autorajamille Jamille Sousa

Era uma manhã comum para Luiza, os cabelos não estavam em um dia bom, pelo contrário, mais revoltos do que nunca. Uma espinha horrenda surgira do nada em seu rosto e ela queria mais do que tudo esquecer que precisava levantar da cama. Porém, ao decidir parar em sua cafeteria preferida, Luiza viu seu humor mudar consideravelmente. Ao ouvir uma pergunta simples, mas que, naquele momento significou bem mais: Então, Luiza, açúcar ou adoçante?


Conto Todo o público.

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Capítulo único

Aquele definitivamente não era o melhor dia para se levantar da cama, constatei assim que botei meus pés no chão e analisei a imagem que refletia do espelho gigante do guarda-roupa. Fios de cabelo apontavam para todas as direções, meus olhos inchados mal abriam e ainda tinha o prêmio maior, uma espinha gigante que surgiu bem no queixo, de uma hora para outra. Definitivamente era o fim. Aquela segunda-feira macabra prometia ser praticamente um filme de terror, contando que eu seria o personagem principal, claro.

Eu estava horrível!

Me sentia a própria reencarnação da noiva do Chucky, ou a Annabelle, como preferirem. Pois eu não sabia afirmar qual me representava melhor naquele instante.

— Você tá um bagaço. — falei para mim mesma e soltei um grunhido nada feminino.

Minha autoestima era quase inexistente e eu nada podia fazer, além de tentar cobrir aquela espinha horrenda com maquiagem. Mesmo sabendo que pareceria um choquito branco, porque, obviamente a protuberância não sairia com maquiagem, no máximo camuflaria a vermelhidão. E isso não era nada animador.

Me arrumei como pude, molhei os cachos e tentei dar algum tipo de glamour ao meu cabelo. Mas era uma batalha perdida, ele não iria me obedecer. Meu cabelo tinha vida própria e fazia o que bem entendia, não era possível controlá-lo.

Por sinal, eu bem queria ter aqueles cachos de embaixadora da Salon Line; porém, eu estava mais para o que tiver de ser será. Assim sendo, resolvi fazer um coque alto, peguei meus óculos de grau — claro, desgraça pouca é bobagem, esse ser humano ainda precisava ser míope pra acabar com tudo de uma vez — e terminei de me arrumar como pude.

Torcendo para não encontrar nenhum conhecido nas ruas, era isso ou tirar os óculos e fingir demência. Tipo: Me perdoe, não te vi, sabe como é, estava sem óculos!

Entretanto, de nada adiantaria, visto que a pessoa continuaria vendo o estado deplorável que eu me encontrava naquela manhã.

Não havia para onde correr, era um daqueles dias que até Murphy se compadeceria de mim. Peguei minha bolsa e, resignada, saí de casa. Parando na padaria que tinha a caminho do meu trabalho. Era rotina, eu sempre tomava meu café da manhã no mesmo lugar, era barato e gostoso e eu não via o porquê trocar minha padaria preferida.

De modo que, entrei e me sentei em uma mesa mais afastada, torcendo para não encontrar ninguém por ali. Todavia, não demorou nem alguns segundos e alguém chamou minha atenção. Eu sempre era atendida por Patrícia, éramos quase amigas íntimas. Contudo, naquela manhã detestável, não foram os olhos acolhedores e gentis da minha atendente favorita que me fitavam curiosamente. Ousei levantar o olhar minimamente, para descobrir de quem se tratava o indivíduo, e meu queixo foi ao chão.

Olhos castanhos e amendoados, como duas avelãs suculentas me olhavam amorosamente. Enquanto a pele bronzeada contrastava com os cachinhos dourados do rapaz.

Uau!

Espera, de novo, uau.

— Bom dia, posso ajudar? — sua voz reverberou pela padaria e eu quase me encolhi na cadeira.

Qual é? Eu estava só o bagaço, o pó da rabiola, o fiapo do pão, a capa do Batman. Tinha dia melhor para um gato desses surgir no lugar super comfort que eu escolhia para tomar meu café?

Suprimi um gemido de tristeza e enfiei a cara no cardápio. Mesmo sabendo de côr o que eu queria. Afinal, eu fazia o tipo que pedia o de sempre. Patrícia saberia disso, mas aquele outro, com cabelos encaracolados e olhos questionadores não parecia entender que eu era cliente vip ali.

— Hã... — enrolei, tentando ganhar tempo. Aliás, para disfarçar meu estado de nervosismo. Se ele me visse horrível e com àquela espinha monstruosa na cara, eu nunca mais teria chances. — Acho que quero um café com pouco leite e uma rosquinha de creme.

