u15715377901571537790 Gláucio.

Homem de Deus existe? Ou isso é apenas fruto de uma fértil imaginação? Akira Kawada que o diga! Afinal, há anos sobrevivendo ao recorrente caos conjugal provocado pela dependência química de Mike, o cunhado, ele luta para resgatar Juliana, a esposa, já totalmente imersa nas águas congelantes de um precipício existencial. O casamento de Akira e Juliana sobreviverá em meio a tantos conflitos gerado pela covardia dos seus familiares?! Aonde Akira encontrará forças para vencer a “Noite escura”; a maior prova espiritual da vida de um homem? Descubra o desfecho dessa estória repleta de tensão emocional, suspense com toques de horror, desenrolando em situações que, quando abatem sobre uma família, tais circunstâncias podem desembocar em finais trágicos.


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#mentira #assassinato #conto #deus #religião #dependência-química #violência #crime
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Capítulo 1

Confusão mental, pensamentos excessivamente perturbados, surtos repentinos emancipados por alterações de humores alimentadas por sentimentos nocivos como; medo, insegurança, comiseração culposa e todo um caldo emocional negativo que, vertendo dejetos destruidores na relação conjugal, fribilavam angústias quase eternas no peito tremulante de Akira Kawada. O melhor exemplo ocorreu em 28 de Julho de 2003, era domingo, no relógio apontava três horas da madrugada, foi quando o celular de Juliana, a esposa, (como no último mês tinha se transformado em rotina transtornando as noites em noites cada vez mais insones) regurgitou freneticamente a campainha:

— Alô, minha filha?! É você?! — Aucilene, a mãe de Juliana, trocou o fone de mão e prosseguiu falando afoita — Está acontecendo uma desgraça aqui em casa. O Mike passou o dia inteiro no bar e agora, depois de arrebentar o portão, tá estraçalhando com murros a porta do meu quarto! Ele está me acusando de acobertar as traições da Flaviana, se acredita?! Ele descobriu mensagens comprometedoras dela e um colega lá da fábrica onde ela trabalha, e agora está todo doidão no quintal, ensanguentado, apontando uma faca para todo lado, ameaçando acabar com a própria vida. Pelo amor de Deus, pede para o Akira fazer alguma coisa ou o Mike vai acabar nos matando!

Expressando um semblante se alastrando em cólera, Akira, o marido, explodiu em raivas acumuladas, descarregando frustrações diversas sobre a mulher ainda se sentido atordoada em meio às imaginações desconexas que ouviu a mãe relatar em agudo desespero. Em uma só golfada ele estrebuchou:

— DE NOVO ESSA PORRA, JULIANA?! PUTA QUE O PARIU! POR QUE SUA MÃE NÃO DENUNCIA ESSE TRASTE LOGO PRA POLÍCIA? TODA VEZ É ESSA MERDA! O MIKE APRONTA E É EU QUE PAGO O PATO?! — Juliana Kawada ouvia o trovejar costumeiro e tão recheado de razão, enquanto adiantando-se acomodava dentro da bolsinha azul de Enrico, o filho, o que por ventura viesse a precisar.

Com o semblante tomado pelo desespero, desprezando o que ouvia do marido exaltado, Juliana ia entulhando na bolsinha azul as fraldas, a mamadeira tirada às pressas de dentro da geladeira, o cobertorzinho caramelo personalizado com as iniciais do nome do rebento, e em seguida fuçou na prateleira sobre a pia do banheiro até encontrar o pote do Floratil, posto bem ao lado da caixinha de lenços umedecidos que invariavelmente tanto utilizara nas últimas semanas por causa de uma diarreia que tomou conta do intestino do filho.

— Vamos Akira, por favor...

Logo após ajustá-lo na cadeirinha centralizada no banco traseiro do carro, enternurada, pensando que o marido acalmara, ela confessou:

— Você é um homem de Deus Akira! Mamãe crê que Deus está em você. Ela morre de medo que os policiais venham maltratar meu irmão. Mike, sempre lhe escuta, você sabe disso... — Na verdade, Juliana aguardava ouvir algo de consolo vindo de Akira, mas o que ela ouviu como consolo tirou-lhe o chão:

— ENTÃO QUER DIZER QUE SOU UM SUPER-HOMEM?! É ISSO JULIANA?! MANDA AQUELE MERDA DO SEU IRMÃO IR LOGO PARA O ESPAÇO! VAMOS VER ATÉ QUANDO VOCÊS VÃO USAR ESSA DESCULPA... HOMEM DE DEUS… — Depois de dizer isto, Akira inclinou-se sobre o banco com o semblante frustrado, ajeitando o cinto de segurança logo após ter calculado a rota no GPS que, segundo a voz vinda do aparelho, informaria o trajeto mais rápido até o outro lado de Florianópolis.

