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Conduzindo a Estação Espacial Salus, o Comandante Jungkook Jeon está as portas de ser promovido a Capitão. Dias antes da cerimonia, sua atenção é desviada por um misterioso alienígena viajante, que agita sua rotina mais do que espera. { JinKooktubro 2020 }


Fanfiction Bandas/Cantores Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Star-Trek-AU #oneshot #ficção-científica #space-opera #Jinkooktubro #jinkook #taehyung #yoongi #jimin #namjoon #jungkook #jin #seokjin #bangtan-boys #bts
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Q. ; único

Essa fic é continuação de minha oneshot ROMULUS MISSION, porém você será capaz de lê-la separadamente.

Jungkook se jogou na cadeira com tanta força que parte de sua exaustão evaporou só por ter um tempo para respirar. O dia foi corrido e estressante por causa daquela espécie que não perde a chance de ser aproveitadora. Seria errado desejar nunca mais ver um ferengi na sua frente? Pois é o que pediria se tivesse uma lâmpada mágica. Toda vez que um ferengi está envolvido em algo, coisas ruins acontecem. Está cansado de limpar a bagunça que essa raça cria por diversão. E quando não são eles, são os cardassianos se achando os donos que qualquer lugar que pisam. O que faz esses caras atravessarem metade da galáxia para atrapalhar a vida dos outros? É cada dia mais irritante lidar com isso.

Se soubesse que a vida liderando uma Estação Espacial seria assim, provavelmente não aceitaria. Antes tivesse problemas viajando por lugares do que ficar parado esperando a desgraça vir. Tem dias que questiona até porque quis fazer parte da Frota Estelar. Às vezes a opção "desistir" não soa tão covarde quanto parece.

Não, Jeon Jungkook. Essa é a sua semana. Pare de pensar tolices.

De fato, abandonar o barco quando se está perto de ser promovido a Capitão é uma idiotice das grandes. Quantos anos esperou por isso? Parece que o título "Comandante" é eterno, muitos estagnam nisso e Jungkook pensou que seria um deles. Depois do evento com os breens, merecidamente, receberá sua desejada promoção. Uma pena que esta não seja para ir diretamente ao caminho da aposentadoria.

Ah... O que aconteceu com aquele energético Jungkook a bordo da nave U.S.S. Vanguard? Envelheceu ao ponto de aceitar estagnar numa rodela de metal na órbita de um planeta inabitado.

Na verdade, não está tão velho. O cansaço que o faz imaginar que chegou aos oitenta anos e que já está apto para ser almirante, enquanto, na verdade, ainda está a se aproximar dos quarenta. Talvez esteja com tédio da rotina de cuidar da Estação Espacial Salus. A vida navegando numa nave sempre foi mais agitada e revigorante. Não tem comparação. E é isso que Jungkook deveria estar fazendo. Antes um Oficial Imediato do que um Oficial encalhado, tendo de ver todos os dias um kelpiano se estremecer até com a água saindo da torneira. Tudo bem, não pode culpar o seu instinto natural, mas em algum momento isso satura.

A campainha tocou, obrigando o Comandante a abrir os olhos. Permitiu a entrada da Tenente B'Rey, uma felina humanoide de pelugem preta baixa, focinho arrebitado e olhos amarelos. Seu caminhar até a frente da mesa fez seus músculos salientes repuxarem mais o uniforme preto e vermelho.

— Senhor, a U.S.S. Gochida acaba de atracar – sua voz rouca entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Demorou alguns segundos para entender que é a nave médica do Capitão Jimin Park. Ele recebeu um chamando para auxiliar com material médico em Nova Kron e decidiu deixar a equipe ter uma folga na Salus depois do cumprimento da missão. Faz um bom tempo que não se veem. Saiu da Vanguard muito antes dele. Chegou a voltar para a Terra por alguns anos e depois assumiu a Gochida. Jungkook compareceu a sua cerimônia de promoção a Capitão, agora o encontrará após seis anos.

No Promenade – um salão grandioso e arredondado, nivelado por escadas e passarelas que levam para o teto transparente com vista para as estrelas do lado de fora –, avistou-o conversando com alguns integrantes de sua tripulação. Quando distraidamente se virou, encontrou os olhos do Comandante da Estação e sorriu. O tempo parece estar ao seu favor, já que pouco envelheceu. Agora, tem fios grisalhos entre os fios castanhos penteados para trás e a covinha, antes pouco perceptível em sua bochecha direita, está mais funda devido a notável perda de peso. Park continua elegante e gracioso. O jaleco preto sobre o uniforme azul denota sua autoridade na área da saúde.

— Doutor – Jungkook o cumprimentou.

— Jeon Jungkook, só de te olhar consigo fazer um diagnóstico da sua situação deplorável – o abraçou.

Realmente, não está em sua melhor forma. Daqui a pouco cabelos brancos irão saudá-lo pelo espelho todas a manhãs. Tem dormido pouco e se alimentado de forma exagerada. Não devia mais recusar os convites da Tenente B'Rey de ir à academia estimular um pouco de adrenalina em si.

— E como está sendo comandar a Salus? – Jimin perguntou, enquanto caminhavam para o restaurante mais próximo.

— Exaustivo e potencialmente criminoso – disse, aos sopros.

— Mais que em uma nave estelar? – perguntou o outro. Se sentaram numa mesa perto do meio.

— Sinto falta das anomalias espaciais – selecionou um drinks qualquer no painel da mesa.

O médico riu.

— Quanto tempo? – apoiou o rosto na palma da mão.

— Vai fazer dois anos de puro sangue e suor – não é muito, mas é o suficiente para se cansar.

— Me pergunto o que te fez ficar assim – Park o encarou, intrigado.

É uma boa pergunta que nem Jungkook sabe responder. Com certeza algo o transformou nisso. Quando aceitou o comando, era confiante e enérgico. Estar a frente da primeira Estação Espacial tão longe do território da Federação de Planetas Unidos com o objetivo de impulsionar a área pouco conhecida atrás do território romulano o animou. Os primeiros messes foram bons, deve admitir. Mas depois começaram a vir as espécies interesseiras querendo se aproveitar da proximidade com o Quadrante Delta, dos planetas desabrigados e da debilitada Nova Kron. Klingons e cardassianos estão sempre rondando pela região; já teve casos de romulanos espiando e breens, que ainda são um mistério suas motivações.

É difícil manter a ordem num lugar tão grande. Felizmente, tem a Tenente caitiana B'Rey – responsável pela segurança – e o humanoide ruivo que se aproxima de Jungkook e Jimin. Um el-auriano alto de mesma patente que o Oficial da Frota, porém relativo à sua espécie. Ele sorriu quando o Capitão da Gochida se levantou.

