguns centímetros. Laura ainda estava com a metade do corpo dentro do poço. Firmei os pés no solo e a puxei enquanto dentro do poço as vigas começaram a se partir.

A chapa cedeu e a carcaça do trator despencou com um rangido e ficou entalado por um momento. Só deu tempo de tirar Laura e tudo desabou com um estrondo. Tirei a corda de Laura. Ela estava semi-inconsciente, com o rosto, braços e vestido sujos de limo. Com cuidado a coloquei no carro e segui direto para um hospital. Quando ela começou a ser medicada, liguei para a delegacia. Quinze minutos depois chegaram Afonso e os pais de Laura. Enquanto os pais iam vê-la, Afonso foi falar comigo.

─ Onde ela estava? Como o senhor a encontrou? − perguntou ele. Resolvi não falar sobre o sonho que tive àquela noite.

─ Na velha mina, dentro de um poço perto do barracão. Eu estava passando por ali quando ouvi um pedido de socorro.

─ A equipe de resgate esteve naquele lugar! Como eles não olharam o poço?

─ Estava oculto e talvez ninguém tivesse conhecimento dele.

─ Foi uma sorte o senhor estar lá naquele momento, caso contrário, certamente Laura morreria!

─ Bem, tenho que ir, se precisar de meu depoimento, estarei no hotel.

─ Não quer esperar? Você é um herói, não pode se negar isso. Com certeza os pais de Laura vão querer te agradecer.

O delegado mal acabou de falar quando Tenório surgiu na sala. Apertou-me a mão com lágrimas nos olhos.

─ Não sei como lhe agradecer. − disse ele, me abraçando.

─ Vamos agradecer a Deus. - respondi.

- Laura quer ver o senhor.

O delegado fez um gesto.

- Vá vê-la.

Quando entrei no quarto, a mãe de Laura levantou-se da cadeira, agradeceu-me por ter salvado sua filha e se retirou. Laura estava deitada no leito, recostada nos travesseiros com o braço esquerdo e o pé direito, enfaixados. Olhando-a agora com mais atenção, descobri que era ela a mulher dos meus sonhos, literalmente falando.

Ela sorriu.

─ Como está? - perguntei.

─ Melhor, muito melhor agora que você chegou. Senta aqui.

Me sentei na beira da cama e ela me olhou longamente.

─ Tenho a impressão de que te conheço de algum lugar.

─ Acho que em sonhos. - respondi.

─ Sabe que, eu acho que é isso mesmo! Como podemos nos encontrar em sonhos se nunca nos vimos antes?

─ Talvez nos conhecemos de outras vidas.

─ Acredita nisso?

─ É claro.

Laura sorriu.

─ Agora eu também passo a acreditar.

─ Muita gente não acredita. Acho melhor não comentarmos com ninguém sobre isso.

─ Tem razão. Este será o nosso segredo. Espero que possamos nos ver mais vezes.

─ Com certeza.

─ Não só em sonhos, é claro.

FIM

16 de Outubro de 2020 às 14:09 0 Denunciar Insira Seguir história
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