Os faróis já apontavam diretamente para o corpo da esposa fechando o portão da garagem, e Akira, com os olhos fixos nas mãos segurando em tremuras o volante do carro, a todo o instante era assaltado por pensamentos de desejos o instigando a uma separação:

“Meu Deus, que família de gente doida! Onde fui me meter?! A Juliana bem que deveria ter atitudes mais coerentes em relação a isso, e não aceitar mais ser sequestrada pela incapacidade da mãe em educar o filho.” Quando Juliana adentrou o carro, ela o encarou com o olhar mais revirado.

— Eu não tenho culpa se na casa dos seus pais todo mundo é perfeito Akira! Japoneses são do primeiro mundo não é? Os brasileiros são do… acho que do terceiro mundo?! — Sarcasticamente e, com o semblante deformando-se, Juliana continuou a vociferar — Minha mãe precisa de mim. Você, como meu marido deveria me apoiar mais!

— APOIAR MAIS? MEU DEUS! CASO AINDA EU NÃO TE INFORMEI, DESDE QUE NOS CASAMOS, E ISSO JÁ FAZ TRÊS ANOS, MINHA VIDA É SERVIR COMO BABÁ DO SEU IRMÃO, JULIANA! NÃO ME VENHA AGORA COM ESSA! PELO AMOR DE DEUS! E AQUELA VEZ QUE O MIKE BATEU A MOTO, BÊBADO DE DAR DÓ, COM AQUELA PUTA ENJOANDO A GENTE O TEMPO TODO? FIQUEI ESPERANDO NO PRONTO SOCORRO UMAS TRÊS HORAS PARA VÊ-LO ENGESSAR O DEDO QUEBRADO DO PÉ, E O QUE ELE FEZ? LEMBRA-SE, DISSO? VOCÊ LEMBRA SIM! TENHO CERTEZA, POIS O ENRICO JÁ ERA NASCIDO, VOCÊ FICOU O TEMPO TODO SEGURANDO ELE NA FRIAGEM ENQUANTO O PEQUENINO CHORAVA SEM PARAR DE FRIO. E O PIOR NÃO FOI ISSO... QUANDO FALTAVA POUCO MENOS DE DEZ PESSOAS PARA SEREM ATENDIDAS, O CANALHA DO SEU IRMÃO SE LEVANTOU E AOS BERROS DISSE EMBURRADO QUE SE NÃO O LEVÁSSEMOS DE VOLTA, ELE IRIA EMBORA A PÉ. E EM VEZ DE FICAR DO MEU LADO, JULIANA, VOCÊ O APOIOU! VOCÊ O APOIOU! ENTENDE A LOUCURA? FUI EU QUE O LEVEI PARA A CASA FRUSTRADO E DEPOIS ERA EU QUE TINHA QUE FICAR PLANTADO NAS FARMÁCIAS COMPRANDO ANALGÉSICOS SEM FIM, PARA ANESTESIAR UMA INFANTILIDADE QUE CORRÓI VOCÊS TODOS POR DENTRO COMO CÂNCER! POUPE-ME, VÁ!

Não aceitando aquela dolorida verdade, Juliana, já partindo para a ignorância, aumentou ainda mais o tom das palavras:

— PRA MIM O SEU POVO SÓ PENSA EM DINHEIRO AKIRA! O QUE SEU PAI, APESAR DE TODO O DINHEIRO QUE GANHOU TRABALHANDO NO JAPÃO, TEM FEITO PARA OS FILHOS OU PARA OS NETOS?! NADINHA DE NADA! O DINHEIRO DELE SÓ SERVE PARA OSTENTAR OS CARROS LUXUOSOS QUE DIRIGE, OU, AS CASAS DE VERANEIO NA PRAIA, E AQUELA ARROGÂNCIA DE DAR NOJO! A VERDADE É QUE VOCÊ NÃO DESEJA O BEM DA MINHA FAMÍLIA! VOCÊ JÁ PROVOU DIVERSAS VEZES QUE QUER ISTO! EU ACHO QUE VOCÊ QUER COLOCAR TODOS OS MEUS PARENTES, PRINCIPALMENTE A MINHA MÃE CONTRA MIM! AKIRA OLHE SÓ, DEIXA EU TE FALAR UMA COISA, MÃE A GENTE TEM SÓ UMA! ALIÁS, MINHA MÃE SEMPRE ME DISSE ISSO, QUE HOMEM TEM AOS MONTES, MAS MÃE SÓ UMA...

