silvamaro Gabriel Amaro

Em um de seus frequentes debates, Nathália e Eduarda discordavam sobre como lidariam com seus pais autoritários. Apenas uma poderia prevalecer.


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

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GEMINI

MEU ÚLTIMO DIA COM EDUARDA havia sido medíocre até o fim daquela tarde. Eu encarava o preguiçoso ventilador de teto do meu quarto e xingava o calor carioca. Puxava a gola da camiseta, bebia cachoeiras de água, refazia o maldito rabo de cavalo e procurava qualquer distração, um mísero resquício de diversão. Em meu tédio impiedoso, senti um incômodo crescente no dedo indicador; estava cansada de clicar em fotos, marcações e hashtags. Mais uma sexta-feira abafada e estupidamente monótona, mais um fim de semana enjaulada em casa, mais momentos em que me pergunto o que se passa lá fora, em bares, restaurantes, esquinas e cantos de lábio. Sobre o que conversavam os jovens tão jovens quanto eu? Realmente beijavam desconhecidos? Esquisito.

Meu aniversário de dezoito anos fora no mês anterior, em um dia nublado e pacato de setembro. Me lembro do bolo de chocolate com coco, de seu doce exagerado e de um minuto sofrendo a cantiga de parabéns entoada por minha família. Eduarda estivera lá, no canto da sala, recusara-se a bater as palmas e sua boca impassível permanecera muda. Ela mirara a janela cinzenta da sala de estar durante toda a cantoria, frustrada e antipática, como de costume.

— Vai passar a noite toda aí? — disse Eduarda em tom de reprovação. — Hoje é sexta, sabia? Muita coisa pra fazer lá fora.

— Mamãe não deixaria a gente sair. — Dei de ombros e mantive a atenção fixa no brilho do computador em minha frente. A curiosidade crescia em um recanto escuro dos meus pensamentos. Eu a alimentava; me envolvia em seu canto adocicado e bebia seu encanto agridoce. Não desafiaria as ordens de minha mãe, mas ansiava por vida: me perguntava como me sentiria ao me sentir jovem.

— Temos dezoito agora, Nathália. — Eduarda bufou antes de saltar da minha cama e se colocar de pé ao meu lado; o olhar desinteressado pairou sobre o computador até finalmente me encarar. — Somos adultas.

— Adultas sustentadas pelos pais. — Afastei minha cadeira da mesa do computador e retribuí o olhar de Eduarda. Assim como eu, minha irmã era alta, levemente esguia; a palidez da pele contrastava com o escuro potente dos cachos bem-cuidados. A apatia que dominava seus olhos castanho-escuros era marcante e, enquanto eu os encarava, desejei que meu semblante não fosse tão letárgico quanto o dela. Ela me afrontava como um deus julgava seus mortais, uma amálgama de severidade e escárnio. — Precisamos respeitar as regras.

— Vamos passar o resto de nossas vidas trancadas aqui em casa? — perguntou Eduarda. — Você não se pergunta como deve ser bom ser uma jovem normal?

— Somos normais, bobona. — Tentei descontrair a conversa com uma mentira que sem dúvidas soaria como ingenuidade. Não éramos normais.

Desde a infância, nossa família nos protegera: não possuíamos permissão para sair com amigos da escola, para frequentar qualquer ambiente estranho sem a presença de nossos pais ou muito menos para namorar. Uma realidade considerada normal estava distante do que eu sentia ser palpável; contudo, minha irmã sempre se mostrara mais aberta ao inesperado, sempre buscou desafiar o controle de nossa família em busca de maior autonomia. Por outro lado, sua cruzada por independência não parecia se finalizar por conta própria.

Eduarda testava meus limites regularmente. Ela me instigava a aderir às suas rebeldias, atiçava minha curiosidade em relação ao mundo que eu não conhecia. Revoltava-se com minha inércia, considerava minha neutralidade persistente um ultraje. Nossa relação oscilava entre cumplicidade natural e rivalidade árdua: conversávamos sobre nossa infância e nossos anseios por horas, até que finalmente alcançávamos o inevitável ponto de discordância. Nossas amarras mortificavam Eduarda; eu as tolerava.

— A festa da Carla é hoje e nós vamos. — Antes que eu pudesse abrir a boca em protesto, ela desligou o monitor do computador com um toque forte dos dedos. — Não aceito não como resposta.

