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north_king Silva

A morte cortejava todos os homens, porém, era ainda mais sedutora com aqueles que desafiavam a Assíria.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Arcanjo #batalha #anjos
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O Anjo da Morte



"Os babilônios foram agricultores, afeitos à literatura e perseguidores da paz. Os assírios, pelo contrário, foram apropriadamente nomeados de romanos do Leste: foram um povo militar, que se importava com muito pouco além da guerra e do comércio."

Archibald Sayce

702 A.C

Estabelecida entre os rios Tigre e Eufrates, a Assíria conquistava tudo em seu caminho. O conhecimento da guerra era a força do império, a base de uma nação de guerreiros. A geografia não os favorecia, então tiveram que adotar um sistema militarista para se protegerem de invasores. Outrora formado por agricultores e camponeses, os assírios criaram um exército em tempo integral: Homens cuja única função era a arte de matar. Uma máquina bélica com carros de combate, infantaria, cavalos e armas de arremesso. Não haveria misericórdia para seus adversários e a tomada de territórios pelo fio da espada era o que mantinha o status quo. Resistir e ser devastado, ou aceitar a inevitável derrota com uma rendição. Ao lidar com os assírios, não haviam concessões.

O crepitar das chamas o mantinha acordado, embora seus olhos estivessem pesados e hesitantes. Ele rogava a Assur que seu turno findasse logo. O cansaço era tanto que podia jurar que a lança apoiada sobre seus ombros parecia mais pesada naquela noite. Dawud já estivera em batalhas cruéis, humilhantes saques aos povos derrotados, havia sangrado pela glória do império como era o dever de todo guerreiro.

Embora retornar para casa era o que mais desejava nesse momento. No entanto, o jovem sabia que era impossível. A vida de um soldado assírio era permanente até sua morte. Sua esposa era a espada e sua amante a guerra. A morte cortejava todos os homens, porém era ainda mais sedutora com aqueles que desafiavam a Assíria.

Ainda que morresse em batalha, não escreveriam histórias ou canções sobre seu nome. Morrer com uma espada na mão era a glória de um soldado, embora não fosse nada glorioso o que vira em todo esse tempo. A morte exala o odor fétido do desespero nas fezes de um homem a ser empalado, nos estômagos abertos com as vísceras de fora e nas cabeças exibidas como troféus. A realidade do campo de batalha era o carmesim do sangue daqueles que caíram. Os fracos eram esmagados pelos fortes e quem hoje estava de pé, certamente um dia viria ao chão.

No dia seguinte os homens iriam marchar para tomar Jerusalém. Depois de terem devastado todas as fortalezas de Judá, rumo a outro massacre e depois mais outros, esmagando novos povos pelo caminho e ganhando mais territórios em nome do rei Senaqueribe. A orgulhosa cidade de Davi cairia pelas mãos dos assírios e o rei Ezequias seria esfolado até que desejasse uma morte rápida. Israel seria mais uma dentre as conquistas do império.

Dawud ouviu histórias sobre o deus daquele povo. Sobre o Mar Vermelho, as muralhas de Jericó, e até sobre um homem que matara mil usando uma queixada de um jumento. Grandes histórias, mas onde estava esse ser todo poderoso quando o exército humilhou Israel? O próprio Senaqueribe fez questão de escrever um documento desafiando o tal deus e o enviou a Ezequias.

Enquanto observava o fogo, um estrondo mais forte que o trovão assustou até o mais valente dos soldados. Rápido como o relâmpago, um homem desceu até o acampamento e no mesmo instante, as chamas da fogueira cessaram. Sua presença emanava força e poder. Ele tinha um longo par asas em suas costas, vestia um elmo e uma armadura tão resplandecente quanto o ouro e em sua mão direita pulsava intensamente uma espada flamejante. Seus olhos eram como o fogo e pareciam arder em fúria.

Dawud ouviu seus superiores gritarem para os homens entrarem em formação. Parte da infantaria ainda se organizava quando o homem dos céus voou no meio deles erguendo a espada com as duas mãos. Uma energia luminosa resplandeceu e um único golpe matou cem homens de uma vez. Foi tão rápido que Dawud só os viu caírem mortos no chão.

O jovem assírio jamais havia visto nada parecido antes, era uma força assustadora. Seu corpo estremeceu mesmo com a distância, diante daquele ser cujo poder era de um deus. Mais homens investiram contra ele, no entanto, lanças e escudos, cavalos e cavaleiros... foram inúteis perante a espada em sua mão. Armaduras eram despedaçadas e o bronze das lâminas era como palha numa fogueira.

Os socos daquele homem fendiam a terra e derrubavam centenas. Um batalhão inteiro de cavalaria foi ao chão quando ele golpeou o solo com um soco. O poder do golpe era avassalador e espada em chamas resplandecia ainda mais forte enquanto Dawud observava distante, vendo seus companheiros, soldados versados na guerra serem mortos facilmente por um único homem. Embora ele achasse impossível o homem do céu ser humano, mortal nenhum teria tal poder.

