luacalixto Lua Calixto

Milena desperta com aquela estranha melodia, perdida em uma casa da qual não se lembra entrar, mas ainda assim a sensação familiar não abandona a menina enquanto ela explora o local em constante mudança, com uma companhia gentil que parece fazer tudo para mantê-la feliz.


Conto Todo o público.

#solidão #drama #vida #anjos #romance #fantasia #mistério
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A Casa Infinita

Luzes se acendem. Era como as cortinas subindo em uma peça, finalmente permitindo a mente retornar ao corpo e o mundo se tornava claro. Milena abre os olhos logo despertando e olhando ao redor, observando o local que a cercava. Acordava confusa, sem saber onde estava ou como chegara ali.


O piso de madeira e as paredes antigas, não pareciam velhos ou abandonados, apenas passavam um certo conforto rústico, uma casa acolhedora e uma sensação estranha de que já estivera ali antes.


A jovem se levanta ouvindo uma melodia, calma, quase fantasia. Segue pelo corredor, encontrando a sala onde via a moça tocando em seu piano. Era uma figura incrível, usando seu vestido negro de penas sedosas, passando seus dedos compridos pelas teclas do instrumento, seu cabelo preto preso em um coque, um ar calmo e a melodia.


Milena se apoiava na porta discretamente, encantada com a música e a beleza da moça, e então a pianista se vira para ela com um olhar curioso. A menina perde o equilíbrio e empurra a porta em uma tentativa de se segurar, e um susto sobe sua espinha antes que pudesse se recompor e pedir desculpas.


Não sabia onde estava ou como chegara ali, mas não precisava saber naquele momento, se sentia confortável, como se estivesse em casa. A moça acena com a mão a chamando para perto, e Milena se aproxima ainda assustada, encantada.


A pianista abre espaço ao seu lado no banco, indicando para a menina se sentar com ela, e só então falava alguma coisa. "O que quer tocar, meu bem?", pergunta enquanto a jovem a observa, encantada também com aquela voz. Diz não saber tocar, e a moça pega em sua mão dizendo que lhe guiaria.


Notas, tocavam algumas notas e começavam a melodia, e então Milena sentia despertar de um sonho por um breve momento e solta as mãos das teclas, olhando ao redor, finalmente decidindo perguntar onde estava.


"Em casa".


O piso de madeira no centro da sala chamava a menina para dançar, e quase sem perceber ela girava pelo chão acompanhando a música. Observava a moça tocar com todo seu coração, e se movia com o mesmo ritmo, balançando o vestido branco de penas ao seu redor.


A luz do dia brilhando pelas finas cortinas brancas da janela, e ninguém parava para pensar no lado de fora, Milena apenas se perdia no momento, se deixando levar pela música até a confusão retornar sua mente ao lugar.


Algumas penas se espalham caindo suavemente pelo chão enquanto a jovem para a dança, feliz, animada, mas perdida e assustada. Era como um sonho, o mais lúcido dos sonhos. Ela observa a pianista se erguer enquanto o piano passa a se tocar sozinho.


A moça se aproxima, alta, Milena olha para cima enquanto segura a mão da dela, sendo girada como uma boneca em uma caixinha de música. Sente seu corpo aquecer e desiste novamente de se perguntar o que estava acontecendo. Se sentia feliz, tranquila.


Se estava sonhando, preferia não estragar aquilo.


O dia parecia nunca passar enquanto os tics do tempo flutuavam, Milena seguia a moça pelos corredores, pulando de porta em porta pelos cômodos da casa.


Passeavam por jardins, salões, labirintos e pátios. Era como uma mansão, um parque, a cada porta encontrava um lugar fantástico para explorar e a casa parecia nunca ter fim, como um paraíso.


Não sabia se queria ficar no ateliê, costurando almofadas e bonecas, ou se corria para a biblioteca onde os milhares de livros decoravam as paredes. Apenas rodavam de quarto em quarto sempre encontrando algo para fazer. A felicidade se sobrepondo a todos os outros sentimentos.


Mas Milena ainda estava curiosa, encantada, perdida e confusa, assustada. A moça lhe perguntava do que gostava e sempre parecia ter um local ideal para levá-la. A jovem não sabia o que dar em troca, perguntava o que a moça queria fazer e apenas recebia um sorriso como resposta.


Havia uma certa melancolia em seu olhar. Constantemente gentil, amorosa, mas o sorriso dela parecia esconder alguma coisa, e aos poucos a sensação passava a incomodar Milena. Aos poucos, a felicidade abria espaço para a dúvida.


