autorapri Priscila Valette

Piper Osborn é uma adolescente no último ano do ensino médio que deseja seguir os passos de seus irmãos mais velhos, o casal de gêmeos Liza e Peter. Ambos são cientistas financiados pelo governo neozelandês e por isso passam meses, até anos, afundados em pesquisas no Posto Scott. Por este motivo, não está sendo tarefa fácil para Piper convencer seus pais a enviarem outra filha ao lugar mais inóspito do planeta: a Antártica. É quando uma oportunidade surge em meio ao caos do planeta. Com a epidemia do Covid-19 se alastrando pelo mundo, a escola de Piper em Christchurch fecha temporariamente ao mesmo tempo em que os gêmeos retornam para a mansão Osborn, em Queenstown. Decidida a passar um tempo com seus irmãos e encontrar um meio de convencer seus pais, Piper viaja para lá, antes que a Nova Zelândia fosse posta em lockdown. Dois dias depois da chegada de Piper à mansão, os gêmeos recebem um chamado urgente para retornarem à Antártica imediatamente. Com a promessa de estarem de volta em uma semana, eles deixam Piper aos cuidados da governanta. É nesse tempo que Piper pede a ajuda de Antony, filho da governanta e também seu amigo mais antigo, para investigar o misterioso telefonema que seus irmãos receberam. Juntos, eles pretendiam apenas desvendar o que estava havendo na Antártica, mas acabam encontrando algo muito maior.


Ficção científica Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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Capítulo 1

A chuva açoitava a gigantesca janela da biblioteca. Haviam horas que Piper estava debruçada sobre uma pilha de papéis e ela já nem sabia mais que diabos estava fazendo ali. Não dava nem para dizer que era como procurar uma agulha em um palheiro, porque no caso nem tinha ideia do que exatamente estava procurando. E como se para piorar a coisa toda, a cidade inteira estava enfrentando um blackout a quase dois dias. Sem energia elétrica, ficara ainda mais difícil de continuar com as investigações.

À sua frente, um castiçal de cristal acomodava uma vela quase no fim. Caso a eletricidade não fosse restabelecida logo, ficariam na completa escuridão pelo resto da noite. Tinha a lanterna, é claro, mas Piper achara melhor economizar aquelas pilhas para uma eventual maior necessidade no futuro. Nunca se sabe. Do outro lado da vela, estava Antony. Filho da governanta e seu amigo mais antigo. Ambos conheciam cada centímetro da mansão Osborn devido às suas explorações na infância. Foi terrível a separação quando ela teve que se mudar para Christchurch por conta do emprego de seu pai. Longos anos se passaram até que seus irmãos, os gêmeos Liza e Peter, decidiram se mudar de volta e tornaram possível o reencontro. Por sorte, Queenstown ficava mais perto da Antártica e mais longe do casal rabugento que os haviam posto no mundo. Piper esperava se mudar para ali também quando finalmente se tornasse maior de idade.

— Por que está me encarando? — A voz de Antony a puxou de seus devaneios.

— Eu não estava — desconversou.

Antony abriu a boca para insistir no assunto, mas foi silenciado pelo estrondoso som de um trovão. Piper aproveitou a deixa do universo.

— Acha que sua mãe vai conseguir voltar?

A senhora Smith tinha saído antes da tempestade começar. Ela dissera que iria à prefeitura obter informações sobre o blackout e, no caso do supermercado estar funcionando, reabastecer a dispensa. Piper não conseguia se livrar daquela sensação estranha, a mesma que sentiu quando seus irmãos receberam aquele misterioso telefonema solicitando que eles retornassem à Antártica imediatamente. Eles disseram que estariam de volta em uma semana, mas isso se passara a mais de quinze dias. Alguma coisa estava acontecendo, porque aos poucos as pessoas iam se afastando da mansão e, por alguma razão que Piper desconhecia, não voltavam no prazo estipulado.

— Espero que sim, estou faminto. — Ele respondeu.

Piper revirou os olhos.

— Você sente alguma outra coisa além de fome?

Antony bocejou.

— Sim, sono. Podemos fazer uma pausa agora?

Parte de Piper se recusava a desistir, mas a outra parte também implorava por um merecido descanso. Estavam naquilo a dias e sequer tinham encontrado alguma pista.

