biologicalstorm Biological Storm

JongDae e KyungSoo são amigos há milhares de anos, e tudo o que JongDae quer é achar um namoradinho para seu amigo. Embora o fato de serem um anjo e um demônio possa complicar um pouco as coisas.


Fanfiction Bandas/Cantores Todo o público.

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Capítulo Único – Um Anjo E Um Demônio Vão A Um Casamento

Notas:

Olá, essa fanfic simplesmente brotou na minha cabeça quando eu vi essa fanart:

https://twitter.com/beedance4/status/1305285431244787719

Então eu não iria descansar enquanto não escrevesse ela.

Só deixando claro que por mais que seja o Chen e o KyungSoo na capa, a fic mostra apenas a amizade dos dois. No final, essa fanfic tem KaiSoo (porque a KaiSooist em mim não resiste hahahaha) mas o romance não é o foco principal.



Naquele fim de tarde, KyungSoo saiu do portal para um beco deserto. Parou por um momento para observar se sua aparência estava condizente e limpa. Embora o demônio preferisse usar tortura psicológica – pois, era mais efetiva – nas almas das quais ficava encarregado, às vezes teria de recorrer à tortura física em casos especiais, onde o ser valorizava mais alguma parte de seu corpo do que qualquer outra coisa. E a última alma de que foi encarregado era um caso assim. Embora as almas não tivessem mais matéria corporal realista, suas mentes reproduziam o cenário mais adequado, por isso muita matéria espiritual tinha sido espalhada como “sangue” pelo seu local de trabalho. Seria uma perturbação se esse “sangue” estivesse em suas roupas e entrasse em contato com o mundo corpóreo. Felizmente, constatou que estava limpo e decidiu caminhar até o local para seu encontro marcado.

Percebeu que uma chuva fina característica se fazia presente enquanto caminhava pela calçada da cidade, mas isso não lhe importava. Chegando a cafeteria, o demônio deu tapinhas nos ombros para tirar o excesso de água de seu sobretudo preto.

— KyungSoo! – ouviu a voz alta e alegre lhe chamar, direcionando seu olhar na direção da mesma para encontrar um JongDae animado acenando para si, como se quisesse facilitar para o de preto o encontrar. O que era desnecessário, visto que eles sentavam naquela mesma mesa há anos.

Dirigiu-se a mesa sem fazer seu pedido. Eram o que os atendentes daquele lugar chamavam de “clientes fiéis”, então todos que trabalhassem ali por um tempo saberiam seus pedidos.

— Olá, JongDae. – o demônio cumprimentou usando o nome coreano escolhido pelo anjo.

Logo o café preto amargo de KyungSoo foi servido, junto com sua fatia de bolo de chocolate. O anjo recebeu seu costumeiro capuccino decorado. Todas as vezes que iam ali, a bebida do amigo vinha com um desenho fofo diferente – cortesia de MinSeok, o namorado de JongDae que trabalhava no local. Hoje era um guarda-chuva, provavelmente em homenagem ao tempo chuvoso e o objeto inútil que JongDae levava com ele sempre em seus encontros.

— Obrigada, Minnie. – o anjo agradeceu com um sorriso brilhante, sendo correspondido por um sorriso igualmente feliz do funcionário. O que só fez KyungSoo querer revirar os olhos. – Ele é maravilhoso. – disse praticamente com corações nos olhos enquanto observava o namorado se retirar, fazendo o demônio revirar os olhos de fato pelo comportamento meloso.

O anjo e demônio eram amigos desde antes de KyungSoo decidir abandonar o Céu e se juntar ao Inferno. Embora existisse certa inimizade entre seus tipos, os dois conseguiram preservar sua amizade através do respeito pelas escolhas alheias. Tinham uma promessa de eras atrás, que consistia em sempre se encontrarem pelo menos uma vez a cada ano para conversarem no mundo corpóreo, esse que era um terreno neutro e ninguém poderia discutir, pois, não havia regra proibindo isso.

Eles costumavam achar um lugar que gostavam no mundo humano e trocavam apenas quando o local fechava as portas. A antiga doceria que gostavam de ir no Brasil tinha fechado há cinco anos, por isso mudaram o ponto de encontro para essa cafeteria na Coréia do Sul, após JongDae achar o estabelecimento em uma de suas andanças pelo mundo terreno. Mudando sua aparência terrena e escolhendo nomes condizentes com o país – Do KyungSoo para o demônio e Kim JongDae para o anjo – tornaram esse lugar seu novo ponto de encontro.

Entretanto, seus encontros tinham ficado mais frequentes nesses últimos cinco anos. O Do estranhou quando menos de 6 meses depois de terem se visto, o anjo lhe convidou para um encontro novamente, mas decidiu deixar de lado. Porém, após notar os sinais inconfundíveis no amigo e no barista humano, percebeu que estava sendo usado como um pretexto pelo outro. Sorte de JongDae que KyungSoo não era rancoroso, contrariando toda cresça estranha dos humanos sobre demônios.