— A mamãe nunca deixaria. — Tentei religar o monitor, mas tive a mão estapeada pela de Eduarda. — Ai!

— Não me importo e você também não deveria se importar — retrucou enquanto desviava o olhar de desdém para meu armário. — Escolhe uma roupa logo.

— Eduarda!

Minha irmã arregalou seus olhos e — pela primeira vez naquele dia — senti a intensidade de sua insurreição transparecer no olhar. Eu sabia o que aquela expressão significava. Brigávamos pelo controle de nossa relação diariamente; Eduarda se transformava quando não estava disposta a renunciar ao domínio. Abandonava sua postura arrogante e insolente e tentava vencer meu zelo através de intimidações e de chantagens emocionais baratas. Típico. Quando vi seu dedo indicador se erguer ameaçadoramente contra meu rosto, soube que estava prestes a ouvir um de seus cansativos sermões.

— Por quanto tempo você acha que vou aguentar carregar o peso morto que você é?

Eu nunca seria capaz de me esquecer de seu semblante. Veias estavam saltadas na testa e no pescoço; o olhar exaltado, como se maldissesse meu núcleo, a essência de quem eu era. Seu ódio e rancor eram tão reais e presentes que me faziam acreditar que eu seria capaz de tocá-los a qualquer momento. Eduarda precisava de mim, era verdade, mas desprezava a codependência que construímos — ou em que já nascemos inseridas — a cada instante de sua existência.

— Se eu sou um fardo tão grande, por que você não faz seu espetáculo sozinha e me deixa em paz? — Levantei da cadeira imediatamente e devolvi seu olhar fulminante. — Você é patética.

Você é patética! — Ela vociferava com cada vez mais fúria. — Você é uma marionete perfeita nas mãos daquela vaca!

— Tá se ouvindo? — Eu estava acostumada com os despautérios de Eduarda, mas nunca testemunhara uma demonstração tão violenta de seu descontrole. — Cada palavra que você diz é um absurdo diferente.

— Nathália... nós vamos definhar nessa casa pelo resto das nossas vidas se você não acordar agora. — A súbita mudança para um tom de voz mais contido me pegou desprevenida. Esperava mais xingamentos ou até uma escalada em sua exasperação que resultaria em qualquer tipo de agressão. Eduarda se empenhava em me convencer mais do que costumava. — Nós temos que tentar escapar disso.

— Escapar do quê? São nossos pais. — Sua nova postura foi suficiente para acalmar nossos ânimos. — Não estamos na prisão.

— Estamos sim. Temos dezoito anos e somos tratadas como crianças. Não temos amigos. Não podemos conhecer nada real, nada que existe mesmo lá fora. — Eduarda tomou seu rosto aflito com as mãos trêmulas. Não me lembrava de vê-la tão desesperada alguma vez antes daquilo.

— Tudo bem. — Enfim cedi. — Você quer tentar pedir pra ela? Podemos pedir. — Entre bufadas de raiva, marchei para a saída do meu quarto e ouvi Eduarda me acompanhar em silêncio. Ela tipicamente comemoraria a vitória por cansaço, mas se limitou a sorrir.

Girei a maçaneta com certa impaciência e descemos as escadas estreitas após atravessarmos o corredor do segundo andar. Mamãe estaria na cozinha. Minha irmã cantarolava alguma música em inglês; quase saltitava pelos degraus, estranhamente radiante como resultado de uma discussão tão calorosa. Estranhei seu comportamento, mas achei que só estava animada com a possibilidade de se divertir em uma festa de verdade.

Cruzamos a sala de estar silenciosa; nosso pai ainda estava no trabalho. Estiquei o corpo e agarrei o controle remoto escondido nas costas do sofá, desligando a televisão logo depois. Eduarda provavelmente a esquecera ligada. Sentimos o cheiro delicioso do jantar sendo preparado; minha barriga roncou tão alto que conseguiu arrancar um sorriso de canto de Eduarda. Alcançamos a cozinha em seguida, conquistando a atenção imediata da mamãe.