— Desculpe não ter ido recebê-lo, Capitão Park – apertou-lhe a mão. — Sou o Oficial de Diplomacia Lanthe Pafir.

— Prazer. Pode se referir a mim como doutor – ambos se sentaram.

— Ficará para a Cerimônia de Promoção de Jungkook? – perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Ah, é verdade – olhou para o próprio. — Tinha me esquecido – o Comandante o fitou irritado, ele riu.

— Não precisa ficar – se recostou na cadeira.

— Claro que preciso. Taehyung, Najok e Yoongi estão vindo para cá, não vou ficar de fora – apertou o braço de Jungkook sobre a mesa.

— Ora, aqui estará bem cheio nos próximos quatro dias – comentou Lanthe, animado.

— As naves de transporte já chegaram? – Jeon se surpreendeu.

— Estava inspecionando quatro há pouco. Chegarão mais duas amanhã, além dos Oficiais da Frota depois de amanhã.

— Posso dormir e só acordar uma hora antes da cerimônia? – indagou ao ver o edosiano com seus três braços e pernas chegando com as bebidas e uns petiscos típicos Axanar.

— Não posso permitir isso, senhor. Preciso de clientes – respondeu Kellus. Os quatro riram e ele se retirou.

— Comandante, me responsabilizarei junto da Tenente B'Rey de tomar conta da Estação. Se prepare para seu dia – falou Lanthe.

— Não acho que o universo se importe com isso – bebericou seu conhaque tellariano.

— Ah, não vou tolerar você sendo pessimista. Pare agora, vai dar tudo certo – ralhou Park Jimin.

— Que bom que está aqui, Jimin. Me poupa o trabalho de ser otimista – brincou e foi agredido pelo doutor.

O resto da "noite" foi de conversas quaisquer sobre suas vidas nesse meio tempo que não se viam. É realmente bom ter um velho amigo consigo no momento. O faz lembrar de quando não tinha tantas responsabilidades, só precisava pilotar a nave e elaborar táticas de fuga nas horas vagas, ouvir os discursos do Capitão Kim – agora Contra-Almirante – em missões ou durante conflitos sérios com outras espécies. Sente falta do entrosamento que a tripulação da Vanguard tinha e que aqui só tem com Lanthe. B'Rey as vezes o assusta, Tera boa parte do tempo o irrita na ala médica, Vont'w mal se comunica com qualquer um fora da engenharia. Provavelmente, a solidão tenha amargado sua alma.



—————————



Na manhã do dia seguinte, levantou-se mais disposto. Afinal, por que desanimar se boas notícias vieram na noite anterior? Passou em sua sala antes de comer algo, lá estavam alguns relatórios de chegada de uma das naves de transporte civil do dia. Voltou a seu objetivo inicial de ir ao restaurante de Kellus comer algo que o deixe satisfeito. Sentou-se na cadeira do balcão e pediu uma porção generosa de torta de Mazar e suco de manga rizari. Comeu tranquilamente, refletindo que talvez hoje não seja um dia tão ruim. Ao seu lado, se sentou uma figura de uma espécie que pouco se deparou na vida: trill. Ele tem cabelos pretos, olhos arredondados e lábios carnudos avermelhados; da testa até o pescoço ou sabe-se lá onde mais, um caminho de pequenas manchas marrons se estende, características da raça. Por um breve momento pensou se ele era um dos selecionados, mas foi só uma ideia boba que passou por sua mente ao se distrair com sua aparência formosa e elegante.

— Na Frota Estelar não há alguma regra informando que é desagradável encarar os outros? – questionou o trill, o mirando de soslaio.

— Desculpe-me – se censurou internamente, porém ao ver um pequeno sorriso se formando no rosto alheio, acrescentou: — Fiquei curioso para saber até onde vão essas pintinhas.

Ele se virou totalmente para si, com escárnio.

— Esse é um dos piores flertes que pode dizer a um trill.

— Nunca me interessei por outros antes, como poderia saber? – Jungkook também se virou.

— Você é corajoso, humano – riu.

— Faço parte da Frota Estelar como notou, trill – retrucou.

— Não estou familiarizado com as divisões – se ajeitou na cadeira. — Devo me atentar a cor do uniforme ou aos detalhes no pescoço?

— Nos dois e no que mais te atrair – Jungkook sorriu de lado. Faz tantos anos que não flerta com alguém, nem sabe por que esse trill o atrai, entretanto, não perderá essa chance já que ele está retribuindo.

— Tenente-comandante? – perguntou, tentando parecer indiferente.

— Comandante – respondeu devagar. — Da Estação.

— Ah, Comandante Jeon Jungkook – falou, pensativo.

— Jornalista? – também arriscou.

— Viajante despreocupado – negou com a cabeça. — Mas chegou perto, quase fui jornalista.

— É, o que o impediu? – Jungkook já estava tão vidrado nos olhos alheios que conseguia ver constelações no cintilar das irises castanhas escuras.

— As pessoas – disse, simples, vendo que a bebida já estava a sua espera no balcão.

Jeon se sentiu um pouco constrangido pela resposta. Tocou num ponto delicado, ele deve ter sido selecionado. Sua vida mudou graças ao simbionte que carrega, todas as experiências de outras vidas. Não consegue imaginar como é isso e nem deve ousar julgar. É um processo muito importante para a espécie, mesmo que exista quem não concorde.

— Por que essa cara, hein? – o trill voltou a fitá-lo. — Não vai perguntar o meu nome?

— Se quer que eu saiba, deve me dizer de uma vez. Assim acelera as coisas para nós – retrucou, direto.

— Quer apressar as coisas? Não seja afoito – o criticou.

— Por que não? Sua estadia aqui é temporária – Jungkook passou o braço pelo balcão para ficar numa posição mais confortável de conversar com o outro. — Quando se disporá a atravessar a galáxia para nos vermos novamente?

— E por que não me convence a ficar? – um brilho misterioso cobriu suas irises.

— Não posso desviá-lo do próprio curso – por mais que o interesse esteja crescendo, fantasiar algo profundo é loucura.

O trill riu e foi lindo.

— E nem eu do seu – ele falou pensativo outra vez, olhando para o copo de bebida laranja. — Pode me chamar de Jin – voltou sua atenção ao Comandante.

— Não é seu nome verdadeiro – desconfiou, semicerrando os olhos.

— Não – crispou os lábios, contendo o riso.

— É um criminoso procurado? – indagou, ladino.

— Não vai querer perder seu tempo tentando descobrir o que sou no pouco tempo que temos, Oficial – o capturou com os olhos.

