tomasrohga Tomas Rohga

Quando Carlos, um garoto de dez anos, descobre que sua avó foi sequestrada por uma entidade e levada para dentro de uma floresta, ele corre para resgatá-la munido apenas de um punhal. Carlos está hesitante, mas sabe que terá de fazer algo terrível para encontrá-la.


Horror Literatura monstro Para maiores de 18 apenas.

#horror #terror #fogo #floresta #gatilho #menino #ambiental #matou #anhangá #incêndio
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O engodo


Os passos de Carlos ecoavam pela trilha de pedrisco.

Estremeceu, encarando o pôr do sol através das fissuras das copas altas da floresta.

O menino olhou para lá e para cá, envolvido pela companhia solitária das árvores que lançavam um brilho pálido contra a lâmina que trazia à mão direita.

Um medo primordial invadia os sentidos de Carlos, mas tinha de produzir coragem se quisesse resgatá-la, obrigando as pernas naquele passo após o outro, ainda que o ritmo fosse tão vagaroso. O crepitar dos sapatos se fundia aos barulhos da mata: pássaros cantando com penúria, insetos zumbindo agudo; o farfalhar do vento através das folhas; o rumorejo de um riacho à distância e o assobio…

Carlos não sabia precisar de onde vinha. A impressão era que a própria floresta assobiava, eriçando-lhe os pelos da nuca.

Uma sensação dúbia invadiu o peito do menino, impelindo-o a prosseguir pela trilha na mesma intensidade que queria dar meia-volta e retornar à segurança do casarão de sua avó Josefina.

Carlos tinha dez anos, mas não se considerava desobediente como as outras crianças. Não era metido a ousado. Tinha consciência das próprias limitações e aquele era um exemplo de situação cuja ajuda de um adulto seria bem-vinda. Queria ter vindo com alguém… nem que fosse com aquele velho.

Verdade era que Carlos ansiara pelo início das férias. Quando a mãe lhe contou que ficaria na casa da avó, a felicidade lhe explodiu numa pirueta um segundo antes de se lembrar de Augusto, o novo marido da idosa. Por que vovó se casou com um cara tão chato, mamãe?, perguntou à época. Foi quando a mãe explicou que as pessoas tinham de respeitar a felicidade das outras.

Havia bom tempo desde que Carlos concluíra não gostar de Augusto, mas se a avó estava feliz, que oposição poderia fazer?

Carlos deu de ombros e suspirou, sentindo o frio começar a envolver a trilha, penetrando no tecido das roupas. Ele afagou os braços numa tentativa de se aquecer e espantar o nervosismo, encarando o brilho faiscante do punhal ao se lembrar do momento que o marido da avó lhe dera a arma.

Minutos atrás, assim que chegou à propriedade e começou a ajeitar as malas no quarto, perdeu algum tempo procurando pela idosa, mas qual foi a surpresa quando Augusto viera lhe confidenciar que Josefina desaparecera na floresta que se erguia para além da propriedade.

Inicialmente, não acreditou muito na conversa. A avó já vivia por aquelas bandas desde menina, porém, no momento que Augusto explicou que Anhangá a sequestrara – o mesmo diabo das histórias da avó –, Carlos compreendeu que só podia ser verdade.

Sabia que era um tipo de demônio que só se revelava para as crianças, por isso viera sozinho, mas Carlos precisava fazer mais uma coisa para que Anhangá aparecesse… uma coisa cujos detalhes Augusto contara a Carlos e quase fizera o menino botar o almoço para fora.

O punhal prateado estremecia na mão direita ao passo que Carlos se afundava cada vez mais para o interior da floresta. Ali, o frio já era um companheiro de trilha. Vamos… qualquer um... Carlos jamais se afastara para tão distante do casarão, mas quando pensou em correr pelo caminho de volta…

O assobio ecoou ainda mais profundo que antes. Fileiras de árvores sacudiram debilmente ao sabor da brisa provinda a partir do som misterioso. Um vento de gelar os ossos fez ranger a madeira.

Para não perder a coragem, Carlos cravou os pensamentos na avó e correu o olhar a toda volta. Procurando… buscando… até que avistou.

Não era Anhangá, mas era o meio para encontrá-lo.