Onde estava? Não estava sonhando, parecia um sonho, mas sabia não estar em um, aquilo era real. Mas de alguma forma não se sentia realmente acordada.


"O que quer cozinhar, meu anjo?", a moça pergunta rodando pela cozinha que parecia respirar e se transformar de acordo com o que precisavam fazer. "Eu não sei cozinhar", pensava Milena, mas já sabia que a moça a guiaria como estava fazendo desde que chegara ali. "Uma torta de maçã", diz animada, vendo o sorriso no rosto da moça.


Olha para a bancada e lá estavam os ingredientes, e então começavam a preparar o lanche. Não se perguntava como as coisas apareciam ali, era como se estivessem lá o tempo todo. Era tão... Natural.


Seguia a moça e depois de mais alguns dos momentos mais felizes que lembrava ter, terminavam a receita e Milena se virava para a moça, satisfeita, apenas para ver o sorriso parecer sumir por um momento.


"O que foi?", pergunta a jovem, confusa e com medo de estar fazendo algo de errado. Observava a luz amarela da tarde entrar pelas janelas do local. Estava ali a algumas horas, talvez muitas horas, e ainda não sabia como chegara lá. Ainda não sabia onde estava.


"Nada, meu anjo", a moça responde disfarçando seu sorriso novamente e pedindo um momento enquanto caminhava para outro cômodo. Milena a observa partir, não passara um momento sozinha desde que encontrara a moça, e então uma sensação estranha corria em si.


Era como se naquele momento lembrasse de conhecer aquele lugar e a memória vaga de alguma coisa assoprava em sua mente. Não conhecia aquela casa, não conhecia aquelas salas e quartos e jardins, mas sentia que já estivera ali antes.


Caminhava para o corredor, confusa. Era incrível como todos os cômodos estavam conectados naquele corredor, mas não pensava nisso, apenas olhava ao redor tentando se lembrar por que aquele lugar era tão familiar.


Criava teorias em sua mente, e o ambiente se tornava escuro enquanto seu coração acelerava com um certo medo inexplicado. Como chegara ali? O que era aquele lugar? Olhava para as paredes agora curvadas, a sensação de estar em um túnel se fechando sobre ela, e então corria pelo corredor.


Queria gritar, queria chamar a moça novamente, mas estava com medo de ter deixado-a irritada. Respirava fundo e pensava em caminhar para seu quarto, e logo notava a porta fechada em sua frente.


Não parecia com todas as portas pelas quais passara até então, parecia mais real, parecia que estava realmente ali independente de como a quisesse, e chegava mais perto com a certeza de que era ali que estava quando acordara.


O que era aquele lugar?


O corredor voltava ao normal, agora mais calma de alguma forma. Sentia que o que quer que estivesse ao outro lado, era puramente seu de alguma forma.


Olhava a fechadura na porta, trancada. Agora estava mais curiosa do que assustada. Voltava para a cozinha onde a moça retirava a torta do forno e a colocava na pequena mesa e a sensação de calma retornava ao ver que ela ainda estava ali, gentil como sempre.


"Você quer saber como chegou aqui, não?", a moça pergunta em um tom muito menos feliz. Estava triste, quase em lágrimas. Não parecia irritada, não parecia querer brigar, não havia hostilidade alguma nela, apenas a felicidade sumindo aos poucos para uma tristeza.


"Você não quer me contar?", Milena questiona com medo. Não quer fazer a moça chorar, mas precisa saber o que está acontecendo. "Eu não posso. Não consigo", a moça responde desviando o olhar.


Ela coloca a mão no próprio peito e retira de dentro do vestido uma chave que estava pendurada em seu pescoço, colocando-a na mão de Milena.


"Ela é sua. A chave, a porta, e tudo o que estiver além dela. Mas por favor..." - A moça já não segura mais as lágrimas, desistindo de falar. Milena a observa perder a postura e se deixar levar pelo choro durante alguns momentos. Ela se aproxima e a abraça.


Milena coloca a chave no pescoço, se vira para a mesa e corta a torta, sorrindo para a moça em um gesto de empatia. Não queria vê-la chorando, e de alguma forma sentia que passar mais alguns momentos com ela a ajudaria.


Tentava voltar a se divertir enquanto a tarde caía, caminhar pelos cômodos bonitos, se deitar no gramado e conversar sobre seus pensamentos, mas não conseguia, sabia que não podia continuar ali sem abrir aquela porta.


Sentia agora que não era a moça quem a encantava, e sim ela quem o fazia para a moça. A cada momento em que estavam juntas, a companheira se deixava levar pela felicidade enquanto Milena sentia cada vez mais seu encanto reduzir.


