antonio-stegues-batista Antonio Batista

Neste volume, apresento 2 histórias. A primeira é a história de um cientista que inventa uma máquina de teletransporte e no primeiro teste, algo sai errado. O segundo conto é a história de um arqueólogo, e perito em línguas mortas, que encontra um estranho artefato alienígena. É melhor não mexer com tecnologia que não se conhece.


Ficção científica Todo o público.
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Tecnologia Reversa

A MÁQUINA E O RATO

Mil e quinhentos anos antes das viagens por teletransporte entre a Terra e o planeta Tauron, no sistema de Alfa Centauro, experiências com máquinas de teletransporte foram feitas e muitas não deram certo. Houve fracassos, um caso de explosão, mortes e anomalias. A história que vou contar se refere a um desses casos.

Roger Drummond era um professor de física. Fã desde pequeno das histórias de ficção científica, ele se fixou na ideia de construir uma máquina para transformar matéria em energia e transportá-la para outro lugar, reconstituindo a matéria em sua forma original.

Ele revelou o seu projeto ao seu antigo professor de física, Ebenezer Santana que, acreditando em suas ideias, o ajudou a tornar a teoria em realidade. Depois de cinco anos de cálculos, planejamento, construção e exaustivos testes, a máquina de teletransporte ficou pronta,

─ Fizemos todos os testes necessários e tudo correu conforme o esperado. – disse o professor Santana, sentado diante da máquina. ─ Aparentemente ela está funcionando perfeitamente. Os animais foram transportados da cabine A para a Cabine B, sem problemas, incólumes. Resta saber agora se com um ser humano o processo é o mesmo, isto é, se vai correr tudo normalmente, sem efeitos colaterais.

─ Eu entendo e estou pronto para fazer o teste. – afirmou Roger.

─ Acho melhor deixar para amanhã. – respondeu o velho professor, erguendo-se. ─ Já é tarde e estamos cansados. Faz mais de doze horas que estamos trabalhando.

Roger ergueu o pulso e olhou o relógio. Passava da 1 hora da manhã.

─ Ok, professor. Espero o senhor amanhã à tarde.

Quando Santana foi embora, Roger saiu da oficina nos fundos do terreno e entrou em casa. Tomou um banho, vestiu um calção e foi dormir. Deitou-se, procurando não fazer barulho para não acordar a esposa.

Mas ele não conseguiu dormir. Ficou pensando no projeto. Estava satisfeito por ter conseguido algo que iria revolucionar o sistema de transporte por longa distância. As empresas economizariam tempo e dinheiro e as pessoas teriam uma viagem mais segura e rápida para qualquer lugar do mundo. Depois seguiriam as viagens interplanetárias. A perspectiva era fantástica.

Roger saiu da cama e dirigiu-se para o galpão. Entrou, acendeu a luz e postou-se diante da cabine A. No outro extremo da sala, cerca de 30 metros, estava a cabine B. As duas cabines estavam conectadas por fios. Roger fez os ajustes necessários para realizar o transporte. A cabine A o transformaria em energia, um impulso elétrico que seria transmitido através dos cabos para a cabine B, onde seu corpo seria reconstituído em sua forma original.

Roger estava ansioso para fazer a experiência e não podia esperar. Os animais saíram ilesos e completos das experiências anteriores e ele estava convicto que também entraria na cabine A e sairia na cabine B sem problema algum.

Não aguentava a ansiedade por fazer algo tão incrível e fantástico. Sabia que não poderia dormir sem antes sentir a sensação de ser decomposto, transformado em energia e reconstituído novamente. Queria confirmar logo, que a máquina era um sucesso.

Na manhã seguinte.

Elma acordou e não encontrou o marido deitado ao lado dela. Ele estava de férias e costumava dormir até perto do meio-dia. Ainda mais agora que estava trabalhando naquela máquina até altas horas da noite.

Talvez já tenha ido trabalhar na tal máquina, pensou ela.