Trepada numa árvore, distinguiu uma preguiça com seu filhote às costas. Estavam à altura do meio do tronco, subindo lentamente para o topo da árvore.

Carlos se achegou ao bicho, que o fitou com olhos solícitos. Tinha de fazer.

Respirou fundo e, apanhando a preguiça pelo cangote, arrancou-a da árvore. Separou o filhote da mãe e, mais uma vez, encarou o animal, dessa vez encarando numa prece de quem pedia clemência. Largado pelo chão, caminhava o filhote num passo desajeitado na tentativa de voltar para a mãe.

Carlos engoliu em seco e olhou para cima, enfiando o punhal de uma vez no coração da preguiça. Não houve grito, nem protesto, apenas o som chapinhado do metal afundando na carne, depois o gorgolejo do sangue fluindo em bolhas que escapavam pelo talho do pulmão.

Carlos se levantou; o rosto cortado de arrependimento. Trôpego, caminhou até o tronco mais próximo e se apoiou desajeitado, dessa vez vomitando de arder o esôfago. Começou a chorar, mas não reclamaria. Julgava-se merecedor de qualquer aflição que se abatesse sobre ele, tornando-se refém de contrações musculares intensas o bastante para o punhal despencar da mão trêmula.

Quando o estômago enfim se esvaziou, cuspiu para os pés e limpou a boca. Ele respirava ruidosamente, sentindo um amargo ácido na língua e o suor mesclado às lágrimas. A camisa estava empapada e o colarinho colado ao pescoço.

Virou-se para trás, enxergando que o filhote tingira a própria pelagem de escarlate. Ele alcançara a mãe morta e a abraçava. O pequeno – o pobre e indefeso – só a queria de volta, como qualquer filho desejaria. Como qualquer neto desejaria. Não emitia nenhum ruído, nenhuma lamúria, mas encarou Carlos com olhos de quem queria chorar, mas não podia. Olhos de quem questionava o porquê de ele ter feito o que fez com à mãe dele. Brilhavam como fachos de quem tinha uma alma viva dentro de si. Mas animais não têm alma! Augusto lhe garantira!

— É pela minha avó! — gritou Carlos, não aguentando a acusação silenciosa. Tirou o punhal do solo. Precisava finalizar o serviço. — Não tem outro jeito...

Aproximou-se do filhote. Viu duas íris grandes e úmidas o encarando; a pelagem suja com o sangue da própria mãe. Tão pequeno, mas parecia entender que a morte se aproximava. Carlos levantou a lâmina. O filhote se encolheu…

Desceu apertando as pálpebras. Não queria ver.

Mas foi impedido no meio do ar quando uma força lhe segurou pelo braço.

Carlos sentiu uma mão ossuda sobre o pulso, obrigando o pescoço, naquele momento rígido como uma junta enferrujada, a se virar para trás.

Rolou pelo solo, encarando o crânio alvo e esquelético de um cervo coberto por um manto que sacudia como se um vento forte corresse pela mata fechada, fosco e limoso como as próprias cores da floresta. Tinha contornos humanos, mas além da cabeça fantasmagórica, o único pedaço de corpo visível eram os dedos longos de esqueleto que saltavam para fora do manto.

Carlos estremeceu no lugar – a isca tinha funcionado –, mas, para surpresa do menino, Anhangá o soltou e correu a mão com gentileza por sobre o cadáver da preguiça, chorando lágrimas incandescentes que escorreram a partir dos olhos de vazios. Cada soluço era um assobio entrecortado. A criatura apanhou o filhote de preguiça e aninhou-o nos braços, afagando-o.

— Devolva minha avó! — gritou Carlos.

Mas Anhangá se limitou a encarar o menino; as órbitas escuras ainda chorando fogo.

A entidade ajeitou o indicador esquelético à frente do crânio e sibilou um pedido de silêncio. Carlos, no entanto, apertou o punhal ainda mais forte, criando coragem e guinando em linha reta.

Não durou mais que um átimo.

Carlos enfiou o punhal para dentro do corpo de Anhangá.

