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Capítulo Único

Epifania


Ele acordava com o tocar do galo todas as manhãs. E a ave de crista costumava ser mais pontual do que qualquer tipo de relógio. Tinha sorte, nesse quesito, de viver num bairro dos subúrbios, afastado da área central da metrópole. Assim a proximidade do campo permitia, com a presença do despertador animal, que ele quase nunca se atrasasse para o trabalho.

Seu emprego era num armazém de bebidas. Carregar engradados e fardos para lá e para cá o dia todo. E esses "fardos" de garrafas já começavam a assumir mais de um sentido. Não suportava mais o peso como antes, seus braços freqüentemente doloridos demonstrando os primeiros sinais de desgaste em anos. Não reclamava, no entanto – o salário era justo, suficiente para que sustentasse a jovem esposa e o filho recém-nascido.

"Trabalhadores do Brasil"... não era assim que falava o senhor Getúlio, ídolo de seu avô?

Todo dia a rotina era a mesma, tão exata quanto os valores que marcava em sua cadernetinha, todo início de mês, para planejar os gastos da família – que não deveriam exceder por nada o valor de seu salário: tomava o café constituído de pãozinho com manteiga e leite, arrumava-se, pegava o ônibus no ponto situado dois quarteirões acima de sua casa... O transporte, sacolejando pelas ruas de asfalto maltratado daquela parte da cidade, obrigava os passageiros a segurarem firme as barras e assentos para não cair; mas ele já estava acostumado. Decorara, inclusive, em que pontos do trajeto havia quebra-molas ou lombadas mais acentuadas – sendo capaz, talvez, de até precisar os minutos exatos da viagem em que o circular passava por elas.

Passava sempre diante de uma escola situada em frente a uma pracinha, os alunos nela se aglomerando enquanto aguardavam o início das aulas da manhã; uma concessionária de automóveis de onde um dia sonhava sair dirigindo um carro do ano... e, claro, o barzinho ao qual costumava ir aos domingos à tardinha para refrescar-se com uma garrafa de cerveja, além do habitual bate-papo com amigos e conhecidos. Mais algumas dezenas de quarteirões adiante... e o armazém em que trabalhava se desenhava atrás de um conjunto de casas mais antigas.

Nele, a imutável seqüência diária de ações prosseguia: catalogar bebidas, mudar estoques de lugar, organizá-los de acordo com distribuidora, destino, fabricante... Ele era considerado um funcionário exemplar no que fazia. Mas nunca havia ganhado qualquer tipo de aumento...

Voltava para o lar tomando o mesmo ônibus – passando pelo boteco agora lotado de fregueses que há pouco haviam saído de seu trabalho, vislumbrando os carros novos na concessionária que tinha seus portões fechados pelo gerente quase sempre no mesmo minuto, acompanhando com os olhos a pressa dos jovens que deixavam a mesma escola após o período letivo da tarde... E não demorando muito a descer no mesmo ponto dois quarteirões acima de sua casa, para ela então rumando cansado – porém feliz.

Por muitos dias essa rotina se reproduziu – os horários, o ônibus, o caminho de ida e volta, o trabalho e as pessoas convertendo-se em quase verdades inquestionáveis, praticamente universais...

Ao menos para ele.

Até que mais uma manhã veio, o galo-relógio como sempre pontual, o pão com manteiga e o leite conservando o mesmo sabor... e o ônibus parando no ponto dois quarteirões acima no horário de sempre. O trajeto repetiu-se, quase totalmente ignorado por ele: as lombadas sacolejaram o transporte nos mesmos trechos, a escola preparava-se para abrir suas portas aos estudantes, a concessionária mantinha os belos automóveis em sua vitrine...

Quando uma explosão foi ouvida, seu estrondo propagando-se tanto dentro quanto fora do circular. Algumas pessoas berraram de susto, ao mesmo tempo em que toda a estrutura do ônibus agitou-se com intensidade. Alguns que se encontravam de pé vieram ao chão; ele, no caso, logrando se segurar a uma das barras metálicas próximas de uma das portas do veículo. Sentiu-se assustado, a paisagem deixando de se mover através das janelas, e o motorista soltando um alto xingamento.

Um dos pneus estourara.

O cobrador anunciou, tentando soar o mais reconfortante possível, que o dinheiro das passagens seria devolvido. Em fila, todos dentro do ônibus passaram de volta pela catraca para apanhar seu dinheiro – a mesma catraca que, até então, era tida como inconcebível de ser girada no sentido oposto. Ele estava confuso. Nada daquilo parecia fazer sentido, e seu próprio corpo ficava dormente devido ao nervosismo que o tomava.

Último da fila, logo foi sua vez de apanhar de volta seu dinheiro e seguir a pé até o trabalho. Do lado de fora, os passageiros resmungavam devido ao ocorrido, enquanto os mais apressados, sem tempo sequer para isso, avançavam rumo aos seus destinos quase correndo pela calçada. Já ele caminhava devagar, receoso como se pisasse o terreno de um outro planeta. Desceu pelo último degrau da saída com uma postura armstronguiana, sua lua constituída por aquele estranho mundo da rotina quebrada.

Em meio aos ex-colegas de ônibus, olhou para o outro lado da rua... constatando que o veículo parara quase exatamente diante do barzinho que freqüentava aos fins de semana. Fitando as cadeiras e mesinhas de ferro vermelhas, dispostas sob o surrado toldo do estabelecimento contendo propaganda de determinada marca de cerveja, algo pareceu mudar em sua mente. Como se um interruptor há muito estático, já até coberto de teias de aranha, houvesse sido acionado.

Decidido, passou a pisar firme, com segurança, na direção do boteco, atravessando a via.

Nele chegando, acomodou-se junto a uma mesa e, sorridente, fez um sinal para a atendente até então distraída no balcão com a TV ligada. A simpática moça demorou alguns segundos para perceber o freguês e, ao vê-lo, caminhou até ele um pouco desconcertada, perguntando ao se aproximar o suficiente:

- O que o senhor vai querer? Uma cervejinha?

Ele esticou a cabeça para o interior do bar, fitando tanto os engradados quanto o freezer repletos de garrafas de cerveja que só consumia poucas vezes ao mês, ao final dos domingos, mas que via e carregava todos os dias devido ao seu trabalho. Ampliou então seu sorriso e respondeu, num aparente contra-senso:

- Vou levar uma guaraná dois litros. Hoje pretendo almoçar lá em casa.

A jovem retornou pouco depois com a garrafa de refrigerante ensacada, que foi apanhada pelo homem. Este, em seguida, retornou para sua morada assoviando... fazendo outro caminho.

14 de Outubro de 2020 às 03:44 4 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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 Silva Silva
Uma narrativa bem leve mas rica em detalhes que traz boas reflexões. A leitura foi bastante agradável e passou bem o ritmo da rotina do protagonista. O ato final foi surpreendente e a subversão de expectativa foi simplesmente genial. Parabéns pelo texto.

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Muito obrigado, hehe! O cotidiano está cheio de histórias fantásticas, advindas dessas rupturas no dia-a-dia. Grato pelas impressões e elogios. Abraços. 12 hours ago
Delvan Sales Delvan Sales
Olá, Luiz. Parabéns pela história! Gostei bastante da forma como abordou o cotidiano e principalmente da quebra de expectativa do final.
October 24, 2020, 14:46

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Olá. Muito obrigado. A ideia foi justamente a de quebrar a rotina do personagem e dar uma nova visão sobre ele mesmo. Valeu por ler. Abraços. October 24, 2020, 20:22
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