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Curitiba, 26 de setembro de 2020.

"Não é sinal de fraqueza admitir que precisa de ajuda, fingir que nada se passa apenas agrava o problema. Calar amplia o vazio, falar em voz alta pode ser libertador, sobretudo se quem te escuta te ama tanto a ponto de ilustrar com lucidez um ponto de vista que até então nunca tinha te ocorrido. Se lhe derem as costas e relativizarem sua dor, diminuindo-a ao senso comum, bradarem que depressão é "falta de Deus", "frescura", "coisa de gente fraca", "mente desocupada", simplesmente se lembre de que a depressão pode acometer qualquer pessoa em qualquer fase da vida e cada um reagirá a ela de acordo. Só porque aquela ferida não arde na alma alheia não significa que ela é pouca coisa, que você faz drama por nada. Se te incomoda e te faz chorar, é importante, sim. Quebrar o tabu. Externar. Porque, me desculpe, não tem meu respeito quem compartilha posts sobre Setembro Amarelo e passa o ano inteiro infernizando os outros."

Se ninguém te entender, escreva. Não precisa mostrar a ninguém, nem reler, apenas siga o fluxo que corre pelas pontas dos seus dedos e digite num bloco de notas até que a respiração se torne mais leve e as lágrimas tenham se secado. Não permita que a angústia te engula ou te faça pensar que seria melhor deixar esse mundo porque eu sei muito bem o que é estar no seu lugar, o que é ver todos os amigos virando as costas e por algum tempo até rastejar e mendigar espaço, atenção, o que quer que fosse, até a dignidade me pegar pelo colarinho e me dar uma lição de moral que me deixa ruborizada só de recordar. Porque é o que acontece. Você sente tanta vergonha de correr atrás de quem faz pouco caso e para de romantizar o passado e pessoas, quando entende que elas vivem muito bem sem você, que as promessas feitas lá atrás foram quebradas e aquelas amizades eternas não eram, foram durante um período e o juramento teve sua validade, mas já expirou.

Sabe por que eu te entendo tanto?

Porque eu estou fazendo o percurso pelo deserto da vida e quiçá pela insolação ou por inquietação, briguei com Deus, acusando-o de não me amar porque não me deu o que na minha presunçosa visão seria a vida ideal para mim, aquela "realidade" que vejo nas redes sociais, que algumas pessoas (tóxicas) expõem, aquele relacionamento perfeito, fora diversos aspectos que não posso expor e me entristecem, porém me senti mal por questionar o Criador porque agindo dessa forma estou querendo tomar o posto Dele, dizer quando e como Ele deve agir e se eu oro esperando que tudo saia como espero, estou rumando para a vala da frustração e não compreendendo que no processo de evolução tem dor, afinal de contas, a lagarta sente o peito pesar dentro do casulo. Você vê a bela borboleta e nem imagina por quantas metamorfoses ela passou até dar seu voo rasante no céu de primavera.

Eu sonhava com um futuro perfeito, onde todas as peças se encaixariam em harmonia, entretanto, sonhei acordada e os anos se passaram, se hoje estou insatisfeita com a realidade, assumo a parcela de culpa que me compete porque priorizei amizades que não convinham e não estudei o suficiente, quis desesperadamente buscar o amor em terrenos inférteis, o resultado era óbvio e eu, de teimosa, me machuquei para tirar a prova.

Enquanto escritora, até certo ponto eu estava seguindo o meu coração e fazendo o meu trabalho com amor, dedicação e personalidade, não inventei a roda nem nada disso, mas sempre coloquei minha alma no que produzi. Era uma espécie de portal, de um espelho mágico, onde eu podia fugir da realidade e recarregar as energias, ou seja, ainda existia um tiquinho daquela menina sapeca e sonhadora, era ela que equilibrava o percurso entre os dois universos tão distintos, mas tão meus.

A vaidade me fez perder a inocência.