Entretanto, KyungSoo já estava ficando farto de ser arrastado do inferno com tanta frequência para o mundo corpóreo, com o único propósito de ser a “vela”, como diziam os jovens. Ter um corpo era pesado demais. Exigia muita energia sua fixar sua matéria livre em um amontoado de carne. Olhava para as asas extracorpóreas e ficava saudoso. Afinal, era a única parte de sua essência que matinha no plano não físico, porque os seres humanos não deveriam ver suas asas. Assim, apenas outros seres sobrenaturais poderiam vê-las e saberem que não era desse mundo também.

No entanto, sendo piedoso, decidiu seguir a conversa de forma normal com o amigo, se atualizando das peripécias que o anjo aprontava.

JongDae, sendo um anjo, tinha uma vida mais movimentada do que o próprio KyungSoo, que ficava a maior parte do tempo no inferno torturando almas.

Tanto anjos quanto demônios tinham permissão para intervir em assuntos pequenos relacionados a humanos. E era nessas brechas que o amigo achava a oportunidade para trabalhar no seu “secundo emprego”, como KyungSoo gostava de chamar.

— Você precisa parar de bancar o cupido para os humanos, JongDae. Isso nem está na sua função. Na verdade, esse trabalho nem existe mais desde a Roma Antiga. – o demônio deu seu sermão de praxe, sabendo que entraria por um ouvido metafórico do amigo e sairia pelo outro.

— Mas, KyungSoo! Eles são tão perfeitos juntos! Se você os visse saberia! E só o que eu fiz foi dar um empurrãozinho ao virar amigo dos dois, e demonstrar de forma sutil, o que sentiam um pelo outro e não estavam percebendo. – o anjo disse de forma rápida e implorativa, fazendo seus olhos de cachorrinho para tentar convencer o demônio.

— Claro. – o Do concordou de forma sarcástica, do jeito que conhecia JongDae, o mesmo provavelmente tinha gritado na cara dos humanos algo como “Vocês se amam, fiquem juntos!”. Isso era a cara do amigo.

— De qualquer forma, eu estava certo e eles irão se casar daqui um mês! – o anjo concluiu empolgado.

— Tecnicamente, casamento não é a garantia de um final feliz, você sabe. – falou enquanto bebericava sua segunda xícara de café. Era a única coisa que apreciava em ter um corpo físico, poder experimentar as delícias desse mundo. Gostava de comidas doces e bebidas amargas.

— Psiu, não estraga meu momento. – o amigo retrucou, agora com uma expressão definitivamente emburrada. – Enfim, eles apreciaram tanto minha ajuda que me convidaram para o casamento! E eu posso levar um acompanhante, você quer ir comigo? – falou animado e rápido, desejando que o outro fosse levado a concordar consigo antes de entender suas palavras, mas recebeu apenas um bufo como resposta.

— Você quer fazer um anjo e um demônio irem a um casamento juntos. Parece o começo de uma piada ruim. Aliás, como você espera que eu, sendo um demônio, entre numa igreja? E porque raios não leva seu namorado como acompanhante?

— Quem falou em igreja aqui? Primeiro, eles são budistas. Segundo, a maioria das religiões humanas não aprova relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. E terceiro, o Minnie vai ter que trabalhar no dia. – o anjo disse e suspirou triste no final, fazendo o amigo revirar os olhos por sua fala.

— Me esqueci como os humanos podem ser estranhos. Você sabe que eu não vou muito com a cara de Deus ou mesmo de Lúcifer, mas coitado deles por serem envolvidos em coisas assim, por causa de preconceitos humanos. Usam Deus para justificar que esse tipo de coisa é errada e depois usam o Diabo para demonstrar como essas pessoas estão no caminho do mal. Ridículo.

KyungSoo às vezes se perguntava porque os humanos estavam durando tanto nesse planeta. Embora soubesse que sua existência vinha da fé dessas pessoas, preferia mil vezes desaparecer e cair no esquecimento do que ter esse tipo de ser humano existindo. Enfim, não se pode ter tudo que deseja.

— De qualquer forma, será que Buda não vai ficar irritado por um anjo e um demônio estarem no território dele? – e por território KyungSoo se referia a cerimônia em si, com sua fé diferente da que dava origem a anjos e demônios.

— Acho que não, você sabe como Buda não se importa com essas coisas. – o Kim descartou a preocupação do outro.

— Você tem razão. Acho que das divindades de conheci ao longo dos anos, Buda foi o mais gentil. – o Do concordou.

— Então isso quer dizer que você vai?! – JongDae voltou a perguntar animado.