— Tudo bem, vamos dormir um pouco. — Disse, cedendo.

— Vejo você amanhã — Antony já estava de pé.

Alarmada, Piper se levantou também.

— Aonde pensa que vai?

— Para o meu quarto?

— De jeito nenhum. Não pode me deixar sozinha nesse breu.

Antony fingiu refletir. É claro que ele jamais faria isso, mas gostava de ouvir Piper solicitar a sua companhia. De modo algum diria a ela, porque ele mesmo se sentia suficiente mal com isso, mas lá no fundo ficou agradecido quando os gêmeos tiveram que retornar à Base Scott, porque significava que teria a atenção dela só para si. Era um pensamento egoísta e mesquinho, mas será que alguém poderia culpá-lo?

— Tudo bem — ele fez-se de vencido. — Por que não acendemos a lareira?

Aliviada, Piper concordou com a cabeça. A sala era de fato o melhor lugar para dormir na atual circunstância. Além da lareira fornecer luz e calor, era um ambiente bem aberto e à vista de qualquer um que chegasse de repente. Por qualquer um, queria dizer a senhora Smith. A última coisa que ela disse ao sair foi para não aprontarem. Ela desejava saber o motivo dos adultos sempre pensarem que os adolescentes farão alguma bobagem em sua ausência.

Antony recolheu o castiçal do chão e Piper agarrou-se em seu braço enquanto desciam as escadas. A última coisa de que ela precisava era rolar até lá embaixo.

Na sala, foi a vez de Piper segurar a vela enquanto o garoto acendia a lareira. Em alguns minutos o pequeno amontoado de gravetos já estava queimando conforme Antony adicionava a madeira aos poucos. Com luz o suficiente, ela apagou a vela com um sopro e depositou o castiçal na mesa lateral.

Foi só então que ela reparou.

Passou tantos dias presa na biblioteca, supondo que o que quer estivesse procurando estaria lá, que não prestou atenção no bloco de anotações deixado ali de qualquer jeito. Agora se lembrava de como seu irmão anotara alguma coisa nele antes de sair às pressas. É claro que ele tinha levado a folha escrita, mas Piper o conhecia bem o suficiente para saber que sua mão era pesada ao escrever.

— Tony, me dê um pedaço de carvão frio! — gritou, enquanto se ajoelhava diante da lareira com o bloco já em mãos.

Quando esticou os dedos para receber a madeira queimada, notou que estava tremendo. Sentia-se completamente desperta outra vez. Com o coração acelerando cada vez mais, ela começou a esfregar apressadamente a ponta chamuscada da madeira sobre a folha em branco enquanto Antony assistia boquiaberto as anotações serem reveladas no papel.

— Eureca! — Piper gritou, ainda mais alto do que antes, e então se atirou nos braços de Antony num abraço apertado, fazendo-os rolar pelo tapete felpudo. O garoto nem teve tempo de apreciar o momento, uma vez que no segundo seguinte Piper já estava de pé, acendendo a vela novamente.

— São coordenadas, Tony! — Mostrou o papel para ele, cheio de números. — Precisamos pegar o mapa no escritório. Vamos!



***



Antony estendeu o enorme mapa mundi no tapete da sala. As chamas crepitavam na lareira, produzindo luz o bastante para que Piper se debruçasse sobre a América do Sul e começasse a fazer cálculos. Ele observava suas mãos trabalharem com maestria, traçando pontos entre a Linha do Equador e o Meridiano de Greenwich. Seu irmão mais velho, Peter Osborn, era quem a tinha ensinado como fazer aquilo.

— Inacreditável! — ela apontava com a caneta para um lugar qualquer no continente gelado. Havia uma urgência em seu tom. — Eles não retornaram à Base Scott!

Antony ficou um pouco confuso enquanto olhava o mapa. Para ele era extremamente difícil distinguir as localizações da Antártica quando estava esparramada daquele jeito. Por isso ele preferia os globos.

— Como é?

Piper mordeu os lábios, preocupada. Procurava alguma outra coisa ao redor dos países.

— Aqui — disse movendo-se rapidamente sobre o extenso mapa, convidando Antony a acompanhá-la. Ele se aproximou e viu, no canto superior esquerdo, um pequeno gráfico isolado, revelando a Antártica em seu formato real. Assim era bem mais fácil de distinguir. As mãos de Piper tremiam violentamente quando ela fez um pequeno ponto no centro do continente antes de dizer: — As coordenadas mostram que eles estão aqui.