Nessa de querer ter um título para ser respeitada e considerada "escritora de verdade", cadastrei-me no Wattpad porque rezava a lenda que todas as meninas que postavam suas histórias lá eram sondadas por grandes editoras e tinham os livros publicados no formato físico, desejo de muitos escritores, até daqueles que não expõem seus trabalhos, seja por medo das críticas ou de plágios e nem os julgo.

Partindo desse princípio, o Wattpad parecia um lugar mágico, uma fábrica de sonhos e então aquilo que eu descartava por ser distante da (minha) realidade tornou-se tão possível que fui seduzida pela perspectiva, que já adianto, nunca se concretizou. Se os rumos fossem outros, esse texto não existiria.

Foi a partir do instante em que passei a me comparar com as garotas que conseguiam publicar seus livros sem pagar para isso que escrever deixou de ser uma alegria e tornou-se motivo de tristeza porque ainda que eu já tenha sido convidada para participar de antologias poéticas no Recanto das Letras - por pessoas que me escolheram porque embora não sejam funcionárias da Intrínseca, da Planeta ou da Rocco, gostaram dos meus versos livres e loucos -, ainda não me sinto "escritora de verdade" e antes me dava gosto a ideia de começar uma novela nova e pensar em cada detalhe: personagens, casais, mocinhos, vilões, trapalhões, trilha sonora, primeira ou terceira pessoa, uma ou mais temporadas, era delicioso trabalhar por amor e não viver me sentindo um monte de estrume porque nunca recebi no privado a mensagem de uma editora pedindo meu endereço de e-mail, eu enviaria o texto original no Word e escreveria um capítulo no Wattpad avisando ao público que assinei contrato e precisaria retirar o restante dos capítulos, deixando apenas alguns para degustação.

Esse gosto eu nunca tive.

Nunca ganhei nenhuma edição do The Wattys e não foi por falta de tentativa porque me inscrevi por QUATRO ANOS SEGUIDOS para descobrir depois que os vencedores geralmente são os autores populares e/ou seus amiguinhos, sem falar que os "avaliadores" só leem livros com mais de 100k de views, então nem adianta você, com 1k ou 2 achar que tem chance, eles riem da sua cara, são cartas marcadas.

Sem falar noutro ponto que me magoa. As mesmas autoras que já são publicadas por editoras grandes querem tudo. Eu já pensei em participar de concursos literários nesses anos todos, porém quando vejo os perfis dessas moças marcando as amigas populares e sei que o lance envolve votação popular, recuo com o coração partido porque não tenho a menor chance e não estou me vitimizando, mas analisando a questão com realismo. Uma autora que tem 50 mil seguidores vence facilmente uma disputa dessa do que eu, que com sorte teria 50.

Então, o mercado literário me parece injusto, se o critério é o número de curtidas, seguidores, a rentabilidade financeira dos projetos e não a qualidade, vale a pena insistir se não dão espaços para quem REALMENTE merece?

Tudo bem se eu não for modesta, eu acho que merecia sim esse espaço. Ser falsa só complica minha situação. Eu não tenho condições financeiras de bancar uma autopublicação, não posso pagar capista, diagramador, revisor, então fui para o Wattpad na esperança de conseguir aquilo que me faria enfim parar de ouvir de pessoas maldosas que o que eu faço (fazia) não é trabalho de verdade.

A edição do The Wattys que me deixou muito revoltada foi a de 2017 porque inscrevi as duas primeiras temporadas de Simplesmente Tita, super revisadas, uma leitora muito amável confeccionou capas personalizadas, as sinopses estavam bem claras e diretas, eu às vezes releguei a faculdade para focar nos livros e na categoria Revelação ganhou um livro de ficção adolescente de gramática sofrível, cuja autora pouco pesquisou sobre a cultura americana para compor a ambientação e os costumes da personagem principal, apenas surfou no modismo da série Os 13 Porquês e criou uma Hannah Baker fajuta, sendo que sem vender meu peixe, mas já vendendo, Simplesmente Tita é muito melhor e eu não vou ser modesta, eu merecia o prêmio muito mais do que essa garota porque há muitos anos tenho lutado para que a Tita encontre seu público e descubra que nem só de Cássias, Babis e Clarinhas é composto o mundo, existem muitas Alines e Andréas, Cecílias e Bóris.