— Não. – o demônio respondeu de forma curta e grossa.

— Não seja assim, KyungSoo! Por favor! Eu nunca te pedi nada! – o anjo começou a implorar.

— Que mentira, Kim JongDae! Você me pediu muitas coisas nesses milhares de anos! – o Do retrucou indignado.

E assim os dois amigos entraram em uma discussão nada madura sobre sua amizade, envolvendo o anjo falando coisas como “Porque você vem me encontrar aqui se minha amizade é um fardo tão pesado?”, sendo respondido por um demônio sem papas na língua com “Porque eu gosto do café daqui”. E a discussão só teve fim quando um trovão estrondoso marcou o ambiente, fazendo alguns clientes se assustarem. Aquele era o sinal de que deveriam encerrar seu encontro.

Ainda emburrados um com o outro, os dois amigos se levantaram – com JongDae não esquecendo o guarda-chuva – e foram até o caixa pagar suas respectivas comidas, com o dinheiro que apenas o anjo possuía.

Na rua, a chuva tinha aumentado e o Kim abriu seu guarda-chuva transparente, grande o bastante para envolver o corpo de ambos, mas não para cobrir suas asas. Não que isso importasse, já que as mesmas não eram atingidas pelas gotículas de água.

— Por que você traz esse guarda-chuva, afinal? É desnecessário. – o demônio comentou, mas ainda continuava sobre a camada protetora do objeto.

— Porque eu gosto dele. Acho que demonstra como a humanidade encontrou uma forma de contornar situações adversas. E também sempre posso proteger MinSeok da chuva que causamos quando o levo para casa depois. – o anjo respondeu, ganhando um bufo desdenhoso do amigo.

— Típico de um anjo.

— Bem, Sr. Demônio, você pode ir então. Não vamos mais afligir o mundo humano com nossa proximidade. – JongDae disse ao arquear a sobrancelha de forma sarcástica.

Sem se despedir, o Do se virou e saiu caminhando pela chuva forte, em direção ao beco do qual tinha saído.

Já o anjo, voltou para dentro do estabelecimento, destinando um olhar a MinSeok – que continuava trabalhando atarefado –, antes de sentar na bancada e esperar pacientemente que o turno do namorado acabasse.

E quando KyungSoo atravessou o portal para voltar ao seu mundo, a chuva que começara a se intensificar minutos antes, voltou a se acalmar como se nunca tivesse se rebelado.



— Nós vamos acabar estragando o casamento. Ninguém gostaria que chovesse no seu dia especial. – KyungSoo resmungou quando se viu sendo convencido a ir na cerimônia de união dos humanos juntados pelo “cupido honorário” Kim JongDae.

De alguma forma, ficou estabelecido que quando seres sobrenaturais se encontrassem no mundo corpóreo, sempre choveria. Não importasse se estivesse um sol brilhante, no momento que eles se aproximassem, esse fenômeno seria desencadeado pela tensão que suas energias opostas geravam. E caso ficassem muito tempo próximos a situação iria piorar até atingir algum evento catastrófico. Felizmente, não eram muitas criaturas sobrenaturais que criavam laços entre si, então esse mundo estava relativamente salvo de catástrofes climáticas. Quer dizer, as que eram causas por eles, porque as que os próprios humanos causavam já era outra história.

— O que importa é o amor deles, é isso que eles vão lembrar da cerimônia. Pare de querer ser um estraga-prazeres. – o anjo contra-argumentou, ajeitando seu terno marrom.

O Kim geralmente usava roupas em tons de marrom e branco. Já o demônio vestia seu tradicional sobretudo, blusa de gola alta junto da camisa, calças e sapatos sociais. Tudo na cor preta como sempre. Não via necessidade de trocar a vestimenta, sendo um ser sobrenatural que não passava mais do que algumas horas nesse mundo.

KyungSoo e JongDae tentaram manter uma distância entre si ao sentarem nos bancos do local. Por mais que o amigo fosse tagarela e quisesse conversar sobre a cerimônia, não poderiam se manter ao lado um do outro por causa de suas asas.

As assas do anjo eram de um branco puro e brilhante que muitas vezes machucavam KyungSoo só de olhá-las, já as do demônio eram de uma escuridão que parecia sem fim e atraia as trevas ao seu redor. Por isso, os dois nunca deveriam encostar suas asas ou sairiam lesionados. Seus corpos com a mistura de energia sobrenatural e de matérias desse mundo concentradas poderiam se tocar, pois, suas forças se balanceavam nesse receptáculo criado. No entanto, suas asas ainda estando em sua forma mais pura, jamais deveriam se tocar.

Foi assim que KyungSoo acabou sentado no canto mais distante de uma das fileiras, enquanto o amigo ficava no outro extremo, perto do corredor para apreciar a chegada dos noivos.

