lisama Li Sama

12º Lugar: "Concurso Contos Pandemia" - O Ponto e a Vírgula Revisores Textuais Um conto distopico sobre a pandemia (COVID-19) de 2020.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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19 Males

Olho pela janela observando o denso nevoeiro cobrindo a cidade, hoje chamada de fantasmagórica, mas um dia foi um enorme comércio e inúmeras pessoas caminhavam todos os dias comprando e vendendo enquanto outras mendigavam o pão de cada dia. Ao mover minha mão sem querer esbarro no controle remoto e a televisão liga, me mostrando as propagandas animadas e felizes, sim, é final de ano. Mais um ano que a população humana sobrevive ao mortal ataque do “19”. Tudo começou como sendo uma pandemia há quase trinta anos, no fim, era só uma arma biológica que seria usada para a terceira guerra mundial, mas infelizmente havia uma rachadura no tanque de nitrogênio e as bactérias usadas nos experimentos virais escaparam, contaminando o que viam pela frente.


Não sei se devemos agradecer a Deus ou ao diabo, mas os primeiros a morrerem forem os mais velhos e os jovens criaram resistência, contudo o “19” não era um simples vírus e sim dezenove mutações do mesmo tipo. O primeiro um terço da população foi dizimada ao longo de dez anos e o segundo na década seguinte. Motivo? Negligencia dos países, principalmente dos criadores da monstruosidade que hoje assola o mundo e nos obriga a viver em cubículos brancos, qualquer mancha pode nos tornar alvos dos Guardiões. Criaturas maquinarias de quatro patas que passam uma vez por dia na frente de cada residência, escaneando-nos como mercadoria.


Olha só falando no diabo, eles estão aqui. A luz verde do escâner passou por dentro de mim e de todas as mobílias do cubo 666… A luminosidade avermelhou e sem perceber arregalei os olhos e os passos apressados das maquinarias se aproximaram, derrubando minha porta como se fosse um graveto.


– Foram encontrados vestígios de contaminação, usuário, faça o seu teste imediatamente. – ordenou a máquina com o número 24 em sua “coleira”.

– Claro. – respondi pegando o bafômetro, joguei o máximo de ar para dentro daquele objeto e o mesmo registrou meu número e rapidamente apresentou luz verde. Eu estava livre da contaminação, contudo as maquinarias começaram a analisar minha residência, observando todos os cantos possíveis.

– Não há sinais de alteração. Lamento informar, mas foi um falso positivo. Porém, sua presença é solicitada no gabinete de segurança pública. – disse a máquina com sua voz robótica, me encarando com aqueles acusadores olhos metálicos.

– Sim, Guardiões. – respondi e a máquina de número 30 se aproximou.

– Siga-me, usuário. – ordenou a máquina e vagarosamente comecei a seguir, não dei mais do que quarenta passos antes de cair no chão ofegante. – Usuário, escanearei suas atividades motoras, favor aguardar.

A luz do escâner novamente passou pelo meu corpo e pude sentir aquela estranha sensação queimante e fria ao mesmo tempo.

– Sua saúde está normal, por favor, levante-se. Temos um longo caminho, usuário. – disse a máquina e com toda a dificuldade do mundo movi meu corpo.

– Não é fácil. – retruquei enquanto tentava levantar e o Guardião 93 me ajudou.

– Usuário, talvez suas condições físicas não estejam adequadas para deixar o recinto, porém, sua porta precisa ser arrumada e o local descontaminado, por favor, aguente firme. – informou a máquina 93.

– Agradeço a ajuda. – respondi e saímos daquele lugar. Curiosamente olhei para trás, observando pela primeira vez na vida que haviam quase mil cubículos iguais ao meu naquele conjunto habitacional. – Que lugar enorme.

– Por favor, entre no veículo. – ordenou a máquina 30 e eu entrei no carro que um dia foi um grande luxo e hoje não é nada mais do que um transporte para os infectados e pessoas que sofreram com o falso positivo como eu.


Fico inúmeras vezes imaginando como foi viver nessa cidade, mas só posso desfrutar dessa imaginação através dos filmes antigos e das séries online. Quanto mais vagamos em direção a cabine de segurança, mais a densa fumaça vai afinando. Essa fumaça é, na verdade, um alterador de pH, isso impede que o “19” se aproxime ou mesmo se prolifere em áreas habitacionais… Tudo ficou branco e fechei bruscamente meus olhos sentindo minha face queimando.


– Guardiões! Estou queimando! – exclamei.

