audrey_r_moura Audrey R.

César e Tony, duas pessoas que se conhecem na fila de um programa de rádio. César está há anos em busca da esposa desaparecida. Tony está à procura de sua amiga, a mesma pessoa. O programa de rádio semanal é "Onde Você Está", uma rádio local faz sucesso promovendo reencontros entre familiares e amigos desaparecidos. No meio da entrevista, recebem uma ligação de Elis Vasconcelos, a pessoa que Tony e César estão em busca. Quando uma paciente chega à emergência do hospital gravemente ferida, a enfermeira Sara se depara com um mundo de violência e terror. A mulher foi atropelada por um carro, mas está fazendo confusão por não saber onde está. Sara a reconhece como Elis Vasconcelos, sua melhor amiga. O Departamento de Pessoas Desaparecidas do Polícia Federal tem a tarefa de reconstituir os últimos passos da vítima em questão, e descobrir por onde ela passou e o que aconteceu durante seu desaparecimento. Os policiais Samara e Tony assumem o caso, mas não descobrem nada, porque Elis Vasconcelos não consegue lembrar dos anos que esteve desaparecida. A primeira pista sobre aparece depois que alguém importante morrer, e a investigação policial cai em uma grande trama perigosa. Obs.: OBRA COM GATILHOS EMOCIONAIS, ACONSELHADA PARA MAIORES DE 18 ANOS (Contendo alusões a tortura, traições, gore, violência e etc).


Suspense/Mistério Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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Onde Você Estiver

Tony Arcanjo recordava-se do último dia que a viu. Era uma sexta-feira à noite, cuja luz da lua brilhava como uma lâmpada no pátio da Academia Nacional de Polícia. Ele estava sentado em uma cadeira ouvindo os sussurros de seus colegas à volta, tão extasiados quanto ele por seus novos cargos que conquistaram com empenho e suor. Elis Rossi estava sentada na cadeira à sua frente, conversando junto à Samara Menezes, enquanto erguia o tubo com o diploma e o distintivo de cadete formada.

Ele queria parabenizá-la, mas foi distraída por outros cadetes formados, e se separaram na festa. Tony passou uma noite inteira desejando abraçá-la, e dizer qualquer coisa que sairia engasgado como um aparvalhado. Todas as vezes que conversa com ela, não conseguia ser coerente e claro.

A procurou por todos os lugares, mas mesmo que se misturou na festa de formação de cadetes para a polícia federal daquele ano, ela não foi encontrada em lugar algum. Sua colega de quarto, Samara, havia se separado, se escondendo pelos cantos enquanto mantinha um relacionamento que achava secreto junto à Diego Noronha, outro recruta formado.

Tony e todos as pessoas a procuraram, mas nunca a encontraram.

Elis Rossi estava desaparecia há cinco anos, desde fevereiro de 2019.

Na época do desaparecimento da melhor aluna da Academia de Polícia, em Brasília, todos procuraram por ela. Nunca foi encontrada, e mal haviam rastros que levavam a seu desaparecimento.

Não foi suicídio, ela não tinha traços psicológicos dramáticos, também não desapareceu porque quis. Não tinha inimigos, nada parecido, todos adoravam Elis Rossi.

Elis só desapareceu.

A cada novo recruta que se formava, e se alocava em sua unidade na Polícia Federal de São Paulo, Elis vinha aos pensamentos de Tony. Ele nunca deixou de procurá-la, apesar de na época das investigações. Como era próximo da vítima, jamais pôde fazer parte dos investigadores.

Se fosse um investigador naquela época, Tony teria desconfiado do marido de Elis. Queria ter o conhecido, embora soubesse pouco sobre o homem, um tal de César. Desejou ter podido ter feito um traço do perfil do sujeito. Apesar de quê, nunca ouviu Elis dizer qualquer coisa sobre ele.

Porque ela era sempre tão discreta sobre sua vida fora da Academia.

Depois de não chegar a lugar algum, e porque seria um escândalo para a Academia se descobrissem que pessoas desapareciam sem deixar rastros, o caso foi completamente abafado.

Não para Tony.

Ele continuou as investigações por conta própria. Ainda depois de cinco anos, não conseguiu chegar a lugar algum.

Agora, ele tomava medidas mais tolas e extremas. Qualquer coisa que chegasse a uma pista, à esta altura, que levasse ao corpo de Elis Rossi.

Tony havia sido indicado por seu parceiro e colega de trabalho, Diego Noronha, sobre um programa de rádio nacional que havia conseguido promover o reencontro de várias pessoas que estiveram desaparecidas. “Vai que ela escute”, disse ele quando passou o horário que havia agendado para Tony apelar para ela o encontrar.