Elma se levantou, lavou-se, vestiu uma roupa e foi para a cozinha. Não havia sinal de que Roger tenha comido o desjejum. Ela fez o café, preparou a mesa e foi chama-lo. Mas não o encontrou na oficina. Achando que ele tinha saído, tomou o café, e saiu para o trabalho. Trabalhava como diagramadora numa revista de entretenimento, lazer e moda.

Ao voltar do trabalho às 15 horas e 30 minutos, ela encontrou a casa do mesmo jeito que deixou. Até então, não estava preocupada com nada. Saindo pela porta dos fundos, dirigiu-se para a oficina. Roger não estava ali. Quando voltou para casa, ouviu batidas na porta da frente. Era o professor Santana. Ele vinha todas as tardes trabalhar na oficina com Roger.

─ Entre, professor.

─ Boa Tarde.

─ Boa tarde. O senhor sabe onde Roger foi?

─ Não. Ele não está em casa?

─ Não. Eu não o vi levantar de manhã e nem sei se ele dormiu em casa.

─ Olhou na oficina?

─ Sim.

O professor ficou em silêncio, meditando preocupado. Depois, falou:

─ Preciso dar uma olhada lá.

Quando Elma saiu atrás do professor, viu o gato da vizinha parado próximo a lata de lixo. Ela o enxotou, expulsando do pátio e dirigiu-se para o galpão.

Entrando na oficina, Santana foi direto para os controles da máquina, analisando os dados no visor. O que ele temia tinha acontecido. O sistema registrava a data e a hora da última vez em que foi usado; 2 h e 12 m de quarta-feira, uma hora depois de eles terem encerrado o trabalho na oficina. A cabine B estava vazia. Se Roger fez o teletransporte, ele estava em forma de energia em alguma parte daqueles cabos, entre as duas cabines. Ou talvez o impulso elétrico tenha escapado da corrente e seus átomos se dispersado no ar.

Santana não queria acreditar nessa possibilidade. Ele resolveu revelar a Elma, as suas suspeitas.

─ Elma, você sabe o que nós estamos construindo, não sabe?

─ Sim, Roger me disse e me pediu para não comentar com ninguém. Ele achava que ficaríamos ricos com esse invento. É uma invenção muito importante que não deve ser revelada antes que tudo esteja completado e registrado.

─ Exatamente. A máquina está pronta, só faltava fazermos um teste com uma pessoa. Roger se propôs a inaugurar o teletransporte e marcamos o teste para hoje, pois estávamos cansados. Acho que, depois que eu fui para casa, ele ajustou o disparo da máquina, entrou nela e fez o tele transporte. Mas algo deve ter dado errado.

Elma ficou assustada. ─ O que o senhor está querendo me dizer? Roger morreu?

Santana agitou as mãos. ─ Não! Não! A máquina funciona da seguinte forma; você entra numa das cabinas, liga a máquina e seu corpo é transformado em eletricidade que é transmitido para a outra cabine, onde é reconstituído à sua forma original. Imagina você entrar numa cabine aqui e chegar no Japão, por exemplo, quase no mesmo instante? Esse é o objetivo e a utilidade da máquina de teletransporte, encurtar o tempo das viagens de longa distância.

Santana fez nova pausa e encarou Elma. ─ Roger fez a viagem. Ele deveria sair na outra cabine, mas não saiu, continua em forma de impulso elétrico em alguma parte daqueles fios, entendeu?

Elma passou as mãos pelo rosto. Voltou a olhar para Santana. ─ E agora? O que vai acontecer com meu marido?

─ Eu preciso ir à universidade hoje, tenho uma conferência. Vou levar os esquemas e todos os relatórios que temos para rever o projeto à noite e tentar encontrar uma solução. Enquanto isso, deixe tudo como está e não comente nada com ninguém, entendeu?

Elma sacudiu a cabeça, lentamente.

****

Na noite anterior...

Roger estava ansioso para fazer o teste. Sem conseguir dormir, decide fazer a experiência naquela noite mesmo. Ele entra na oficina e liga a máquina. O motor, conectado a um gerador de energia, não fazia nenhum ruído. Num pequeno painel eletrônico mostradores e reguladores indicavam e registravam o funcionamento.