É incapaz de desviar. Há algo além do encanto em Jin. Impossível que somente sua beleza o tenha atraído, por mais que seja verdade. No entanto, tem mais. Ele não parece ser um trill qualquer, mesmo que um selecionado a portar um simbionte. Sua aura é distinta e forte. Jungkook já se deparou com espécies bem incomuns, reconhece quando o singular está diante de si. Jin é essa singularidade universal. Onde que um trill é viajante? A raça sempre tem alguma função a exercer em sua própria sociedade ou em outras. Não pode deixá-lo escapar por hora.

— Bom dia, Jeon – ouviu Jimin atrás de si o cumprimentar.

Girou para retribuir e, quando voltou-se para Jin, ele havia saído e atravessava a entrada do restaurante. Pensou em segui-lo, mas só suspirou em frustração. Em outro momento, Jungkook. Salus não é tão grande assim.

— Obrigado por espantar minha companhia de café da manhã – resmungou, sentando-se direito.

— Você teve anos para se envolver com alguém e agora que estou te visitando por poucos dias, você decide paquerar? Que desconsideração – fez um muxoxo.

— Calhou de ser agora. Não controlo o destino, doutor – refutou, lembrando do resto da torta que pedira.

— Destino... Fala como se estivesse apaixonado – zombou. Jungkook ficou em silêncio. — Não. Jeon, não. Amor à primeira vista? Sério? – Park esboçou uma careta incrédula.

— Eu não disse nada. Não suponha absurdos – encheu a boca, enquanto o outro ria baixo.

— Sinceramente, é possível. Pode ser um sinal de boa sorte e que melhorará esse humor péssimo que eu preferia não ter conhecido – Jimin tomou uma colherada de sopa.

— Então, nunca esteve pronto para conviver comigo – Jungkook falou de boca cheia.

— Você quer dizer aqui na Estação, não é? – o mirou, piscando.

— Com certeza – apontou lhe o garfo e ergueu uma sobrancelha.

Após a refeição matinal, o Comandante foi limitado por Lanthe a revisar relatórios e andar pelo Promenade a troco de nada. Ele está mesmo levando a sério o que dissera na noite anterior. Acabou por avistar o trill de mais cedo, observando lojas de acessórios multiculturais.

— Infelizmente, ainda não há suvenir específico da Estação para levar consigo – proferiu ao se achegar ao lado de Jin.

— É mesmo? E você não pode me providenciar um personalizado? – ele continuou a olhar para os braceletes el-aurianos.

— Posso pensar em algo na frente do sintetizador – Jeon o acompanhou pela loja.

— Você não sabe mesmo flertar – disparou Jin.

— Então, me ensine – tentou ficar na frente dele, mas foi dispensado por uma esquiva bem executada, andando para outra direção.

— Devia ter dito que poderia providenciar um suvenir inesquecível, que ninguém jamais conseguiria tirar de mim. Por exemplo, uma lembrança especial – finalmente o olhou. Mirou-o bem nos olhos, gerando um breve pânico no Oficial.

— Isso é... muito romântico – correu atrás dele, apesar do breve susto.

— Pensei que fosse uma pessoa romântica – Jin saiu da loja.

— Por quê? – o alcançou, pondo-se ao lado.

— Seus olhos dizem muito. Mas parece ter perdido esse lado – o trill deu de ombros.

— Leitura ocular, que interessante – comentou Jungkook.

Ele riu de forma engraçada e contagiante, deixando o interior de Jeon agitado. O que esse alienígena está fazendo consigo em pouquíssimas horas? Não pode ser paixão imediata, isso é ridículo. Onde está seu romantismo, Jeon Jungkook?

— Estou realmente gostando de você, humano – disse Jin, ao se virar de frente para ele.

— Posso dizer o mesmo – sorriu um tanto bobo.

— É claro que está, foi você que começou com isso – franziu a testa, rindo. — E eu estou permitindo que continue – seu tom soou sombrio, pois o semblante ganhou seriedade.

Mesmo com esse nuance duvidoso, permaneceu atraente. É o tipo de pessoa que Jungkook não se importaria de ficar nesse jogo de provocação o dia todo. Há algo de excitante no brilho que Jin emite e em sua verdade secreta. Consegue até imaginar que ele possa ser uma pessoa ruim, mas, no fundo, não se importa. Seu coração está a acelerar gradualmente como se fosse uma aventura dentro do desconhecido. Está perto de ser a mesma sensação de adrenalina. É estranho pensar que isso está acontecendo aqui na Estação Espacial Salus, onde quase nada realmente relevante acontecia ou alguém interessante pisava ali. Como isso pode mudar em instantes?

Não pode ser paixão.

— Depois daqui, para onde planeja ir? – perguntou para que a voz alheia continue a soar.

— Já está me expulsando? E eu realmente acreditei que queria passar um tempo comigo – bufou o trill. Um bico bem saliente se formou com os lábios grossos.

— Eu quero, é só uma curiosidade qualquer – tentou remediar, mas o bico é bem fofo.

— Por que não me fala como quer que passemos esses dias juntos? – sorriu de lado, do jeito que dispersou os pensamentos em seu consciente.

— Hã... Eu não planejei nada – foi sincero. — Não esperava ficar boa parte do dia livre. Acho que será assim até a cerimônia. Ordens do Oficial Lanthe – engrossou a voz para imitar o timbre do colega.

— Então, me diz qual é o melhor lugar daqui para você sumir por um tempo – Jin deu um passou em sua direção.

— O último nível do centro da Estação. Depois da engenharia. Lá é perfeito – contou, extasiado.

— Vamos logo – sussurrou, convidativo.

Começaram a ir para lá, quando alguém chamou por Jungkook. Se virou, é Lanthe. Pareceu que ia dizer algo, mas ficou quieto com o rosto fechado. Jeon ia perguntar o que aconteceu, porém foi puxado pelos braços por Jin.

— Não, você não fará nada. Foram ordem dele mesmo – e o arrastou para o elevador.

O comandante ainda estava confuso, só que se distraiu com o trill se arrumando pela parede metálica espelhada. Não parava de mexer nos cabelos jogados para trás até notar que está sendo observado.

— Não posso ter um momento de intimidade antes de compartilhá-la com você?

Jungkook quase se engasgou com o nada. Seu rosto deu sinais de combustão espontânea e o coração não queria mais ficar em seu peito. Por que está ficando nervoso? De certo modo, é o que quer. É o que pensou em acelerar para aproveitar cada momento juntos na Estação. Faz muito tempo que não faz nada parecido. Tem de relaxar. Para o bem dos dois e para que funcione.

— Não precisava ter feito aquilo – comentou para desviar a própria atenção.