— Tudo bem. — ousei espiá-lo por sobre o catálogo por alguns segundos, enquanto observava o estranho anotar meu pedido em seu caderninho.

Pior, o bendito ainda ostentava charmosas covinhas nas bochechas.

Era pra acabar!

Como percebi? Ele insistia em manter um sorrisinho de canto, como se me atender fosse extremamente divertido. O que não era. Eu estava um trapo, ora bolas.

— Mais alguma coisa? — ouvi em resposta.

— Só isso. — informei e tornei a enfiar a cara no cardápio, apesar de ser bem mais interessante olhar o novo atendente da padaria.

— Açúcar ou adoçante? — quis saber e eu franzi o cenho em resposta.

— Açúcar. — afirmei de pronto. — Mas, não costumavam adoçar o café antes, geralmente eu decido quando chega aqui. — acrescentei e não consegui evitar o contato visual.

Eu estava curiosa sobre ele, meus olhos meio que adquiriram vida própria naquele momento.

— Eu sei. — garantiu, sorrindo mais abertamente. — É que, pensei conseguir sua atenção perguntando algo fora do script.

— Ah! — senti minhas bochechas esquentaram. Por que o tal gatinho iria querer chamar minha atenção?

— Bom... — o bonito coçou a nuca. — Eu sempre te vejo aqui pela manhã, na verdade, eu ficava na cozinha, só que a Patrícia faltou e precisei cobrir. — começou a explicar demonstrando certo nível de constrangimento. — Eu nunca consegui falar com você, na real, eu que preparo seu pedido. O de sempre. — frisou sorrindo e eu não consegui evitar o riso, esquecendo completamente a espinha horrenda no meu queixo.

— Sério? — indaguei surpresa e nossos olhos se encontraram.

— Arrã. — confirmou e senti meu estômago der um duplo twist dentro de mim. — Fiquei me perguntando, se você apareceria hoje por aqui, para eu ter a sorte de te ver pela manhã.

— Bem hoje que eu estou um caco. — resmunguei baixinho.

Quero dizer, talvez nem tão baixo assim.

— Você está linda, é, aliás. — se corrigiu e eu quase afundei na cadeira.

— Você acha isso? — levantei o olhar, dessa vez um pouco mais segura de mim.

— Acho sim. — reafirmou e quase me derreti toda, feito um picolé no verão. — Têm meses que ensaio te convidar pra sair, ou até pra tomar um café. — revelou e mordeu o lábio, desviando os olhos, como se tivesse cometido algum crime inafiançável.

— Quando? — exigi saber.

— Quando? — devolveu confuso.

— Quando quer tomar um café, um dolly, milk-shake, quando quer sair comigo? — certo, eu parecia uma desesperada.

Bom, eu estava mesmo.

Ele riu e o som de sua risada aqueceu meu coração naquela manhã insossa.

— Quando você quiser. — deu de ombros.

— Me empresta seu bloco de notas. — pedi estendendo a mão.

Ele prontamente aceitou, na sequência eu anotei meu telefone e nome ali. Constatando que nem sabia o dele.

— Qual o seu nome?

— Dante, prazer. — se apresentou e quando eu ia dizer o meu, ele me cortou.

— Eu já sei o seu. Aliás, Patrícia me ouve todos os dias perguntando de você, não sei como não te contou sobre minha paixão platônica. — Dante corou e eu quase soltei um awn seguido de uma mordida naquelas bochechas vermelhas.

Eu iria matar Patrícia, como ela nunca havia me falado sobre a preciosidade que preparava meu café todo dia? Amiga da onça!

— Queria que a Pati tivesse me contado. — afirmei e sustentei o olhar por alguns segundos.

— Talvez eu seja o culpado, sempre implorei pra ela não falar nada. Afinal, como uma garota incrível como você se interessaria por mim? Eu nem sei como consegui te falar tudo isso hoje. — segredou e eu quase o estapiei por ser tão fofo.

— Ei, como assim? Você é uma graça! — protestei e notei quando um sorriso travesso surgiu em seus lábios.

— Você acha? — questionou e eu prontamente fiz que sim com a cabeça.

— Dante, libera a Lú pelo amor de Deus. — alguém o repreendeu e vi de escanteio se tratar do seu Afonso, o gerente da padaria.

— Tô indo seu Afonso. — Dante retrucou e soltou um muxoxo em seguida. — Posso mesmo te ligar?

— Pode sim. — eu abri meu sorriso mais encantador.

— Vou trazer seu pedido. — e vi um sorriso torto brincar em seus lábios. — Açúcar, certo?

Com certeza.

FIM.

12 de Setembro de 2020 às 16:03 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Jamille Sousa Leitora e escritora <3

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