Nas duas cabines havia dispositivos interno para ligar, marcar o destino e transmitir. Roger trancou a porta da cabine, fez os ajustes necessários, respirou fundo e soltou o ar com força e em seguida apertou o botão.

Quando recuperou a consciência, ele percebeu que havia algo errado. Seus pensamentos estavam embaralhados. Precisou algum tempo para se recompor.

Percebeu que estava na segunda cabine. A transferência foi um sucesso, mas a perspectiva do lugar era estranha. A cabine se tornara muito alta, não conseguia alcançar o trinco da porta. Ao olhar para baixo, viu que suas mãos eram pequenas patas. Sentou-se, passando as mãos (ou patas) pelo rosto. Não era um rosto humano!

Podia sentir pelo tato, o focinho, a boca e dentes diferentes. A descoberta o deixou chocado. Ele tinha se transformado em algo, um animal pequeno, um roedor. Um camundongo? A parede de metal da cabine refletia sua imagem. Ele se aproximou mais e viu com nitidez a imagem do rato que ele era. Mas, como é possível? Como se transformou num rato?

Roger raciocinava rápido. Como um roedor, alguns sentidos foram ampliados, o olfato e a audição. Mas, a inteligência, o raciocínio, suas lembranças eram as mesmas, permaneceram intactas. Os átomos de seu corpo deviam ainda estar em algum lugar nos cabos de transmissão. Alguns animais tinham sido usados como cobaias, inclusive ratos. Um deles devia ter entrado na cabine, ou o animal já estava ali e ele não viu.

Roger não se deteve para descobrir a causa daquilo, precisava pensar num meio de reverter a situação. Com agilidade, subiu para o painel e premiu a tecla que abria a porta. Quando ela se abriu, saltou para o chão e saiu. Subiu para o teclado do computador e ficou analisando os dados na tela do monitor. Ele não tinha ideia do que fazer para tirar seus neurônios do cérebro do rato e voltar a colocar em seu corpo. Precisava conversar com o professor Santana, o que era uma outra coisa difícil de realizar.

Voltou ao chão e saiu do galpão por uma fresta debaixo da porta. Sua visão durante a noite era mais apurada. Para um rato, atravessar o pátio poderia ser perigoso. Os felinos têm como hábito, caçar à noite e na casa vizinha da esquerda havia um gato. Um muro alto cercava o pátio, mas para os gatos aquilo não era um problema em se tratando de caça aos ratos.

Nero, o gato preto da vizinha, estava exatamente sobre a árvore, num galho grosso a espera de algum passarinho que por ventura viesse procurar um lugar para dormir, quando avistou aquele camundongo sair do galpão. Imediatamente ele saltou para o chão e correu para pegá-lo. Porém, o roedor retrocedeu a tempo e voltou a entrar no galpão. Os gatos são pacientes eles ficam encurralando os ratos por horas. Aquele não foi diferente, permaneceu diante da porta do galpão até o amanhecer.

Roger ficou algum tempo vigiando o gato por debaixo da porta, esperando que ele desistisse e fosse embora. Acabou adormecendo. Quando acordou era dia. Cauteloso, espiou por debaixo da porta. O gato não estava no pátio, no muro também não. Decerto ele tinha cansado e ido embora. Roger (o rato) saiu lentamente, pronto para correr de volta em caso de perigo. Perscrutou a copa da árvore e não notando nada suspeito começou a atravessar o pátio. Tinha que entrar na casa e achar um jeito de se comunicar com Elma ou Santana.

Faltava pouco metros para chegar na porta da cozinha, quando percebeu o vulto preto pular o muro. Imediatamente ele correu e se escondeu debaixo da lata de lixo. A lixeira tinha rodinhas e o espaço em baixo era suficiente para ele se proteger. O felino meteu o braço pelo vão, mas não conseguiu alcança-lo. Por fim o gato agachou-se, disposto a esperar que ele saísse. Roger sabia que aquilo podia durar o dia inteiro. Precisava ter paciência e esperar que ele desistisse ou fosse chamado pela dona.