— Precisava sim, você sabe – girou, ficando de frente para ele. — Ele não pode desfazer o que diz. O Comandante deve estar bem para a nomeação a Capitão – deu dois passos em sua direção.

— Tem razão – Jeon entortou um pouco a cabeça. — Em parte. Não te disse que é para Capitão.

— E essa não é a próxima patente mais óbvia? – rebateu, como se ele fosse um idiota.

— Sim, é – ficou sem jeito.

A porta se abriu. O corredor em puro metal e telas escutas se estende para uma curva esperada, dado o formato redondo da estação. Jungkook sinalizou para que seguissem por ele. Jin soltou uma divertida risada soprada.

— Quando atravessarmos essa estrada de prata, chegaremos a Oz? – deu leves saltitos.

— Acho que essa Oz não é tão incrível quanto imagina, Dorothy – respondeu intrigado. O trill conhece a estória.

— Faça alguma mágica que me surpreenda – e correu a sua frente.

Teve de fazer o mesmo já que o outro não sabe onde é. Ouviu sua risada infantil e se sentiu uma criança brincando de pega-pega. É tão idiota, mas essa pequena bobagem basta para o afastar das preocupações e da rotina cansativa, o alegrando momentaneamente. Ter de pensar só na figura alienígena que o atrai, deixa seu corpo mais leve e jovem.

— É aí – gritou.

— Aqui? Onde? – Jin desacelerou, com uma feição engraçada.

— Essa aqui – Jeon foi a porta da direita e a destrancou.

Na sala vazia, foram recebidos pela visão mais linda do setor. As paredes de vidro transparente exibem o inóspito planeta Samar, classe K, que está em análise para passar por terra formação. Uma linda esfera majoritariamente amarelada com polos rosados e tempestades constantes movendo as nuvens esbranquiçadas. O trill parece maravilhado com o que vê. Caminhou lentamente até a parede e se sentou. Jungkook repetiu seu ato, pondo-se ao lado.

— É lindo demais, humano – comentou Jin.

— Eu sei – sorriu. — É o melhor lugar da Salus. Poucos se aventuram até aqui para o descobrir.

— Seu santuário, não é? – sua voz está baixa, como se não quisesse perturbar alguém adormecido.

— De certo modo – concordou.

— Samar poderia ser um deus, não acha? – indagou, nebuloso. — É poderoso e mortal para determinadas espécies, é grande e independente. Surgiu por alguma necessidade universal, não sabe seu propósito, mas se mantém, existindo só para si.

— Está se identificando com ele? – fitou seu belo perfil iluminado.

— De certo modo – repetiu a fala do Comandante, sorrindo.

— Por quê? O que há em comum?

— Vim de algo grande, faço parte do todo. No que meu poder e conhecimento agregam? Devo somente intervir de forma arrogante no que me der vontade como o que querem fazer com esse planeta ou seguir a corrente? – os olhos correram de um lado ao outro rapidamente.

— Acho que está divagando demais – Jungkook estranhou sua linha de raciocínio.

— Sim, estou. Uma coisa não tem a ver com a outra – Jin fechou os olhos.

O Oficial mordeu o lábio inferior. Mais uma conversa que o deixou desconcertado. Só vacila quando raspa na vida particular dele. Não quer ser intrusivo, quer respeitar o direito do outro de não se revelar. No entanto, ainda quer saber uma coisa.

— Desculpe, mas eu...

— Quer saber se carrego aquele bichinho – completou. — Quer saber se sou a mesma pessoa que vê, o simbionte ou a junção dos dois – o encarou. — Tudo bem. Não sou o que vê, mas também sou. Criei minha própria identidade.

Apesar de ainda inexplicada, Jungkook gostou da resposta. Provavelmente, Jin é justamente um viajante para encontrar a si. Deve ser complicado abrigar tantas vidas e conciliar com a própria. O respeito por ele só cresceu. É preciso ser muito forte para suportar isso. Seu rosto gracioso e personalidade descontraída não merecem isso.

As forças de seu desejo o levaram a tocar a face do trill, acariciando as bochechas. Logo, aproximando-se para um toque delicado dos lábios. Não importa quantos anos, experiências que tem ou sua biologia resistente, Jungkook não quer despedaçá-lo com sua força. A suavidade do contato, o sentimento de tranquilidade ao resvalar na língua alheia, é quase puro. Foi puxado para mais perto e envolto pela cintura. Seu coração acelerou, vai mesmo acontecer aqui. Não está tão preparado quanto imaginou, talvez só acontecesse em outro dia. Mas não quer parar. Jin está subindo os dedos para seu pescoço, brincando com o colarinho. Jeon massageou lhe a nuca e intensificou o beijo. Ouviu um botão de seu uniforme soltando, se separaram. Teve de mirar bem nos dele para entender a resposta flamejante em suas irises.

A vista do planeta Samar foi o cenário do caloroso ato de ambos naquela tarde. Dois dias antes da cerimônia.



—————————



Jungkook acordou com um legítimo bom humor. Tudo melhorou quando foi presenteado com café da manhã na cama. Jin o acompanhou até lhe dando de comer na boca. Extremamente surreal terem chegado a esse ponto de um dia para o outro, mas não vai reclamar. O trill é estonteante, divertido. Quem sabe, tente convencê-lo a ficar mais tempo.

Os dois foram para o Promenade, circular um pouco. Passaram por algumas lojas na área comercial nos dois níveis acima, porém nada os chamou a atenção mais do que um pelo outro. Decidiram, por fim, subir os níveis restantes para admirar o brilhante espaço lá fora. O comandante não parava de sorrir abobalhado por ter a mão segurada por Jin durante o caminho. Está vivendo um romance do qual jamais imaginou que teria nessa idade. Sentaram-se em um banco onde a parede atrás lê as reações corporais e as expressa em cores que bruxuleiam desformes. No momento, está rosa, azul e amarelada.

— Para de me olhar dessa forma – o trill riu, nervoso.

— Assim como? – estudou sua face avermelhada.

— Como se estivesse apaixonado – franziu a testa.

— Provavelmente estou – Jeon respondeu brincando. Ou não.

— Você é um idiota – desviou o olhar.

— E você é lindo – entortou a cabeça, buscando os olhos dele.

— Literalmente acordou falando isso – revirou os orbes castanhos.

— Não finja que não gosta – Jungkook mexeu numa mecha alheia, o admirando.

— Eu não gosto – o encarou, sério. — Eu adoro – e sorriu largo.

O humano tolo que, coincidentemente, é Oficial da Frota Estelar, poderia passar o resto de sua vida apreciando o alienígena a sua frente. Sim, está apaixonado. Por que negar para si? Viva o hoje, Jeon Jungkook.