A boca de Piper estava seca. Bile subia por sua garganta. Seus irmãos estavam enfiados em algum lugar no coração daquela vastidão de gelo. Não era nem de longe simples como trabalhar na orla do continente. Perigoso, para dizer o mínimo. Sentiu o medo começar a sufocá-la.

— Piper? — A voz de seu amigo soava aflita. — Não temos como saber disso, Pip. — Continuou Antony. — Quero dizer, talvez estivessem procurando por algo, mas isso não significa que estejam de fato lá.

Piper respirou fundo algumas vezes. Antony tinha razão. Ela precisava ser mais racional ou poria tudo a perder. Não era de se espantar que seus pais tentavam a todo custo mantê-la longe dos passos de seus irmãos. Ela se deixava levar muito fácil. Por um breve momento, permitiu-se ter inveja da calma com que Antony conduzia tudo.

— O que poderia ser? — Perguntou, mais para si. Agora que tinha uma pista, devia retomar o controle da situação. Fazer as perguntas certas.

— Que tipo de pesquisas os seus irmãos conduzem na Base Scott? — Antony queria mais do que uma resposta, queria que Piper refletisse a respeito. Não podiam dispor da internet para aquilo, então teria que ser feito à moda antiga.

— É muita coisa — ela respondeu. — Liza estuda o ecossistema, mudanças climáticas. Peter faz tudo isso, mas também é perito na Física de Partículas.

— Teria que ter haver com algo nessa lista. Se lembra de alguma notícia estranha nos últimos meses?

— Estamos falando da ciência, Tony. As coisas são sempre estranhas.

— E qual a chance de não estar relacionado com a área de atuação deles?

Piper deu de ombros.

— Meus irmãos são cientistas. Ser especialista em uma área não faz deles completos ignorantes nas outras. Então, isso depende.

Antony procurou relevar o mal humor de Piper. Ele sabia que toda aquela situação a estava afetando mais do que ela demonstrava.

— Depende do que? — Ele insistiu.

— Do quão desesperadas as pessoas que ligaram para eles estavam.

Em silêncio, quase podiam ouvir os neurônios um do outro trabalhando a todo vapor. O que deixaria um bando de cientistas desesperados além, é claro, de não conseguirem encontrar uma cura para o Covid-19? Foi Antony quem deu voz aos pensamentos primeiro.

— Extra-terrestres? — Semanas atrás o assunto tinha dominado a internet com a confirmação dos EUA sobre possíveis encontros com ovnis. Ele tinha receio de Piper rir dele. Parecia o palpite de uma criança, mas tinham que considerar tudo.

— Poderia ser — Piper deu de ombros e Antony surpreendeu-se por ela ter acatado a sua opinião tão fácil. Ela continuou: — Mas por que escolheriam o lugar mais gelado do mundo para fazer contato?

— Sei lá, talvez não queiram chamar a atenção.

Depois o que se seguiu foi o silêncio mais comprido que já tinham experimentado. Geralmente, quando estavam juntos, não lhes costumava faltar palavras. Mas aquela era uma situação atípica. Até onde sabiam, os gêmeos estavam desaparecidos na Antártica. Nenhuma das tentativas de fazer contato com eles antes do blackout deu certo. Não que esta fosse a primeira vez que algo assim acontecia, mas era diferente. Liza e Peter tinham deixado a Antártica pelo mesmo motivo que a maioria dos outros cientistas: desocupar o continente o máximo possível para evitar que a pandemia chegasse lá. Isso porque quanto mais pessoas lá, mais cargas de suprimentos precisariam ser enviadas e, com isso, o risco do vírus ir junto aumentaria. Fosse lá o que estivesse acontecendo, não estava nos planos, porque se estivesse eles jamais correriam o risco de se contaminar em uma curta viagem para casa. Poderia ser qualquer coisa. Incluindo alienígenas.

Sentados ali, encarando as chamas devorarem o restante da madeira que Antony tinha empilhado algumas horas atrás, Piper teve consciência do que estava causando aquele desconforto que sentia a mais de duas semanas.

Eram os sons.

