antonio-stegues-batista Antonio Batista

André recebe um telegrama do tio, avisando que seu pai está no hospital muito mal. Ele viaja para a terra natal e chega a tempo de se despedir do pai. Ao encontrar a avó Rosamund, ele vive uma fantástica aventura e descobre o caminho para o reino da Fantasia.


Fantasia Todo o público.
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PASSAGEM PARA NWYR

Ele acordou com o sol entrando pela janela. Viu que já era tarde. No travesseiro e no lençol amarrotado, ainda havia o perfume dela. Jogou as pernas para fora da cama e ergueu-se, pisando sobre um tapete onde estava estampado um grande desenho colorido. A imagem, uma ilha flutuando sobre um oceano, com bosques, campos, um castelo dourado e um rio entre rochedos que despencava pela borda. Ao redor do castelo voejavam seres alados parecendo abelhas, mas se você olhar mais de perto, vai ver que são fadas.

Lavou o rosto na pia do banheiro e saiu, dirigindo-se para o quintal. No pátio, olhou satisfeito ao redor. A casa era robusta, moderna, pintada de branco, com telhado de telhas vermelhas, em dois níveis. Ciprestes guarneciam a entrada, o quintal gramado, com caminhos de tijolos, o muro baixo com colunetas atravessadas por ripas de cedro.

Ele olha para o terreno abaixo, onde uma estradinha sinuosa de terra batida iluminada pelo sol, atravessa extensos campos verdejantes. Ele a vê no campo, colhendo flores. A mulher, de cabelos vermelhos e olhos verdes, ergue o rosto e acena com uma mão. Sobraçando um ramalhete de flores, dirige-se para a casa, o vestido branco esvoaçando ao seu redor.

─ O que vamos fazer hoje? - pergunta ela, enquanto sobe a escada.

─ Que tal irmos pescar no riacho? - responde ele. - Talvez encontremos o nosso amigo...

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Vestindo apenas calcinha e meias soquete, Darlene montou sobre os quadris de André. Darlene era bonita, sensual, mas André ainda estava preocupado com aquele sonho da noite passada. Havia sonhado com o pai que não via há tempos. No sonho o pai se despedia dele na estação de trem de Morro Alto. Depois de abraça-lo, o velho pegou a mala e subiu no vagão de passageiros. Voltou-se por um momento para acenar um adeus. Ele ficou olhando o trem se afastar e sumir numa curva, como havia acontecido sete anos atrás quando saiu de Morro Alto.


Na época achava que viver na cidade grande teria maiores chances de arranjar um bom emprego e progredir na vida. Naqueles sete anos passou por muitos empregos ganhando salário mínimo, trabalhando de lavador de carro a ajudante de padeiro. Faziam três dias que fora demitido. Darlene ainda não sabia.

Ela inclinou-se para beija-lo, mas ele não conseguiu corresponder.

─ O que está acontecendo, André? Se não gosta mais de mim é só dizer!

─ Não sei. Hoje não estou legal!

─ Não está legal ou tem outra nos teus pensamentos?

─ Não é nada disso!


Furiosa, Darlene saltou da cama. De pé, com as mãos na cintura, os pés fincados no chão, ela encarou-o carrancuda.

─ É melhor terminar aqui e agora! Vai embora! Não estou suportando mais esse teu comportamento de insegurança e incerteza!


Ele hesitou, mas acabou decidindo que era melhor não ficar, não insistir. Precisava dar um tempo na relação, ficar sozinho, colocar as ideias em ordem, decidir sobre o futuro.


Para completar a fase ruim, naquela tarde recebeu um telegrama de seu tio Ricardo; “Teu pai internado no hospital. Muito mal”. De imediato lembrou-se do sonho que teve com o pai. Tinha sido um aviso. O pai queria se despedir dele antes de morrer. Concluiu que precisava estar ao lado do velho nos últimos instantes da vida dele. Esperava que ainda houvesse tempo. Partiu na manhã seguinte para Morro Alto.


Ao chegar na cidade foi direto à casa do tio, Ricardo. Lorna, a esposa dele, recebeu-o com pesar. Disse que Alfredo estava há três meses sofrendo de um câncer no pâncreas. Estava hospitalizado. André foi imediatamente para o hospital. Ao entrar no quarto, encontrou o tio sentado numa cadeira lendo um livro. Ricardo deu-lhe um abraçou em silêncio. Virou-se para o irmão na cama.

─ O médico disse que ele está no fim.