— Até quando vai continuar com essa brincadeira, Q.

Lanthe surgiu do nada. Ou Jungkook estava tão disperso que sequer notou. O brilho de Jin se esvaiu, deixando sombras em seu rosto. O el-auriano não estava muito diferente, mas tinha raiva misturada na face. O que está acontecendo? O trill foi perdendo suas pintinhas ao se levantar e fitar o Oficial Diplomático.

— Até quando eu quiser – sibilou. — Vocês fazem o mesmo e não são julgados.

— Não interferimos de forma drástica como vocês, Q – Lanthe trincou a mandíbula.

— E aquele salto temporal? – Jin proferiu com escárnio.

— Não ouse – o ameaçou.

— Você que começou, el-auriano – disparou.

Lanthe tentou agarrá-lo, mas ele desapareceu no ar. Jeon apenas observou a discussão sem ter o que dizer ou reagir. Foi enganado. Jin não é Jin, muito menos um trill. Tudo que disse foram mentiras. Tudo que tiveram foi um jogo maldoso. Entrou para a lista de piões descartáveis no tabuleiro dos Q. Como pode ser tão burro?

— Vamos para sua sala agora – Lanthe o acordou para a realidade. Andaram em silêncio até que a porta da sala se fechasse atrás deles.

— Por que não me impediu naquela hora? – Jungkook se lembrou do dia anterior quando o diplomata o viu com Q.

— Eu sinto muito. Não soube como lidar da melhor forma – abaixou a cabeça, arrependido.

— Você sabe como ninguém como os Q são! Como pode não pensar no perigo que... Ele... É para essa estação – foi perdendo o ar. Imagens do pouco tempo que ficou com Q piscaram em seu cérebro.

— Por favor, Comandante, se acalme – recomendou Lanthe.

— Me acalmar – riu sem graça. Deu a volta pela mesa e se sentou em sua cadeira. — Eu estava sendo usado por um Q! – respirou fundo para não derramar as lágrimas que ameaçaram cair de seus olhos confusos.

— Todos nós já fomos, Jungkook – respondeu o el-auriano, frustrado.

Jeon não pode jogar toda a culpa nele. Os Q são imprevisíveis, mais cedo ou mais tarde "Jin" agiria. Lanthe só não quis ser precipitado, é de sua natureza se limitar a observar e ouvir. Os nativos de El-Auria são humanoides de tamanha longevidade. O diplomata ruivo pode não parecer, mas tem quatro vezes a idade de Jungkook. Há outros que possuem séculos de vida. A espécie chegou perto da extinção por causa dos Borgs que os assimilaram em busca de sua habilidade única: viajar no tempo. Por esse mesmo motivo, a raça pode ter sido uma das primeiras a chamar a atenção do Continuo, a corte suprema dos Q – seres onipotentes e oniscientes que brincam de ser deuses com arrogância. Existe uma tensão entre ambos que ninguém jamais explicou, muito menos a capacidade de el-aurianos identificarem Q. Provavelmente, não seja algo compreensível para uma mente limitada como a humana.

Agora, a situação está bem esquisita. Jungkook sente seu coração craquelando a cada segundo, mas seu cérebro trabalha no porquê Q estava ou ainda está na Salus. Por que aceitou se envolver com ele? Humanos sempre foram taxados de insignificantes por esses seres. Brincar com uma espécie tão pequena não faz sentido; brincar com um coração cheio de sentimentos patéticos para as entidades super racionais é muito fútil. Já devem ter feito isso há séculos. Não, milênios. Qual o verdadeiro motivo? Jungkook é só mais um Oficial ordinário da Frota; uma pequena célula dentro da Federação Unida de Planetas; uma molécula dentro da vastidão do universo. Não faz sentido escolhê-lo para ser massacrado emocionalmente. É um jogo muito maior e complexo, só estava no meio do caminho para ser uma distração de leve.

— Tenho uma teoria – Lanthe fez Jeon levantar os olhos. — Ele quer impedir sua promoção.

Foi encarado por longos segundos pelo olhar cortante do Comandante.

— E por que isso importa para ele? – indagou, inconformado.

— Ele sabe o que vai acontecer e quer atrapalhar – retrucou, sisudo.

— Farei algo grande no futuro? Difícil de acreditar – Jungkook desdenhou. — Essa Estação que é importante. Eu sou substituível.

— Obviamente que não, senhor – o ruivo perdeu levemente a paciência. — É o primeiro delegado a comandar Salus. Não o escolheram de qualquer maneira, acreditaram em seu potencial de lidar com uma Estação num setor quase abandonado entre dois dos territórios das espécies mais poderosas da galáxia e ao lado de um quadrante ainda pouco explorado. Um Comodoro poderia estar aqui, mas escolheram o senhor. E a forma como enfrentou os breens e defendeu Nova Kron foi além das expectativas – seus olhos brilharam como topázios. — Comandante, eu reconheço um ser destinado a grandeza quando vejo um. É impossível que o senhor não veja que já está fazendo algo grande.

Jungkook ficou sem graça. Lanthe já o elogiara antes, mas nada nesse nível. Passou por diversas situações perigosas, quase morreu mais vezes do que ligou para os pais, mas isso não é o que todo integrante da Frota Estelar passa? Nenhum deles está totalmente seguro. Com ou sem alienígenas ameaçadores, o espaço oferece fenômenos inexplicáveis a cada ano luz. Ele não é especial. Se um Q está aqui, é porque a verdadeira pessoa especial está na Salus. Não duvida da percepção de Lanthe, porém também não quer se destacar dos demais humanos a esse ponto.

Suspirou lembrando dos relatórios de capitães que já se encontraram com algum Q. Foi bem diferente, eles chegavam controlando tudo. O que o Q "Jin" fez foi pessoalmente invasivo. Como se quisesse afetar alguém estando com o Jeon. Mas quem seria afetado? Não há ninguém tão próximo dele nos últimos anos que possa ter feito algo a um Q ou que seja especial.

— Você não acredita em mim – o semblante do el-auriano murchou.

— Para ser sincero, não. Estou longe de ser como o Almirante Sisko – soltou uma risada fraca.

— Se tivesse sido dito pelo Doutor Park, você acreditaria – sua voz saiu amarga.

— Provavelmente – piscou lento. Lembrou de anos atrás quando o médico voltou de uma missão com Kim Taehyung e Najok. Uma entidade cósmica havia revelado sua ligação cósmica com o Capitão da época. Não parava de falar aos quatro cantos sobre isso e até foi comprovado de diversos modos que eles estão em sintonia. Talvez não seja algo místico como contou, porém é uma linda relação. Se as palavras de Lanthe saíssem de Park Jimin, ele acreditaria por já ter visto acontecer coisas mágicas com o próprio.