Por toda a casa, o tempo todo, os sons mantinham um padrão. O enorme relógio de pêndulo, herança de família, havia quebrado um dia depois da partida dos gêmeos, no entanto os ponteiros ainda se moviam. Piper parou para observar e notou um padrão. Um para baixo. Pausa. Três para cima. E o movimento se repetia enquanto o relógio completava sua volta no sentido anti-horário.

— Tony — Piper o chamou. Ela precisava de uma confirmação de que não tinha enlouquecido de vez.

— Sim.

— Acho que estão tentando se comunicar. — Certo, isso parecia o tipo de coisa que um louco falaria.

Antony parecia pensar exatamente a mesma coisa porque a preocupação estava estampada na cara dele.

— Do que esta falando, Pip?

— Acho que estamos recebendo algum tipo de mensagem em morse.

Antony coçou a nuca antes de falar e Piper já soube o que viria a seguir.

— Olha Pip — ele estava sendo cauteloso — não estou te chamando de louca nem nada, mas acho que a gente poderia pensar com mais clareza depois de algumas horas de sono. O que me diz?

Por alguns breves segundos, Piper pensou se todo esse tempo trancados dentro de casa procurando por pistas não tinha afetado a cabeça dela e se não acabaria em um sanatório assim que se tornasse evidente que ela não tinha mais o controle de suas faculdades mentais. Em todo caso, para Piper, ela ainda estava lúcida e até que se provasse o contrário continuaria investigando.

— Pode dormir se quiser. É até melhor pra mim, vou conseguir ouvir melhor se você não estiver falando. — Claramente tinha mágoa em sua voz. Antony podia propor que alienígenas estavam contatando os humanos lá na Antártica, mas ela não podia afirmar que alguém estava se comunicando com eles através do som?

— Pip, eu não q...

— Tá tudo bem, Antony. Você não acredita e eu não vou discutir isso agora. Preciso de silêncio. Se não vai dormir, ao menos fique quieto.

Piper sabia que o estava magoando também ao falar daquele jeito, mas que outra opção ela tinha? Além do mais, já vinham se magoando com frequência ultimamente. A amizade não era mais a mesma de quando eram crianças. As coisas estavam diferentes, mas ela não tinha tempo pra isso agora. Precisava descobrir se havia mesmo uma mensagem sendo enviada por entre os ruídos que ecoavam pela mansão.

Fechou os olhos para que sua audição se tornasse mais apurada. O que ela ouvia além do tique-taque invertido do relógio?

A chuva. Os trovões. O vento. Os galhos das árvores roçando os vidros das janelas. O estalar do fogo na lareira. Uma goteira solitária pingando em algum lugar da sala. Como podia ter uma goteira ali? Só tinha duas explicações: ou algum cano havia entupido ou quem quer que estivesse tentando se comunicar tinha provocado aquilo. Seguindo essa linha de raciocínio, fosse quem fosse essa pessoa, também controlava as outras coisas.Céus, ou algo grande estava acontecendo ou ela tinha mesmo enlouquecido para pensar que alguém podia exercer algum domínio sobre os elementos da natureza. Para todos os efeitos, ainda estava sã. Tinha que acreditar nisso. Pegou o bloco de papel e decidiu anotar o que ouvia. Depois iria decidir se estava louca ou não.

Primeiro, anotou o que ouvira no relógio.

• •••

Depois, prestou atenção à chuva castigando a mansão. Por causa da força do vento, ela atingia algumas partes com mais violência, parando e recomeçando por intervalos que, agora que Piper prestara atenção, eram exatamente iguais. Ela anotou o padrão. Duas rajadas de água com pequenos intervalos. Depois, um longo intervalo. Três rajadas de água com pequenos intervalos. Longo intervalo. Recomeça.

─ ─ ─ ─ ─

Os trovões. Um único som arrastado de cada vez com enormes pausas entre eles. Piper tomou nota.

Os galhos nas janelas. Uma batida rápida seguida por um curto intervalo e outra batida, mas desta vez roçando pelo vidro. Intervalo. Batida arrastada. Pausa pequena. Batida arrastada. Pausa pequena. Batida rápida. Pausa longa. Piper aguardou para ver se o padrão se repetia antes de anotar.

• ─ ─ ─ •

O fogo na lareira. Um crepitar incessante que ficava mais alto em alguns segundos, seguido por um estalo. Crepitar baixo. Crepitar alto novamente. Dois estalos. Padrão contínuo.