Adivinhem: mesmo a história tendo um enredo sem pé nem cabeça, o texto ser horrível, EDITORAS ESTAVAM ATRÁS DELA.

Foi uma afronta, assim eu entendi, esses critérios também não entram na minha cabeça. A modinha era criar protagonista que se corta, tem nome americanizado e blá-blá-blá? Por que não a Tita? A minha Tita sofre bullying, é brasileira e eu posso não ser uma linguista, mas sei que m vem antes de p e b, diferenciar "mas" de "mais", dentre outras regras gramaticais infringidas na plataforma e que pelo visto foram desconsideradas pelos avaliadores porque a autora era amiguinha de uma embaixadora, foi roubado, não foi merecido, muitos concursos lá se dão pela camaradagem, não pelos méritos e me desculpem a sinceridade, suportar essas injustiças minou minhas forças.

Sem falar que quantas vezes me inscrevi em concursos, seguindo dicas de autoras publicadas, e num deles o idealizador, logo que efetivei minha inscrição, cancelou o certame, foi só eu tirar a hashtag, ele reabriu as vagas. Quantas vezes ser preterida sem motivo ou "boa, mas não o bastante" porque não me entendam mal, a menção honrosa é prêmio de consolação, eu sou boa, porém não para estar no topo, no primeiro lugar, por que sempre as mesmas meninas, as que já são famosas, publicadas? Por que elas não largam o osso e deixam um espacinho para quem não tem nenhum? O ego é tão grande assim que a ascensão de outra representa uma cruel ameaça?

Vou morrer sem atinar tudo que aconteceu.

Minha intenção não é me vitimizar para que sintam dó da pobre coitadinha que sofreu bullying no Wattpad, mas a real é que vesti a camisa da plataforma com a maior boa vontade, procurei ser gentil com as pessoas e em troca fui magoada, humilhada, atacada, nunca tive oportunidade de crescer e encontrar meu nicho, inclusive, amigos que antes me amavam e acreditavam no meu talento mudaram quando conheceram os livros daquelas autoras famosas e passaram a segui-las no Instagram.

Uma das poucas amigas que fiz por lá, a Mariana, me disse que existia uma "máfia" de escritoras que não suportavam que outras fossem lidas, era um grupo fechado e ela tentou entrar, porém ninguém quis ler o livro dela nem por educação, a retaliando quando ela não topou aquilo, ser apenas uma máquina de curtidas, então, quando eu tive coragem de postar A Filha do Meio e a versão antiga de ST por lá, não foram poucos os ataques de ódio e é por isso que quando mencionei que não gosto de entrar na livraria do shopping, não é porque eu odeio ler e sim porque todas as pessoas que me impediram de ser conhecida estão já consagradas no ramo, elas nem mais precisam se matar para divulgar suas comédias românticas onde só se modificam os cenários, a sinopse, a capa e os nomes dos personagens porque o enredo é previsível: um pouco de putaria, estilo americanizado, aquele texto bem comercial, efêmero, que representa o momento, mas a meu ver não é clássico, aquele texto que daqui a cinquenta anos uma garota poderá ler e se identificar.

Aqui não estou a dizer que a Tita seja um clássico, entretanto, os dramas que ela vivencia são reais para muitas pessoas porque não podemos ignorar a questão do bullying e do quanto ele pode destruir a autoestima de uma pessoa, a alienação parental, os transtornos alimentares, dentre tantas questões. O cenário é Curitiba, é, mas poderia se passar em qualquer lugar do mundo, qualquer menina poderia ser a Tita porque ela não é heroína e nem a mocinha desejada por todos, nem a nerd recalcada que ama o atleta que namora com a patricinha, ela é aquela garota que mesmo levando porrada da vida desde cedo, resiste.