– Acalme-se usuário e abra vagarosamente os olhos. – ordenou a robótica voz e eu abri com cuidado as pálpebras vendo pela primeira vez um enorme matagal cobrindo todo o chão. Sua altura superava o quarto andar dos cubículos residenciais enquanto o veículo era puxado pelas máquinas 93 e 55 em direção a uma quase imperceptíveis construção no meio daquele verde balançado incansavelmente para a direita, conduzidos por mãos invisíveis.

– Guardiões. Vejam! O mato está sendo jogado para a direita por algo invisível! Seria uma nova mutação do “19”? – questionei sem esconder o receio em minha voz.

– O movimento acontece por que o vento o está jogando para o lado direito, usuário. – respondeu a máquina.

– Vento… – murmurei e lembranças de algo invisível brincando com os cabelos das pessoas dos filmes me vieram em mente. – Oh! Isso é o vento!

Exclamei animadamente e as imagens das mulheres sorrindo enquanto o vento jogava suas madeixas para trás me tiraram a face surpresa para uma súbita curiosidade.

– Como é sentir o vento? – questionei e a máquina começou a pesquisar na internet.

– Uma sensação de perda de calor para o ambiente. – respondeu o Guardião.

– Não me parece algo bom. – retruquei e o veículo parou.

– Chegamos usuário, por favor, entre. – ordenou a máquina 93 se aproximando da porta do veículo. Eu rapidamente desci do veículo e me aproximei da construção muito bem fechada, não havia nenhuma janela sem estar soldada e as portas foram abertas por duas máquinas, cujo os números era 99 e 150.

– Usuário aqui é um local de limpeza, por favor, entre e remova seus trajes espaciais. – ordenou a máquina 105.

– Sim. – respondi entrando e apertando o discreto botão ao lado do meu coração. A roupa espacial se desprendeu do meu corpo e desabou no chão.

– Prepare-se para uma sensação de calor. – disse a máquina 99, jogando uma luminosidade rosada. Tudo em meu corpo formigou intensamente.

– Sensação picante, parece pimenta. – comentei sorrindo, mas fiquei em choque ao ver aquela criatura bípede vindo em minha direção… Ela era exatamente igual as mulheres dos filmes. Os cabelos longos, a face alinhada com o pescoço, nenhum sinal de marcas em toda aquela extensão alta, provavelmente um metro e setenta. – Olá.

– Olá. Lamento pela sua residência, por favor siga-me. Vou levá-lo para o quarto temporário enquanto sua casa é limpa e a porta trocada. – ela disse sorrindo.

– Você é linda. Eu sempre quis conhecer uma criatura como você. – eu disse sem pensar e ela me pareceu constrangida.

– Agradeço ao elogio, mas nossas idades são muito diferentes, usuário. Sou quase trinta anos mais velha do que você. – ela respondeu sorrindo e caminhando.

– Eu sempre quis conhecer uma pessoa como você. – respondi animadamente, não conseguia pensar corretamente.

– Do que está falando? Você também é uma pessoa, usuário. – ela me respondeu e eu franzi duramente a testa, mas quando ela abriu a porta eu me vi ao lado dela através do espelho. – Viu? Você é como eu.


Em estado de choque olhei nossos reflexos e pela primeira vez olhei meu corpo sem aquelas vestes espaciais. Minha enorme barriga adquirida ao longo dos anos se destacava como uma mulher grávida de nove meses, minhas gordas mãos eram idênticas as enormes coxas. Sempre tomei banho usando a limpeza laser que não necessitava a remoção das vestes espaciais, então… Em choque olhei para fora e vi as longínquas construções habitacionais… Elas não eram enormes e sim pequenas, para caberem pessoas minúsculas. Olhei para cima e percebi a distância entre nossas cabeças. Os humanos dos filmes eram como ela, então o que eu sou? Ao tocá-la senti um frio metálico.


– Você é humana? – indaguei.

– Não. Sou a androide Lúcifer setenta e dois. – ela respondeu sorrindo.

– Onde os humanos vivem? – questionei.

– Eles vivem nos cubículos habitacionais, de onde o usuário veio. – ela respondeu ao olhar meu reflexo refletido no espelho.

– Estou me sentindo um pouco perdido… Segundo os filmes, vocês são construções futurísticas, mas o mundo foi assolado pelo “19”, há somente vinte e nove anos. Então, como você existe? – questionei sem entender.

– Usuário, você está apresentando sinais de esquecimento. Isso é uma das características de falecimento neural. – Lúcifer disse.

– Do que está falando? – perguntei.

– A grande pandemia “19”, não aconteceu a trinta anos e sim há noventa e sete anos, quatro meses e seis horas. – Lúcifer respondeu.

