mruniicornz Diego Noronha

Em meio as cinzas de um grande império, um guerreiro qualquer se vê com sua alma em pedaços e à beira da loucura.


Conto Para maiores de 18 apenas.

#trágico #258
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Queda

Lá estava ele, sozinho novamente. O céu negro projetava cinzas que decaíam como flocos enegrecidos de neve, corrompidos em sua pureza outrora branco.

Sua respiração projetava uma fina fumaça saindo de sua boca, seu rosto apreciava o vento gélido que o tocava gentilmente fazendo seus cabelos tremularem. Ao seu redor a destruição deformava o que antes tinha sido uma imponente e gloriosa cidade, agora reduzida ao mais puro caos. Fogo consumia casas e árvores, apenas aquelas que já tinham sido destruídas escapavam do ardente inferno rubro. A capital do grande Império XXX ardia, sua população era massacrada e aqueles que não morriam desejavam terem ido para o além com aqueles que lhes eram queridos, tudo isto feito por mãos bárbaras, bárbaros estes que disseram serem incapaz de lutar com nosso antes maciço e poderoso exército, disseram que a capital jamais seria invadida.

Os líderes não conseguiram enxergar a ameaça que se aproximava bem diante de seus olhos, e agora, todos pagavam o preço pela tolice de um punhado de pessoas mimadas e agora tão mortas quanto qualquer outro camponês ou escravo. Sangue, desejos e medo eram algo comum que todos os homens tinham, não importando o quão rico ou poderoso fosse, todos morriam.

Nossos aliados haviam nos traído. Nossa bondade e clemência por permitirem que fizessem parte da Glória imperial sob nossa asa protetora havia sido retribuída com mentiras e sangue. Traição era o mais vil dos atos, algo que deveria ser inconcebível por todos os homens, isto é um veneno que somente aqueles que confiam podem sofrer do seu gosto amargo, isto é, se sobreviverem para tal.

Em meio à tanta morte e destruição um soldado se mantinha de pé, seu corpo embebido de sangue, coberto por ferimentos e fuligem, como se a própria alma de tudo pelo qual lutava estivesse se incorporado em sua pele. Sua integridade física já não importava, seus ferimentos pareciam tão distantes quanto a esperança que tinha sido arrancada de seu ser ao ver tudo que acreditava ser consumida pelo ódio e pelo fogo. Sua vida já não importava mais, não fazia sentido em se agarrar a algo com que tivesse perdido todo seu valor, todo seu brilho de antes.

Em seus fortes braços jazia o cadáver de uma mulher, pálida, com diversos hematomas, os seios à mostra devido as vestimentas rasgadas, sangue escorria pelo meio de suas coxas demonstrando uma parcela das atrocidades sofridas, porém mesmo em estado tão deplorável ela permanecia o anjo mais lindo de todos ao olhos do guerreiro, mesmo quando sua pureza e a própria vida dela tinham sido arrancados de maneira tão horrenda, ele a amava tanto que seu peito era destroçado de dentro para fora. Aqueles selvagens aniquilaram tudo que foi de importante aos dois amantes, sua casa, seus amigos, sua própria vida e filhas, todos foram corrompidos e mandados ao inferno de uma forma ou de outra.

Ele lutou com mais furor que qualquer criatura mitológica para impedir os selvagens de lhe tirarem tudo, mesmo após destroçar os agressores dilacerando seus corpos expondo até mesmo suas tripas, esta fúria que o dominou por alguns sangrentos instantes se comparou a fúria do próprio deus da guerra. Infelizmente ele havia chegado tarde demais, os corpos de suas filhas haviam sido esquartejados revirando seu estômago, as flores de sua vida haviam sido manchadas e arrancadas. Sua esposa, o amor de sua vida, violada junto com suas filhas, permanecia sem vida em seus braços com a roupa aos pedaços enquanto o fruto do amor que tiveram queimavam sob a casa que antes foi o antro de toda sua felicidade, agora o centro de seu sofrimento. A fúria do homem que havia perdido sua própria essência só se equiparava a dor em seu coração, e tudo que pôde fazer foi chorar aos gritos, urros guturais de uma alma que se partira.