André aproximou-se do leito e observou o pai ligado aos monitores, respirando por um aparelho. Lamentou-se por não ter vindo há mais tempo. Devia ter voltado a escrever, a visita-lo regularmente. Olhando aquele rosto pálido, sugado, os olhos encovados, sentiu um nó na garganta.


O velho morreu naquela mesma noite. Pareceu que estava apenas esperando pela chegada do filho. No dia seguinte, durante o sepultamento no cemitério do município, André deu por falta da avó materna. De pé entre o tio e a tia que o confortavam e assistindo os coveiros selarem a tumba, ele indagou num sussurro: ─ E a vovó Rosamund?


Lorna inclinou-se na direção dele e respondeu no mesmo tom. ─ Nós a colocamos numa clínica. Estava morando sozinha naquela cabana. Não queria morar conosco, achava que ia dar trabalho. Acabou ficando doente e tivemos que interná-la.


Ricardo continuou: ─ Um dia fui lá tentar mais uma vez convencê-la a morar conosco e quando cheguei, encontrei-a sentada numa cadeira, catatônica. Não fala, não ouve. Os médicos fizeram exames, mas não encontraram nada de anormal. Fisicamente parece saudável, apesar da idade...

─ Lembro que um dia ela me disse que iria embora a qualquer hora. - disse André.

─ Embora para onde? - indagou Lorna.

─ Para o um lugar muito longe. Ela deu o nome, mas não me lembro.

─ Ah! Tua avó gostava de inventar histórias!

─ Eu me lembro de que levava uns pãezinhos de mel para ela, que a mamãe fazia. Ficava lá ouvindo as histórias dela. Uma vez me disse que era neta de uma fada.

─ Rosamund sempre foi meio estranha. - disse Ricardo. ─ Quando tua mãe morreu, ela não derramou nenhuma lágrima. - Amanhã vou visita-la. - prometeu André.

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O prédio da clínica compunha-se de um só piso com várias salas dispostas em três alas, dormitórios, lazer e administração. Uma enfermeira roliça, usando os cabelos presos numa touca, conduziu André por um corredor até uma sala espaçosa, onde havia um aparelho de televisão num suporte preso à parede. Alguns idosos assistiam a um programa de auditório enquanto outros permaneciam sentados conversando, outros ainda, jogavam dominó. Vovó Rosamund estava sentada numa cadeira estofada, próximo de uma janela.

─ Ela não fala. - disse a enfermeira. ─ Não sabemos se ouve. Fica assim, o dia todo. O senhor é parente?

─ Sim, sou neto dela. Faz tempo que não a vejo. Será que ela vai me reconhecer?

─ Confesso que não sei.

A mulher pegou uma cadeira e colocou junto da idosa para André sentar-se.

─ O senhor conversa com sua avó. Depois me diga se ela reagiu.

─ Ok.

A enfermeira se retirou. André sentou-se e segurou a mão da idosa.

─ Vovó, sou eu, André. Lembra-se de mim? Sou seu neto.


Rosamund permaneceu imóvel, com o olhar perdido no vazio. As mãos rosadas, ja pele fina quase transparente, o rosto pálido, os olhos encovados, brilhantes, mas parados olhando sem ver. André achava que ela estava olhando para a rua, mas percebeu que não, que o olhar dela estava na direção de um quadro pendurado na parede.


A imagem representava uma cena mítica, três ninfas dançando nas margens de um regato ao som de uma flauta tocada por um fauno encostado a uma árvore.


André ficou na frente da avó, procurando chamar-lhe a atenção. Contou que tinha brigado com a namorada, que tinha perdido o emprego e que o pai havia falecido. Rosamund não esboçou nenhuma reação, continuou calada e rígida.

****

Na manhã seguinte, durante o desjejum, Ricardo deu um molho de chaves para André.

─ São as chaves da casa de teu pai. O que você vai fazer? Vai morar lá ou vai vender?

André deu de ombros.

─ Não sei. Ainda não pensei nisso.

─ Vai voltar para a capital? - perguntou a tia.

─ Como eu disse, ainda não decidi. Estou desempregado.

─ Vou falar com meu sócio. - disse Ricardo, passando geleia numa fatia de pão.

─ Vamos ver se arranjamos trabalho para você na gráfica. O que acha?

─ Seria ótimo, tio. Vou terminar o café e dar uma olhada na casa.

─ Quer uma carona?

─ Não precisa, é perto. Vou caminhando.

