alexisrodrigues Alexis Rodrigues

O quão terrivelmente alguém pode adoecer? Até onde o ser humano consegue suportar a dor? É possível querer viver depois de tentar, mais de uma vez, o suicídio? Essas eram as perguntas que constantemente perturbavam a mente de Alec Lucilion. Sua missão como demônio guardião era salvaguardar a vida de uma única pessoa, e, por duas vezes consecutivas, quase falhara. Ao decidir deixar as sombras e se revelar a sua humana protegida, ele espera conseguir reabilitar Dalia Rodrigues a vida em sociedade mais uma vez e lhe mostrar os motivos pelos quais a vida ainda merece ser vivida. Conseguiria, Alec, ajudar Dalia a parar de lutar infinitamente contra a própria vida?


Drama Para maiores de 18 apenas.

#angst #sobrenatural #depressão #demonios #original
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Prólogo

Naquela noite, tudo começara em frente ao notebook.

Ela havia se decidido, tudo que planejou logo se concretizaria. Beto havia sido entregue aos cuidados de Marcelo, todas as contas haviam sido pagas, seu testamento não oficial, escrito a mão, estava em um envelope em sua pasta de documentos sobre a mesa de estudos de seu quarto. Ela havia maratonado suas séries, animes e filmes favoritos semanas antes, ouvido a todas as músicas que mais gostava, comido tudo o que desejara. Não visitara nenhum parente ou amigo. Imaginou que caso se o fizesse, pensaria duas vezes, e não queria se dar ao luxo de fraquejar novamente. Daquela vez era definitiva, tinha que ser.

Apanhou seus documentos e os colocou em uma pequena sacola plástica, enfiando-os no grande bolso de sua calça jeans. Deixou o celular sobre a mesa de estudos. Para onde iria, não precisaria dele. Por último, retirou algum dinheiro de sua carteira, o que havia guardado para si, e seu cartão de vale-transporte para o ônibus.

Era uma agitada e típica noite de natal na praia da cidade, a orla abarrotada de pessoas chegando e partindo. Havia muita gente nas ruas, bebendo, rindo, dançando, comendo, crianças correndo ou pedindo aos pais que comprassem porcarias para eles. Todas aquelas cenas lhe deram a certeza de que sua decisão era a certa. Se sentir solitária em meio a tantas milhares de pessoas era clichê, mas era exatamente o que havia acontecido com ela. Inicialmente, considerara executar o ato da orla, mas, quando pesou o fato de estragar o natal de algumas centenas de crianças com o seu corpo na praia, pensou em um lugar mais adequado.

Não teve pressa e decidiu que comeria alguma coisa antes de se dirigir ao seu último destino, já que seria a última vez que comeria qualquer coisa. Comeu algodão-doce, churros de chocolate, pipoca, batatas fritas, e sentiu os olhos arderem e marejarem levemente quando pensou no fato de que nunca mais poderia comer nada daquilo. Repreendeu-se logo, pois não deveria sentir falta de nada aos quarenta e cinco do segundo tempo. Tivera tempo o suficiente para pensar e não havia motivo concreto para voltar atrás.

Deixou a orla da praia e pediu por um táxi, partindo em direção a ponte entre sua cidade e a cidade vizinha, do outro lado do grande rio que cercava a cidade. Desceu próxima a entrada da ponte que ligava uma cidade a outra e seguiu caminhando. Havia uma movimentação razoável por ali, considerando a data comemorativa, o que a fez perceber que seria complicado atravessar a barreira sem ser notada ou impedida. Mas o tempo começou a fechar e não demorou muito para que as pessoas se apressassem em sair da ponte. Ela somente parou de caminhar ao chegar no que julgava ser a metade da ponte, encarando as águas negras que poderiam ocultar seu corpo se tivesse consigo peso o suficiente para prender aos pés. No entanto, não havia como levar peso consigo e se jogar da ponte com algo do tipo sem ser discreta e sem ser impedida por alguém. A correnteza deveria levá-la. Ao menos era o que ela esperava que acontecesse.

– Por favor, não faça isso.

A mulher, que se assustou ao ouvir alguém se dirigir a si, virou-se para ver o curioso enxerido com sotaque estrangeiro que se aproximava dela. A princípio, o encarou com olhos arregalados, surpreendida por ouvir alguém se dirigir a si, mas logo um desdém tomou conta de seu rosto, medindo-o da cabeça aos pés. Branco, com as maçãs do rosto bronzeadas, barbudo e bigodudo e de longos cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Trajava uma bermuda e um casaco de moletom, e na cabeça dela, ele poderia muito bem ser um safado qualquer querendo tirar alguma vantagem da situação que ele poderia deduzir que estava acontecendo.

– Fazer o que? – ela perguntou.

– Pular da ponte. Não é uma boa ideia. Por favor, repense.

– Cuide de sua própria vida – resmungou.

– Eu gostaria, mas eu não posso te deixar sozinha para fazer isso.

– Não se meta.

– Eu sei que não deveria ter parte nos teus assuntos, mas, por favor, não faça isso, ou precisarei chamar os policiais.

– Mas que merda! – a mulher praguejou enquanto se afastava dele, a passos largos e pesados na direção oposta. – Inferno!

Subitamente, o estranho estava a sua frente. Ela piscou algumas vezes, olhando de um lado da ponte para o outro, imaginando se tivera um lapso de memória e não acompanhara os movimentos dele ao correr para a frente.

– Imagino o quão esquisito isso deve soar, mas peço que me acompanhe, por favor.

– Ah, claro, acompanhar um sujeito que apareceu do nada e ainda acha que manda em mim! – ela subiu na barreira da ponte, alarmando-o. – Não quero ajuda, de você ou de qualquer outra pessoa! Faz o seguinte: se fode aí, falou? – bateu continência a ele com o dedo do meio e pulou da ponte antes que ele pudesse segurá-la.

Mas, infelizmente para ela, ela nunca alcançou a água.

10 de Outubro de 2020 às 02:38 0 Denunciar Insira Seguir história
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