Sentou em um banco ao lado do estúdio, se perguntando porquê estava lá. Não estava surpreso com sua esperança vã de reencontrá-la, mas Elis era uma amiga querida. Tony não gostava da ideia de que ninguém havia feito nada, e os seus superiores terem enterrado o caso para debaixo dos panos.

Quase perdendo a paciência, Tony passou a mão nos cabelos, sentindo uma presença se acomodar ao banco ao lado. Olhou para um homem, espiando para uma pessoa que ele pensou ter visto em algum momento de sua vida, mas não sabia muito bem onde. O homem estava cheirando muito bem, perfume caro de gente rica, provavelmente.

Tinha um rosto grosso, do tipo que parecia um personagem de um filme de ação; queixo quadrado, barba a fazer, olhos azuis e cintilantes. Apesar de parecer um galã, vestia uma horrorosa camisa xadrez e uma boina.

Ele estava distraído, usando o telefone, muito irritado quando o desligou. Fitou para a porta do estúdio à frente, onde o logotipo da programação de rádio chamada “Onde Você Estiver” escrevia em letras douradas. Tirou a boina, revelando a coroa de seus cabelos lavada de suor. Então, sem querer, virou o rosto em direção à Tony. Se remexeu no banco, e sorriu para o outro homem.

Levou algum tempo de desconforto, então o cara disse:

— Procurando alguém também? — ele tinha uma voz daqueles tipos de pessoas que gostam de conversar até em filas de bancos, o pior tipo de gente que Tony detestava topar.

Tony deu de ombros. Se dessa corda, o cara falaria de sua família. Pela cara dele, parecia um homem bem apessoado. Talvez fosse casado, a aliança dourada em seu dedo denunciava, mas pelo rosto bonito, vivia como eixo principal de um quadrilátero amoroso. Provavelmente vivia em uma mansão, onde era o cenário para as suas traições conjugais. Pelas pupilas dilatadas, adorava festas e drogas.

— Eu também — disse o cara, apesar de ter ouvido apenas um “hmm” de Tony como resposta. Passou a mão no nariz, gesto típico de algum drogado. — Me falaram que aqui era um bom lugar para encontrar pessoas desaparecidas. Acho que o programa tem uma audiência nacional. Falaram que mais de vinte casos foram solucionados depois que vieram aqui.

Tony também escutou aquilo. Ele assentiu novamente.

— Espero que seja verdade — continuou o homem. — Oh, que mal-educado eu sou.

Ergueu a mão.

— Sou o César — falou.

— Tony — ele agarrou a mão do cara.

Eles se encaram por algum momento.

— Espero que encontre a pessoa que veio procurar — César disse, sorrindo. — Só estou aqui, porque estou com raiva da minha mulher.

Tony franziu a testa, ficando pela primeira vez curioso sobre quem o estranho havia perdido.

— Sabe como são as mulheres ciumentas, né? — ele sorriu. — São um pé no saco. Ela odeia a minha ex-esposa. A pobre coitada nem aqui está para se defender.

Parou e pensou por um momento.

— Bom, se ela estivesse aqui, não teria me amarrado àquela víbora — disse rindo. — Deveria me divorciar, mas... sabe, minha mulher pode ser tudo, mas pelo menos ela me ama de verdade.

Tony fez outro grunhido com a garganta.

— E você, quem perdeu? Mãe, pai... namorada?

— Amiga — Tony disse, sucinto.

O fato de dizer apenas duas ou três palavras chamou a atenção de César, que riu.

— Me arrepia pessoas monossilábicas — disse ele. — Sem dúvidas é escorpiano.

Tony se perguntou onde estava a relevância daquela observação. Era acostumado a lidar com perfis psicológicos, era a primeira vez a lidar com esoterismo.

César recostou no encosto de sua cadeira, fungando enquanto abria as pernas, se reconfortando. Passou a mão na barba por fazer, a aliança cintilando na luz artificial do corredor de espera. E não parecia que ele havia se intimidado pela falta de vontade de Tony em manter uma conversa.

— Me lembro dela a todo instante, quando vou tomar café, almoçar, e na hora do jantar. Quando está chovendo, me lembro como ela adorava olhar a chuva da janela, perdida em seus pensamentos enquanto enrolava os cachinhos de seus cabelos na ponta de seus dedos pequenos. Penso cada vez que me lembro do sorriso dela, “será que ela está em algum lugar seguro”? “Será que ela está passando necessidade, frio ou perigo?”. “Será que está doente, precisando de ajuda e não tem como se comunicar comigo?” — ele parou e pensou, deliciando-se com o sabor do próprio sorriso. — Penso essas coisas há cincos anos, e acho que até se tornaram parte de mim, como um braço, sabe. Você o tem aqui, mas não dá tanta importância para ele até perdê-lo. E, então, restou só um sentimento fantasma de que seu braço ainda está lá.