****

Ao olhar a casa onde morou por 24 anos, André sentiu-se velho, com saudades da sua adolescência, época em que não tinha preocupação com nada. Ele entrou e abriu as janelas para entrar sol e ar fresco. Em cada cômodo parava por um instante, observando os detalhes do aposento, recordando alguma coisa do passado, imagens que ainda persistiam na lembrança. Via a mãe ali na cozinha preparando o almoço, o pai sentado perto da janela naquela sua cadeira predileta, lendo o jornal.


O quarto em que dormia tinha apenas a cômoda, vazia e a cama sem o colchão. O quarto agora, como ele, estava vazio, abandonado e sem futuro.


André voltou a fechar a casa e saiu. Queria voltar a morar ali, mas teria que ter outro motivo mais forte do que apenas necessidade. Seguiu de cabeça baixa pensando na possibilidade de trabalhar com Ricardo. Logo depois se deu conta de que estava caminhando na trilha que levava à floresta e à cabana de Rosamund.


A floresta exalava uma mistura de odores, humo, folhas secas, resinas. A brisa balouçava os galhos altos que emitiam rangidos e estalidos. Ele continuou pela trilha até chegar numa bifurcação. Tomando o caminho da direita, logo chegou à cabana construída pelo avô com a madeira da própria floresta.


A porta estava aberta.


Ele parou na entrada e viu uma mulher sentada numa cadeira, pintando numa tela pousada num tripé. Notando que alguém obstruía a claridade, ela voltou-se e só então André viu que era Rosamund.

─ Vovó, a senhora não estava no asilo?

Rosamund fez um estalido com a língua.

─ Ah! Eu saio à hora que quero! Estava esperando você. - disse ela largando o pincel e erguendo-se. Limpou as mãos no avental manchado de tinta.

─ Me esperando?

─ Sim.


Ela afastou-se para encará-lo. ─ Teu pai finalmente descansou. Não fique triste por que agora ele está bem. Sofreu muito com aquela doença, coitado.

─ Como a senhora está?

─ Estou bem. Entre e sente-se. Vou fazer um chá para nós.

─ Não sabia que a senhora pintava.

─ Há muita coisa que você ainda não sabe. -afirmou Rosamund, procurando a lata do chá no armário. A água na chaleira fervia sobre a chapa de ferro do fogão. Rosamund colocou uma acha de lenha no fogo e fagulhas saltaram para fora, se extinguindo antes de atingir o chão.

─ Você casou? Tem filhos? - perguntou a avó, enquanto colocava as folhas de chá dentro da chaleira.

─ Não, ainda não. Tive uma namorada e fazíamos planos para casar, mas aí, de repente, as coisas mudaram, nós mudamos. Acho que, na verdade, o amor acabou.

─ O que vocês sentiam era paixão, não amor. O amor nasce da paixão, porém, às vezes a paixão morre antes mesmo do amor nascer. E sua vida profissional?

─ Ruim. Achei que seria melhor viver lá, mas voltei do mesmo jeito que parti, com os bolsos vazios.

─ A vida é assim mesmo, meu filho. Mas não se preocupe, a vida sempre está mudando e a sorte um dia chega.


Rosamund passou o chá pelo coador e serviu a André numa xícara de porcelana. ─ Beba, é camomila com mel.


André começou a saborear o chá. A avó parecia muito mais jovem, com a expressão suave, sorridente. Os cabelos brancos brilhantes e sedosos não pareciam ser de uma pessoa idosa. Seus movimentos eram leves, a postura elegante, firme. De repente soaram ruídos de passos sobre as folhas secas e André notou pelo canto dos olhos um vulto passar diante da porta. Intrigado, ergueu-se e foi investigar.


Ficou espantado ao ver que era um cavalo robusto, branco. O animal sacudiu a cabeça batendo com uma das patas no chão. Agitou a longa crina que caia como cascata sobre o pescoço e o mais incrível, com um chifre de marfim esverdeado no meio da testa! O cavalo era um unicórnio!

Rosamund saiu da cabana com uma maçã na mão e ofereceu a ele.

─ Vovó, cuidado!

_ Que nada! Ele é meu amigo. De vez em quando vem me visitar. Tome, aqui está sua maçã.


O cavalo fantástico, inclinou a cabeça e abocanhou a fruta com cuidado. Rosamund passou a mão pelo vigoroso pescoço do animal.

─ O nome dele é Àton.

─ De onde ele veio?

─ De Nwyr.

─ Onde fica isso?

─ Muito longe.


O unicórnio acabou de comer, ergueu as patas dianteiras e soltou um sonoro relincho que ecoou pelo bosque.