Até findar aquela noite, o acampamento tornou-se um campo de mortos. Milhares de corpos jaziam no chão, todos ali foram mortos sem misericórdia. Até que apenas Dawud ficou de frente para ele. No céu com espada em mãos, o celestial olhava-o com indiferença. Pensou em correr, mas sabia que seria inútil. Tremendo desde os joelhos e ofegante, ergueu a lança na direção dele. Certamente morreria, e com a pouca coragem que lhe restava perguntou:

— Você... Você é o Deus de Israel? - A figura celestial falou pela primeira vez. Uma voz tão imponente quanto aquele pelo qual vieram as palavras:

— Meu nome é Miguel. Sou um arcanjo e sirvo o Altíssimo. Vá e conte ao seu rei o que viu aqui... Diga a ele que o Senhor dos Exércitos vive. – E tão rápido como chegou, ele se foi subindo aos céus mais veloz que uma águia, até que desapareceu por entre as nuvens. Dawud ficou atemorizado, se um único soldado daquele Deus tinha tal poder, então as histórias deviam ser mesmo verdadeiras. As palavras do arcanjo ainda ressoavam em sua cabeça:

“O Senhor dos Exércitos vive.”

“E aconteceu que naquela mesma noite o anjo do Senhor saiu e feriu a cento e oitenta e cinco mil assírios e levantando-se pela manhã todos eram corpos mortos." (2Reis 19.35)

26 de Novembro de 2020 às 21:59 6 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Silva Alguém que escreve para escapar das garras do tédio.

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Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, Silva! Tudo bem com você? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Cara, eu tô aqui de queixo caído com essa história! Achei que você ousou um pouco com a escolha do texto, mas ficou sensacional! Ultimamente venho lendo textos em que as pessoas estão tentando quebrar um pouco aquilo de “não se pode falar sobre três tipos de coisas, que são considerados temas tabu: futebol, religião e política” Mas você ousou e eu preciso dizer o quão incrível seu trabalho ficou. Não é fácil pegar um tema deveras difícil e falar sobre ele de forma com que você não tente fazer o leitor concordar com aquilo que você quer, como posso por em palavras melhores? É difícil, mas podemos dizer que é praticamente sobre não forçar com que as pessoas aceitem o que você acha sobre um tema e a sua opinião é a única verdade, absoluta, entende o que eu estou tentando dizer? Enfim, melhor eu parar de divagar, haha. Bom, a coesão e a estrutura do seu texto estão simplesmente maravilhosas. A narrativa está incrível e eu consegui me sentir diante de toda a cena que acontecia. Foi uma experiencia extraordinária. Quanto aos personagens, eu achei simplesmente real, eu não sei nem como eu poderia explicar isso para você (A verdade é que seu texto me deixou, completamente, sem palavras e eu sinto que nada do que eu falar vai ser o suficiente para enaltecer essa obra). As reações, as tremedeiras ao ficar de cara com Miguel, tudo aquilo o fez parecer tão real como qualquer outra pessoa que tivesse aqui na minha frente. O começo, que o fez ser um pouco como “Tomé, só vendo para acreditar” também foi um adereço sobre uma pessoa real e isso ficou fantástico. Quanto à gramatica, seu texto está muito bem escrito e desenvolvido. Foi uma verdadeira obra de arte que você trouxe para as pessoas e espero de coração que muitos gostem assim como eu me peguei encantada com tudo. Desejo a você sucesso e tudo de bom. Abraços.
December 01, 2020, 14:35

  •  Silva Silva
    Esse comentário significou tanto, tanto pra mim, muito obrigado mesmo. :') Fico feliz que tenha gostado da história e que bom que não ofendi ninguém, espero continuar escrevendo mais textos nessa plataforma incrível. December 01, 2020, 23:11
CC C Clark Carbonera
Essa última passagem foi de arrepiar O-O' e a abordagem escolhida é bem interessante. Sobre a potencialidade que o texto tem de irritar alguns leitores: penso que antes de tudo o escritor é um artista que trabalha para abrir horizontes e desbravar mares a fim de encontrar a verdadeira essência do que é ser humano; é sempre positivo ter a mente aberta (horizontes largos e mares calmos) para outras formas de pensar, não temos que obrigatoriamente nos converter a nada, mas necessariamente precisamos respeitar os demais :) Abraços o/
November 27, 2020, 13:41

  •  Silva Silva
    Com certeza o mundo seria mais sensato desta maneira :') Muito obrigado por conferir o texto e fico mais feliz ainda por ter gostado. November 27, 2020, 13:50
Estella Monteiro Estella Monteiro
Gente, eu devo ter algum problema, mas adoro quando o Deus cristão é mostrado exatamente como os deus do Olimpo, ouse estar contra ele e você está ferrado. Miguel fez uma limpa no campo de batalha, o deus dele é de misericórdia, mas não com que é contra e acho que isso é válido até hoje, acho impossível crer que existe um ser feito só de amor e perdão. No começo tudo era guerra e ainda é. Super interessante, parabéns.
November 26, 2020, 22:54

  •  Silva Silva
    Bom, espero não irritar ninguém com o conto :v Detalhe que os Assírios foram um dos impérios mais cruéis e o poderio bélico deles era assustador. Então, essa providência divina veio em boa hora, senão Israel teria caído a tempos :v Muito obrigado :') November 26, 2020, 23:04
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