Depois do Wattpad eu nunca mais consegui escrever uma novela inteira e antes de 2015 eu era uma autora muito mais dedicada porque eu acreditava no meu talento, no meu potencial e que de degrau em degrau chegaria aonde pretendia. Eu dava conta de escrever duas novelas ao mesmo tempo sem perder o eixo, programava as postagens no blog e aquela vida fazia sentido para mim porque posso não ter ganhado um só centavo, mas a satisfação não se compra. Hoje eu me dou por satisfeita se terminar um poema. Choro (e só Deus sabe o quanto) ao reler minhas antigas histórias, sinto saudades desse tempo que não volta e de como eu precisava de tão pouco para seguir... PORQUE EU ACREDITAVA EM MIM MESMA!

Hoje eu tenho vontade de escrever porque sendo um coração de tinta, não importa o quanto fuja da minha missão, a escrita corre pelas minhas veias, todavia me recordo de que editora nenhuma vai encontrar o meu blog nem o Inkspired, quanto mais o Nyah (ou o +Fiction) e eu creio, portanto, que o fato de não ser contratada de nenhuma me torna um insucesso e minha irmã me diz que não é por aí, que na realidade eu nunca nem fui vista para levantar a bandeira branca como a vida tivesse chegado ao fim porque, nas palavras dela, serei reconhecida, meus livros vão parar nas mãos certas, meu público irá me encontrar.

Concluo que desistir não foi um ato heroico, eu apenas fiz a vontade das minhas haters e calei minha voz, me escondi como fiz quando ouvi na 8ª série que minhas perguntas na aula de Geografia eram irritantes e eu era muito chata por ser curiosa, entretanto, sei que deveria ter ignorado as palavras dessa garota e continuado a participar das aulas porque a professora gostava de mim e das minhas perguntas e em razão desse comentário maldoso que ouvi e no ensino médio, quando sofri o inferno com as exatas, calava minhas dúvidas para não "incomodar", sendo que os docentes eram pagos para lecionar e não se importariam nem um pouco em me ajudar a entender determinado conteúdo. Por isso, cuidado com o que você diz por aí, você pode matar uma pessoa em vida ou ceifar todo o potencial dela.

Desisti de escrever pelo mesmo motivo, porque presumo que minha escrita não é comercial nem atraente, não mais, porque agora que todos já conhecem as meninas do Wattpad, quem em sã consciência me leria e me admiraria?

Sei que falando assim dá a impressão de que já entulhei as caixas de entrada das editoras com os originais das minhas novelas e fui rejeitada por todas, porém o Wattpad é o celeiro onde os olheiros encontram os autores e ainda que editores sejam pessoas e as editoras sejam sustentadas pelo capitalismo, aquela pontada de rejeição me faz acreditar que sonhei por todos esses anos em vão, que todos aqueles que disseram que minha escrita era boa mentiram para mim, disseram por dó, por receio de me magoar com a verdade.

Sabe, sem sonhos a vida perde o sentido, a gente segue um rumo não muito legal porque deixa de fazer algo que ama porque já não se sente mais capaz. A gente precisa sonhar. Uma pessoa que sonha e insiste inspira os que estão à sua volta. O entusiasmo é necessário para adoçar os dias de luta.

A minha tristeza é essa, ter desistido, não só porque me atacaram de todas as formas, porque fui ignorada, porque vi todas as outras recebendo propostas para seus romances com galãs nórdicos e musculosos e minhas histórias passarem despercebidas. Desisti porque algo dentro do meu coração se quebrou nessas idas e vindas. E não me orgulho disso.

Tornei-me apenas uma pessoa que existe, vê os dias passarem e deseja logo que anoiteça, para dormir, dormir o quanto puder, para sonhar, para sonhar com o que quer que seja, porque a realidade é um murro no estômago. Eu não briguei com Deus porque Ele não usou uma varinha de condão para me tornar uma autora best-seller como vi num filme da Disney, onde por engano a menina enviou o diário por e-mail no lugar do trabalho de inglês e ficou popular porque eu nunca pedi isso ao Criador, nunca mesmo, nem quando era pré-adolescente. Nunca, nunquinha. Eu imaginava que publicaria um livro depois de formada, quando fosse mais madura, porém já lia de antigos amigos que talento não me faltava e li de diversas pessoas, das mais variadas faixas etárias.