****-

Roger, como camundongo, estava com sede e fome. O gato continuava no mesmo lugar e parecia disposto a ficar ali a semana toda. Roger estava começando a ficar impaciente. Estava até disposto a sair dali, mesmo que fosse morte certa. O gato dormia, ou dormitava e certamente estava condicionado a captar qualquer ruído. Roger pensava em sair, se esgueirar pela parede e contornar a casa. Sabia que havia uma pequena abertura no alicerce, que dava para o porão.

A porta da cozinha se abriu de repente e Elma e o professor Santana saíram. Ao ver o gato, a mulher enxotou-o para fora do pátio e depois entrou no galpão com Santana. Ele seguiu-os e ouviu a conversa dos dois. Santana descobriu que ele tinha usado a máquina e achava que houve um defeito no sistema, que seus átomos continuavam na máquina.

Santana não estava de todo errado. Roger precisava achar um jeito de se comunicar com ele. Não podia simplesmente aparecer porque, evidentemente, eles achariam que era um rato comum. Com certeza Elma, que tinha horror a ratos, pegaria alguma coisa para matá-lo.

Santana e a mulher voltaram a sair. Roger pensou na possibilidade de mandar um e-mail para Santana, contando o que tinha acontecido. Tinha que entrar na casa e acessar o notebook. Mas ao olhar para fora, viu o gato em cima do muro. E agora? Não podia sair. O jeito era esperar que o bichano desistisse e fosse para casa. Enquanto esperava, foi até uma prateleira onde estavam guardadas as rações para as cobaias. Ele comeu e bebeu água de um pote. Viu as duas gaiolas com os ratos que serviram de cobaias, constatando que todos estavam ali.

Finalmente, uma hora depois o gato foi chamado pela dona. Aliviado, Roger saiu correndo e atravessou o pátio. Entrou no porão pela abertura no alicerce. O porão não tinha mais do que um metro de altura. Por ele passavam os canos de água. A terra exalava um cheio forte de mofo. A casa tinha paredes duplas e foi por uma fresta que ele entrou e circulou pela casa, procurando uma abertura para chegar ao quarto, onde estava o computador.

Andou em todo parte que podia, mas não encontrou buraco algum. Voltou ao lugar onde julgava ser a parede do dormitório. Escolheu um ponto rente ao rodapé e começou a roer a madeira. Não foi fácil, demorou algum tempo. Já estava escurou quando finalmente, conseguiu fazer uma pequena abertura onde pudesse passar. Entrou no quarto às escuras, mas como rato ele conseguia enxergar o suficiente para distinguir os objetos. Passou por debaixo da cama e subiu para cima da cômoda, onde estava o notebook. Ele tentou abri-lo, mas não conseguiu, não tinha forças suficientes para levantar o visor. E agora?

Ao ouvir vozes, ele desceu e se escondeu debaixo da cama. Elma acendeu a luz e mandou alguém entrar. Ele achou que fosse o professor Santana, mas não reconheceu a voz do homem.

─ Tem certeza? Não tem perigo?

─ Não. Meu marido não vai chegar tão cedo.

Por debaixo da cama, Roger viu os pés da esposa e do homem. Por um momento eles ficaram calados. Soaram ruídos abafados, um estalido, um gemido. Depois, os dois caíram na cama e Roger ouviu murmúrios e o barulho seco do colchão. Ele estava atônito. Não queria acreditar no que estava imaginando e só constatou a verdade, quando as roupas começaram a cair na frente dele. Elma o estava traindo, transando com outro homem em sua própria cama!

Como camundongo, ele não tinha muito o que fazer. Ficou onde estava e procurou tampar os ouvidos para não escutar aqueles ruídos de traição. Quando o homem foi embora, já era tarde da noite. Depois que ele saiu, Elma foi tomar um banho e voltou para o quarto para dormir. Roger decidiu ficar ali mesmo e esperar pelo dia seguinte, quando Elma saísse para trabalhar. Ele precisava achar um jeito de abrir o computador.