Internamente o demônio torcia para que ninguém sentasse ao seu lado e pudesse ficar quieto em seu canto, mas logo sua esperança morreu ao sentir a aproximação de alguém.

— Esse lugar está vago? – a pessoa perguntou.

O Do queria muito dizer que “sim, está ocupado”, mas sabia que seria algo descortês de fazer. Então levantando o olhar para o estranho, apenas afirmou com um gesto de cabeça. Notou que o homem era alto, com olhos que o lembravam do seu café preferido e vestia um terno azul marinho que lhe caia muito bem.

O estranho sorriu para si em resposta e não demorou a sentar na cadeira vaga. Só restava ao demônio torcer para que a pessoa ao seu lado não fosse tão tagarela quanto JongDae.

— Então, eu nunca lhe vi antes. Veio por qual dos noivos? – e com essa fala, mais uma vez as esperanças do demônio tinham sido massacradas.

— Na verdade, — direcionou seu olhar de canto para o homem, que parecia estar muito concentrado em encará-lo – eu não conheço nenhum deles. Vim como acompanhante de um amigo do casal.

— Ah. – o estranho pareceu murchar com sua resposta e KyungSoo se perguntou se estava vendo coisas. – Então você não devia estar sentado com seu par? Devo me retirar?

— Não precisa, JongDae prefere estar perto da cerimônia. – indicou o amigo a algumas cadeiras de distância, completamente bem entrosado conversando. O Do revirou os olhos ao ver a borboleta social que o anjo era, o outro provavelmente sairia desse casamento com mais um esquema matutado para juntar algum casal.

— Oh, você veio com JongDae! Você é MinSeok? Ouvi falar muito sobre você. Eu nem me apresentei, sou Kim JongIn. Prazer. – o maior disse de forma animada, se curvando e estendendo a mão em cumprimento.

— Prazer. – o menor respondeu, tocando na mão quente do Kim, mas só conseguia pensar naquele safado do JongDae que o trouxe para um casamento e o deixou sozinho para se virar em ser sociável com humanos. O anjo que o aguardasse mais tarde, iria jogar sua carcaça aos cães do inferno. – E não sou MinSeok. – esclareceu e viu a expressão do outro despencar em pavor. – Me chamo Do KyungSoo.

— Oh meu Deus! Me desculpe! Eu não devia presumir nada. Se JongDae veio com você aqui deve ser porque é importante para ele, não fique magoado, eu... – o moreno desencadeou a falar, e para evitar que o mesmo fizesse ainda mais interpretações erradas resolver esclarecer tudo.

— Está tudo bem, Kim JongIn. Se acalme. Eu sou amigo do JongDae. Vim com ele apenas como segunda opção, já que MinSeok está trabalhando hoje. – falou revirando os olhos, um habito seu que podia ser interpretado como grosseiro, mas o Kim não pareceu se abalar.

— Ah, um amigo. – o mais novo quase sussurrou, abrindo um sorriso ainda maior depois. – Desculpe por presumir as coisas demais. Prometo não fazer mais nenhuma suposição. Que tal, em vez disso, nos conhecermos melhor para que eu não precise adivinhar as coisas erradas sobre você? – perguntou com um sorriso que o Do precisava admitir que era estonteante. Mas o tom confundia o demônio, de acordo com seu conhecimento sobre os humanos isso quase parecia uma cantada... Olhou indagador para o ser humano, mas antes que pudesse falar qualquer coisa à cerimônia iniciou-se com a entrada dos noivos.

O casamento foi bonito e KyungSoo pode ver no olhar do casal – alias, tinha que perguntar ao amigo o nome deles novamente, tinha se esquecido – que estavam felizes. JongDae deveria estar certo, nem o toró fora do templo foi suficiente para desanimar os noivos.

O demônio em sua maior parte do tempo não interagia muito com humanos e esse mundo. Quando era anjo estava ocupado seguindo as ordens dos arcanjos, e quando se rebelou – sua escolha baseada na forma como as forças maiores lidavam com o universo –, seu papel no mundo demoníaco era torturar almas condenadas e através das memórias guardadas por elas em sua essência via o mundo terreno. Obviamente, apenas pessoas com atitudes muito ruins passavam por si, então o que via através das ações dessas pessoas não lhe dava muito com o que trabalhar para desvendar o comportamento social humano no geral. JongDae com seu falatório incessante era sua principal fonte sobre a vida comum na Terra.

Após a cerimônia ser encerrada a festa viria em seguida e o demônio estava pronto para fugir. Porém, o amigo foi mais rápido em achá-lo e impedir sua saída estratégica.