Meu sonho verdadeiro era outro: ser escritora de TELENOVELAS. E eu desisti dele. Não por falta de talento, nesse caso, eu não tive escolha, e nem foi porque a Globo me rejeitou, nunca tive coragem de mandar um texto para avaliação.

Existe uma linha do tempo que traça minha trajetória como escritora:

2001 a 2006 (o início, papel, escrever escondida, sonhar acordada) - 2007/2008 (a digitalização do papel para documentos no Word) - 2009 (meu primeiro blog) - 2010 (a postagem da minha primeira web novela) - 2011-2014 (meu auge, que conta com a passagem pelo Fanfics Brasil, pelo Nyah, pelo Webnode) - 2015 (a derrocada, que coincide com o ingresso no Wattpad) - atualmente (o limbo, o nada).

Minhas novelas eram imitadas, eu participava de extintos blogs e o que me desmotivou NUNCA foi falta de audiência e leitores, mas o machismo enraizado porque muitos caras não aceitavam uma moça sendo melhor do que eles na escrita, então era cômodo me chamar de piranha, vagabunda, prostituta, criar perfil fake para tentar me seduzir e criar contenda, foi para fugir de um stalker doente que saí do mundo das webnovelas, onde eu era sim uma diva, que parei no Nyah e lá as meninas acolheram Simplesmente Tita, porém a Mary de 2014 não gostava da versão que estava indo ao ar porque muitas convicções se alteraram e os rumos da história foram modificados porque, como autora, refleti e concluí que seria um mau exemplo para minhas jovens leitoras, ainda na pré-adolescência, impor um homem como a salvação da mulher e o namoro a solução para os problemas. A desconstrução do Adolfo desagradou a uma ala, mas certamente me ajudou a explorar a Tita sem ele, quantas possibilidades existiam, até porque na vida real são raras as pessoas que se casam e vivem "até que a morte os separe" com namoradinho de 6ª série.

Minha pior atitude foi a falta de consideração com quem ficou ao meu lado mesmo quando o Adolfo deixou de ser o par romântico da Tita, retribuindo todo apoio com o cancelamento da trama. Hoje vejo as coisas com um olhar mais sensato: o correto não foi excluir a conta, se eu não estava emocionalmente bem, os leitores mereciam saber, posto que meu perfil era lido, visitado, as garotinhas me admiravam sim, no Nyah eu não posso reclamar de maus tratos, bullying, assédio ou o que for porque todos os leitores que se manifestaram sempre se portaram de forma respeitosa e quando xingaram foram os personagens porque se envolviam tanto que choravam, se emocionavam, riam, torciam, opinavam. O espaço sempre foi aberto.

Todos me respeitavam sobremaneira (os leitores do Nyah costumam ser os mais acolhedores) e há venturas de que ainda hoje muitas pessoas ainda não se conformam com a minha decisão, nem posso puni-las, eu errei e assumo de cara lavada que se voltasse lá em abril de 2015, não teria fechado ST, avisaria que estava com bloqueio criativo e naquele momento a decisão mais prudente seria não mexer em nada, que queria escrever outras histórias, mas retornaria e trabalharia sempre para entregar o melhor texto possível porque já vi autoras que levaram TRÊS ou mais anos para concluírem suas fics e os verdadeiros nunca se cansaram de esperar. Os verdadeiros sempre permanecem até o fim. Bem, às vezes eles passam por problemas pessoais e acabam deixando o site de lado, isso não quer dizer que pararam de torcer pela Tita ou algo do tipo, eles ainda se lembram, então quando voltam e não a encontram, se sentem de que forma?

Eu não entendia a dimensão daquilo.