Mas não foi necessário. Pela manhã, encontrou uma fresta debaixo da gaveta da cômoda. Entrando pelo buraco, chegou à gaveta onde estava o seu celular. Com as patinhas, ligou-o e acessou a internet. Entrou no e-mail e mandou uma mensagem para Santana.

“ Professor, em primeiro lugar, peço desculpas por não ter esperado o senhor para fazer o teste com a máquina. A minha imprudência ocasionou um acidente, como o senhor bem sabe. Quando liguei a máquina, havia um rato no compartimento e quando fui desintegrado o animal também foi, mas na restauração, os neurônios foram para o rato. Eu estou no corpo de um camundongo. Consegui entrar em casa e mandar essa mensagem para o senhor. Espero que o senhor encontre um jeito de reverter a situação. Quando o senhor chegar aqui em casa, vai encontrar um rato na varanda, só não se esqueça de que sou eu. ”

Roger demorou a escrever. Não foi fácil. Cansado, ele foi para a varanda, esperar o professor. Era quase meio-dia quando Santana chegou. Ele parou na entrada, olhando curioso para o rato.

─ Roger? É você mesmo?

O rato sacudiu a cabeça, concordando, depois saiu da varanda e começou a ir para a oficina. Santana o seguiu. O ratinho esperou que ele abrisse a porta. Quando entraram, o camundongo subiu para cima da mesa. Santana sentou-se diante do painel e acessou os registros. Olhou para o rato que o assistia e disse: ─ Acho que há só uma maneira de reverter o processo. É inverter o fluxo energético com os mesmos dados anteriores. Mas não garanto que dê certo.

O rato sacudiu a cabeça, concordando com a decisão. Santana fez os ajustes necessários, pegou o rato com delicadeza, colocou na cabine B, trancou a porta e ligou a máquina. Ouviu-se o chiado característico e Roger surgiu na cabine A. Ele permaneceu imóvel, de olhos fechados. Santana examinou-o rapidamente.

─ Exteriormente, você está normal.

Roger abriu os olhos e sorriu, dizendo:

─ Não sinto nada de anormal.

Ele apertou a mão do colega, agradecendo a ajuda.

─ Foi uma aventura e tanto.

─ Como aconteceu isso?

─ De alguma maneira aquele camundongo entrou na cabine e não o vi.

Eles ficaram ainda uma meia hora analisando e discutindo o assunto, até que Roger disse:

─ Bem, estou um pouco cansado e gostaria de descansar um pouco. Vamos deixar para continuar as experiências outro dia.

─ E agora não faça nada sozinho. Não seja precipitado.- recomendou Santana.

Quando o professor foi embora, Roger entrou em casa, tomou um banho, vestiu um pijama e foi dormir. Dormiu até a hora em que Elma chegou.

****

Uma semana depois, Santana recebeu um telefonema de Roger, pedindo para que eles continuassem os testes com a máquina de teletransporte. Foi necessário fazer um novo programa para não ter mais acidentes. Eles trabalharam até meio-dia, quando pararam para almoçar. Roger telefonou para uma pizzaria, pedindo uma pizza.

─ Professor, eu me esqueci de lhe dizer. Eu me separei de Elma. Nosso casamento acabou, já não estávamos nos dando bem. Era muita briga e resolvemos nos separar.

─ Que pena! Elma sempre me pareceu uma esposa dedicada.

─ Ela concordou com a separação e foi morar com uns parentes na Bahia.

─ Ainda bem que a separação foi amigável.

Quando o professor foi embora, Roger pegou um punhado de ração e colocou num pote dentro de uma gaiola, onde havia uma ratazana, que rosnou, irritada e quase mordeu a mão dele.

─ Calma, Elma!