Encolheu os ombros.

— Ela desapareceu, sem nenhuma explicação. Só desapareceu — falou, suspirando.

Tony quis dizer alguma coisa, mas para sua surpresa, a porta do estúdio foi aberta exatamente no momento que abriu a boca.

De dentro do estúdio da rádio, avistou uma garota sair, uma jovem de uns vinte e quatro anos, cabelos escuros e pele escura. A mesma idade, o mesmo tom de cabelo e pele que ela tinha quando desapareceu. Talvez ele também pensasse em Elis mais do que desejasse dia e noite.

— Oh! — disse a garota, funcionária da rádio. — Oh! César Rossi!

Ela apontou para o cara ao lado de Tony, que se colocava de pé. O policial fitou para ela ao ouvir aquele nome, e notou a excitação da garota. Por isso achava o cara familiar.

Aquele era César Rossi, um maldito de um herói nacional. O cara que realmente proveu um feito digno de um personagem de um filme de ação, por mais fantástico que poderia parecer para qualquer um que topasse com ele. César Rossi ficou conhecido por escapar de ser aprisionado por um grupo de sequestradores, que sequestrou um trem do metrô de São Paulo, sendo o único que combateu e venceu os terroristas. Tudo com as próprias mãos. Ficou muito famoso após seu ato heróico único e solitário.

E, não para menos, era marido de Elis Rossi.

Tony sorriu, passando a mão no rosto, observando a menina da rádio tietar o herói nacional.

— Oh — disse a garota. — Ah, bem, nós chamamos os dois para entrar no estúdio, vocês vão... falar a respeito da mesma pessoa, não? Elis Rossi, certo?

A garota sorriu, percebendo o olhar de ambos se encontrarem.

— Você, quem é? — César falou. — Quem é você, e por que conhece minha mulher?

— Sou o amante de sua mulher, se quer saber — Tony sentiu a animosidade e hostilidade tomar conta dele. Ele jamais tocou em Elis, apesar de ter velado seus sentimos por ela.

César passou alguns segundos em silêncio, analisando o policial. Então, para a surpresa de Tony, começou a rir sozinho. Sua risada era curta e divertida.

— Engraçado — falou ele. — Elis era toda santinha, jamais iria me trair.

Tony sorriu.

— Certamente — disse, em resposta.

— Monossilábico. O tipo de pessoa que mais odeio no mundo — César sacudiu a cabeça, procurando seu caminho até o estúdio. — Como acabamos logo com isso, mocinha?

A funcionária do programa fitou para César e Tony, a expressão denunciava a sua profunda decepção. Tony não sabia o que ela esperava, mas provavelmente fosse algum embate como galos de briga ou cachorros de ruas. Talvez a vida fosse muito enfadonha para ela.

— Bem, hã, me sigam — disse ela olhando para o relógio de seu telefone celular. — Entrarão no ar em dois minutos.

César não hesitou em segui-la assim que a garota passou para o estúdio. Tony, porém, resfolegou pensando se aquela era mesmo uma boa ideia. Amigos na polícia iriam zombar dele por causa daquilo. Bom, se é para estar aqui, melhor aproveitar e alertar as pessoas sobre sequestros e desaparecimentos.

Entrou no estúdio, observando uma salinha pequena cheia de aparelhagens de rádio. César havia sentado em uma baqueta, colocado os fones de ouvidos na cabeça, sorrindo para as pessoas que o reconhecia como um personagem de filme de ação, o tal herói nacional. Tony era o seu oposto, apesar de saber que havia arriscado a vida mais vezes do que César poderia contar até dez. Antes de entrar para polícia federal, ingressou na força da Polícia Militar onde trabalhava em confronto direto a traficantes.

— Sente-se — escutou o sussurro do apresentador do programa, tirando-o de sua contemplação do estúdio. — Entramos em dez segundos.

Ele procurou um lugar ao lado de César, passando os fones de ouvidos em sua cabeça, escutando o som de abertura que indicava o reinício do programa. Quando entraram no ar, o âncora que ele não se lembrava o nome, apresentou Tony como Antônio Arcanjo, e César Rossi logo em seguida. Mas como César era mais famoso, demorou-se falando sobre o incidente no metrô em que o galã de telenovela salvou o dia. Levou um bloco inteiro, terminando para os intervalos comerciais.