— Tudo que eu queria era que você confiasse em mim, Comandante – lamentou o diplomata.

— Eu confio, nunca duvide disso – Jungkook foi denso. — Mas é diferente ter a mesma crença que você.

— Então, espero que possa confiar em si mesmo – disse, entristecido.

Ouvir isso dele o desanimou. É mesmo uma deficiência Jeon não ser tão confiante quanto alguns pensam. Coragem para bater de frente com o perigo é reflexo ao sentimento de medo. É isso que Jungkook tem, medo. Entrou na Academia da Frota por medo de ter uma vida sem graça; se dedicou a cada prova e teste por medo de não conseguir fazer parte de uma tripulação e ter sua tão esperada aventura no espaço; buscou subir de patentes por medo de ser o único que nunca esteve numa missão em prol da paz nas relações da Federação; aceitou comandar a Estação Espacial Salus por medo de se arrepender de não fazer parte desse avanço histórico para a Federação; lutou contra os breens por medo que outra tragédia se repetisse no planeta Nova Kron; investiu em "Jin" por... Por que mesmo? Não foi por medo. Foi bem banal.

Fui induzido.

Mas induzido como? Sua aparência o atraiu, sua aura surreal o encantou. Aquilo fora algum poder? Pensa que sim, contudo, não sente que seja. Pareceu natural. Talvez esta fosse a intensão. Mais confusão emocional o atordoou, embrulhando lhe o estômago. Está cansado do dia de hoje que mal começou. Era para terem sido dias tranquilos, agora tudo desmoronou.

— Preciso de um tempo sozinho – finalmente falou, depois de minutos mantendo Lanthe estendido de frente a sua mesa.

Ele se curvou discreto e saiu. Seu respirar entregou que está desapontado. Jungkook também está. Não é culpa de ninguém, só sua. É ingênuo demais para esse universo cruel. As duas horas que ficou introspectivo somente trouxeram de volta o momentos bons com "Jin". Não chegou a lugar algum. Ainda está apaixonado pela personalidade que o Q o apresentou. Devia pensar dessa forma também. E daí que tudo foi uma mentira? Fora bom, aproveitou bastante, pode relaxar. Até agora a entidade não fez nada grave, por que se sentir assim mal se o mal não fora feito em alto grau?

A campainha tocou. Preguiçosamente, concedeu a entrada. B'Rey adentrou às pressas.

— Comandante, a nave dos Oficiais sumiu do radar – informou urgente.

— O que? – Jeon se levantou da cadeira. — Quando foi o último sinal? – encaminhou-se para fora da sala.

— Quarenta anos luz daqui – a Tenente o acompanhou.

— Estavam perto. Ninguém ao redor sabe de algo? – atravessaram o corredor, indo para o elevador.

— Não, senhor. Estamos avaliando se foi interferência, mas precisaríamos ir até onde desapareceram para termos dados mais precisos – a voz rouca da caitiana está aflita.

— Então, que preparemos uma equipe para isso – chegaram ao andar do Controle Central.

Oficiais correndo de um lado ao outro, monitores piscando, hologramas flutuando nas mesas e uma klingon Chefe de Engenharia rosnando a cada resposta negativa que recebe. Jungkook se aproximou com cautela da figura corpulenta de pele marrom, testa grande e grosseira, cabelos pretos longos e presos numa única trança. Não quer apanhar, por mais que a Chefe de Segurança possa protegê-lo. Vont'w o notou, largou o que fazia para quase se jogar para cima dele, não em agressividade por raiva, mas por inconformidade.

— Comandante, eu não sei mais o que fazer – esbravejou. — Precisa mandar alguém lá para provar que meu equipamento não está com problema.

Ah, o que mais esperar de Vont'w? A Tenente Comandante sempre se importou mais com o estado de suas máquinas do que de seres vivos. Ela é bastante obstinada quando a reputação de seus sistemas está em jogo. Não tem o que reclamar, a klingon não perturba ninguém em dias normais, o que é ótimo comparado a outras pessoas.

— Sim, uma equipe irá para lá – assegurou. — Liderada por você.

— O que? Não, senhor! – contestou, pisando firme.

— B'Rey irá acompanhá-la e mais dois de sua escolha – virou-se com a mão erguida, impedindo mais protestos. — Se apressem.

E saiu do Controle. As portas do elevador se abriram com Lanthe dentro.

— Comandante, minha teoria está se provando certa – lançou, esperando Jeon entrar.

— Claro que não. Eu nunca fui o alvo principal – rebateu, sério.

— Por favor, acredite no que digo. Aquele Q quer te prejudicar, Jungkook! – o ruivo vociferou alarmado, enquanto as portas se fechavam.

— Não, Pafir. Acredite no que eu te digo – o Oficial da Frota com vinte anos de experiência fora de seu planeta natal chegou ao ponto de chamar o el-auriano pelo sobrenome. — Aprecio sua preocupação e respeito todo ódio que nutre pelo Q, mas não se esqueça que eu também não gosto deles pela guerra que nos trouxeram, entre tantos outros problemas. Não posso me dar ao capricho de imaginar que é algo comigo. Sou um Comandante da Frota Estelar, nada deve se resumir a mim. É tudo pelo bem da Federação e das espécies sobre nossa proteção. Sendo pessoal ou não, tenho que pensar na opção que atinge o todo – cada palavra fez o diplomata mais alto que ele recuar com as irises azuis hesitantes. — Uma nave cheia de Oficiais renomados de alta patente desaparece e quer insistir que eu sou o alvo principal? O quanto de informação e experiências incalculáveis se perdem com eles e eu sou o alvo? Reflita um pouco, el-auriano – deu lhe as costas.

Ouviu uma risada envergonhada.

— É isso que eu gosto no senhor – Lanthe começou timidamente. — É altruísta, mesmo que se autodeprecie no meio.

— 'Tá brincando comigo? – Jungkook o olhou de esguelha.

— Nunca – sorriu.

— Nem eu – outra voz se manifestou no elevador.

Os dois se assustaram com o surgimento repentino de "Jin", o Q. Sua fisionomia é de um humano, sua expressão é fechada e preocupada. O ruivo se colocou inutilmente a frente de Jeon para protegê-lo. Q se limitou a fazer um muxoxo.

— Você é patético – retorceu o rosto.

— O que quer com os Oficiais da Frota? – Jungkook foi direto ao ponto.

— Com eles? Nada – bufou. — Quero conversar com você.

— Não, você vai sair daqui – anunciou Lanthe.

— Estou falando com Jungkook, intruso – cuspiu.