Fim

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O CINTURÃO DE FELON 9


A família Junqueira tomava o café da manhã. Mateus, o pai, corretor de imóveis, com o braço apoiado na mesa, segurava a caneca de café com leite, enquanto lia uma notícia no jornal dobrado sobre a mesa. Janice, a mãe, colocava a merenda das crianças nas merendeiras. A da Cíntia tinha o desenho da Minnie e a do Rafael, o desenho do Mickey. Rafael tomava achocolatado com canudinho, Cintia comia um pastel. Janice colocou as merendeiras nas mochilas e sentou-se para tomar o seu chá emagrecedor.

─ Comem devagar que ainda é cedo. – disse ela para os filhos. ─ O ônibus escolar só chega daqui a dez minutos para pegar vocês. E você Mateus, não esquece de passar no supermercado quando voltar do trabalho.

Mateus fez hum rum pelo nariz. Sentiu como que um vento tocar em seu pescoço. No instante seguinte ficou confuso, olhando para o pastel meio comido que ele segurava na mão direita. O jornal estava na frente de Janice, Rafael tomava chá pelo canudinho, fez uma careta feia, Cíntia, segurando a xícara de café com leite, olhou intrigada para o pai. Estava tudo trocado.

****

Rey estava em Tríton, desfrutando as belezas do resort quando recebeu uma ligação do seu chefe, Marlon Rutherford, diretor do Instituto de Arqueologia, em Marte.

─ Rey, suas férias acabam de acabar. – disse ele, num tom irônico. ─ Tenho uma missão urgente para você.

─ Ora, chefe! Ainda tenho mais dois dias de folga!

Marlon voltou a falar agora num tom sério e urgente.

─ Um dia a mais ou a menos tanto faz, você já descansou o suficiente. Descobrimos exoglifos em Felon Nove. Quero que você vá para lá imediatamente juntar-se à equipe do doutor Durval Vonnegut para ajudar a decifrar os caracteres alienígenas

─ Preciso ir lá? Não dá para eles me mandarem uma imagem?

─ Negativo. Quero você pessoalmente no local. Você é o nosso melhor decifrador de códigos, símbolos e línguas mortas. Seu preguiçoso!

****

Rey estava sentado num mochinho, olhando as imagens em seu macvision. Comparava a gravura encontrada na entrada da caverna, com escritas de povos antigos. O computador não conseguiu fazer nenhuma analogia. O traçado dos caracteres era perfeito, sem nenhuma variação de percurso, sem oscilação da mão livre, por exemplo, comprovando terem sido feitos por algum instrumento de precisão.

O doutor Durval disse que a datação calculava que os sulcos na rocha foram feitos há cerca de 8 mil anos. Na caverna havia vestígios de que fora ocupada nesse mesmo período. O planeta era estéril, não tinha vida e nenhum sinal de assentamento de civilização com tecnologia primitiva ou moderna. Nunca houve vida ali, mas talvez o planeta tenha sido visitado por alguém num passado remoto, por isso, a equipe de pesquisadores explorava outros sítios na mesma região.

Rey indagava a si mesmo se o visitante chegou numa espaçonave e foi embora, por que gravar algo numa pedra? Será que era uma simples pichação? O nome dele, como os exploradores amadores faziam antigamente em lugares inóspitos e pouco, ou nunca, frequentado? Fulano esteva aqui.

Rey ergueu-se, deixou o aparelho sobre o banco e entrou na caverna. O interior tinha sido escaneado e examinado pelos arqueólogos. Eles não encontram mais nada, no entanto, Rey queria ver com os próprios olhos. As lâmpadas colocadas pela equipe iluminavam todos os cantos. Ele subiu numa pedra bem ao fundo para examinar um dos sinais na parede, um sulco reto com a ponta superior dobrada para a direita. Tinha similaridade com um dos outros e parecia que a escrita tinha sido iniciada e parada ali e por algum motivo abandonada.

Ao descer, Rey sentiu algo partir-se sob a bota. Ele agachou-se afastando a terra com as mãos. Descobriu uma espécie de manta de tecido sintético e sob ela, um esqueleto alienígena. Ali estava o visitante de Felon Nove, que havia chegado 8 mil anos atrás.