— O casamento foi lindo! – JongDae falou animado vindo em sua direção. – Oh, JongIn você estava aí! Que bom que fez companhia para meu amigo, esse ranzinza não quis sentar mais perto. – deu uma piscadinha marota para o demônio com a meia verdade dita. – Pensei que você estaria como padrinho, JongInnie.

— Aquele traidor do ChanYeol, escolheu o SeHun no final! O Baek eu já sabia que escolheria o irmão, mas pensei que pudesse contar com o ChanYeol. – o moreno falou com um bico emburrado que causou sensações estranhas em KyungSoo. Geralmente quando JongDae fazia aquela expressão emburrada só lhe fazia revirar os olhos, mas aquele humano lhe trouxe uma vontade anormal de querer arrulhar pelas ações feitas. Se pudesse ficar doente, pensaria que estava começando a ficar naquele momento por causa da reação estranha.

— Bem, espero que você esteja na nossa mesa para aproveitarmos a festa juntos! Vamos lá descobrir. – e dito isso, o anjo enganchou os braços com o humano e o conduziu para a área ao ar livre do lugar, mas agora coberta rapidamente em função do mal tempo. O Do apenas os seguiu de perto sem falar nada.

Poderia ter passado despercebido para os humanos daquele lugar – porém, não para o demônio – como JongDae deu uma “ajudinha” para que seus lugares fossem juntos, deixando o moreno estrategicamente no meio deles. KyungSoo estava começando a desconfiar de algo no fundo de sua mente. Estreitou os olhos para o amigo, mas esse só deu de ombros fazendo pouco caso.

Decidiu deixar sua suspeita de lado quando começaram a servir a comida. Não queria vir para aquela festa, mas se tinha ido, precisava aproveitar a melhor parte dela, e isso era a comida sem sombra de dúvidas.

— Então, KyungSoo, o que você faz? Também trabalha na empresa junto de ChanYeol, BaekHyun e JongDae? – JongIn perguntou enquanto o menor estava entretido comendo um bolo delicioso que manchou seus lábios com glacê. O maior riu ao ver os olhos arregalados do menor, como se tivesse sido pego fazendo uma travessura.

E KyungSoo tinha sido mesmo pego de surpresa. Havia esquecido de combinar com JongDae uma história humanamente plausível sobre sua existência nesse mundo. Manipular a percepção humana para que aceitassem o que falavam era fácil para seres sobrenaturais – o próprio amigo tinha feito isso para se enfiar no ambiente de trabalho dos noivos –, mas tinha esquecido de bolar um contexto para si. Vendo o sorriso safado do anjo, sabia que nenhuma ajuda viria dele.

— Hmm. – fingiu terminar de comer para ter mais tempo. Uma ideia brilhou em sua mente. – Sou o guarda de uma prisão. – falou achando perfeita sua resposta quase verdadeira, mas a careta que o anjo fez por trás do humano parecia discordar. No entanto, ele não ligava pra opinião de JongDae mesmo.

— Nossa, um trabalho perigoso. Como você conheceu o JongDae então?

— Nós somos amigos de infância, crescemos juntos. – o Kim menor resolver interferir.

A partir daí se iniciou um longo interrogatório por parte do humano. O demônio respondia uma pergunta e o moreno logo disparava outra. Para KyungSoo só restava lamentar internamente porque queria comer seus doces em paz, mas estava difícil.

Depois os noivos, que estavam passando de mesa em mesa, chegaram à deles. KyungSoo teve que evitar revirar os olhos ao ouvir chamarem seu amigo de “cupido” e falarem como não estariam juntos sem a ajuda do mesmo. JongDae apenas exibia um sorriso feliz e muito convencido para si.

Quando a melhor parte da festa terminou – ou seja, a comida – uma música alta começou a tocar. O demônio observou ChanYeol e BaekHyun fazerem uma dança animada no centro livre do lugar e ficou se perguntando porque os humanos se mexiam daquele jeito estranho para expressar alegria. Bem, concluiu que era apenas mais um de seus costumes excêntricos.

O que o demônio não esperava de jeito nenhum era que um Kim JongIn, muito sorridente, se posicionasse de pé ao seu lado e estendesse a mão para si.

— Me daria à honra dessa dança? – o moreno falou divertindo-se ao observar a expressão do menor entre a descrença, surpresa e pânico.

— Eu não sou de me mexer muito. – o demônio respondeu por fim.

— Ah, KyungSoo! Dê uma chance! Estamos em uma festa, é para se divertir! – JongDae decidiu se meter e dar sua brilhante opinião.

— Eu me diverti comendo bolo, já está bom. – disse cruzando os braços com uma expressão emburrada.

— Eu posso te mostrar outras formas de diversão. – o maior disse com um sorriso brilhante e piscadinha que quase faziam KyungSoo querer experimentar. Com certeza sabia que o humano poderia lhe mostrar várias coisas desse mundo, mas ao mesmo tempo parecia estranho ceder a esse desejo depois de mais de 2000 anos apenas existindo.