— Você é o único intruso aqui, Q – empurrou Jeon para as suas costas, dando-o a sensação de ser uma criança indefesa. Obviamente, ele não gostou disso.

— Q nunca são intrusos, estamos em todo lugar – argumentou alguns tons impaciente.

— Onipresentes? Nunca manifestaram isso para outros membros da Frota – observou o Comandante, se afastando do escudo desnecessário do Oficial de El-Auria.

— Posso te falar cada uma das coisas que faltam nos seus relatórios – "Jin" sorriu pequeno.

— Não – Lanthe foi mais incisivo.

— Realmente não abduziu os almirantes? – Jungkook persistiu em fitar os olhos que agora mudam de cor a cada instante. Quer ver se encontra a verdade.

— A Federação pode nos classificar como "alienígenas", mas não somos para você usar essa palavra – arqueou as sobrancelhas em desdém. — E mais uma vez não. Mesmo Taehyung Kim estando lá, ele nunca nos atrapalhou. Lembrando agora, está nos devendo até hoje – pôs a mão no queixo. — Mas não importa, o Q deve ter sido benevolente com eles.

O Contra-Almirante Kim já se deparou com Q? Não há registro sobre em seu nome. Seriam essas informações muito sigilosas? Mais um motivo para os ter pegado. Só que não parece que o fez. Jeon jamais deve confiar num Q, porém quando descobertos ou quando se revelam, Q não mentem sobre suas intenções. Não há registro contrário. Seria loucura confiar, mas, como Lanthe o disse, deve confiar em si.

— E vocês sabem o que benevolência significa? – o ruivo retrucou, ficando vermelho de raiva.

— Nós inventamos essa palavra – "Jin" manteve a postura. Lanthe grunhiu e o Q sumiu. As portas do elevador se abriram para o Promenade. Deviam ter ido para o andar das Salas de Comando. Entretanto, Jungkook decidiu sair da caixa metálica.

— Não foi ele – falou, pensativo.

O diplomata o mirou incrédulo, os lábios balbuciaram até finalmente algo sair.

— Você acredita na palavra dele e não na minha? – contestou.

— Está interpretando do jeito errado – o Comandante balançou a cabeça.

— Não, você que está – e disparou furioso pelo Promenade.

Jungkook somente suspirou. Sua cabeça começou a latejar ao pensar que esse com certeza é seu pior dia na Estação. E falando em pior, precisa ir à enfermaria enfrentar outra dor que prefere evitar ainda mais na situação atual, entretanto, tem de tomar um remédio. Atravessou o Promenade, entrou num corredor largo. Fez uma curva para a esquerda, entrando na ala médica liderada pelo Doutor Tera, um kelpiano esquálido de membros compridos e dedos finos, pele rosada com texturas e protuberâncias nas áreas ósseas mais pronunciadas. Ele está sentado encolhido na cadeira atrás de sua mesa principal. Sussurra algo incompreensível. De sua nuca, espetos de tamanho crescente saem alertando uma única coisa: perigo. São gânglios sensoriais que respondem a elementos ambientais, sinalizando ameaças em geral. Isso acaba tornando os kelpianos cautelosos extremistas, ao ponto de irritar o Comandante em diversos momentos. Às vezes, torce para que o vahar'ai chegue logo e Tera torne-se um médico destemido.

— Doutor – chamou-o baixo, para não o assustar mais.

— Comandante, eu sabia que alguma coisa ruim estava vindo – murmurou. – Os breens perpetuam desgraças. Estamos amaldiçoados!

— Ah, Tera, se recomponha. Você é um integrante do corpo científico. Não diga superstições – revirou os olhos, desistindo de ser cuidadoso.

— Meus gânglios não são superstição – protestou, tremendo. – Olhe a forma misteriosa com a qual os Oficiais sumiram. Eu sabia que não devia ter aceitado vir para o meio do nada – resmungou para sim.

— Certo – Jeon ignorou a última frase. — Pode me dar algo para a dor de cabeça?

Tera prontificou se a lhe injetar um analgésico e recomendou descanso de até uma hora. Depois voltou para a cadeira se encolhendo novamente e rezando em sua língua nativa. Jungkook foi para a própria sala se jogar no próprio estofado. Antes, se comunicou com Lanthe que não o respondeu, mas certamente o escutou.

Realmente não acredita que Q fez algo aos Almirantes. É outra coisa que não sabe por estar longe da maior movimentação da galáxia. Talvez retaliação dos breens, podem ter planejado algo para hoje. Mesmo com avanços tecnológicos absurdos, a comunicação para setores extremos da galáxia é precária. Jeon, ao lado de Lanthe, acaba exercendo um papel político nessa micro sociedade em Salus. Criou vínculos de amizade com El-Auria e Nova Kron; vez e outra se comunica com o território vizinho, o Klingon. Em breve, serão permitidas explorações para o setor ao lado no Quadrante Delta e com a terra formação em Samar...

Não, Jungkook é apenas o Comandante da Estação. Outros representantes ficarão à frente de Samar e da exploração em Delta. Continuará por anos aqui, nessa rodela de metal, até que a Frota o transfira para outro lugar. Não há nada de especial nisso.

E como as coisas ficarão sem os Almirantes? Será um desfalque a nível de guerra. Muitos dos que estavam vindo eram professores na Academia ou tinham aprendizes. Relatórios não equivalem a ensinamentos diretos. Najok e Kim Taehyung tinham a jovem R'nya para criar em Tesnia. Como ela ficará sem os pais? A vida de muitos mudará se outra guerra estourar do nada. Mais familiares se separarão, amigos se perderão e a Frota não terá líderes o bastante no topo. Quem planejou isso foi bem astuto. Mas por que Jungkook não está de fato preocupado? Por que sua primeira ideia foi tomar um medicamento para a dor e relaxar? Que tranquilidade repentina é essa?

Abriu os olhos. Não está mais em sua sala. Está numa praia vazia, de água muito azul e sol quente. No céu, vê a silhueta de duas luas. Está em Risa, o planeta do prazer. É um sonho? Não, sente a brisa fresca e o cheiro salgado do mar.

— Não posso mudar seu ódio por Q, não é? – "Jin" se materializou ao seu lado.

— Q que gerou isso – respondeu, simples, fitando o horizonte.

— Q não se desculpam, sinto muito – disse em tom zombeteiro. Jeon riu, virando-se para ele.

— O que queria na Salus?

— Estava no tédio – deu de ombros. — Tinha acabado de sair de Rômulo e pensei ”Por que não ver o que a Frota anda fazendo?".

— "Ver o que estamos fazendo". Pensei que fosse onisciente – comentou, vendo o outro chacoalhar a cabeça.