Era humanoide, cabeça ovoide, cavidade ocular grande, mandíbula forte, dois braços, duas pernas e quatro dedos. A roupa tinha se deteriorado com o tempo, mas o cinturão que ele usava estava intacto. Os botões e o pequeno visor de tela esverdeada indicavam que não era um simples objeto para segurar o traje no corpo.

Rey calculou que o cinturão era um instrumento, talvez um objeto de locomoção, para voar, ou flutuar, talvez criar uma cápsula de energia protetora e transportar a pessoa através do espaço.

A morte do alienígena naquela caverna era um enigma. Talvez ele tenha se ferido e morrido ali. Talvez foi abandonado sozinho naquele planeta vazio. Podia ser um criminoso, ou um explorador imprudente que contraiu algum vírus mortal.

Com cuidado, Rey tirou o cinturão do esqueleto e saiu da caverna. Ao ar livre, colocou em volta da cintura e fechou a fivela. Apertou o primeiro botão, mas não aconteceu nada. Achou que depois de tanto tempo, a bateria tinha se esgotado. Talvez nem usasse bateria e sim energia solar ou eletromagnetismo.

Apertou outro botão e o pequeno visor acendeu. Surgiram alguns caracteres, uns diferentes dos outros e por incrível que pareça, números romanos! Como pode? Um calendário com números romanos? Por que, para quê, havia calendários de diversas civilizações naquele cinturão, inclusive o do planeta Terra de 2840 anos atrás?

Para descobrir a utilidade daquilo, Rey resolveu experimentar,. Talvez o cinturão fosse um dispositivo para viajar no tempo. Escolheu uma data e como destino o planeta Terra, e apertou o terceiro botão. De imediato não aconteceu nada, mas depois o dia claro foi escurecendo e de repente tudo sumiu. Rey começou a ficar com receio de que havia feito besteira, mas a claridade voltou aos poucos. Tudo clareou, mas ele já não estava mais em Felon Nove. Estava no corredor de uma casa. Estava diante da porta de um quarto, provavelmente de criança. Havia uma cama pequena, objetos imitando animais, brinquedos que ele havia visto nos filmes antigos.

Não ouviu nenhum ruído. Com cautela, desceu as escadas e chegou a uma sala mobiliada com sofás, mesa, cadeiras e tapetes. Na cozinha havia quatro pessoas, dois adultos e duas crianças.

Ele pensou em voltar, mas percebeu que eles estavam imóveis, como que, petrificados. Julgou que eram bonecos sentados ao redor de uma mesa. Ao se aproximar, inclinou-se e olhando a mulher bem de perto, viu que eram de carne e osso. Se moviam lentamente, milímetro por milímetro. Os ponteiros do relógio na parede também se moviam tão lentamente que pareciam parados, no entanto o tempo continuava sua marcha.

Rey concluiu que não eram eles que se moviam lentamente, era ele que se movimentava muito mais rápido a ponto de tudo parecer parado. Para aquelas pessoas, ele era invisível de tão rápido que se movia.

Achou graça da situação. Antes de partir de volta, ele resolveu fazer uma brincadeira, tirou o jornal da frente do homem e colocou na frente da mulher, trocou o pastel da menina, pela xícara do homem, o achocolatado do menino, pelo chá verde da mulher.

Satisfeito, começou a voltar para o corredor. Estava subindo as escadas quando começou a sentir-se muito cansado. As pernas foram ficando fracas, ele mal conseguiu chegar patamar. Arrastando-se, tentou ficar de pé, mas não conseguiu, morreu ali mesmo. Seu corpo se deteriorou rapidamente, carnes e ossos viraram pó e mesmo o pó, não demorou muito, se desfez no ar.

****

Depois que as crianças foram para a escola e o marido para o trabalho, Janice lavou a louça e em seguida subiu para arrumar os quartos. No corredor encontrou um cinturão esquisito no chão. Ela não se lembrava de ter comprado aquele brinquedo. Já tinha dito para o filho não trazer lixo para casa. Pegou o cinturão e meteu no saco de lixo.

Fim

24 de Setembro de 2020 às 17:13 0 Denunciar Insira Seguir história
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