─ • ─ ••

Restava apenas um último som. A goteira.

Plinc. Plinc. Plinc. Plinc.

Piper contou quatro vezes o som de gotas atingindo o chão antes de uma longa pausa.

E então, como se recebesse uma onda mais forte, a água caía ininterrupta por alguns segundos. Pausa pequena. Plinc. Água jorrando. Plinc.

Começava tudo de novo.

•••• ─ • ─ •

O coração de Piper batia de forma irregular agora. A mesma adrenalina de horas atrás retornando ao seu corpo. Como ela não se atentara para essas coisas antes? Até hoje ela não tinha nada, nenhuma pista. Agora tinha coordenadas e uma mensagem em morse para decodificar. Se tivesse anotado corretamente, e ela tinha, e encontrasse o alfabeto de Liza no escritório, então poderia decifrar a mensagem. Ainda estava irritada com Antony, mas será que podia culpá-lo tanto assim? Ela mesma cogitou mais de uma vez estar louca. Talvez estivesse mesmo. Talvez não fosse uma mensagem, só sua mente privada de sono lhe pregando peças. Mas teria que traduzir aquilo para saber. E não podia fazer isso sem o seu amigo.

— Tony — ela cutucava seu braço com força. Ele tinha adormecido enquanto ela registrava os sons que ouvia. Sentiu remorso por acordá-lo, sabendo o quanto os últimos dias tinham sido desgastantes, mas agora que estavam no caminho certo não podiam se dar ao luxo de parar. Iriam descansar após decifrar a mensagem. Piper prometeu isso a si mesma enquanto um Antony de olhos inchados se sentava diante dela.

— Ainda está irritada? — Perguntou, bocejando.

— Esquece isso — ela respondeu. — Acho que descobri uma coisa.

Então mostrou o bloco de anotações para ele cheio de pontos e traços. Esperou seu olhar cansado, do tipo “lá vamos nós de novo”, mas surpreendeu-se com Antony dizendo:

— Aposto que você quiser que o alfabeto da Liza está na gaveta trancada.

Tinha o seu companheiro de investigações outra vez.

— O último a chegar é uma criatura acéfala!



***



Antony tinha errado feio. O alfabeto morse de Liza não estava na gaveta trancada, mas numa pilha de papéis aleatórios espalhados sobre a mesa. Não foi nada fácil de achar. Liza era tão desorganizada que às vezes não parecia que ela e Peter eram gêmeos.

— Sabe, Tony, com dois cliques no google qualquer um pode conseguir um alfabeto morse, não faria sentido a Liza guardá-lo na gaveta com tranca.

A intenção de Piper era consolar o amigo, mas aquilo tinha soado mais como deboche. Ela torceu para ele não se magoar novamente.

— Muito bem, senhorita espertinha. Por que não começa a traduzir logo?

Antony trouxe a vela para mais perto enquanto Piper começava a procurar pelas letras correspondentes aos traços e pontos que tinha anotado. Ela sabia como funcionava o código morse, mas nunca se preocupou em decorar o bendito alfabeto até aquele momento. Cuidaria de fazer isso depois.

Em alguns minutos tinha todas as letras. Traduzir fora tão rápido que consideraria aquilo um crime se ao menos fosse uma frase, ou uma palavra, com coerência. Ao invés disso tudo o que tinha era uma sequência de letras que a princípio não pareciam combinar.

E S M O T A G N D H C

Era oficial. Estava louca. Com que diabos tinha suposto que algum ser superior estava tentando contatá-los mediante código morse enviado pelo som produzido através da natureza? Sentiu as lágrimas encherem seus olhos e piscou rápido algumas vezes. Chorar era para fracos.

— Devíamos pelos menos tentar desembaralhar as letras — disse Antony. Desde criança ele era fanático por quebra-cabeças.

Novamente, impedida de se lançar ao precipício do desespero pela calma de Antony. Piper sentia raiva de si mesma. Por que era assim? Por que sempre ameaçava ceder no primeiro empecilho? Será que Antony já tinha sacado que esse era o jeito dela e por isso se via na obrigação de encontrar uma solução rápida para os problemas? Não era atoa que não tinha amigos em Christchurch.

— Faça as honras — disse para o garoto, sabendo que ele já devia estar louco por aquilo.