— Vocês não conseguem entender algo tão simples sobre nós – soltou uma risada. — "Q" está além de mim. "Q" também é um outro ser como eu. "Q" é uma parte de outro "Q". "Q" é onisciente por agregar os conhecimentos dos "Q" – explicou devagar.

A luz finalmente brilhou na mente do Comandante.

— Vocês são um organismo – arregalou os olhos. — Cada um é uma parte dele, ligados por sinergia, exercendo uma função específica dependendo da necessidade identificada pelo cérebro que é o Contínuo. Um precisa do outro para estar em todo lugar e saber de tudo. "Q" é um único ser, tão grandioso que essa galáxia pode estar dentro dele e você é apenas uma célula andando por aí.

"Jin" ficou satisfeito com sua resposta, afagou seu cabelo com carinho enquanto Jungkook ainda está em choque com suas próprias palavras. Desvendou o mistério de anos, justo ele. E está diante de uma minúscula parte de "Deus".

— O el-auriano não se enganou sobre você fazer algo importante no futuro. Agora carrega uma verdade que ninguém pode saber – seus olhos cintilaram prismáticos. — Também não quero que outros Q me rotulem de "câncer", como o "Exilado". Tenho sua palavra?

O Oficial começou a avaliar sua situação. Seu papel não é importante, é azarado. O universo realmente não se importa com ele. Só que não foi de todo ruim ter conhecido esse Q sedutor.

— Se me falar o que aconteceu com a nave dos Almirantes, você nunca pisou na Estação – sugeriu.

— Ah, aquilo não foi nada – abanou a mão, desinteressado. — Problemas no "paraíso" romulano.

— Causados por você, não é? – pontuou Jeon.

— Em parte, sim – admitiu, piscando de um olho. — Mas era inevitável. Até adiamos um pouco. Não se preocupe, os seus velhotes oficiais estão bem – garantiu.

Jungkook ficou fitando a pele lisa e os lábios corados por segundos. Esse Q ele não odeia. Impossível depois da noite incrível que tiveram. O que é uma pena tudo ter acabado aqui nessa bela paisagem tropical.

— Por que permitiu minha aproximação? – finalmente perguntou.

— Sou onisciente – disse como se fosse óbvio. — Sabia que veria além dos preconceitos.

— Então, toda aquela analogia que desabafou é como se sente – comentou Jungkook.

— Sim – confirmou Q. — Mas eu menti em uma coisa. Não queria ser jornalista.

— Ah, sério? Perdi meu interesse – revirou os olhos.

— Seu humano insolente. Hora de voltar para a realidade.

Teve uma última visão de "Jin" iluminado pelo sol, sorrindo para si de forma terna. O som das ondas sincronizou-se com sua respiração, quando piscou estava de volta a sua sala e o comunicador chamando. Atendeu.

— Senhor, recebemos notícias da equipe da Tenente-Comandante Vont'w – um alferes avisou. Jeon foi ver o que acontecera.

Houve uma explosão no território romulano, enviando ondas de interferência para fora da Zona Neutra. A nave dos Almirantes não foi a única afetada, outras em setores próximos também foram atingidas. Vont'w e B'Rey os escoltaram até Salus em segurança. O susto foi amenizado e nenhum dos Oficiais ficou ferido. Seguirão o combinado, a Cerimônia de Promoção permanece amanhã. E para melhorar as resoluções do dia, Lanthe foi ver o Comandante no final da noite quando se direcionava para o alojamento. Se desculpou brevemente e o desejou boa noite. Eles aparentemente voltaram ao normal.



—————————



Jungkook se distraiu tanto nos últimos dias que esqueceu que devia ter decorado o Juramento de praxe da Frota, mas se virou na hora, diante de seus antigos colegas, amigos e companheiros da Estação no Auditório. Tocando o emblema, proferiu em alto e bom som continuar servindo e honrando o significado de ser parte dos protetores da paz na galáxia. O Almirante Qatos fez seu discurso de aprovação e condecoração, ao final, colocou-lhe mais um pequeno broche dourado no colarinho preto. Agora, é Capitão Jungkook Jeon.

— Tenho permissão para chorar? – Kim Taehyung, Contra-Almirante, com seus longos cabelos grisalhos, olhos delineados e sorriso ladino o cumprimentou após a Cerimônia.

Jeon assentiu. É bom ver o primeiro Capitão a qual serviu sempre presente em cada progresso seu. Ele o ajudou quando foi promovido a piloto e o manteve por perto, quase como um tutor. Kim praticamente é seu pai na Frota e Park Jimin, que se aproximou para um abraço caloroso, como um tio muito querido.

— Não, esse papel é do Yoongi – o Doutor respondeu.

— Ei! – o Comodoro Yoongi Min exclamou a seu lado. — Estou orgulhoso, mas não é para tanto.

Uma risada irrompeu no círculo, chamando a atenção de três no grupo. Najok, Vice-Almirante Xenocientista vulcano-betazoide, esboçava sopros cômicos. Taehyung certamente não se surpreendeu com a espontaneidade do marido, mas Jungkook, Jimin e Yoongi ainda precisam se acostumar com seu o lado de Betazed.

— Ok, já que estão todos aqui – Park mudou de assunto. — Os convido a minha condecoração a Comodoro.

— Depois de Capitão, as outras patentes vêm tão rápido assim? – questionou o Jeon, brincando.

— Preciso aproveitar que estamos juntos, oras – arregalou os olhos.

— Então, também convido vocês para a conferência que Namjoon fará em Izar – Taehyung emendou.

— Ah, sinto muito – Jimin desviou o olhar. — Estarei ocupado.

— Será sobre o estudo anatômico de cinco mil quatrocentas e noventa e três novas espécies que surgiram com a miscigenação – explicou Namjoon. – Muito importante para sua área, doutor.

— Eu te odeio – rebateu. Todos riram.

Outros Oficiais foram parabenizar Jungkook, não parando de chamá-lo de "Capitão". Vai demorar a se adaptar ao novo título. A celebração continuará no restaurante do edosiano Kellus. E, ao se encaminharem para lá, na passarela do segundo nível do Promenade, Jeon avistou uma figura familiar da espécie trill, com suas pintinhas nas laterais do rosto e pescoço, cabelos escuros e olhar condescendente o mirando. Sorriu, na esperança de que esse não seja o último encontro deles. "Jin" retribuiu, sua aura reluziu.

— Capitão – Lanthe o chamou, de cara fechada e desconfiada.

— Vamos – apenas acenou.

Olhou novamente, o Q se foi, mas deixou não apenas um segredo consigo como um sentimento de que disse ter sido inventado por eles: benevolência. E, talvez, um pouco de amor.

25 de Outubro de 2020 às 22:21 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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