Um natal sangrento Seguir história

julie1sachs Julie Sachs

O que você faria se, em uma bela noite de natal, durante a ceia, você fosse esfaqueado pelas costas? Afinal, o que passa pela cabeça de uma pessoa que faz algo assim em pleno natal?


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#sangue #cachorro #psicopata #Natal
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Capítulo único

      Quando se fala em Natal, logo pensamos em presentes, festas, o nascimento de Jesus, união, comida farta, papai Noel e esse tipo de coisa. Afinal, é o que geralmente temos nessa data "tão especial", não é mesmo?

      Bem, mas eu não. Eu penso e tenho sangue.

      Sangue quente que escorre pelo chão, e todas as faces que outrora estavam felizes e confiantes ficando deformadas com a ponta da minha faca que as rasga lenta e dolorosamente.

      Sim, eu sei que você está me achando uma louca doente. Talvez eu seja mesmo. Mas de quê isso importa? Você irá morrer nesse natal mesmo de qualquer maneira... E todas as conclusões que você tirou de mim serão perdidas para sempre no fundo de sua memória morta.

      E ninguém nunca saberá como foi que você morreu.


🔻🔻🔻


      Sangue escuro escorre pelo enorme peru assado que acabou de ser tirado do forno.

      Você deve estar se perguntando.. "Se ele está assado e acabou de sair do forno, teoricamente não é para ele estar sangrando... é?"

      Não; mas de fato ele não está. Afinal, esse sangue não é dele.

      É dos convidados.

      Estão todos escorados na mesa, alguns caíram no chão quando foram tentar se defender, e outros até, ainda sentados no sofá, pois não perceberam que estavam na presença de uma serial killer enquanto morriam, de tão precisa que minha faca fora em seus pescoços.

      É como se fosse uma casinha de bonecas macabras, todas vestidas de vermelho. Vermelho sangue. Inclusive o cachorro, que dormia serenamente no tapete felpudo em frente à lareira antes de entrar para a brincadeira e também se vestir de vermelho.

      Sabe, é um tanto irônico terem me convidado para a ceia. Principalmente sabendo quem eu sou, o que eu fiz e ainda faço. Acho engraçado como as pessoas julgam muito as outras apenas pela forma de agir. Basta ser gentil com alguém que ela já acha que você é bondoso; ou, no meu caso, que eu mudei.

      Mas as pessoas não mudam. Elas sempre vão continuar sendo quem são. Sempre vão ter a mesma natureza. Quem nasce homofóbico, irá morrer sendo homofóbico; quem nasce com um bom coração, irá morrer com esse bom coração; quem nasce psicopata, vai morrer psicopata. E não há nenhum tratamento que mude isso.

      - Olá Clóvis. Como você está? - Minha voz saiu fina enquanto eu abria e fechava a boca de uma das crianças que eu havia matado, como se ela estivesse falando isso.

      Rapidamente, tirei a criança do meu colo e peguei outra, dessa vez um menininho.

      - Vou muito bem, Ally. E você? - A voz agora é grave. - Gostou da minha nova roupa? Admito que adorei a cor. - Segurei um dos braços inertes dele e o fiz dar uma voltinha, como se estivesse mostrando seu novo visual para a outra.

      Deixei o garoto no chão e voltei para a outra da qual apelidei de "Ally". Não sei qual era o seu nome antes de morrer. Também pouco me importa agora.

      - Amei! O meu vestido também está da mesma cor. Fico muito contente que o usarei para sempre, e... - Sirenes. Sirenes ensurdecedoras interrompem a minha brincadeira um tanto macabra. Droga. Quem ligara para a polícia?

      Foi aquele gordo que assou o peru. Tinha que ser aquele gordo. É sempre o gordo.

      Jogo a menina para o lado com certa brutalidade e me levanto. Rapidamente, pego minha grande amiga e faca - Tasha - e vou até a porta dos fundos, onde a abro e corro até o quintal, pulando a pequena cerca que rodeia a casa e vou para a outra, onde rapidamente subo em um grande salgueiro que há aqui.

      Escuto a polícia invadindo a casa, e, por um momento, acho ter ouvido o latido de cães.

      Não... A polícia australiana não tem cachorros. Nunca teve. Por que é que haveria de ter agora? Afasto esses pensamentos preocupados de minha cabeça enquanto tiro minhas luvas descartáveis com os dentes e as guardo em minha mochila para poder dar um fim nelas mais tarde.

      Latidos. Não. Dessa vez eu tenho certeza de que escutei pelo menos três ao mesmo tempo. Mas que cheiro eles haveriam de seguir? Eu nunca deixei nenhuma prova em nenhuma cena do crime. Inclusive a de cheiro. E na casa onde cometi o massacre, haviam pelo menos uns vinte ou trinta cheiros misturados... Achar justamente o meu seria muita coincidência.

      Me recosto nos grossos galhos do salgueiro novamente. Poderia haver pessoas observando. Não posso sair daqui ao menos que seja estritamente necessário (como por exemplo, cães e policiais perto de me encontrarem aqui), afinal, eu estou de branco, e portanto sou praticamente um farol nessa noite escura como o limbo.