Quando Akira discerniu o veneno entremeando o som vibrando nessas palavras, ficou ainda mais enfurecido e estrebuchou mágoas ressentidas que há muitos anos vinham sendo poupadas:

— O QUE MAIS VOCÊ QUER DE MIM MULHER?! O TEMPO TODO ESTIVE AO SEU LADO, AO LADO DO SEU “POVO”, COOPERANDO COM ELES, AJUDANDO EM SUAS DIFICULDADES, TENTANDO DAR O EXEMPLO DE MARIDO E PAI, MAS ATÉ HOJE NADA DISSO SURTIU EFEITO ALGUM! TÁ TUDO DO MESMO JEITO, E TALVEZ PIOR! PARECE QUE ESTOU A CORRER NA GAIOLA COMO UM HAMSTER FATIGADO! MAS ME DIGA MULHER... O QUE MAIS VOCÊ QUER DE MIM?! QUER QUE EU TE DÊ MINHA ALMA TAMBÉM?! OLHE, VOCÊ ESTÁ CAVANDO A PRÓPRIA SEPARAÇÃO E NÃO VÊ! — Tossindo compulsivamente, Enrico acordou assustado em olhadelas para o lado, e começou a chorar um choro fino e cortante que, avolumando ainda mais a tensão entre o casal, era a pausava que ambos necessitavam para encerrar temporariamente o conflito.

— VIU O QUE FEZ?! PÁRA O CARRO QUE VOU PARA TRÁS! — Ela gritou.

Golfadas de vento gelado adentravam sorrateiro por uma pequena fresta da janela, e à medida que o peito do pé esgoelava o acelerador até o limite da lataria, o zumbido reconfortante da resistência do ar anestesiava-os o pulsar das emoções, paralisando os pensamentos sobressaltados, sugando-lhes a energia e os desconectando-os do latejar outrora fibrilando apenas desacertos entre os diálogos. Com os olhos fixos no horizonte das ruas desertas, em seu interior Akira Kawada começou a se humilhar em orações exatamente assim:

— Meu Deus mostre-me um caminho, uma saída, uma solução para esses conflitos que transformam nossa vida nesse inferno?! — Ainda que, suspirando incômodos deste tipo, da consciência que agora cada vez mais o importunava, o marido, mitigando resquícios das frustrações ocorridas e relembradas do passado, olhou pelo retrovisor arrependido e se desculpou com a esposa com o rosto levemente virado, acariciando em apalpadelas o filho adormecido, com os olhos marejando lágrimas refletidas parcialmente pelos flashes luminosos que ora e outra despontavam dos postes de luz:

— Perdão pelo o que eu disse agora pouco,… eu,… bem, às vezes acho que vou ficar louco com esta situação. Olhe amor, ainda não entendo a dimensão do amor da sua mãe por Mike. Compreender as atitudes que ela tem em relação a ele, que ainda julgo inapropriadas, está além da minha capacidade de entendimento. — Após segundos de silêncio, segurando um lenço, Juliana lutava para enxugar as lágrimas que insistiam verter pelo rubor da face, e se esforçando muito para voltar a pronunciar palavras suavizadas, a esposa já se sentindo arrependida, também se desculpou:

— Eu sei que, os dias, os meses, os anos, sei lá… o tempo que temos passado juntos namorando, ou o tempo que já estamos casados, tem sido muito difíceis para você. — Ela suspirou olhando a paisagem que voava além-janela e prosseguiu: — Eu reconheço que realmente não tem sido fáceis. Pra mim nem para você. Você consegue se colocar na minha situação nem que seja um pouquinho?! Também sinto que estou enlouquecendo! Mas ela é a minha mãe! O que eu poderia fazer?

Juliana endireitou o corpinho de Enrico no banquinho e voltou ainda mais ao passado: — Mike se envolveu cedo nas drogas, Akira. Já foi preso, apanhou da polícia, e de bandido na boca de fumo também, e a partir daí decidiu morar com meu tio no interior. Achávamos que o que faltava na vida dele era uma pessoa que o orientasse como um guia, como se fosse à presença de um pai. Infelizmente isso não deu certo para nenhum dos dois. Pelo que Mike aprontou com meu tio, agora é ele que não quer vê-lo nem pintado de ouro! Nosso pai nos abandonou muito cedo. Testemunhei minha mãe chorar vezes sem fim, sempre acuada na escuridão do quarto, ou em relances na cozinha ou na sala que ela se esforçava para esconder as lágrimas que derramava frente à humilhação do abandono de alguém que sequer, nunca enviou um tostão para ajudá-la.