Já não estava mais animada com a exploração, já não sentia mais o fascínio pelos cômodos infinitos da casa, começava a sentir que nada era de verdade. Tinham tudo o que queriam, e era tudo tão... vazio.


Se deitavam no gramado e Milena admira a moça por mais alguns momentos enquanto ela fecha os olhos em um cochilo sereno. Sentia a felicidade dela, de verdade, mas também sente o medo da moça e sua própria aflição.


Deixava a moça cochilando no pequeno jardim de pétalas, e volta para o corredor sozinha. Pegava a chave e abria a porta, com medo do que encontraria do outro lado. Não conseguia nem mesmo imaginar o que poderia estar por lá, não pensava se seria um objeto, um portal, uma história, um conceito, não pensava em nada, apenas abria a porta e descia alguns degraus, chegando em um longo corredor.


Não era tão diferente do restante da casa, de alguma forma parecia ser muito mais antigo, parecia ser o espaço original e a casa apenas o copiava.


A luz laranja avermelhada dos últimos brilhos da tarde passava por algumas pequenas janelas pelas paredes. Quadros e retratos de diversas pessoas decoravam o local e de certa forma lhe pareciam familiar, e abaixo de cada um havia uma estante.


Chegava perto de uma das pinturas, era um rapaz alto, parecia ser de uma família nobre, empunhando uma espada. Olhava em sua estante e encontrava um livro com o nome dele na capa.


Dentro estava uma história contada por ele, uma autobiografia, dizendo tudo sobre sua vida, desde as condições de seu nascimento até a sua morte e seus últimos pensamentos. Milena nem mesmo precisava ler o livro para saber de todas as suas palavras.


Deixava-o no lugar e caminhava para outra direção, curiosa. Chegava na frente de outro retrato, uma moça indígena, e seu livro contava a história de como salvara sua tribo de um ataque e derrotava seus inimigos com uma lança.


Seguia pelo caminho olhando mais e mais retratos, sempre encantada com as histórias, descobrindo algumas que se cruzavam, descobrindo que as ações de uma daquelas personagens afetava a trajetória de outra, vendo que todas estavam interligadas como em um único mundo fantástico.


E então Milena chega ao final do corredor, incontáveis quadros se passando, apenas para encontrar o último retrato. Um suspiro, enquanto um calafrio percorre por seu corpo ao ver um retrato de si mesma. Caminha para a estante abaixo e olha para o livro com seu nome na capa.


Seu nascimento. Sua vida. Sua morte.


Um sentimento estranho a cerca enquanto ela finalmente entendia como chegara ali. Todo o medo, toda a curiosidade, toda a felicidade, agora sumiam e dava espaço a um novo sentimento. Não estava perdida, apenas chegava ao fim.


Milena sente a presença da moça, se virando para vê-la de longe. Estava em lágrimas, se aproximando da jovem em silêncio.


"Eu sou todas essas pessoas?", Milena questiona já sabendo que está certa. "Todas elas. As boas e as más. Mas nenhuma delas é realmente você", respondia a moça com seu olhar melancólico.


A moça então em silêncio caminha por uma porta e a jovem a segue, chegando em um grande campo florido. A luz da lua iluminando as pétalas enquanto a moça desenrola seu vestido em um grande par de asas.


A jovem assiste, espantada e admirada enquanto a moça se ergue para o ar. O vento de suas penas sacudindo as flores, seu corpo iluminado pela lua e sua mão estendida para a jovem, que lentamente se desembrulha também de suas asas brancas.


E então voavam, passeavam por cima das flores que formavam desenhos com suas pétalas cintilantes quase como em uma pintura abstrata. Milena observa o mundo se distorcer ao redor, a casa desaparecendo em meio as infinitas flores. Não deixava de existir, apenas não estava em lugar algum.


As cores criavam formas únicas enquanto tudo parecia encolher, o mundo se fechando em um único pátio, as flores ao redor de um palco de pedra sob o luar. Então elas pousam. As estrelas por todo o lado, estavam no centro de seu universo.


"Essas somos nós", a moça diz erguendo a mão enquanto uma gigantesca árvore surge criando um grande anel ao redor delas. "Esse é o nosso paraíso, meu anjo. Tudo o que queremos, tudo o que somos. Aquelas pessoas… Aquelas vidas, não são você de verdade, meu anjo, são apenas parte de você”.


"Esse lugar é um sonho…”, Milena responde já não mais se admirando com aquele mundo fantástico. “...Mas eu quero voltar agora”.


"Nós podemos ter tudo aqui! Nós podemos criar o que você quiser, juntas", a moça implora já perdida dentre suas lágrimas enquanto um rio se forma abaixo do palco, abrindo espaço por entre as flores e fluindo para as estrelas.