As lágrimas em seus rosto deslizavam como cascatas, tudo ao seu redor foi então enegrecido pela dor, a guerra e a morte já não significavam nada. Em meio ao luto ele amaldiçoou os bárbaros, amaldiçoou sua pátria e até mesmo os próprio deuses por permitirem que aquilo acontecesse, mas por fim amaldiçoou a si mesmo por ter estado por perto. O guerreiro chorou em seu sofrimento até já não ter forças para chorar, com sua esposa nos braços e observando o corpo de suas filhas a queimar nos escombros de sua casa, ali estava ajoelhado, quebrado.

Assim carregou sua amada pelos braços, caminhando lentamente pelas ruínas da metrópole, a única coisa que poderia fazer seria dar um enterro digno para ela, ao menos ela o guerreiro poderia enterrar. Ele ignorava os inimigos, ignorava as pessoas que tinha jurado proteger enquanto elas eram brutalmente mortas ou violadas. Até que chegou ao parque que tinha sido palco de muitas memórias, onde seu amor e felicidade tinham começado, onde seria apropriado terminar. Aquela área verde e viva no coração da cidade parecia um oásis em meio ao próprio inferno, praticamente imaculado pela corrupção e destruição. Ao pé de uma das árvores mais antigas e lindas que foi onde a enterrou, no mesmo lugar que a pediu em casamento à tantos anos atrás.

Por enfim ele rezou, não para os deuses que lhe haviam virado as costas, mas para entidades mais obscuras que pudessem lhe dar o que precisava. Sua fúria aumentada por um calor primitivo que surgia de seu âmago, ele já não era um soldado. Com suas armas em punho ele começou sua tarefa de expurgar sua casa de qualquer abominação que encontrasse, invasores, inocentes ou antigos companheiros, todos eram mortos pelo aço frio de sua espada agora enegrecida pelo sangue e fuligem.

A cada vida que ele ceifava servia apenas para alimentar seu ódio que impulsionava seu corpo, a cada morte feita por suas mãos o deixava mais forte se tornando mais numa abominação sanguinária. Seus ataques eram brutais e eficientes, já que não se importava com sua integridade física ele simplesmente se lançava para cima de suas vítimas. Até o ponto de beber o sangue daqueles que caíam perante ele, tornando seus lábios e corpo vermelho, refletindo em seu próprio corpo que ele já não era mais humano, a cada morte mais sua alma se perdia ao tormento. Uma verdade porém se mantinha tão forte quanto sua cólera: morte alguma saciaria seu ódio.

Porém mesmo assim, seu coração era tomado uma aguda e lasciva dor, seu sofrimento ainda maior que qualquer raiva ou rancor, e para sempre essa dor o acompanharia, até que pudesse se juntar novamente à sua família.

1 de Outubro de 2020 às 15:25 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Diego Noronha Aspirante a autor, amante de cerveja, animais e bons livros. Histórias obscuras são meu ponto fraco. Edgar Allan Poe e Lovecraft são meus escritores favoritos.

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Gabriel Amaro Gabriel Amaro
Olá, boa noite. Li seu conto e gostaria de compartilhar alguns pontos que observei. O enfoque na dor do personagem é primordial, a ambientação e as descrições são abundantes e ricas, contém a capacidade de nos fazer mergulhar e imaginar com precisão os eventos apresentados. A dor do personagem é tão intensa e bem narrada que o transforma em um ser que está visivelmente sofrendo, para alguém que deseja apenas vingança. Porém, o texto possui palavras usadas incorretamente para exprimir tempo e erros de concordância e flexão verbal facilmente perceptíveis, além da falta de pontuações em momentos necessários, onde o texto se torna confuso e corrido ao leitor. Apesar das questões que apontei, gostaria de dizer que adorei ler seu conto, parabéns pelo trabalho!
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