Enquanto Antony tentava formar o maior número de palavras possíveis, Piper sentia-se cada vez mais ridícula. Se aquilo não desse em nada, o que parecia bem provável agora, nunca mais envolveria Antony em suas armações.

As palavras coerentes que Antony conseguira montar eram:

GATO, ANDES, COMA, AMO, SANTO

No entanto, nenhuma delas parecia estar conectada e o que fariam exatamente com as outras letras? Se aquilo tivesse algum sentido, nenhuma poderia ficar de fora. Antony havia formado muitas outras palavras que precisavam de mais letras para serem coerentes e ainda tinha o problema de letras sobrando. As bochechas de Piper estavam tão quentes agora que ela agradeceu a pouca luz, assim Antony não notaria seu rosto vermelho.

— Tenho uma teoria — disse Antony.

A vontade de Piper era pedir a ele para esquecer tudo aquilo, mas não tinha coragem o suficiente para isso.

— Estou ouvindo — foi tudo o que Piper se limitou a dizer.

Antony parecia nervoso. Estaria ela errada em pensar que estava errada por acreditar que aquilo era uma mensagem?

— Têm só duas palavras que utilizam todas as letras.

O coração de Piper estava disparado outra vez. Antony continuou:

— Ainda sim faltam letras, no entanto, se repetir algumas da sequência que você anotou, as palavras ficam completas... Como se esperassem que descobriríamos que podemos repetir as letras.

Piper via as mãos de Antony tremerem.

— Por que disse esperassem?

Ao invés de responder, o garoto completou duas palavras no final da folha e mostrou a Piper.

Ela sentiu todo o calor ser drenado de seu corpo quando leu:

ESTAMOS CHEGANDO

Os pelos da nuca de Piper estavam eriçados. Quem estava chegando? Alguém tinha mesmo enviado uma mensagem para eles ou tudo aquilo não passava de uma bizarra coincidência? Precisavam averiguar e só tinha um jeito de fazer aquilo.

— Vamos voltar para a sala e verificar os sons. Se alguém estava enviando uma mensagem não faz sentido em continuar uma vez que já a recebemos — disse para Antony, mas com exagerado volume no timbre vocal, como se esperasse que alguém mais fosse capaz ouvi-la, mas foi o próprio Antony quem respondeu:

— Não está mais chovendo.

Piper correu para a janela do escritório. Ele estava certo. Nem uma única gota de chuva caía agora. O céu estava tão limpo que podia ver as estrelas. Como a tempestade tinha passado tão rápido, e pior, sem que se dessem conta? Não tinha mais chuva, nem trovões e muito menos ventania que dobrasse os galhos das árvores fazendo-os arranhar as janelas. Pelo menos metade dos sons já tinham desaparecido, precisava verificar o restante. Só podia estar louca, porque permaneceria cética até o último segundo a respeito de uma idéia que tinha partido dela mesma.

Agarrou Antony pelo pulso e correram de volta para a sala. Com o céu limpo e a lua alta no céu, havia iluminação suficiente nos corredores para que pudessem enxergar o caminho.

Outra vez na sala, Piper verificou o relógio enquanto Antony ia atrás da tal goteira. O chão estava molhado, mas não havia sinais de uma infiltração. Depois de duas semanas, o relógio havia finalmente parado de funcionar. Não podia ser coincidência. Não tinha como ser. E só para não dizer que não apuraram todos os sinais, ambos ajoelharam diante da lareira. O fogo crepitava baixo agora, alimentado por pequenos tições. Não tinha nenhuma sequência nos estalos.

— Talvez estejamos delirando — disse Piper. De repente, a todo custo ela queria que aquilo não fosse verdade. Porque alguém dissera que estava chegando e eles não sabiam quem.

— Não acho que seja um delírio — Antony objetou. É verdade que umas duas horas atrás ele tinha considerado essa possibilidade, mas não agora.

Agora ele tinha certeza de que estavam muito lúcidos. Só queria ser capaz de descobrir quem eram eles para, quem sabe, tirar aquela expressão de pavor que dominava Piper. Estariam conectados com as coordenadas que levaram os gêmeos de volta à Antártica? Seriam mesmo alienígenas? Mas se fossem, porque teriam usado o meio mais esquisito para enviar uma mensagem ao invés de simplesmente aparecer. E mais, o que seres tão poderosos iriam querer com dois adolescentes? Eram perguntas demais quando a única resposta que tinham era estamos chegando.

