antonio-stegues-batista Antonio Batista

O doutor Victor é um médico conceituado. Depois de uma viagem pela Europa, na volta para o Brasil, a esposa dele fica doente, acamada Victor dispensa todos os serviçais e passa a cuidar da esposa sozinho. Elisa morre e o médico é acusado de causar a morte dela ´preso. Na cadeia, ele escreve uma carta contando toda a verdade, e a verdade é mais terrível do que se imaginava.


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A OUTRA HISTÓRIA DE VICTOR

Carta encontrada nos arquivos do jornal Correio Imperial, e nunca publicada.

“ Ao Jornal Correio Imperial.

Rio de Janeiro, aos vinte e três de novembro de mil oitocentos e sessenta e dois.

Prezado senhor redator.

Duas semanas atrás, por livre e espontânea vontade, me dirigi ao posto da polícia para comunicar a morte de minha esposa. Recebido pelo Intendente da Polícia da Cidade do Rio de janeiro, coronel Custódio Macedo, contei em que circunstância Elisa morreu. O inquérito chegou às mãos do excelentíssimo doutor juiz, Ademar Vieira, que pediu uma avaliação médica, sendo eu então, interrogado pelo doutor Edevaldo Cardoso, psiquiatra do Hospício Dom Pedro II. Ouvindo minha história, o médico considerou que eu estava mentalmente perturbado e com o consentimento do senhor juiz, me encaminhou para internação. Eles acham que estou louco, não acreditam no que lhes contei e por isso, decidi escrever a esse jornal para que todos saibam a verdade.

Nessa casa que parece um palacete, onde a beleza das formas esconde a miséria e a degradação humana, os dias não tem sidos bons, a comida é ruim, os enfermeiros truculentos, os pacientes parecem mortos-vivos, alguns gritam o tempo todo vagando pelo pátio e corredores. Tem dias que não consigo dormir e é numa dessas noites que decidi pegar papel e pena para escrever minha história para este jornal.

Nasci num dia quente de verão de 1817, em uma bela casa na Rua da Padaria, em Paraty. Fui o terceiro filho de Maria e Eduardo Shelley. Com a idade de 28 anos me formei médico na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Aos 39 anos me casei com Elisa Wilhelm, filha de um médico suíço. Após o casamento, viajamos em lua-de- mel para a Alemanha.

Johann Wilhelm Ritter, tio-avô de Elisa, foi um pesquisador dos fenômenos da natureza, fazia experiências com eletricidade. Ao visitarmos um parente dele em Munique, tomei conhecimento das experiências que ele fazia, inclusive, dizia-se à boca pequena, que Ritter trabalhava com forças ocultas. Indagando sobre suas anotações, me disseram que seus manuscritos estavam “perdidos”.

Sempre me interessei pela ciência e mistérios da natureza e movido por esse desejo, de descobrir os segredos da Vida e da Morte, que adquiri, por meios escusos confesso, um bloco de anotações do cientista, que uma prima de Wilhelm havia guardado como recordação.

Aproveitando minha estada na Alemanha, visitei o castelo de Wittgenstein, onde viveu Johann Conrad Dippel, teólogo, médico e alquimista. Dizia-se, que Dippel fazia experiências com cadáveres na tentativa de trazê-los à vida. Ele concebeu uma teoria interessante para criar um ser vivo a partir do ovo e batata. Embora suas tentativas terem sido infrutíferas, fiquei fascinado com a teoria.

Quando em viagem de regresso ao Brasil, passando por Paris, comprei de um antiquário um livro sobre alquimia intitulado Saltério Químico, de Nicolas Flamel e um manuscrito sobre a eletricidade dos raios, de Franklin Roosevelt.

Eu e minha esposa, nos instalamos numa bela casa em Petrópolis. Adquiri alguns instrumentos e aparelhos científicos e montei um pequeno laboratório no sótão do sobrado. Ali, nas horas vagas, comecei a fazer experiências com animais mortos, a fim de ressuscitá-los.