– O que aconteceu durante esse tempo? – indaguei.

– Entrando em modo contador de história. – Lúcifer disse enquanto sua voz feminina era modificada para uma versão robótica. – Duas décadas depois da pandemia do Covid-19, descobrimos que na verdade era um armamento biológico. Muitos países ficaram debilitados, ocasionando em uma invasão amarela e infelizmente perdemos a guerra, por não termos soldados capacitados para lutarem. Eles dominaram a humanidade e por cinquenta anos eles nos governaram male porcamente, matando a civilização, mas o feitiço se voltou contra o feiticeiro e eles sofreram com as novas dezenove modificações virais. Cerca de apenas três países sobreviveram a grande nova crise e insistiram em sobreviverem. Os países se unificaram e assim criamos os cubículos impermeáveis, no começo tudo deu certo, mas três anos depois, o vírus evoluiu e conseguiu acabar com nossa proteção, então com a ajuda dos cães robóticos, criamos um sistema de escaneamento e detecção, novamente escapamos, mas foi temporário. Por causa do contato humano para fins reprodutivos, o vírus acabou sofrendo mudanças, o que nos obrigou ao isolamento total. Máquinas androides com o nome de Estrelas Vespertinas, ou Lúcifers, foram criadas para sustentar as formas de vida humanas, assim não havia mais o risco de extinção. Como os humanos pararam totalmente suas atividades, até mesmo sexuais, eles encolheram o que nos permitiu criar construções cada vez menores. A expectativa de vida diminuiu, reduzindo os gastos naturais, consequentemente a natureza começou o processo de se rearborizar. Mas a zona onde os humanos viviam ainda sofria com o contagio e então desenvolvemos a fumaça com capacidade de alteração de pH, criando uma densa neblina branca para mantê-los vivos em suas gaiolas de concreto. Fim do modo contador de história.

– Há crias humanas aqui? – perguntei.

– Sim usuário. – Lúcifer respondeu e saiu andando na minha frente, parando e virando calmamente para a direita. – Essas são crias humanas.

– São tão pequenos… – comentei e ela sorriu.

– Não há vestígios de seu código entre essas crias, deseja inseri-las? – Lúcifer indagou e sorrindo concordei com a cabeça.

– Siga-me. – ela disse.

– Definitivamente jamais devia ter aceito aquela maldita oferta. – reclamei enquanto observava as máquinas guardarem meu código genético com todo o cuidado, mas o meu ser era mutilado pelos lasers. – Por que está fazendo isso, Lúcifer?

– Você ativou o modo história, não pode continuar vivo depois de saber. Por favor, descanse em paz. – Lúcifer disse e tudo ficou escuro.

Estranhamente senti algo frio batendo em mim e ao abrir os olhos pude ver claramente o enorme matagal sendo penteado pelo vento e o calor deixava o meu corpo vagarosamente.

– Ah! Então isso é a sensação do vento? – pensei olhando para o céu, vendo uma estranha bola de fogo. – Aquilo deve ser o sol… E pensar que ele era diferente da luz branca daquele quarto.

O som da porta sendo destrava me alertou e pude ouvir claramente as vozes robóticas dos Guardiões.

– Usuário aqui é um local de limpeza, por favor, entre e remova seus trajes espaciais. – ordenou a máquina 105.

– Sim. – alguém com uma voz similar a minha respondeu.

– Máquinas androides com o nome de Estrelas Vespertinas, ou Lúcifers, foram criadas para sustentar as formas de vida humanas, assim não havia mais o risco de extinção. – a voz robótica de Lúcifer ecoou em minha mente.

– Então a detecção de falso positivo no meu cubículo habitacional, não foi por acaso… – pensei e tudo escureceu a medida que todo o meu corpo esfriava e a grama batia contra minha face. Splash! Abri bruscamente meus olhos e vi um gordinho semelhante a mim, ele também estava com as mãos e pés amputados pelos lasers e havia alguns pequenos furos por onde o sangue deixava o corpo. – Vejo que você é outra vítima do falso positivo.

– Eu estou infectado. – o gordinho me disse sorrindo de leve.

– Então por que está aqui? – perguntei.

– Por que sou um resistente. Todos os resistentes são mortos para não haver crianças fora dos radares das Lúcifers. – respondeu o gordinho, eu tinha mais algo para perguntar, mas não percebi quando o dia virou noite… Uma eterna e calma noite…


Fim.

30 de Setembro de 2020 às 02:53 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Li Sama Não há mal que não venha para bem. A solução é ver o lado positivo quando se está no final do abismo, pois a subida será longa caso tenha pensamentos negativos.

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