Hesitante, o Do estendeu a mão para o moreno.

Na pista de dança, o demônio olhava para todos os lados como um animal assustado e JongIn achou graça disso. O maior apertou a mão fria, que ainda estava na sua, para trazer a atenção do menor para si.

— Está tudo bem, só finja que existe apenas nós dois aqui e acompanhe meus passos. – disse com um tom de conforto.

E assim, segurando as mãos do mais velho, o Kim começou a sacudir o corpo de um lado para o outro, mantendo uma boa distância entre os dois.

Parecia estranho no começo para o demônio, mas no final da música já se sentia mais natural naquele ambiente, sem se importar com a aproximação dos vários humanos ao seu redor. E podia jurar também que estava experimentando um tipo diferente de felicidade.

Quando o noivo, ChanYeol, tentou acompanhar JongIn em um passo elaborado, o mesmo acabou caindo no chão e isso desencadeou o riso de todos, incluindo o próprio KyungSoo. E isso não passou despercebido pelo moreno, reparando ser a primeira vez que ouvia esse som maravilhoso.

No final, o demônio acabou não voltando a se sentar na mesa e JongDae também se juntou a pista de dança.

KyungSoo não podia negar que a noite estava sendo uma surpresa muito feliz. E um grande motivo disso era o humano Kim JongIn.

— Ei, eu vou pegar alguma coisa para beber! Quer algo?! – o maior gritou para ser ouvido na barulheira da festa. O mais velho apenas sacudiu a cabeça negando, seu corpo não precisava de fato de alimentos e bebidas para se manter nesse mundo.

Após a saída do mais novo, o amigo se aproximou de si.

— Está feliz por eu ter te convencido a vir, não é?! – JongDae gritou em seu ouvido e o Do sentiu que poderia ter ficado surdo naquele momento se isso fosse possível. Afinal, o anjo não cantava no coral a toa, tinha uma voz potente. Apenas deu de ombros como resposta, orgulhoso demais para admitir que o amigo estava certo. – Ah, não adianta disfarçar! Eu sei que sim! Você está todo felizinho dançando com JongIn!

A fala de seu amigo fez aquela antiga dúvida despertar novamente em sua mente. Decidido, agarrou o Kim pelo pulso e o conduziu para um lugar mais afastado, para que pudessem conversar sem estarem aos gritos.

— Você planejou isso, JongDae? – o Do perguntou direto.

— Do que você está falando? – o anjo se fez de desentendido.

— Você poderia ter vindo sozinho ao casamento, não é como se eu lhe acompanhasse nas suas peripécias pelo mundo. – o demônio cruzou os braços enquanto ficava com um ar mais desconfiado ainda.

— Não sei o que você está querendo dizer. – respondeu com uma expressão forçadamente inocente.

— Kim JongDae, eu lhe conheço há milhares de anos. Desembucha. – o Do falou em tom ameaçador, fazendo o anjo tremer um pouco sentindo as trevas nas asas do amigo se intensificarem.

— Ok, ok. A verdade é que eu achei que você e JongIn combinariam. – o ser celestial confessou, sabendo a bronca que levaria.

— Sério? Porque você quer juntar um humano e um demônio? O que o pobre do rapaz fez para você desejar um destino assim para ele?

— Ei, antes você me incentivou para que me aproximasse do MinSeok. Como isso é diferente?!

— Claro que é. JongDae, você é tão versado nesse mundo que poderia facilmente fingir ser um humano por anos. E mesmo que se envolva de forma séria o suficiente para revelar sua identidade, você é um anjo. Ninguém ficaria com medo. Eu sou um demônio, um torturador infernal. Nenhum humano veria isso com bons olhos. Seria apenas um desperdício da vida curta desse humano ficar comigo para depois ser aterrorizado pela lembrança disso. Se ele não acabar louco pela revelação, como muitos por aí.

— Você não sabe com certeza dessas coisas. Olhe para mim e MinSeok, nós...

— Você demorou quatro anos para tomar coragem para convidar MinSeok para sair, não fique cobrando que eu tome alguma atitude sobre um humano que conheço há quatro horas apenas.

JongDae sabendo que tinha perdido essa briga decidiu se manter calado e respeitar o tempo do amigo. O anjo sabia que poderia ter ido longe demais. Talvez tenha se empolgado demasiadamente, estava tão feliz com MinSeok que apenas queria que o amigo também sentisse algo assim e não ficasse só rodeado por almas condenadas por toda a eternidade.