Desde a chegada ao Rio, Elisa, começou a se queixar de cansaço, falta de apetite e tonturas. No princípio não fiquei preocupado, achando que foi por causa da longa viagem, mas quando ela caiu de cama, fraca, tossindo muito e com febre, fiquei preocupado ao descobrir que ela tinha contraído tuberculose. Comecei a trata-la, dando-lhe xaropes, aplicando suadouros, compressas e ventosas, mas de nada adiantou, Elisa piorou de saúde e acabou falecendo.

Quando percebi que ela poderia morrer, dispensei a cozinheira, a lavadeira e o jardineiro. Eu não queria ninguém por perto, caso ela morresse mesmo. Não queria que tal fato acontecesse, é claro, eu amava minha esposa, tanto que decidi tentar ressuscitá-la caso isso acontecesse. Por isso, não queria que ninguém soubesse o que eu estava fazendo. Falei que levaria Elisa para um hospital e dispensei os empregados. Na realidade, transferi ela para uma cama no sótão onde passei a maior parte do tempo cuidando dela, até seu último suspiro.

E Elisa faleceu em certa noite de setembro. Eu acreditava que podia reanimar seu coração e respiração injetando um composto químico em suas veias e aplicando choques elétricos em seu peito. Eu tinha uma teoria, mas não sabia as consequências. Não queria pensar que era um ato insano e inútil. No primeiro dia não aconteceu nada. Troquei a poção por outros produtos químicos e continuei dando choques elétricos a cada duas horas. Os dias foram passando, o corpo de Elisa não deu sinais de deterioração, porém continuou sem vida. Considerei a integridade dos tecidos, como uma vitória. Achava que estava no caminho certo.

Quando uma tempestade começou a se formar no horizonte, peguei alguns fios, desencapei as pontas e enrolei-os no corpo nu de Elisa. Peguei a outra ponta dos fios, subi ao telhado e amarrei no para-raios, depois voltei ao quarto e aguardei pela tempestade.

Nuvens negras e grossas avançaram sobre a casa. Parecia que a natureza estava a meu favor, apoiando minhas intenções. Raios e trovões abalaram os ares. Não levou muito tempo para que um raio atingisse a haste metálica sobre o telhado do sobrado. A descarga elétrica percorreu os fios de bronze e chegou ao corpo de Elisa, provocando um grande espasmo muscular.

Após o choque elétrico, retirei rapidamente os fios do corpo dela para evitar que outros raios danificassem seus órgãos. Joguei os fios pela janela e me concentrei em observar, esperando ver alguma reação de Elisa.

Mas, o tempo passou e nada aconteceu, minha esposa continuou com as feições brancas e sem vida. Nenhum batimento cardíaco, nenhum movimento das pálpebras ou mãos. Abatido e decepcionado, fiquei andando de um lado para outro enquanto a tempestade rugia lá fora. Assim como a tempestade foi amainando, o cansaço e o sono foi me acalmando, me deitei no divã e adormeci.

Acordei na manhã seguinte sentindo uma mão acariciando minha face. Ao abrir os olhos vi o rosto rosado e sorridente de Elisa. Ela estava viva! Pulei da cama e a abracei com alegria. Fiquei eufórico, consegui o que nunca antes ninguém conseguiu! Eu tinha descoberto, ou inventado, um método de ressuscitar pessoas. Havia vencido a Morte!

Após dar vazão a minha alegria, passei a examiná-la. Auscultei os batimentos cardíacos, os pulmões, conferi a integridade do corpo. Estava tudo normal. Perguntei como estava se sentindo, mas ela não respondeu. Fiz outras perguntas, sem obter resposta, Elisa apenas me olhava com uma expressão ingênua, esboçando um sorriso. Com a morte, a memória também é extinguida, mas não teria que voltar com a ressurreição? Teria o processo regenerado a vida, mas não a memória? Eu não podia saber, tudo levava a crer que sim. Ela não tinha vontade própria, seu raciocínio era fraco, como o de uma criança. Era o que eu pensava no princípio, porém, mesmo uma criança responde com um balbuciar, tentando formar palavras!