"Mas qual a alegria nisso? Se podemos criar tudo, ter tudo, o que eu tenho a viver?". A menina sente como se aquela conversa lhe fosse familiar. "Você é incrível, esse lugar é fantástico, mas... Não é o que eu quero, eu preciso viver".


A moça perde as esperanças e se senta no chão que criara. as asas agora como uma coberta, as lágrimas correndo pelo rosto, a cachoeira para o espaço infinito.


"Todas as vezes, você parte e eu estou sozinha. Eu lhe espero por uma vida inteira, e você aparece sem lembranças de mim, de nós, e não importa o quanto eu me esforce pra criar o seu paraíso, você sempre parte novamente, sempre me deixa aqui, só".


"Eu não estou partindo por sua culpa", Milena diz se aproximando, dessa vez sem tocar na moça. "Mas eu não tenho mais o que ver por aqui. Eu cheguei no fim dessa vida, e se odeia tanto estar sozinha, por que não vem comigo para a próxima?".


A moça para por um momento, as lágrimas já quase como uma decoração em seu rosto, o mundo se tornando preto e branco enquanto pouco a pouco tudo se dissolve.


"Eu não posso ir. Todas aquelas vidas são parte de sua mente, um fragmento de você. Só assim você consegue se esquecer de quem é, deixar suas lembranças trancadas em si e viver cada vida como uma pessoa diferente. Se isolando naquele seu sonho humano por vidas inteiras enquanto eu estou condenada a esperar e esperar sozinha, enquanto minha única companhia me esquece a cada vez que parte".


"Então crie o seu próprio mundo", Milena diz percebendo a própria insensibilidade. “Se este é o seu paraíso, faça-o perfeito para você e não para mim”.


"Você é o meu paraíso!” - a moça explica enquanto o universo se desfaz. Todas as estrelas, todas as flores, toda luz. Não há nem mesmo a escuridão, apenas elas. “Todo esse lugar, tudo o que crio, qual seria o sentido sem você comigo? De que serve isso tudo sem você para compartilhar?”


Milena a observa assustada, sentindo uma culpa surgir em si enquanto a moça claramente muda de postura mais uma vez, as lágrimas sumindo e o sorriso voltando enquanto as cores calmamente voltam a invadir o lugar, mas sem uma ordem específica, apenas estão de pé sob a confusão.


“Me desculpe, meu anjo” - a moça diz, calma. - "Não entenda mal, não é culpa sua. Eu te amo!”, dizia forçando uma alegria que claramente não estava lá. “Então vá. Viva sua vida, experimente o que quiser, seja feliz."


"Eu não..." - A jovem tentava pensar em alguma coisa para confortar a moça, mas não conseguia. Sabia como aquilo iria terminar, sabia que a deixaria ali sozinha e que voltaria uma vida inteira depois sem lembranças daquilo, seu ciclo.


“Eu não posso te impedir de ir, não posso pedir para ficar sabendo o quão infeliz você estaria aqui. Eu só queria que esse momento durasse um pouco mais dessa vez, meu anjo… Essa parte em que estamos juntas, em que o meu amor finalmente encontra um propósito, essa tarde em que você encontra o paraíso em mim e eu em você”


O cenário retornava para o jardim florido enquanto Milena deixava sua mente retornar ao seu estado natural, pouco a pouco. Aquela humanidade era realmente apenas parte de si, todo o mundo, todas as suas vidas, eram apenas um sonho. Aquela era sua realidade, e a cada momento que passava ali, sabia que precisava partir.


Sabia que precisava voltar para seu mundo imaginário, ou aquele sentimento vazio a sufocaria. Precisava esconder-se de si, fingir ter um motivo para existir, partir para a próxima vida.


Milena olhava para a moça, agora também em lágrimas. Sentia naquele momento o amor incondicional que recebia dela, e não aguentaria ficar ali por mais nenhum momento sabendo que a deixaria em seu inferno pessoal por mais incontáveis vidas.


E então partia. Virava as costas e entrava em sua porta secreta deixando para trás a moça que agora se soltava no chão, sem esperanças, sem objetivos, apenas uma sombra aguardando por mais uma manhã.


Um ciclo que nunca terminava.







Ela tocava seu piano, suspirando. Estava animada com a chegada, ouvia os passos no corredor e a porta se abrindo. A menina a encarava assustada enquanto a moça sentia aquela familiaridade. Era como se fosse a mesma jovem, a mesma pessoa que a visitara a tantos e tantos anos atrás.