KyungSoo sabia que uma coisa era um anjo se envolver com um humano e outra situação bem diferente seria se um demônio se envolvesse. Quando um anjo estava envolvido geralmente chamavam as coisas como “o amor mais puro”, mas sempre viam as relações com demônios como o ser sobrenatural enganando o inocente humano para corromper sua alma, um “pacto”. Porém, diferente do que as pessoas pensavam, aquele papo de “estava possuído por um demônio que o fez fazer coisas ruins” era pura lorota. Os humanos escolhiam seus caminhos. Eles eram tão poderosos que deram origem as próprias divindades, e essas divindades podiam interferir tanto na vida dessa pessoa quanto ela deixasse, mas no final, a decisão final era do humano. Ele nunca entendia porque alguns humanos não queriam assumir suas ações, fossem as boas ou ruins, sempre as associando a façanha de alguma divindade.

Para os seres sobrenaturais de menor escala, como anjos e demônios, desde que não interferissem grandemente na vida do humano em escolhas decisivas, não importava de fato para seus superiores qualquer coisa que eles fizessem com os humanos. E isso incluía relacionamentos de vários tipos. Embora KyungSoo preferisse mil vezes os prazeres vindos de comidas saborosas, do que os ditos “pecados da carne” que estavam envolvidos nas relações amorosas na maioria dos casos.

Na situação de JongDae tudo era mais fácil, ele era um ser iluminado do Senhor, enquanto o próprio Do era uma criatura das trevas. Que humano gostaria de saber que está se relacionando com um demônio? Se o seu segredo fosse descoberto, ele não teria nem tempo de explicar qualquer coisa antes do humano sair gritando em pavor.

— Agora vamos dar como encerrada essa conversa e nunca mais tente algo assim novamente ou eu arranco suas asas.

Sem deixar o anjo responder, o demônio deu as costas e saiu andando.



KyungSoo estava sentado de um banco afastado, onde podia observar a chuva que caia torrencialmente naquela noite.

Estava em um conflito interno. Uma parte sua queria dar uma chance e aproveitar mais desse mundo tão diferente do que conhecia. Mesmo com todos esses anos vindo ao mundo corpóreo, nunca tinha se aventurado além dos seus encontros com JongDae. O amigo acabava sendo a única criatura no universo com o qual interagia realmente, todos os seus outros contatos com humanos vivos tinham sido breves. MinSeok deveria ser o humano que chegou mais próximo nesses 2000 anos de existência. Por mais que tentasse fugir de ser a “vela” quando o casal estava junto, no fundo, ele se sentia curioso em como seria experimentar algo assim.

Sabia que seus anos como torturador no inferno o deixaram insensível a toda maleficência que o ser humano pudesse executar. A maldade não o surpreendia, mas coisas boas sim. Coisas como sorrisos alegres. Sorrisos pareciam serem preciosos demais. Não conseguiu evitar que o sorriso de um certo moreno aparecesse em sua mente e o fizesse sentir aquela estranha sensação novamente.

— Você parece chateado. Posso me sentar aqui? – a voz do homem que estava em seus pensamentos o pegou de surpresa, embora sentisse uma aproximação, não sabia que seria bem aquela pessoa. O menor, sem ter razão para negar, deu de ombros concordando. – Você quer me falar sobre o motivo de estar aqui sozinho enquanto podia estar curtindo a festa lá dentro?

— JongDae estava tentando dar uma de cupido como sempre pra cima de nós. – o Do resmungou indignado, não vendo motivo para mentir para o mais novo. De alguma forma, a presença de JongIn tinha se tornando muito confortável para si nessas horas que passaram juntos.

— Eu sei o que JongDae estava tentando fazer, ele é sempre assim e eu não me importo. – o mais novo falou, mas logo completou de forma afobada quando viu que poderia ser mal interpretado. – Quer dizer, se ele tivesse escolhido outra pessoa eu me importaria. Mas eu realmente gostei de passar esse tempo com você, KyungSoo. Espero que eu não tenha sido o único a apreciar essa noite.

Não sabia o porquê, mas a frase do moreno o fez se sentir estranhamente envergonhado, coisa que nunca ficava.

— Hmm, não foi o único. Eu com certeza me diverti muito ao seu lado hoje. Obrigada por isso, JongIn. – o demônio disse sem desviar o olhar do maior, e felizmente não fez isso, porque pode ver o sorriso lindo do moreno surgindo em seu rosto.

— Você pode me dar seu número? – o Kim perguntou quando tomou coragem, embora um leve traço de nervosismo pudesse ser detectado em sua voz.

— Eu não tenho celular. – Sabia o que era aquele aparelho. JongDae mesmo tinha um para facilitar seu disfarce de humano, mas nunca viu utilidade naquilo. Nunca admitiria, mas vendo o sorriso do moreno vacilar por sua resposta, desejou ter um também.