De repente, Piper se levantou, ainda encarando o fogo. Antony reparou em como o reflexo das chamas faziam uma perfeita combinação com os olhos claros dela. Olhos determinados. Ele sabia o que estava acontecendo. Desde crianças, Piper era assim. Quando as coisas davam errado, ela era a primeira a ceder. Mas também era a primeira a se erguer. Para ele, essa era a verdadeira coragem. Ele sabia que ela tinha muito medo de tudo e ainda sim se recusava a ser dominada. Ela escalava os galhos mais altos das árvores, mesmo tendo medo de altura. Quase sempre ela precisava da ajuda dele para descer, mas ainda sim ela simplesmente ignorava o pânico que sentia e continuava escalando. Era assim com tudo. Piper era senhora de seus medos e isso não seria diferente agora. Ele viu sua expressão de medo transformar-se em determinação enquanto começava a caminhar em direção a cozinha.

Num salto, Antony estava ao seu lado.

— Nós vamos procurar por eles? — Antony quis saber, aflito e empolgado ao mesmo tempo.

— Nós não os encontramos, Tony — disse Piper, atravessando a porta que dava para imenso jardim dos fundos. — Eles é que nos encontram.

Antony seguiu Piper pelo quintal. O vento era uma brisa suave acariciando seu rosto, balançando alguns fios soltos do cabelo da garota a sua frente. Sem a iluminação da cidade para ofuscar seu brilho, o céu se revelava excepcionalmente brilhante. Tudo estava tão calmo que não fosse pela grama molhada, poderia pensar que a tempestade de algum tempo atrás havia sido um delírio.

Então, subitamente, uma luz surgiu a frente deles.

Primeiro, Piper pensou que era um vagalume solitário, brilhando sozinho no vasto jardim. Mas então a pequena luz passou a esticar-se na vertical. Piper caminhou alguns passos para trás e chocou-se contra Antony. O garoto estava completamente paralisado, sequer notava a presença do corpo de Piper tão próximo ao seu. A luz continuava crescendo, sempre para cima-para baixo, embora às vezes parecesse que também queria se abrir para os lados. Antony era incapaz de se mover e Piper não o abandonaria ali. Além do mais, eles procuraram por aquilo. Fosse amigo ou inimigo, agora teriam que enfrentar as consequências. Assustada, Piper agarrou a mão fria de seu amigo com força. Precisava segurar-se em algo, porque sentia suas pernas fraquejarem. Seu coração, que já batia de forma desenfreada, deu um salto ainda maior quando Antony, como se voltando a realidade, entrelaçou seus dedos aos dela. Estavam juntos nisso, afinal.

De repente, um clarão. Tão forte que os deixara momentaneamente cegos. Tão grande que Piper teve certeza de que chamaria a atenção das autoridades locais, visto que a cidade encontrava-se em um blackout. Segundos depois, a grande mansão dos Osborn estava completamente iluminada. Ao longe, Piper via centenas de luzes acenderem. A energia elétrica havia sido restaurada.

Piper voltou seus olhos para o que estava à sua frente. Não sabia ao certo o que esperava, mas era tudo, menos aquilo. Por um momento, imaginou se um grande espelho não havia sido posto diante de si. Com todas as suas forças desejou que essa fosse a verdade.

— Olá, Piper — Ouviu sua própria voz chamar o seu nome, embora sua boca se mantivesse fechada. Piper pressionava tanto o seu corpo contra o de Antony, e suas mãos estavam tão atreladas, que ela teve a impressão de que em algum momento eles se fundiriam em um só. Quem sabe. Agora ela não duvidava de mais nada. Não quando enxergava a si mesma e a Antony no lugar onde, alguns segundos atrás, estava a luz crescente.

— Estamos sonhando? — Um arrepio percorreu o corpo de Piper quando a voz baixa de Antony, o seu Antony, não o outro, chegou aos seus ouvidos. Dava pra sentir o hálito quente dele acariciando sua nuca exposta quando ele falou: — Me diz que estamos presos em algum tipo de pesadelo compartilhado.

Ela gostaria de poder dizer que sim, mas sabia que aqueles dois ali eram tão reais quanto eles mesmos.