─ Pronto! Vá para casa. - disse Rosamund, acenando um adeus. O unicórnio partiu galopando com a cauda erguida, sumiu entre as árvores.

─ Ele vai para Nwyr? - indagou André estupefato.

─ É onde ele vive. - respondeu a avó tornando a entrar.

─ Mas não é longe?

─ Ele vai pegar um atalho.


André voltou a sentar-se e só então olhou para os quadros na parede. Num deles, Rosamund havia pintado um unicórnio no alto de uma colina. Eles continuaram a tomar o chá, enquanto conversavam. Ele contou que Ricardo havia oferecido emprego.

─ Estou em dúvida, não sei se fico aqui ou volto para a capital.

─ Aceite a oferta de emprego do teu tio. Ele vai te ajudar e esqueça aquela moça, ela não gosta de você, se gostasse não tinha te mandado embora!

─ Eu vou esquecer. - respondeu o rapaz.

****

André voltava para a casa dos tios pelo caminho na orla da floresta. Ele tinha tomado chá com a avó e passados momentos agradáveis com ela. Rosamund lhe disse palavras encorajadoras, afirmando que tudo iria ficar bem.


Caminhava absorto, quando ouviu um grito de mulher partindo do meio da floresta. Ele penetrou na mata, olhando para todos os lados. O grito se repetiu, seguido de ruídos de passos apressados sobre as folhas secas do chão. Seguindo naquela direção, viu um vulto branco afastando-se entre as árvores. Na direção oposta, surgiu algo que deixou André estupefato, uma figura que ele viu apenas em filmes de Fantasia, um ogro!


O monstrengo, com cerca de três metros de altura, avançava estraçalhando a folhagem com seu corpanzil. Parecia um trator humano! As árvores muito juntas atrapalhavam a sua corrida e era por entre elas que a esperta garota fugia. André decidiu que não podia simplesmente ignorar a situação. Tinha que fazer algo para salvar a moça, a qualquer momento o ogro a alcançaria. Ele correu numa direção paralela, gritando para chamar a atenção do brutamontes.


O ogro diminuiu a corrida e procurou ver a origem dos gritos, mas André não parou, seguiu correndo na direção em que a moça havia desaparecido. Logo ele a alcançou. A jovem, surpresa com o súbito aparecimento dele, parou, olhando nervosamente para todos os lados.


André conhecia a floresta como a palma de sua mão. Sabia que havia uma gruta não muito distante, onde eles poderiam se esconder.

─ Vamos por aqui. – disse ele e a puxou pela mão, descendo um declive em direção ao regato. Logo chegaram a uma encosta rochosa. Uma estreita fenda dava acesso à gruta. Eles entraram e se esconderam lá dentro.


Com a respiração acelerada, a garota olhou para André em silêncio. Procurava ouvir algum ruído do lado de fora.

─ Estamos seguros aqui. – afirmou André. Ele falou num tom baixo. ─ A entrada é estreita e ele não consegue entrar.


Eles se sentaram na rocha e ficaram em silêncio por um momento, até que

André perguntou: ─ Que coisa era aquela? Parecia um ogro dos contos de fadas!

─ Era um ogro mesmo, não tenha dúvidas. – respondeu a garota no mesmo tom baixo. – É um dos servos da rainha Mirena, Senhora das Trevas.


André ficou surpreso com a revelação, mas ele viu realmente o monstro e a situação em que se encontrava não era um sonho, disso tinha certeza. A jovem, bonita, de pele clara, cabelos avermelhados e olhos verdes, olhava para ele em silêncio.

─ Meu nome é André e o seu?

─ Dafne. Eu estava procurando amoras na floresta quando surgiu o ogro.


Nesse instante soou um rosnado do lado de fora e o ogro meteu a mão no buraco, tentando pegá-los. O gigante parecia estar disposto a pegá-los de qualquer forma. André considerou que a situação não era nada boa. Eles tinham que sair dali. Do fundo da gruta vinha uma claridade difusa.


Talvez houvesse uma saída pelos fundos. Nunca tinha ido lá antes. Ele notou que havia algo brilhando num canto escuro da parede rochosa. Foi ver o que era e divisou um túmulo de pedra. Sobre a tampa estava um escudo e uma espada. André pegou a espada e ao tocá-la, sentiu-a vibrar como se ganhasse vida. Um nome veio à sua mente; Durandal! Histórias antigas diziam que o ferreiro de lâminas, além de fazer a espada, dava-lhe uma alma e consequentemente, um nome.


André não era nenhum guerreiro e não tinha habilidade com espadas. Ele largou o objeto onde estava e voltou-se para Dafne.