Ela era linda. Mesmo com a idade relativamente avançada, disfarçava suas rugas com tinta escura no cabelo volumoso, maquiagem sempre vívida e uma energia genuinamente jovial. Tentava se comunicar como se fosse muito mais jovem; era irônico refletir sobre sua conduta galhofeira e lembrar de seus costumes rígidos e ideias tão antiquadas. Ela terminava de temperar o feijão quando levantou os olhos castanhos para a entrada da cozinha.

— Veio me ajudar? — perguntou minha mãe ao se focar em minha direção. Certamente não presumia que sua outra filha ofereceria auxílio. — Quanto mais ajuda eu receber, mais rápido vamos poder comer.

— Não — respondeu Eduarda antecipadamente. Não fui capaz de formular uma resposta mais rápida. — Viemos avisar que temos uma festa hoje.

— Avisar? — Nossa mãe desenhou o clássico sorriso debochado nos lábios finos. Eduarda puxara sua personalidade ácida da mulher, sem dúvidas. — Tudo bem que você tá em um dia ruim, mas não vou aturar desobediência. Vai pro seu quarto agora mesmo.

A assertividade em sua voz me estremeceu por completo. Não teria coragem de questionar sua autoridade; tudo aquilo fora um erro. Errei em dar ouvido às paranoias de minha irmã; errei em concordar com seu plano estúpido. Errei em ceder controle. Girei os calcanhares e me retirei da cozinha imediatamente; Eduarda permaneceu firme, o queixo erguido e o peito estufado. Aquela situação nunca poderia gerar um resultado positivo.

— Acha que vai nos conter pra sempre, sua maluca?! — Ouvi minha irmã gritar na cozinha.

Joguei meu corpo amedrontado no sofá mais próximo e enterrei meu rosto em uma almofada gelada. Ouvir os urros idênticos aos meus de Eduarda era uma experiência bizarra: ela berrava ofensas que eu nunca proferiria e sua crueldade não me pertencia. Os gritos subsequentes foram ruídos distantes; ouvi pratos quebrando, ambas esbravejando e, por fim, um silêncio mais preocupante do que qualquer perturbação na ordem da casa. Contei dois, três e quatro minutos, nada. Eu precisava saber o que havia acontecido.

Com o coração disparado e as mãos suadas, me levantei de meu abrigo e planejei caminhar até a cozinha em passos hesitantes. Entretanto, quando notei a desordem da sala, compreendi que a briga se estendera até ali. Como um sinal divino de que a vida estava sempre assistindo aos nossos piores momentos, meu pai destrancou a porta da casa e surgiu na sala na companhia de dois dos meus tios. Me alarmei ao notar seus olhos arregalados e rostos boquiabertos; se apressaram para dentro da sala e me encararam em incredulidade. Naqueles instantes que antecederam a cena mais traumática que já testemunhei, eu não fazia ideia do que encontraria ao contornar o sofá de couro.

O corpo da minha mãe jazia sem vida no chão. Todos pensaram que eu a tinha matado, mas não fui eu. Do outro lado da sala, pude ver a pessoa que fez isso, mas denunciá-la me condenaria completamente. Eduarda sorria em felicidade extrema, mas seus lábios se moviam em lentidão; estava tentando me dizer algo: abençoava sua liberdade recém-conquistada. Meu pai se aproximou cautelosamente, seu olhar assustado mirava a faca ensanguentada em minha mão direta. Enquanto meus tios buscavam quaisquer sinais de vida no corpo da mamãe, tentei reencontrar a figura de Eduarda.

— Pai, eu não fiz isso. — Olhei para baixo e senti as lágrimas se formarem quando percebi minha roupa manchada por sangue fresco. — A Eduarda, ela...

— Quem é Eduarda, querida? — Também chorando, ele arrancou a arma da minha mão em um movimento preciso e veloz. — Você lembra o que aconteceu? Por que fez isso?

Nunca mais encontrei Eduarda. Sinto saudades de nossas conversas todos os dias.

17 de Outubro de 2020 às 01:40 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Gabriel Amaro Oi. Sou Gabriel, tenho 23 anos e sou estudante de Letras - Português/Inglês na UFRJ. Eu escrevo desde uns 10 anos e quero dividir minhas ideias malucas com o mundo. Apesar de escrever de tudo, meu foco sempre foi fantasia, sci-fi e terror. Odeio finais felizes, mas nunca se sabe quando vou surtar e seguir por esse caminho.

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