Quando decidi, sem nenhuma pretensão, postar lá (programando um capítulo por dia de segunda a sexta, como fazia no blog), nunca imaginei que teria leitoras, recomendações, comentários, que pessoas falariam da minha história fora da internet e a indicariam para amigos, parentes, mostrariam até para as mães, nunca forcei a situação, tudo que colhi foi fruto de muito trabalho, de fins de semana revisando texto, horas a fio escrevendo capítulos, sentindo na pele as emoções dos personagens e também respondendo a todos os comentários porque hoje em dia a modinha é dar vácuo, mas eu acho uma puta ingratidão não responder aos leitores, a menos que você seja MUITO famosa e não tenha como dar conta de responder todo mundo, é uma desconsideração sem precedentes ignorar quem doa seu tempo para ler o seu trabalho, esse também é um fator que desmotiva os leitores.

Eu respondia comentário por comentário, fazia questão de enfatizar que cada um que passava por ali fazia a diferença. Alguns leitores se transformaram em amigos, outros tantos que apenas leram e nunca se manifestaram talvez se perguntem o que houve, porém digo a todos que estou aqui e só ignoraria comentários onde a pessoa fosse muito grossa, escrota, mal-educada, viesse me humilhar e ferir minha honra. Do contrário, eu não ignoro, até porque já recebi muito vácuo no Wattpad e sei o quanto machuca.

No Wattpad é modinha dar vácuo. Não entendo essa lógica. A pessoa quer estrelinhas, um monte de comentários, faz o mural de Twitter, deixa spam no seu (para aqueles que não são do meio, pessoa que manda spam é aquela que nem lê seu perfil e te manda o link da história dela sem ter a menor intenção de conhecer o seu trabalho porque ela quer brilhar sozinha), aí você vai, lê, comenta, deixa estrelinha, coloca a história na biblioteca, a pessoa manda indireta de que "tem vontade de matar quem só lê e mais ainda de quem dá a estrelinha e não comenta" e minha vontade seria responder: "ô, sua cadela filha da puta, eu já escrevi histórias sem receber NENHUM comentário e nem por isso senti vontade de matar ninguém, até porque se for pra deixar comentário e levar vácuo, melhor nem deixar, e você nem faz por merecer comentários, sendo grossa e escrota", porque já li livros inteiros, deixei comentários e a guria não respondeu nem com um emoji, ainda tirou-o do ar e disse que só o recolocaria quando ele tivesse mais de 80k para uma editora ver, ou seja, ela desconsiderou meus sentimentos, minha opinião, o tempo que dediquei lendo-a.

Meu primeiro blog, o diário da Tita, não teve seguidores nem comentários e eu terminei o ano letivo mesmo assim. Minha primeira web novela, Diferente do Padrão, no E-Novelas (hoje Fanfics Brasil) recebeu o PRIMEIRO COMENTÁRIO depois de SESSENTA E TRÊS capítulos publicados. Eu checava o contador de visitas e sabia que a história não estava jogada ao limbo, era lida, porém, por timidez ou falta de costume, as pessoas não comentavam e nem por isso eu ameacei me matar ou excluir a história porque o prazer se dava em ver o capítulo pronto, a história que vivia no papel ganhando vida na internet e atingindo um contingente maior que meus bichos de pelúcia.

Puppy Love é a minha novela preferida de todas as que já escrevi e ironicamente é a menos conhecida. A história tem potencial de sobra para ser uma novela das sete, tem todos os elementos perfeitos para ser uma comédia pastelão e não caiu no gosto das adolescentes, contudo, nunca deletei as aventuras da turma da RPN porque PL foi minha primeira novela de papel, a primeira que eu não rasguei, ela tem uma história que se funde com a minha trajetória de vida e esses personagens são como filhos para mim, números não os definem.

