loremkmorais Lorem K Morais

Eu nunca tive medo de trovões ou relâmpagos, desde criança. Na verdade, eles sempre foram uma fonte de conforto e expectativa. A história por trás disso? É longa e misteriosa.


Suspense/Mistério Todo o público.

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O som do céu

Eu nunca tive medo de trovões ou relâmpagos, desde criança. Na verdade, eles sempre foram uma fonte de conforto e expectativa. A história por trás disso? É longa e misteriosa.

Eu passei toda a minha infância no litoral. Nascida e crescida em um povoado costeiro, um pequeno paraíso escondido do resto do mundo.

Quando eu retorno para as memórias da minha infância, sempre consigo ouvir o som das ondas do mar. Se fecho os olhos, ainda posso sentir o gosto de sal na língua quando o vento sopra em meu rosto. Mesmo depois de anos, o mar ainda não saiu de dentro de mim.

Há algo em crianças crescidas na praia, nos seus cabelos e pele queimados de sol, que os fazem parecer ter uma natureza à parte. Está ali, em cada hábito meu, como meu ódio por sapatos e minha impaciência em ficar em lugares fechados. Está naquele tempo a mais que passo na água quando tenho oportunidade e que nunca é o bastante. Parece que tenho água salgada nas veias ao invés de sangue e, de alguma forma, por mais tempo que passe longe, eu sempre vou retornar ao mar.

Perto de onde morava, na subida da orla, havia paredes de calcário. Ficava entre dunas que sempre se moviam, a uma distância do mar, mesmo quando a maré ficava cheia. E eu lembro de subir nessas paredes, com pés e mãos acostumados à escaladas.

Lá de cima se podia ver toda a extensão da praia, enquanto o vento batia em meu rosto e bagunçava meus cabelos. Havia as pequenas casas isoladas, que hoje deram lugar à pousadas, lar de figuras desconhecidas as quais minha mãe às vezes visitava durante caminhadas. Eu adorava as observar dali, ver o movimento naquela área. Havia algo naquele lugar que sempre me atraia.

O paredão mais alto era chamado de cascudo de fogo. Era onde se criavam fogueiras que serviam como farol para os barcos distantes retornarem para casa. Era onde, se dizia, havia sido escondido um grande tesouro por escravos após um navio negreiro ter sido afundado, um tesouro que, pelo movimento das dunas, havia sido perdido. Um tesouro que brilhava como chamas em certas noites.

E foi nesse cascudo que conheci quem veio a se tornar meu melhor amigo na infância.

Eu tinha sete quando esbarrei nele, logo ao descer da parede de calcário para correr em direção as poças de água. Ele estava ali, riscando o calcário com tinta, parecendo não estar atento à nada além de sua tarefa.

Os cabelos eram muito escuros, a pele, como toda criança da praia, era queimada do sol. Suas roupas eram algo estranho que nunca havia visto. Como a criança curiosa que eu era, eu queria saber o que ele estava fazendo, mas sempre tive cuidado para não atrapalhar ninguém, por isso sentei a uma certa distância e me pus a observar seu trabalho.

Ele sabia que eu estava ali, e eu sabia que ele sabia que eu estava ali, mas nenhum dois falou nada, por muito tempo. Ele era uma criança quieta, como eu.

O céu começava a escurecer por nuvens grossas quando me dei conta do longo tempo que havia passado e que provavelmente iria levar uma bronca quando retornasse para casa, já que eu não deveria nem ter saído em primeiro lugar.

“Vai chover.”

A voz dele me assustou, cortando o silêncio. Ele virou o rosto em minha direção e seus olhos eram extremamente parecidos com o da minha mãe e irmão. Puxados, ao contrário dos olhos grandes que havia herdado do meu pai. E a cor era de um castanho quase preto de tão escuro.

“Quer ajudar?”

Ele sorriu e me estendeu a cuia com tinta, provando o quanto é fácil se fazer amizade quando criança.

Aceitei, sentando na areia, ignorando que deveria voltar para casa antes de começar a cair a chuva.

“Qual o seu nome?”

Ele abriu a boca e um trovão retumbou no céu.

….

Quando cheguei em casa, encharcada pela chuva que havia limpado a tinta, encontrei uma busca frenética por mim.

Fiquei de castigo.

….

Nós continuamos a nos ver, pelos dias que se seguiram.