A chamava para perto se livrando dos pensamentos, queria apenas aproveitar o momento, aquele raro momento no qual finalmente deixava de estar sozinha. Teria toda a eternidade para lidar com a melancolia depois.


Chamava para uma melodia e a menina logo passava a tocar no piano, era tão igual à sua última visita, mas ao mesmo tempo tão única. Seguiam pela mesma casa infinita, as pausas nos sofás, as brincadeiras no labirinto, as bonecas costuradas, cada momento se tornava seu paraíso ao ver aquele sorriso, sentir a felicidade de sua companhia. Talvez pudesse aguentar a espera apenas para ver aquele sorriso, mas toda a solidão que estava a caminho...


Entravam na cozinha para o lanche, não era a primeira e nem a segunda vez que refazia aquela mesma tarde, conhecia bem aquele pedaço de seu anjo e sabia que logo estava chegando ao fim, aquele dia perfeito abriria caminho para anos e anos de tortura, anos sem o conforto e o carinho de sua amada, e tentava segurar as lágrimas, em vão.


Entregava a chave, como em todas as outras vezes, e a menina a levava para mais uma volta enquanto a felicidade sumia pouco a pouco. Então a moça fechava os olhos, a deixando ter aquele momento a sós. A jovem caminhava para a porta, encontrava sobre seu mundo, suas vidas e histórias, e então voavam sob o luar.


Pousavam no altar de pedra, o último cenário antes do colapso. Era a expressão de seus sentimentos, seu coração, e deixava os seus pensamentos tomarem formas nas infinitas estrelas ao seu redor.


"De todas as suas partes, todos os seus lados... Esse é o que me faz mais feliz" - Ela diz ao altar, repetindo aquela cena pelo que poderia ser a milésima vez. "E também o que mais me machuca, mais me faz sofrer quando parte".


A jovem a observa, confusa. Se perde no cenário ao redor sem ter a certeza de como lidar com aquilo. Reconhecia suas vidas em seu quarto, reconhecia aquela casa e seus infinitos quartos, se encantava com a noite abstrata e as estrelas ao redor, mas ainda se sentia perdida.


“Eu não quero partir” - a menina diz receosa.


A moça a observa por alguns momentos, incrédula. Eras e eras, e aquela era a primeira vez que ouvia aquilo.

"Você... Quer ficar?"


"E que motivo eu teria para sair do paraíso?", a jovem questionava brincando com suas asas, sorrindo. "Todas essas outras vidas, eu não me sinto como elas. Eu sou apenas eu, não me sinto incompleta. Não quero deixar de ser quem sou".


A moça olhava para a jovem, confusa. Alguma coisa estava diferente. Era como se a jovem não estivesse retornando ao seu estado natural, recuperando tudo o que era além daquela única pessoa que agora pedia para ficar por lá.


"Você nunca deixa de ser você, meu anjo. Apenas se torna uma parte diferente de si a cada vez que volta para seu mundo", dizia ainda sem acreditar na decisão da jovem.


"Mas essa parte quer ficar aqui, com você. Viver no paraíso com a melhor companhia que se pode ter", a menina sorri.


A moça a observa confusa, a jovem realmente parecia diferente de todas as versões dela que voltavam ali. Como se fosse um fragmento solto de todas as outras vidas, que decidia ficar ali no paraíso.


"Eu não entendo... Todas essas vidas passando, por que agora você não vai me abandonar?"


"Eu não me sinto como todas essas vidas. Eu me sinto… Separada delas. Como um fragmento de algo maior, mas não sou mais parte daquilo”.


"Um fragmento?", a moça suspira, talvez entendendo o que estava acontecendo, preocupada. "Você se quebrou? Se partiu em pedaços?"


“Eu me separei”, a menina responde entendendo sobre si de um jeito que não sabia realmente expressar. “Talvez seu anjo quisesse viver naquele mundo, sempre voltando para uma vida nova, mas eu… Eu sou a parte que sempre quis continuar aqui. A parte que sente o seu amor, a parte que não quis te abandonar mas precisava seguir com todo o resto, e eu me separei da parte que te fazia sofrer, que me levava embora, e agora podemos ficar juntas”.


“E onde está o restante de ti? Você se sacrificou?!” - Ela questiona preocupada, agora entendendo que seu anjo havia se fragmentado, se mutilado por ela.


"Ela está vivendo em seu próprio mundo, como sempre, apenas com um pedaço a menos. Mas ela vai ficar bem, esse pedacinho aqui é mais importante para você do que para todo o resto de mim."



A Casa Infinita

Lua Calixto

10 de Setembro de 2020 às 05:57 0 Denunciar Insira Seguir história
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