Os Versos Calados de Soraya foi meu primeiro romance adulto e não pegou carona no fenômeno ST. Ainda assim, eu gosto da Soraya, do Matt, amo odiar as gêmeas, o Pedro, a Isaura e rir dos micos do Antônio. Dei o meu melhor, no que tangia a mim, não me isentei, me entreguei de corpo e alma. O mesmo aconteceu com Produção Independente, a proposta me desafiou e escrevi a história em menos de 15 dias. No Nyah tive três leitores fieis e todos deixaram recomendações. Quando digo que flopou, foi no Wattpad, porque a priori, em 2015, tentei emplacar PI, a história da Soraya e a versão chick-lit de PL, não foi por falta de vontade e de entusiasmo, eu até tinha, foi a desconsideração e a falta de educação que me desmotivaram.

Sabe o nada?

É o "nada" que dói mais.

É quando você se pega perguntando: O QUE TEM DE TÃO ERRADO COMIGO?

E às vezes essa pergunta não possui uma resposta óbvia ou talvez ela seja deveras dolorosa.

Pior, quando expus essas verdades no meu desabafo de despedida, li lições de moral, pessoas vieram me xingar no privado, ouvi que "precisava de sexo", que era invejosa, mal-amada, recalcada, que minhas histórias eram puro lixo, que eu "escrevia demais e as pessoas tinham preguiça de ler" (e aí eu me questiono o que faz alguém que não gosta de ler numa plataforma voltada para a leitura e publicação de livros), que minhas capas (as tentativas no Canva) eram horríveis e as pessoas odiavam, ouvi cada impropério de embrulhar o estômago, então apesar de saber que fui covarde por desistir e dar a vitória assim tão fácil para as haters, tive motivos.

No Nyah eu desisti por muito menos.

Essa competitividade agressiva e feroz do Wattpad me apavorou porque apesar dos ataques dos machistas na era dos blogs, eles admitiam que eu era boa escritora, era ciúme porque minhas novelas eram as mais lidas do site, mas apesar de tudo, ser imitada significava que eu era notada.

No Nyah eu recebi carinho, atenção e eu nunca mendiguei nada, as fics que li por lá foi por prazer, curiosidade e nunca fiz merchan da minha novela porque quem escreve fanfic também tem preferência por consumir fanfic, tem os seus casais favoritos, seus fandoms e não custa nada respeitar porque tem quem curta originais, o que diria para meu eu do passado e vale para QUALQUER PESSOA é que o segredo é não desistir, ter paciência, saber que num determinado momento o que você escreveu vai fazer sentido para alguém, mas antes de tudo tem que fazer para você, se você ama e acredita no seu talento, siga em frente, porém num lugar onde você possa ser você, onde você não se compare com quem já vive da escrita ou quem mendiga likes, se compare com você mesma, trabalhando para ser uma pessoa e uma escritora melhor do que um ano atrás, do que dez anos atrás.

Se você se comparar com blogueirinha de vida fácil, vai adoecer, não entra nessa. Eu entrei nessa. Quis ser blogueirinha, me meter de "resenhar" livros na esperança de que a Intrínseca me encontrasse e aí me disseram lá no Wattpad que a Intrínseca só tem interesse em quem é MUITO popular e infelizmente essa verdade é incontestável, eles nunca apostariam as fichas numa reles mortal como eu.

Um tutorial muito famoso no Wattpad é um destruidor de sonhos. A embaixadora joga um balde de água fria e não tem haters, não vi um comentário agressivo nos capítulos ou no perfil dela, que destrói as ilusões dos autores, dizendo que publicar livro não é realizar sonho e que ser best-seller é impossível. Ora, pois, eu contesto, escrever um livro é trabalho árduo, você empenha tanto tempo, esforço, tanto de si, que quando vê a sua história prontinha, toda formatada, pronta para ser impressa, se emociona, é um sonho realizado e que mal tem sonhar em ser best-seller, se sonhar não te torna inadimplente?

Lógico que escrever focando em ser best-seller pode tirar a essência do texto, ele fica muito comercial, clichê, mas essa moça não tem o direito de tirar as esperanças das pessoas como se fosse a autora do Livro da Vida.