Era sempre ali, na parede de calcário, nosso lugar de encontro, mas o destino nem sempre era o mesmo.

Às vezes eram as poças entre o curral de pedras, na outra o manguezal. Corríamos entre as dunas, descendo nela em uma palha de coqueiro. Yake era meu segredo, algo que escondia até do meu irmão mais próximo, que também era meu único amigo até Yake aparecer.

Ele nunca havia pedido isso, esse segredo, mas havia um sentimento em mim de não querer o dividir tão fácil assim. Ele também nunca me apresentou sua família, apesar de eu os conhecer por nome e descrição. Havia um pai, que saía pela manhã para pescar nas barcas bem cedo e voltava no outro dia pela manhã. Havia uma mãe, de olhos puxados como os dele, que lhe contava histórias de sua herança tupi, aos quais ele dividia comigo.

A irmã dele namorava com um garoto do povoado e iriam se casar e o irmão mais velho havia ido embora há alguns anos.

Yake, como eu, era a criança mais nova. Aquela criança que tinha uma diferença de idade grande o suficiente para se colocar à parte. Assim como eu, ele também não tinha muitos amigos, mas não parecia se importar. Os mundos em sua cabeça preenchiam um espaço vazio de companhias.

Às vezes, ficávamos quietos juntos, apenas sentados perto da parede de calcário, observando o mar. Certas noites, eu saltava minha janela e ia até a parede e o encontrava lá, no nosso lugar, para ele me contar sobre as estrelas e as histórias. Sobre como Nhanderuvuçu realizou toda a criação, inclusive a si mesmo a partir da Jasuka, a substância originária. Outras vezes era Ñane Ramõi Jusu Papa, o grande avô eterno.

Yake me contou sobre Jaci e Guaraci, Anhangá e Luison, mas seu favorito era Tupã.

“Yakecan.” Ele murmurou certa noite, riscando a areia endurecida perto do mar com um graveto, fazendo desenhos aleatórios ao meu redor. “Yakecan significa o som do céu, esse é meu nome. E sabe quem Tupã é?”

Ele parou e sorriu, o graveto apontando para o céu. O céu, escuro se iluminou naquele momento em um estrondo.

“O deus do trovão.”

Eu nunca tive medo de trovões.

….

Quando eu fiz oito anos, eu resolvi contar sobre Yake para minha mãe. Ela queria saber sobre onde eu sumia em algumas horas do dia ao descobrir que eu não estava com meus irmãos, como eu deveria. Me colocar de castigo nunca funcionava e o medo de eu entrar no mar e me afogar a atormentava.

Por isso, em uma das nossas caminhadas e visitas, ficou decidido que eu iria apresentá-lo, para a deixar tranquila e que a partir de então ela iria me deixar por lá e passar na volta. Ela também iria impor algumas regras para nós dois e conhecer a família dele. Yake concordou, até porque não havia como não concordar.

Quando minha mãe conheceu Yake, ali no paredão, ela não disse nada. Apenas me olhou de forma estranha e então sorriu, bagunçando meu cabelo.

Ela não me colocou mais de castigo, mas religiosamente ia me buscar e me deixar no paredão e geralmente ficava por lá por perto, visitando alguém das casas e me olhando da porta.

Ela começou a me perguntar sobre nossas conversas e eu as contava.

Havia certa nostalgia ali, quando ela ouvia. Minha mãe também era uma descendente, mas aquelas histórias haviam sido perdidas para ela há muito tempo.

Eu entendi, naquele momento, que ela deveria se ver em Yake.

….

Quando eu tinha nove anos, foi quando Yake e eu nos despedimos. Sua irmã havia se mudado e seus pais decidiram ir junto, em busca de uma região com mais oportunidades, provavelmente a capital, algo muito comum de acontecer naquela época.

Yake não queria ir embora da praia, mas não havia muito o que ser feito.

Na tarde antes de ele ir, nós nos sujamos de lama da praia e corremos ao redor do paredão, subindo e olhando o sol se pondo no mar. Por horas e horas, até anoitecer e esfriar ficamos ali, em silêncio.

Eu podia ver a silhueta da minha mãe na praia, olhando para gente, esperando pacientemente.

“Você vai voltar?”

“Não sei.” Yake balançou as pernas. “Não dá para saber essas coisas.”