— Sinto muito, não queríamos assustar vocês — a outra Piper disse.

— Pensamos que esperavam por nós — completou o outro Antony.

Por um segundo, passou pela cabeça de Piper se agora teria permissão para seguir a mesma carreira de seus irmãos. Não era possível que seus pais continuariam a negar isso a ela quando ela mesma se tornara uma testemunha ocular do multiverso. E tão rápido quanto chegou, o pensamento se foi. Não podia conjecturar esse tipo de coisa agora. Primeiro tinha que entender como aquilo era possível.

Respirando fundo, Piper inflou o peito com coragem. Não seria uma medrosa.

— Estávamos esperando — confirmou. — Só não sabíamos exatamente a quem. Nos dê uns minutos, só estamos em choque.

— É melhor entrarmos — surpreendentemente, era a voz de Antony em seus ouvidos outra vez. — Minha mãe pode chegar a qualquer momento, não quero que ela sofra um infarto ou algo do tipo.

Piper achou melhor eles se abrigarem na biblioteca. Seria fácil esconder os outros dois caso a senhora Smith chegasse de supetão. O corpo de Piper tremia tanto, que ela sequer era capaz de entender como ainda conseguia se mover. De certa forma, ela se sentia como as pessoas que socorrem os feridos em uma acidente grave. Só tinha que continuar escondendo todas as emoções que queriam dominá-la em algum lugar bem remoto da própria mente enquanto fingia que era a coisa mais comum do mundo sentar-se de frente para si mesma para o que seria a conversa mais inusitada da história da humanidade.

— Sinceramente, eu não sei o que dizer. — Antony foi o primeiro a falar. — Na verdade, acho que eu ainda não surtei porque existe uma grande chance de isso aqui ser um sonho, então quero ver até onde a minha imaginação vai me levar.

O outro Antony riu.

— Esperava que se sentisse assim — disse, se divertindo.

Piper ajeitou a sua postura, como se fosse possível ficar mais ereta. Também não sabia o que dizer, ou por onde começar a falar.

— Acho que vocês poderiam nos explicar como isso é possível.

A outra Piper encarou um ponto qualquer a sua frente e Piper soube que estava decidindo por onde começar.

— Bem, universos paralelos existem.

Piper pensou que podia ser uma piada ela falar daquele jeito. Se não os tivesse visto quando saíram da luz diria que eram atores mascarados contratados pelos gêmeos para uma pegadinha.

— Acho que isso é meio óbvio. — Piper respondeu. — Acho que não existe uma resposta adequada para como é que isso é possível, aliás, muitos dos nossos cientistas já acreditavam nisso mesmo sem nenhuma prova concreta. O que eu quero saber é por que estão aqui? Como conseguiram viajar através das dimensões e, mais, como podem manipular a natureza para enviar mensagens em morse?

O outro Antony parecia fascinado.

— Uma pergunta de cada vez, lindeza.

A outra Piper deixou escapar um riso abafado antes de começar a responder.

— Primeiro, manipulamos os elementos através da gravidade. Não que isso importe, mas a nossa ciência é bem mais avançada. Atravessar dimensões não é tão difícil quanto parece, mas não é encorajado. Não abriríamos essa pequena fenda para chegar até aqui se o assunto não fosse realmente importante.

— E qual é o assunto? — Antony quis saber.

A outra Piper parecia escolher as palavras para responder.

— Os cientistas dessa realidade estão abrindo não uma fenda para o outro universo, mas uma porta definitiva. As consequências serão terríveis e já está acontecendo. Seus irmãos — ela apontava para Piper — fazem parte disso. Por isso estamos aqui. Precisamos de vocês para salvar nossos mundos.

13 de Outubro de 2020 às 04:29 2 Denunciar Insira Seguir história
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Continua… Novo capítulo A cada 30 dias.

Conheça o autor

Priscila Valette Criadora de histórias desde a infância, escrevendo offline desde o ensino médio e escritora recém saída-do-armário desde 2020.

Comentar algo

Publique!
Patt Semedo Patt Semedo
Sempre a rainha disto tudo! <3
October 13, 2020, 21:42
l luizefontoura2605
Priscila minha querida! Tô estagnada com a criatividade dessa história, amei logo de cara😍
October 13, 2020, 12:21
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