Faltando exatos dois quilômetros para chegarem até o local para onde eles se deslocavam, o celular de Juliana voltou a tocar novamente:

— Alô? Juliana? Pelo amor de Deus, me diga que vocês já estão chegando! — Dona Aucilene e a cunhada estavam aos prantos, resistiam no banheiro travando a porta de madeira arrebentada por socos, ocasionando buracos diversos, apenas sendo sustentada por um pequeno fiapo travando o trinco da fechadura. — Para já com isso, Mike! Para, Mike! — Ao fundo, com as mãos tremendo no volante, Akira conseguiu ouvir claramente os gritos furiosos do cunhado:

— SUAS VAGABUNDAS! É BOM MESMO SEGURAR ESSA “PORRA” COM FORÇA, POIS QUANDO EU ENTRAR AÍ, EU IREI MATAR AS DUAS! ACHAM QUE ESSA PORTA DE MERDA VAI ME IMPEDIR?

Apesar de emocionado com o desabafo da esposa, ao ouvir o cunhado no telefone o sangue de Akira voltou a ferver nas veias. Pisou fundo no acelerador. Forçou os cavalos do motor à medida que trocava rapidamente marcha a marcha e, com as rodas do automóvel voando sobre a pista, ele nem mais se importava com os buracos que ora e outra torturavam os pneus, flexionando à extrema exaustão os amortecedores do carro.

De repente, pipocou um lampejo em sua mente. Buscando consolo, Akira rememorou versículos lidos e exaustivamente meditados:

— Onde está o Senhor meu Deus? De onde virá o socorro, meu Deus?!

Em milésimos dos segundos que se seguiram, Akira sentiu no peito outrora incomodado, o esvaziar paulatino das angústias de antes, e com o olhar serenando em meio à penumbra que já não combinava com o brilho dos olhos ficando incandescente, ele sugestivamente foi amortecendo o pé do acelerador, desacelerando inconscientemente a velocidade do automóvel que, até o momento, era o reflexo perfeito do desespero interior que os consumia.

— O nosso socorro vem do Senhor! — Disse já se sentindo apaziguado.

A esposa, ficando sobressaltada, e não compartilhando com a paz interior que no interior de Akira já se avolumava, estrebuchou em alta voz a ele:

— ACELERA ESSE CARRO OU VAMOS ENCONTRAR DOIS CADÁVERES!

Continua...

28 de Novembro de 2020 às 20:29 1 Denunciar Insira Seguir história
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Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, Gláucio! Tudo bem com você? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Eu achei bem interessante o tema abordado nessa história, escrever sobre um marido que precisa acompanhar a esposa em uma família um tanto quanto conturbada, não é fácil. Ainda mais quando se espelha o homem por ser alguém que segue as diretrizes por ser um "homem de Deus". Falar sobre isso mas ser imparcial, sem tentar que as pessoas aceitem o que você quer dizer porque é o que você acha correto, não é fácil também. Bom, a coesão e a estrutura do seu texto estão muito boas. A narrativa escolhida para a história está impressionante e em alguns momentos eu conseguia imaginar tudo com precisão. A sinopse apesar de não dar muitos detalhes, atiça a curiosidade. A respeito da estrutura, sua história foi alterada para maiores de 13 anos. Quanto aos personagens, ainda é um pouco difícil de se dizer sobre eles, exceto que da pra notar que eles tem problemas que estão sendo um pouco difícil de se superar. Não falo só do lado do irmão de Juliana, mas tem também os pais de Akira. Então eles tem muito a serem trabalhados ainda para poderem viver em harmonia. Quanto à gramática, seu texto está bem escrito, mas tem uns apontamentos que queria te mostrar, em : "conflitos gerado" em vez de "conflitos gerados"; "se acredita?" em vez de "cê acredita?". Também falta de vírgula para separar vocativos de frases, como por exemplo "vamos Akira, por favor" em vez de "vamos, Akira, por favor", "homem de Deus Akira!" em vez de "Você é um homem de Deus, Akira!" então aconselho a você uma revisão um pouco mais minuciosa, porém apesar dos apontamentos não tem nada que dificulte entender o que você queria passar, então você é livre pra corrigir se quiser. No geral foi um ótimo capítulo. Desejo a você sucesso e tudo de bom nessa história. Abraços.
October 24, 2020, 17:47
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