— Mas eu estarei no Coffee Snowflake, na próxima sexta-feira ao por do sol. – falou rápido em um atino de bravura antes que pudesse se arrepender. O demônio antes nunca gravava os dias da semana desse mundo, porém, desde que JongDae começou a querer se encontrar tão frequentemente, teve que aprender para não acabar esquecendo e depois ter um anjo bravo atrás de si lhe puxando a orelha. Agradecia ao amigo agora. – Você pode me encontrar lá, se quiser? – fez a pergunta e se sentiu um pouco ansioso, embora não soubesse ainda o porquê dessas emoções novas.

— Parece perfeito. – JongIn voltou a sorrir como se iluminasse todas as trevas do mundo e KyungSoo sentia que se tivesse um coração ele estaria disparado nesse momento. – Isso é uma promessa, não pode voltar atrás. – estendeu o dedo menor para si e o demônio só pode olhar questionador aquele gesto.

— O que você quer que eu faça? – o mais velho perguntou confuso.

— Sele a promessa. Você nunca fez isso? – o maior perguntou, agora também confuso.

— Não. – o demônio respondeu simplista.

— Nossa... Bem, é outra coisa para eu te ensinar então. – deu uma piscadinha enquanto voltava a sorrir, e KyungSoo estava começando a achar que JongIn era formado apenas por sorrisos, como ele mesmo era feito apenas de trevas. – Você fecha sua mão e estende o mindinho assim. – o moreno explicou enquanto tocava delicadamente a mão fria, a fazendo assumir a posição, e o demônio não sabia o que pensar sobre aquele sentimento estranho que parecia estar brotando em si. – Agora, é só juntar com o meu e selar a promessa. – juntou os dedos e movimentou as mãos. – Pronto. É uma promessa e você precisa cumprir não importa o que! – disse com seu sorriso tão brilhante quanto as asas de um anjo e KyungSoo sentia que estava se perdendo tanto naquele brilho quanto nos olhos como café daquele humano.

Provavelmente teriam ficado perdidos nos olhos um do outro por mais um tempo, se alguém ao longe não tivesse gritado o nome do moreno.

— JongIn! Vem aqui! BaekHyun ‘tá chamando! Ele quer tirar uma foto com toda a trupe depois de estarmos destruídos por causa da festa arrasadora dele! – o rapaz alto gritava, acenando como se os dois ainda não o tivessem visto.

— Já vou, SeHun! – o moreno gritou em resposta e logo se virou novamente para KyungSoo. – Eu preciso ir lá. Mas não se esqueça, eu estarei te esperando. – disse afobado, arriscando dar um beijinho rápido na bochecha do mais velho, pegando o demônio completamente de surpresa. Com isso, o moreno voltou correndo para a área agitada da festa. Deixando o ser sobrenatural para trás, ainda sentindo o calor em sua bochecha onde os lábios fartos tinham encostado.

KyungSoo suspirou ao pensar nos eventos dessa noite. No fim tinha prometido que veria JongIn de novo, e ele não era de quebrar promessas. Deu de ombros conformado enquanto um sorriso bobo tomava sua face, pelo menos aquela seria mais uma oportunidade para comer as gostosuras do mundo terreno.

Talvez JongDae estivesse certo e a hora de explorar o mundo humano tinha chegado e JongIn parecia uma ótima companhia para essa aventura. Hoje à noite, decidiu que se daria uma chance de viver de fato e não apenas existir esperando o momento que sumiria. Iria se permitir ter esperanças de um futuro com sorrisos brilhantes.


Notas Finais:

Espero que vocês possam ter gostado dessa fanfic curtinha e simples.

E dêem mimos para a criadora talentosa da fanart linda no twitter. E se gostaram da fanfic me deixem comentários como forma de mimo também, por favor. (^u^)

Como o JongIn está na fic, (aliás, o momento que ele pede o Soo para dançar é exatamente assim):

https://pbs.twimg.com/media/Deb3ieUVQAAFG_V.jpg

O Soo e o Dae estão como mostrado na capa da fanfic.

Glossário:

Ser sobrenatural: qualquer ser que não faça parte do mundo corpóreo, como os Deuses. Nascem da crença humana. Seres sobrenaturais vivem em seus próprios mundos e podem afetar efetivamente a vida apenas das pessoas que acreditam em si. O mundo corpóreo é um lugar neutro para esses seres interagirem, mas não podem ficar muito tempo aqui sem causar danos ao equilíbrio natural.

Mundo corpóreo/terreno: é o mundo no qual os humanos habitam, existindo os cinco sentidos.

Mundos extracorpóreos: são os territórios dos seres sobrenaturais, a matéria age de forma diferente nesses mundos. Existem milhares conforme a crença das pessoas nesses diferentes seres.

24 de Setembro de 2020 às 02:00 0 Denunciar Insira Seguir história
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