antonio-stegues-batista Antonio Batista

Heitor e Helena vivem suas aventuras no mundo virtual, até que um dia, algo acontece.


Ficção científica Todo o público.
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CREPÚSCULO

Roteiro 2413/35-VRHD. Cavalo e cavaleiro, haviam transposto montanhas, atravessando pântanos e desertos em busca do Santo Graal. Quem beber o orvalho na taça terá juventude eterna, dizia a lenda. Heitor havia encontrado um indício sobre o paradeiro do cálice num documento antigo. A pista o levou a um dos castelos em que o Rei Arthur morou, também último reduto dos templários, guardiões da relíquia sagrada.

Guerreiro corre velozmente pela planície ressecada. Ao longe ergue-se a silhueta escura das ruinas do castelo de Blackrock. Parecendo sentir que estava chegando ao fim da viagem e ao fim da vida, o cavalo coloca sobre os músculos suas últimas energias. Antes que ele caísse morto, o cavaleiro puxa as rédeas refreando-o e ao seu ímpeto selvagem. Heitor apeia da montaria e segue a pé, levando o companheiro pelas rédeas.

Diante dos últimos raios do sol, erguiam-se as paredes negras das ruinas do castelo. Heitor deixa o cavalo descansando e entra no recinto. São apenas restos de paredes, uma porta em arco dá acesso a outra sala semidestruída, tendo o céu como teto. Ervas daninhas crescem entre as rachaduras do piso irregular.

Frustrado por não ter encontrado nada, Heitor resolve voltar para casa e acabar com aquela procura insana. Mas de repente, uma brisa suave toca sua fronte, como se fosse uma mão invisível. Ele se volta, olhando para a parede. Havia uma claridade do outro lado. Animado, revigorado por uma força sobre-humana, desloca as pedras, revelando o graal. O cálice está sobre uma pedra, sob um facho de luz sobrenatural, rodeado de grama verde e flores coloridas

Agradecendo aos céus pela dádiva, Heitor pega o recipiente com veneração e coloca sobre uma laje, para recolher o orvalho da noite.

Ele mal dorme aquela noite. Logo que o dia clareou, vai direto onde estava o cálice e encontrou-o cheio de orvalho. Com mãos tremulas, leva aos lábios e bebe alguns goles do líquido. No instante seguinte sente como que uma chama se espalhando por suas veias e artérias. As rugas e os cabelos brancos somem, os músculos enrijecem e ele se sente revigorado, forte e bem-disposto. Em seguida, dá de beber o líquido mágico ao cavalo. Guerreiro volta a ser um cavalo jovem e possante. Agora eles podem voltar a defender os pobres e oprimidos.

A imagem oscilou e num relâmpago, sumiu.

****

Roteiro 2414/36-VRHD. Helena está colhendo morangos, quando uma senhora idosa, carregando uma cesta cheia de maçãs, aparece no caminho.

─ Bom dia, minha querida. Não queres uma maçã?

─ Quanto custa?

─ Pegue uma. Não custa nada, pois não preciso de dinheiro.

Helena pegou a fruta que a velha lhe oferecia.

─ Vamos, coma. Prove pra ver como é deliciosa.

A jovem dá uma mordida. Ela não entende quando a mulher solta uma gargalhada e sai correndo, mas logo percebe que alguma coisa está ocorrendo com sua mão. Os dedos ficam frios e enrugados, a pele seca e fica cheia de manchas. A sensação de frio sobe pelo braço, e se espalha pelo corpo. A sua juventude e força, começa a se extinguir.

Helena leva as mãos ao rosto, sente-o encovado, cheio de rugas, a pele seca como uma palha. Horrorizada, corre para casa. Enquanto corre, suas forças se extinguem. Cai de joelhos na beira de um regato. Vê a sua imagem num remanso de águas plácidas. A imagem de uma velha. Esgotada, tomba de costas para o chão. Ali ela fica se lamentando o quanto foi tola em não perceber que aquela senhora de aparência distinta, era a bruxa má.

Logo depois, Helena volta para casa, caminha devagar pela trilha da floresta. Antes podia correr por aquele mesmo caminho, agora anda lentamente, não tem mais a força e juventude de antes. Nem cavalgar com Daphne pelos campos pode mais.

Desolada, Helena passa anos solitária naquela cabana na floresta, que também envelhece. As heras a envolvem num manto verde. Até que um dia, soam batidas insistentes na porta. Helena está cochilando, sentada na cadeira de balanço. Fica surpresa pois há muitos anos ninguém a visita. Ao abrir a porta, depara-se com um rapaz caído ao solo.

─ Me ajude, por favor. Acho que quebrei a perna.

Ela o ajuda a entrar e sentar-se na cadeira. Imediatamente examina a perna e constata que não tem fratura exposta, no entanto, coloca talas e enfaixa. Depois faz um chá de ervas medicinais para combater infecções e dá para ele beber.

─ Como aconteceu isso?