A medida que os dias foram passando, Elisa não articulou nenhum som, não fazia nada, ficava sentada mirando o vazio. Quando eu me aproximava dela, me olhava e esboçava um sorriso. Aquilo me deu a certeza de que em sua mente, restava alguma memória. Ela me reconhecia e isso me deixou mais tranquilo. Eu lhe dava banho, comida, levava para passear no jardim para tomar sol, sempre com a esperança de que ela voltasse a ser o que era antes.

Fechei o escritório e passei a viver recluso, apenas cuidando de minha esposa. Saia apenas para comprar mantimentos. Certo dia recebi a visita de nossa antiga cozinheira. Dona Filomena queria saber se Elisa já tinha melhorado, se já estava em casa. Respondi que sim, que ela estava repousando e não podia receber visitas por enquanto. Sem capacidade para falar e raciocinar, eu temia que o estado de Elisa fosse motivo de especulação.

Certa noite acordei com um ruído. Acendi o lampião e vi que a cama dela estava vazia. Encontrei-a a na sala, andando em círculos, gemendo e com as mãos na cabeça como se tentasse arrancar algum bicho que a incomodava dentro do crânio. Levei-a para a cama e apliquei um pouco de morfina na veia. Aos poucos foi se acalmando e dormiu. Na manhã seguinte ao acordar, vi que tinha se levantado. Suas roupas estavam atiradas pelo chão. Fui encontrá-la no pátio, nua. Rosnava como uma fera enjaulada, andando de um lado para outro, arrancando os cabelos, arranhando-se. Abracei-a, tentando acalmá-la e foi nesse instante que ela mordeu meu pescoço, tirando um naco de carne. Saiu correndo e entrou em casa. Imediatamente peguei um pano para estancar o sangue. Felizmente a mordida não atingiu a artéria, caso contrário eu tinha morrido naquele dia. Amarrando o pano ao redor do pescoço, fui procurá-la. Ao chegar ao pé da escada do segundo andar, encontrei pegadas úmidas nos degraus, marcas dos pés de Elisa, um líquido viscoso e escuro. Ela havia voltado para o quarto. Subi correndo, ouvindo seus gritos. Estaquei na porta, sufocando um grito de horror. De pé, ao lado da cama, Elisa parecia um boneco de cera derretendo, a pele escurecia rapidamente, a carne em seguida se desfazia em pedaços escorregando ao longo do braço, expondo os ossos. Os olhos arregalados me fitaram por um momento, um grito se transformou em gorgolejo quando a garganta se desfez em uma pasta de carne mole, os olhos escorregaram das órbitas, nariz e boca se transformaram numa máscara amorfa.

Recuei horrorizado, sem poder fazer nada. Logo, sem carnes e nervos, as pernas de Elisa perderam sustentação, se dobraram e os ossos tombaram com um ruído seco. O esqueleto ficou amontoado em meio a uma poça negra. Corri para baixo tentando fugir daquela visão horrenda e cai de quatro, com ânsias de vômito. Minha visão ficou turva. Fiquei deitado no assoalho por algum tempo, tremendo. Quando me recuperei, tratei de enterrar os restos mortais de minha esposa nos fundos do pátio.

Mais tarde, com os pensamentos mais claros, pensei em retomar minha rotina, meu trabalho no consultório, mas considerei que não podia ocultar o que havia ocorrido, não podia sustentar por muito tempo uma mentira sobre o desaparecimento de minha esposa. Assim sendo, procurei o chefe de polícia e contei toda a história, meus atos que agora me arrependo de tê-los feito, sobre a morte de Elisa, minha tentativa louca de ressuscitá-la, sua breve vida pós morte e a desintegração do corpo. Mostrei onde havia enterrado seus restos. Fui acusado de assassinar minha esposa e internado nesse sanatório para doentes mentais. Gostaria que o senhor publicasse minha história para que as pessoas saibam que não sou assassino, tampouco louco.

Assinado, Dr. Victor Frankenstein. “

8 de Setembro de 2020 às 22:05 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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