E quem sabe se eu estaria ali quando ele voltasse? Meu pai sempre dizia que aquele lugar era pequeno para gente, que um dia a gente ia acabar se aventurando fora dali também. Provavelmente para estudar. Era uma preocupação constante deles que a gente estudasse e tivesse uma vida melhor.

“Eu tenho o nome da sua família. Eu vou procurar você.”

Ele sorriu com isso, com minha decisão.

“Então um dia a gente se encontra.” Ele concordou.

Nenhum de nós chorou naquele momento. Esperei ele descer, correndo entre as dunas até as casas, iluminada pelas luzes de candieiro. Ali, da escuridão, elas pareciam sumir, apenas pequenos pontos de luz.

Quando eu desci depois de longos minutos, minha mãe estava me esperando embaixo.

Eu chorei o caminho inteiro até em casa.

….

Com 16 anos eu fui embora estudar. Nunca retornei de fato para casa depois disso, apenas para visitar. Me formei, fiz mestrado, passei a trabalhar. Sempre indo de um lugar para outro, mas sempre retornando em algum momento para o mar.

….

Quando minha mãe morreu, eu voltei, por um tempo maior.

O povoado havia mudado. As pequenas casas sumiram e surgiram pousadas, lojas e campeonatos de wind e kitesurf. A cidade continuava um pequeno paraíso, mas agora com um fluxo maior turístico. As pessoas não precisavam mais ir embora para ter uma vida melhor.

Ainda assim, sempre que eu passava pelo paredão, eu conseguia ver a silhueta de duas crianças lá. Eu conseguia sentir o gosto do café ruim pela água salobra que uma senhora sempre servia minha mãe por ali. Às vezes eu olhava para o lado, esperando ver minha mãe caminhando ao meu lado, ou Yake correndo ao redor de mim com o graveto no chão.

Eu sempre estava sozinha.

Os desenhos ainda estavam ali, cobertos por algumas pichações.

Mesmo quando não chovia, na minha mente, eu sempre ouvia o som de um trovão.

….

Eu procurei Yake, pela internet. Eu sabia o nome de seus pais sua irmã, o marido dela. Eu procurei e mandei convites para desconhecidos, mas nunca tive sucesso em o encontrar.

….

Quando eu tinha 25, meu pai me ligou e contou que foram encontrados sítios arqueológicos no paredão, resquícios de uma civilização antes da chegada dos habitantes que vieram de outro estado ganhar a vida ali. Restos de vasos, pinturas nas paredes que datavam de antes do que eles sequer imaginavam que haveria pessoas ali.

Aparentemente, Yake e eu estávamos pintando por cima de história e não sabíamos.

Quando contei isso ao meu pai, ele riu de mim, mas ficou um longo tempo calado, principalmente quando eu comentei que estava tentando o procurar, mas sem sucesso.

“Talvez você consiga, conhece todo mundo.”

Meu pai ficou um tempo ainda maior mudo, antes de perguntar quando eu ia o visitar.

….

Naquele fim de ano eu fui para casa e não demorou muito para ele entrar no assunto, com cautela, enquanto observavam de longe as pessoas trabalhando perto do paredão.

O que ele me disse, demorou um pouco para entrar na minha cabeça.

“Como é?”

“Eu pensei que soubesse.” Meu pai sorriu um pouco, retomando o passo de volta, o vento ajudando na nossa caminhada dessa vez. “Faz muito tempo.”

“Mãe o conhecia!”

“Ela nunca viu ninguém.” Seu pai confessou. “Você sempre estava brincando sozinha. ”

“Está dizendo…” Perguntei devagar, ainda confusa com o desenrolar dessa história.”Está me dizendo que era o quê? Meu amigo imaginário?”

“Você sempre teve uma ótima imaginação e aquele era um momento difícil na família.”

“Eu sei o nome da família dele.”

“Uma família que nunca morou aqui.” Meu pai coçou a cabeça, eu não sabia o que dizer. “Eu realmente pensei que soubesse.”

….

Demorou um tempo para aceitar que Yake não havia sido real, ele havia sido real para mim.

Com o tempo, eu aceitei aquilo como verdade e comecei a colocar as pistas no lugar sobre aquela época.

Algumas vezes eu ainda me pegava o procurando na internet, até que parei.