─ Vamos ver se encontramos uma saída. – disse ele e começou a dirigir-se para os fundos da gruta. A garota seguiu-o, caminhando com cuidado sobre o chão úmido e escorregadio. Uma luz tremeluzente surgiu logo a frente. Alguém vinha ao encontro deles com uma tocha iluminando o caminho.

─ É Mirena! - exclamou a garota segurando André pelo braço. A rainha má, esboçou um sorriso sinistro. As feições delicadas foram se alterando à medida que ela avançava. Seu corpo esguio se transformou numa besta dos infernos. Os olhos eram agora duas bolas de fogo, o rosto de fera, os dentes pontiagudos capazes de estraçalharem um boi, a boca rude com a baba escorrendo pelos cantos. Ela atirou a tocha para um lado e avançou, rosnando.


André puxou Dafne pela mão e correu de volta à entrada da gruta. Mas lá ainda estava o ogro, esmurrando as pedras, procurando alargar a fenda. André colocou-se em frente da jovem para protege-la. Fechou os punhos com força e tentou esmurrar Mirena. Mas era o mesmo que esmurrar um touro de 1 tonelada. A criatura nem se abalou e com o antebraço, jogou André contra a parede;


Ele ficou atordoado com o choque contra a rocha, mas procurou reanimar-se logo, reprimindo a dor. Respirou fundo, concentrando sua atenção e raciocínio no que se desenrolava na sua frente. Viu a rainha monstruosa pegar a garota pelo pescoço. Mirena não estava com pressa em matá-la, apertou os dedos nodosos lentamente, sentindo prazer em ter a vontade realizada e o poder de tirar a vida daquela que era a herdeira trono do país das fadas.


André sacudiu a cabeça como que para desfazer a névoa que pairava sobre sua mente. A vista clareou e ele viu o aço da espada brilhando na semiescuridão da gruta. Agarrou-a e com toda sua força, enterrou a lâmina nas costas do monstro. Mirena soltou um urro de dor, largou sua vítima e tentou alcançar a lamina em suas costas. Deu alguns passos para trás, esbarrou na parede e desabou no chão em estertores até morrer.


Dafne respirava aos arrancos, tentando regularizar o suprimento de oxigênio em seus pulmões. Ao ver que ela se recuperava, André a conduziu para os fundos. Vinte passos os levaram a saída da gruta, um buraco redondo, de onde caiam algumas raízes retorcidas. Fora da gruta, eles se afastaram rapidamente. André ia dizer alguma coisa, quando um nevoeiro súbito os envolveu. Ele caminhou às cegas, chamando por Dafne até que, finalmente, saiu para o dia claro.


Olhando ao redor, não viu mais a garota. Ela tinha sumido.

****

Lorna ainda nem tinha começado a preparar o jantar quando Ricardo chegou.

─ Chegou mais cedo?

─ Telefonaram do asilo dizendo que Rosamund sumiu.

─ Como, sumiu?


Ricardo passou uma mão pelos cabelos com ar preocupado.


─ Ninguém sabe, ninguém viu. O terreno é cercado por um muro alto e o portão fica constantemente fechado. Cadê o André? Temos que ir à polícia dar parte do sumiço dela.

─ André ainda não voltou! Será que vai ficar lá na casa? A mala dele ainda tá aí!

─ Vou ver se ele está lá.


Alguns minutos depois, Ricardo chegou à casa que era dos pais de André. Bateu na porta e como André não apareceu, ficou tentando imaginar onde ele teria ido. Será que foi à casa de Rosamund? Talvez eu o encontre pelo caminho.


Quando chegou à cabana da floresta, encontrou André sentado numa cadeira.

─ André, o que está fazendo aqui? Vamos, Lorna nos espera para jantar!


Como o rapaz não respondeu, ele aproximou-se e colocou uma mão no ombro dele. Só então viu a expressão em seu rosto, a mesma expressão de imobilidade e mudez que Rosamund tinha quando ele a encontrou. André estava com a mesma catatonia, imóvel e expressão ausente. Ricardo notou que ele estava com os olhos fixos na pintura de uma tela sobre um cavalete. A imagem representava uma cena campestre, uma casa branca com alguns pinheiros sobre uma elevação. No terreno abaixo, uma mulher inclinada, usando um vestido branco e longo, colhia flores.


André foi internado na clínica.


No dia seguinte ele desapareceu.

Fim

27 de Setembro de 2020 às 22:58 0 Denunciar Insira Seguir história
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