─ Estava passeando na floresta, o meu cavalo se assustou com alguma coisa e acabei caindo. O cavalo fugiu e eu não conseguia andar. Como vi a fumaça que saia da chaminé da sua cabana, vim para cá, me arrastando pelo chão. Eu vi um cavalo em seu estábulo. Você poderia me emprestar para eu ir para casa?

─ É claro.

─ Pedirei a alguém trazê-lo de volta. E quando eu ficar bom da perna, virei pessoalmente agradecer pela ajuda.

Helena encilha Daphne e ajuda o rapaz a montar.

─ Você não me disse o seu nome.

─ Helena, me chamo Helena.

─ Sou Heitor. Moro em Nightingale.

Ele inclina-se e se despede dando um beijo na mão dela. Helena fica observando-o partir, admirada, pois aquele é o príncipe Heitor de Nightingale. Quando ele some na curva do caminho, ela sente algo estranho na mão que o rapaz beijou. Algo assombroso começa a acontecer. As rugas, as dores nas articulações desaparecem, a pele e os cabelos voltam a ser sedosos e brilhantes. Helena volta a ser jovem. O beijo do rapaz em sua mão havia quebrado a maldição.

Com as forças renovadas, com entusiasmo e esperança, Helena trata de arrumar a cabana, limpar, pintar, roçar o mato e deixar tudo limpo e enfeitado. Enquanto trabalhava e cantarolava, espera a visita do príncipe. Certo dia ouve um relincho de cavalo na floresta. Corre para a porta e vê Heitor chegando, montado num alazão preto.

A imagem tremeluziu e num clarão, sumiu.

****

Heitor tirou o capacete VR da cabeça, arrancou os fios e cabos do corpo e levantou-se da cadeira, devagar. Um movimento brusco podia deixá-lo tonto. Calçou as chinelas surradas, e arrastando os pés pelo soalho empoeirado, saiu da casa. Ao longo da rua, as pessoas saiam de suas casas, piscando à luz do sol. Eram como espectros saindo da escuridão para a luz. Homens e mulheres decrépitos, desorientados, trôpegos, olhando de um lado para outro.

─ O que aconteceu? − gritou alguém.

─ Acabou a energia.− disse outra pessoa.

─ O disjuntor deve ter se desligado− respondeu Heitor. ─ Está muito quente hoje e o gerador esquentou demais. − a voz saiu meio rouca. ─ Vou lá em cima dar uma olhada.

Seguiu por uma viela cheia de lixo. Atravessou uma praça abandonada, subiu um desnível do terreno e chegou ao barracão. Antes de entrar, voltou-se e olhou para a cidade em ruinas, para as pessoas envelhecidas e parvas na rua poeirenta, a espera que ele voltasse a ligar a máquina que os fazia sonhar.

A porta rangeu quando ele a empurrou. Entrando, foi direto ao painel de controle. Quando ligou o disjuntor, as luzes se acenderam e a máquina voltou a funcionar.

Heitor voltou para casa. Desconectou Helena da máquina e a ajudou a sair da cadeira.

─ Está na hora de caminhar, desenferrujar as pernas.

Ela olhou para ele, intrigada. ─ Quem é você?

─ Meu nome é Heitor. Nos conhecemos no Morro dos Rouxinóis, casamos, vivemos juntos há quase quarenta anos. Não se lembra?

Ela sacudiu a cabeça levemente. ─ Não.

─ Vamos andando. Com o tempo você vai se lembrar.

Saindo da casa, dirigiram-se para o campo. Caminharam devagar, aproveitando a brisa fresca do fim da tarde.

─ Sonhei que eu era jovem e uma bruxa má me fez ficar velha. ─ disse Helena, caminhando apoiada no braço de Heitor.

─ Você não gosta de ser velha?

─ Já fui jovem e acho que ter juventude eterna deve ser bem chata. Você não acha?

─ Para tudo há um tempo e o nosso tempo de juventude passou, no entanto, nosso espírito permanece sempre jovem.

Helena sorriu. ─ Por dentro, me sinto jovem.

Atravessando o campo, chegaram ao Morro dos Rouxinóis. Lá em cima, à sombra de uma figueira, haviam se beijado pela primeira vez. Ao se lembrar, Heitor teve a impressão de que aquilo ocorreu séculos atrás.

Ele conduziu Helena pela mão para a escada que ele mesmo escavou no flanco do morro, quando ainda era jovem. Começaram a subir os 33 degraus. No 10° degrau, pararam respirando fundo. Os joelhos doíam. As pernas não aguentaram a subida.

─ Estamos velhos, minha querida. – com um suspiro, ele sentou-se nos degraus. − É melhor ficarmos por aqui mesmo.

Helena sentou-se do lado dele, observando seu rosto. Estava admirada com o carinho que ele tinha por ela. ─ Você é o meu príncipe encantado?

─ Sou o que você quiser.

Ela pousou a cabeça no ombro dele e os dois ficaram observando um cervo e sua família, pastando na margem do lago.

Fim

9 de Setembro de 2020 às 13:13 0 Denunciar Insira Seguir história
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