Se meu eu de 2015 pudesse ver o futuro e soubesse que cometeria uma burrice atrás da outra, teria evitado tudo. Um fato é que me recordo do diálogo entre Cid e Ceci, sobre aprender com os erros, talvez eu não tivesse adquirido a consciência que hoje possuo se a vida não tivesse me dado tanta porrada porque meu castigo veio bem rápido: saí do Nyah, onde era bem-vinda, bem tratada, tinha construído um nome, o MEU nome, para ser só mais uma qualquer numa plataforma onde me expus a todo tipo de abuso, agressão, assédio.

Se eu mensurasse isso, na certa não teria quebrado tantos corações porque hoje em dia se eu receber um comentário carinhoso já me emociono, o Nyah me deixou mimada e mal-acostumada porque volta e meia, do nada, eu recebia recomendações que tinham mais de 10 linhas, apareciam leitoras novas que deixavam comentários longos, detalhados, separados até em parágrafos, as pessoas confiavam em mim para contarem até episódios de bullying que sofreram na vida real, a Tita me propiciou uma interação muito grande com pessoas de todos os cantos do país e diferentes faixas etárias.

Não culpo Deus pelas escolhas insanas que fiz porque me foi concedido o livre-arbítrio, reconheço minha arrogância e falta de humildade ao querer fazer o papel do Criador, aí sim compreendo que estou sendo imatura, ingrata e mostrando pouca disposição em me capacitar para cumprir o propósito o qual fui designada enquanto este corpo me foi concedido.

Sinto tristeza porque queria orgulhar minha família sendo uma "escritora de verdade", embora para eles eu seja, independentemente de ter fracassado no Wattpad enquanto as moças que me prejudicaram estejam famosas e publicando um livro por ano, por isso não me julguem mal por eu não gostar da Bienal do Livro porque é uma facada no peito ver toda essa gente lá sendo idolatrada, entrevistada, aparecendo no jornal e eu continuar aqui, invisível, desconhecida, anônima, escrevendo sabe-se lá para quem. Sei que os magoo quando me isolo, quando as feridas todas desses tempos se reabrem e eu não posso ser tóxica contaminando os outros ao falar sempre o mesmo.

Eu não quero que Deus me dê uma vida como a da Cinderela porque agora que já sou crescida sei que tenho de pedir para que Ele me fortaleça para suportar os inevitáveis entraves, espero que meus ombros sejam mais resistentes, que meu caráter se molde e não se desvie por ninharia, não se deixe seduzir e se ludibriar por efemeridades que não preenchem a alma.

Espero que meus erros tenham me ensinado porque no dia 08 de outubro vai completar-se um ano que deixei o Wattpad em caráter definitivo, porém bem antes dessa saída eu já havia perdido o gosto pela escrita e vivo num eterno dilema porque uma parte de mim deseja ardentemente regressar e escrever, nem que só eu mesma leia, reabrir o blog nem que seja para mim mesma; por outro aquela parte vaidosa, talhada pelos preceitos wattpadianos me cutuca e me diz que eu vou flopar, que eu já era, que desistir foi a melhor decisão que tomei e eu acabo sempre obedecendo à segunda, mesmo que meu coração confie na sensatez da primeira, porque ela pode ser a opinião de muitas pessoas, não dessas traidoras que se diziam amigas e me deram as costas, digo de tantas outras que talvez me leem e eu nem saiba, aquelas que esperam atualizações no Nyah ou no Inkspired ou em qualquer outro lugar onde eu esteja.

Não sei nem se estarei viva em 2025, mas espero de todo o coração até lá ter superado todos esses bloqueios que (hoje) me impedem de escrever e retorne porque um coração de tinta que não pode se expressar através da arte desaparece aos poucos a cada pôr-do-sol, a vida não espera por ninguém, não se tem certeza de nada, senão a morte e que o passado não tem nada a oferecer.

26 de Setembro de 2020 às 23:59 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Mary uma joaninha itinerante que atende por Maria, Mary, Marisol, que ama previsão do tempo e também contar histórias. na maior parte do tempo, invisível.

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