Ano passado, ao voltar para casa, eu voltei ao paredão e sentei ali, olhando as paredes, agora limpas de pichações. Um pouco distantes dali, havia o sítio arqueológico e as ruínas das casas, que haviam habitado minha infância e agora estavam enterradas pela areia.

O céu escuro anunciava uma chuva, mas não me importei, apenas olhando os riscos naquela parede, procurando algum sentido naquelas memórias.

Por vezes eu me pegava me perguntando sobre a civilização que morou ali, sobre se eles acreditavam na criação de Nhanderuvuçu. Se algum dia, no meio deles, viveu um menino que carregava o som do céu no nome.

O tempo era uma coisa tão difícil de entender, era um mistério que me deixaria acordada tantas noites.

Eu subi na parede, mais facilmente do que lembrava. O céu estava escuro, o vento frio jogando meu cabelo no rosto. Abaixo de mim, tudo estava diferente e o mundo parecia bem menor do que eu lembrava.

Acima de mim, o céu se iluminou brevemente, um som, alto e claro, retumbando do céu.


Notas finais

Então, isso foi baseada em algo que ocorreu comigo, em como descobri que meu amigo de infância nunca havia existido. Com alguma liberdade artística, mas sempre quis contar essa história, então aqui está.

7 de Setembro de 2020 às 19:36 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lorem K Morais Cosmopolita, cafezeira e ranzinza. Estou sempre de um lado para o outro, sem pouso certo. Uma hora aqui, outra acolá. Cirurgiã-Dentista e escritora por ocasião, porque preciso colocar em palavras tudo o que vi. Entre aqui e acolá. Em comum a vontade de fazer as pessoas sorrirem. Vocês podem me encontrar também no meu blog Anjo Sonhador [loremkrsna.blogspot.com]. Não se acanhe não, se achegue aqui. Deixe te contar uma história.

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Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
Olá, Lorem! Tudo bem? Meu nome é Karina, faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Antes de qualquer coisa, preciso dizer que amo tudo que você posta aqui no Inkspired. Quando eu vejo que é algo que você escreveu, sei que vou gostar e me sentir representada. O modo como escreve, detalha e conta é muito incrível aos meus olhos, transmite tanto sentimento e emoção que eu poderia ler um livro inteiro escrito por você! Algo muito curioso aconteceu enquanto lia esse seu conto: hoje não havia previsão de chuva alguma (eu olhei), e alguns poucos minutos depois de começar a ler O som do céu, escutei um trovão. Mais cinco minutos depois, quando terminei a leitura, começou a chover. Uma chuva rápida, porque já está parando. Estou perplexa até agora. Senti uma conexão forte com esse conto, Lorem, porque, embora não tenha nascido ou vivido na praia, passei boa parte da minha vida nela, durante as férias com a minha família. Eu tenho um amor pelo mar (embora tenha medo dele também, em mesma proporção), pela areia e toda a energia que o litoral passa, as lembranças de fazer amigos lá, construir castelos enormes, cavar buracos muito fundos, e depois nunca mais encontrar essas crianças. As despedidas nunca doíam, quando elas precisavam ir embora com os pais, e essa era a magia de ser jovem e despreocupado. O modo como o seu conto se desenrola é fluído e lindo, aos poucos percorrendo seu caminho até o desfecho. Em tão pouco tempo senti um carinho enorme por Yake, pressentindo desde o começo aquela energia gostosa de algo etéreo que não pode bem ser explicado. Assim como a personagem principal (e como você!), também tive um amigo imaginário. Minha mãe conta que eu vivia brincando de fazendinha com ele; ela me escutava de vez em quando dizer coisas como “você vai ficar com o cavalinho branco!”. São coisas que penso até hoje e que me fazem questionar sobre o que realmente foi real e o que foi minha imaginação infantil. Tenho minhas teorias, imagino que você tenha as suas também. Mais uma vez, Lorem, parabéns por esse lindo conto. Adorei ler algo mais longo dessa vez, achei maravilhoso. Desejo todo o sucesso do mundo para você, tanto no Inkspired como fora dele. Tenho a sensação que você vai longe! Abraços! :D
September 10, 2020, 21:59

  • Lorem K Morais Lorem K Morais
    Um comentário como esse levanta o ânimo de qualquer um para escrever. Muito obrigada. De verdade. September 24, 2020, 21:56
~

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