      Enquanto eu espero em cima do frondoso salgueiro, apenas um pensamento me passa pela cabeça: quem chamou a polícia? Não pode ter sido o gordo, muito embora eu estivesse tentada em culpá-lo... Mas ele foi o segundo a morrer.

      Vejamos... as crianças não podem ter sido. Elas não tinham celular... As pessoas que estavam na mesa não tiveram nem a chance. E nem as do sofá...

      Oh não... Já sei. Foi o velho! Eu me lembro que ele saiu do banheiro quando eu estava matando o cachorro. Ele saiu de lá até mesmo empunhando um cano retirado da pia para tentar me nocautear. Há, coitado. Bastou um chutezinho para o coroa cair duro no chão e quebrar o pescoço já corroído pela osteoporose.

      Droga. Como eu fui burra! Eu sequer desconfiei que aquele celular de flip no bolso de seu casaco de lã estivesse na linha com a polícia..

      Burra.

      Ouço um ruído vindo perto de onde eu estou, como um galho se quebrando sob os pés de um grande homem. Com um sobressalto, olho para a direção do som, não encontrando ninguém menos do que um policial obeso que segura a guia de um cão que não tarda a começar a latir enquanto olha para a minha direção.

      - O que foi, garoto? Para o que você está latindo? - O policial pergunta para o energúmeno quadrupede enquanto força sua visão por entre os galhos. Me encolho instintivamente em meu lugar mesmo sabendo que é inútil, o coração a mil.

      Droga. Maldito cachorro. Estou claramente destacada nessa árvore, em poucos segundos esse gordo irá me ver. Se eu tentar fugir, esse demônio de quatro patas que cegamente chamam de cachorro com certeza irá me alcançar e eu acabarei com um ferimento não muito bonito no pescoço...

      - Ei! Você de branco! - O policial avultado chama, já desembainhando sua arma para apontá-la para mim. - Desça dessa árvore agora mesmo e coloque as mãos na cabeça ou eu atirarei!

      Droga. Antes de fazer o que o policial mandou, deixo minha mochila com tudo nela bem escondida no galho onde estou apoiada. Pelo menos assim poderei ter alguma chance de me safar dessa.

      - Por que está demorando tanto? - Ele pergunta impaciente.

      - D-desculpe senhor policial... É que eu estou procurando um galho que eu alcance para eu poder descer... - Respondo, já pulando para o galho mais próximo. - Encontrei.

      Rapidamente, desço do salgueiro, pousando com facilidade no chão, não me esquecendo de olhar bem assustada para o oficial à minha frente.

      - P-pegaram ele? - Pergunto fingindo estar com medo.

      - Ele quem? Você viu o que aconteceu?

      Assinto com a cabeça, tentando não fazer nenhum contato visual com ele. O cachorro solta um rosnado.

      - Ele.. ele... ele matou todos os meus amigos! Não poupou sequer o pobre poodle! - Seguro os ombros do policial armado e começo a chorar, obrigando-o a abaixar sua pistola.

      - C-calma, moça. Me conte o que aconteceu... - O policial pede, e sinto seus músculos relaxando um pouco. Esse é o momento. Só tenho uma chance.

      Em um único movimento, abaixo minha mão direita na direção da arma em suas mãos e atiro em seu peito com uma precisão adquirida com anos de treino. O cachorro não demora um segundo sequer para pular em cima de mim com seus dentes afiados a mostra. Instintivamente, levanto a arma em sua direção e atiro, o que faz com que o mamífero caia no chão inerte como um pedaço de fezes.

      - Ei! Você! Parada! - A voz vem de dentro da casa. Não sei quem falou, mas também não há tempo de descobrir. Saio correndo na direção da rua, pulando a pequena cerca que cerca a casa branca que abriga o salgueiro onde outrora eu estava escondida.

      Ouço o som de tiros tentando acertar minhas pernas velozes. Acho incrível como mesmo eu matando dezenas de pessoas apenas em uma noite, os policias ainda se recusem a me matar. Por isso que o crime nunca vai acabar no mundo. Se eles não vão nos matar, não há o que temer, não é mesmo?

      Viro em um beco vazio e me escondo em um latão de lixo, esperando as dezenas de pés com botas passarem sem suspeitar de nada.

      É... devo dizer que esse foi um natal produtivo.

      ... e sangrento

      Espero mais alguns minutos dentro da lata vazia antes de sair dela e caminhar calmamente no sentido contrário ao dos policiais. Tenho que pegar a minha mochila antes que eles a descubram amanhã... Além disso, será bem interessante dar uma última olhada na minha obra de arte...

      Ah! Como a morte em conjunto é realmente linda...! Eu não teria problema nenhum em enquadrar uma cena dessas e colocar em meu quarto para eu observá-la antes de ir dormir.

      De qualquer maneira, estou realmente satisfeita com o meu trabalho. Espero que o próximo natal seja tal bom quanto este! E, quem sabe, você não seja quem estará comigo nele? Com toda a certeza será muito divertido ver você vestido de vermelho.

      O quê? Você está com medo? Não precisa. Eu sei que você também irá adorar...

      ... na verdade, eu tenho certeza.

      Feliz natal!

20 de Janeiro de 2017 às 12:27 0 Comentários Denunciar Insira 0
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