Ele não queria machucar ninguém, nem mesmo um demônio. Sentia como se estivesse fazendo algo ruim; algo que talvez entristecesse a mãe quando ela soubesse, mas não havia outro jeito de sua avó retornar. Augusto tinha sido claro na explicação. Ele precisava matar a criatura e, na cabeça de Carlos, aquilo seria suficiente para compensar as coisas. Mamãe ficaria orgulhosa por ele ter resgatado a vovó.

Contudo, havia algo de errado naquele gesto. O sangue apenas vertia através do manto de Anhangá. O líquido cor de magma atingia o solo fértil e entrava em combustão.

— Vamos! Faça sua mágica. Faça minha avó aparecer.

Anhangá despencou em silêncio, largando o filhote de preguiça. Carlos arregalou as órbitas e soltou o punhal, sentindo-se repentinamente sujo, testemunhando com assomo de horror enquanto o corpo da entidade se transformava num fogo arrasador e serpenteante.

Quando deu por si, Carlos estava encurralado pelas chamas; sozinho na floresta.

A avó não tinha aparecido.


*******


Imóvel à varanda do casarão, Augusto observava as chamas consumirem a mata além da propriedade.

Conversava ao telefone; um sorriso de triunfo lhe tomara o semblante.

— Por Deus, Augusto, que fogaréu todo é aquele? — perguntou a mulher.

Ela se aproximava pela trilha de ladrilho que cortava o enorme quintal gramado.

O homem sacudiu os ombros, encerrando a ligação.

— Como foi lá na cidade? — desconversou. — Conseguiu resolver o problema com o banco?

— Graças ao bom Deus, mas foi uma verdadeira amolação. Pediram um monte de documentos. — Ela estacou ao lado de Augusto, volvendo-se hipnotizada para o fogo. — Carlinhos já chegou?

— Ainda não, Josefina — respondeu estoico. Augusto pigarreou. — Mas eu tenho uma novidade para contar a você.

— O que é? — Josefina arqueou uma sobrancelha para o marido.

— Comprei noventa cabeças de gado.

A mulher arregalou as órbitas e escondeu a boca com as mãos.

— I... isso é maravilhoso, Augusto! Mas onde vamos arranjar espaço pra tanta vaca?

O homem apontou com a cabeça para as chamas. Uma grande coluna de fumaça preta subia rumo ao céu da tarde.

— O prefeito liberou pra queimar tudo. Chega de torrar dinheiro público com instituição de proteção fajuta. A mata vai dar bons alqueires de pasto.

— Poxa, agora você me deixou impressionada. Não sei o que fez, mas nunca conseguimos botar fogo nela. — O tom de Josefina soava sonhador. — Contava meu pai que, antes de eu nascer, finado vô Dito e tio Florêncio arriscaram com gasolina e tudo. O que sei é que os dois acordaram com queimaduras terríveis no dia seguinte, de grudar a pele no colchão. Dizia ele que Anhangá protegia essas árvores.

— Se existe algum demônio naquela mata, ele só impede a nossa prosperidade. Não protege coisa alguma!

Josefina sorriu.

— Você tem razão, meu amor.

Augusto anuiu com a cabeça, abrindo uma expressão galante para a esposa.

— Que acha de comemorarmos tomando um vinho?

— Quer saber? Acho que seria uma ótima maneira de esperarmos por Carlinhos.

A mulher entrou em casa, mas o marido não a seguiu de imediato, permanecendo estático à varanda enquanto sorria. O reflexo do fogo queimava por sobre os olhos de Augusto. O crepitar da madeira era música para seus ouvidos.

Deu as costas para a floresta.

26 de Janeiro de 2021 às 18:04 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Tomas Rohga Um reles garimpeiro de palavras. Comecei a escrever ainda criança na mesma tarde em que terminei de ler o primeiro livro. Desde então, passei a vagar por este mundão munido apenas de uma ideia na cabeça, um caderno embaixo do braço e uma caneta na mão.

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Rodrigo Martins Rodrigo Martins
Muito bom. Acertou dois coelhos com uma cajadada só. E ainda mostra um reflexo dos nossos tempos.

  • Tomas Rohga Tomas Rohga
    Obrigado, Rodrigo. Realmente criei este conto num momento de revolta contra a política ambiental do Salles. 6 days ago
~