Cinco minutos depois, e ainda quieto em seu canto sem falar muita coisa, o programa reiniciou, e para surpresa de Tony, ele foi o astro do bloco. O apresentador perguntou para ele sobre o trabalho da polícia e as investigações sobre pessoas desaparecidas e como as pessoas deveria reagir naqueles casos. Tony limpou a voz e disse:

— No Brasil existem mais de 80 mil pessoas desaparecidas. Se você tem um familiar ou amigo desaparecido, deve, primeiramente, registrar um boletim de ocorrência, que pode ser feito pela internet, na Delegacia Eletrônica, ou no distrito policial mais próximo de sua casa. A polícia tem um corpo especializado para cuidar de casos de pessoas desaparecidas, criado em 2021 junto de um banco de dados unificado. O Departamento de Pessoas Desaparecidas do PF tem a tarefa de reconstituir os últimos passos da vítima em questão, e descobrir por onde ela passou ou foi vista. Tentamos rastrear todos os movimentos das vítimas e, na melhor das hipóteses, localizar os desaparecidos ou, na pior delas, prender o culpado pelo desaparecimento. Em um prazo de 24 horas, nossas equipes de trabalho neste departamento se empenha em conhecer cada detalhe do dia do desaparecimento.

O locutor olhou para Tony fazendo um gesto que ele não entendeu. O modo que ele falava, talvez, muito travado? Sério demais? Tony era um policial, não um ator de rádio novela.

— Legal — disse o apresentador. — E veio para cá por um motivo, não foi? Parece que tinha algo em comum com a esposa desaparecida de César Rossi, não é?

Tony fez algo como “hmm”, mas a julgar pela expressão do homem à frente, precisava falar mais.

— Sim — pigarreou, envergonhado. — Elis Rossi foi minha amiga. Nos conhecemos durante nosso curso na Academia Nacional de Polícia.

— Sinto muito — o locutor disse. — Vocês eram próximos?

— Bem, considerando que a gente transou no banco de trás de meu carro, sim, éramos próximos — ele achou que era isso que eles procuravam. Algum embate para fazer a audiência crescer. Talvez se acontecesse um escândalo, mais pessoas pudessem escutar. A gravação na internet logo virilizaria por todos os cantos.

— Sério? — o locutor sorriu, como se tivesse cavado um poço de petróleo em seu jardim e agora estava muito rico. — E como isso terminou em um sumiço?

— Não sei, talvez o maridinho tenha descoberto, não é, Herói Nacional?

César estava boquiaberto, olhando para todos que estavam falando ao mesmo tempo na bancada, chamando-o de corno e outros adjetivos.

— Isso é mentira — César respondeu, visivelmente irritado. — Elis me amava, ela não me trairia.

— Te amava? — Tony riu. — Os gemidos delas baixo em meu ouvido, não era exatamente o de alguém que amava o marido.

O Herói se levantou, respirando fundo.

— Você pode parar de manchar a imagem da minha mulher? — disse ele. Fechava a mão, pronto para socar Tony, que sorriu. — Eu não sei se ela está viva ou morta, mas seja qual for as opções, suas palavras agridem a memória dela.

César tinha um ponto, Tony se odiava por dizer aquelas coisas.

No fundo, ele estava certo quando um telefone começou a tocar. Aquele embate havia levado a audiência ao pico, porque era um programa muito popular na internet e rádio. Muitas pessoas estavam escutando aquelas mentiras.

Ele olhou por todos os lados, confuso, procurando o aparelho de telefone. O estúdio usava um dispositivo velho, dos anos de 1920, e o locutor anunciou que estava tocando devido a audiência. Aquela era uma linha separada para a pessoas em questão, a desaparecida, ligar caso estivesse escutando.

Tony sentiu um frio descer por suas costas, arrepiando todos os pelos em seu corpo.

A assistente do programa correu para atender enquanto o locutor falava alguma coisa. Quando atendeu, a linha estava aberta no fone de ouvido na orelha dele ― e dos outros.

O coração de Tony deu um salto, ouviu um som que parecia alguém respirando fundo. Depois veio a voz que ele reconheceria em qualquer lugar do mundo. Era ela.

— Tony...

Estava apressada, ofegante como se estivesse fugindo ou correndo, não se sabia ao certo.

Era Elis.

— Pare de mentir — disse ela.

Mas antes de continuar, em plena rede nacional, ela gritou. Um grito que desceu rasgando como uma lâmina dilacerando as entranhas de Tony. Houve o que pareceu o som de tiros e risadas altas.

— Volte aqui, Raposinha!

Então a linha caiu.

13 de Outubro de 2020 às 16:34 0 Denunciar Insira Seguir história
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