north_king Silva

Um vírus letal dizimou o mundo e fez os mortos saírem dos túmulos para aterrorizar os vivos. No Nordeste brasileiro, um sobrevivente busca uma cura enquanto grupos hostis brigam pelo poder.



Horror Horror zumbi Para maiores de 18 apenas.

#fiqueemcasa #nordeste #Tiradentes #Lampião #zumbis #brasil #pandemia
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Começo do Fim

“Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.”

Ariano Suassuna – O Auto da Compadecida



26 de junho de 2025, Recife, Pernambuco.

Voz30.mp3


Meu nome é... Eu já disse nas outras 29 vezes, não? Ninguém vai ouvir essa merda mesmo, não importa mais. Assim como a vida que tinha antes da peste se alastrar pelo mundo. Já fazem o quê, 5 anos? Um maldito vírus dizimou o mundo todo. Milhões morreram. Ricos e pobres, não houve exceções. E quando pensamos estar próximos da cura, o verdadeiro pesadelo começou. Os laboratórios americanos queriam vender a vacina. Um novo símbolo de poder na hegemonia mundial.

No entanto, invés de propagar imunidade, usaram uma arma biológica com a desculpa de controlar a situação. Esse foi o erro fatal, pois muitos que poderiam ser salvos acabaram morrendo. O Brasil e outras economias emergentes ficaram em segundo plano. Nossos governantes brigavam entre si e pouco se lixaram para o povo. A mídia repassava as recomendações da OMS: QUARENTENA! FIQUEM EM CASA! "VAI PASSAR". Não passou, piorou. As doses da vacina que foram distribuídas em solo brasileiro mataram o povo. O intuito disso era uma macabra "seleção natural" para que a verdadeira cura pudesse chegar aos países de terceiro mundo com grandes populações. As pessoas eram enterradas em valas, como indigentes e lixo. E foram elas que saíram dos túmulos para aterrorizar os vivos. "Os Infectados". Cientistas diziam que isso era resultado de uma mutação.

Fanáticos religiosos gritavam nas ruas anunciando a penitência: "Arrependam-se! O juízo e o fim estão próximos!" 5 anos... Eu estava no fim da minha graduação de ciências biológicas. Um garoto de escola pública, nordestino, mestiço e pobre. Lutei muito pra conseguir uma vaga na faculdade. Meu pai dizia: "O Norte pode ser uma floresta abandonada, mas o Nordeste é o rabo do Brasil. Ninguém se importa com gente pobre." Ao menos ele morreu antes de toda essa merda acontecer. Enquanto eu estou tentando sobreviver nesse inferno. Dor, sangue, cansaço, fome e sede. Tenho que lidar com o infortúnio de estar vivo, embora a morte esteja ali na esquina, me esperando de braços abertos como uma prostituta.


Cinza, sempre detestei essa cor. Um meio termo e ambiguidade. Podia ser citada como pedaços queimados de um cigarro ou restos de um ser humano. Essa cor entre as nuvens anunciava que o céu iria chorar em breve. Ah sim, também chove no Nordeste. Recife tem algo bem único, ou você enfrenta um calor infernal ou se previne de chuvas que parecem um segundo dilúvio. Nublado, aquele maldito dia me aguardava. Liguei a moto, uma antiga Honda de 120 cilindradas. O vermelho desbotado deu lugar ao marrom da ferrugem, mas ela tinha duas rodas e era rápida, isso era mais que suficiente. Por agora eu precisava de suprimentos. Os grandes supermercados tinham sido saqueados e depredados. Os mercadinhos de bairro? Eu já vi um ser queimado inteiro. A fome enlouquece as pessoas. A única diferença de um Infectado é que os vivos soltam berros e palavrões.

Minha alternativa era rondar a cidade, verificar casas, postos de gasolina e com sorte, algum mercadinho. Fiz uma pequena horta e conseguia me manter com alguns legumes, mas uma feijoada enlatada até que não seria tão ruim. Ainda que eu não pudesse me dar o luxo de desperdiçar recursos, mesmo que fosse um asqueroso miojo. Além disso, eu procurava por medicamentos, roupas, facas e combustível. Tudo aquilo estava na lista, mas eu sabia que facas boas eram tão raras quanto um achar bife de primeira e armas de fogo como água num deserto.

Parei em frente a um posto de gasolina. O letreiro ainda piscava hesitantemente, embora o M do "MEGA" estivesse apagado. Reabasteci o tanque. O preço nas bandeiras era extremamente abusivo, mas ninguém se importava com os impostos e o preço do dólar agora. Consegui colocar dois galões no baú da moto. Olhei ao redor. A rua estava deserta, mas não vazia. As árvores quase tomavam toda a pista. Havia mais verde do que jamais houvera antes e o som dos pássaros era muito mais evidente agora.

Caminhei até a loja de conveniências e notei que a porta de vidro temperado estava quebrada. Um buraco grande aparecia onde outrora havia uma tranca de metal. Ao redor do vidro, manchas de sangue marcavam presença. Secas e com um vermelho escurecido, já estavam ali há algum tempo. Elas decoravam a porta como um convite ruim de boas-vindas. Com a mão esquerda, tirei o facão da bainha de couro improvisada no cinto. Adentrei após empurrar a porta com a mão direita. Não havia ninguém lá dentro, embora eu tivesse certeza que uma pessoa tinha morrido ali ou no mínimo, saiu gravemente ferida. Brigas por comida geralmente terminavam em morte e aquele cenário não era nenhuma surpresa.

Não sobrou muita coisa na loja. Alguns salgadinhos murchos, doces vencidos cheios de formigas e umas revistas pornô. Olhei no balcão e notei que o caixa aberto tinha grana. Uns 200 reais completamente inúteis. Ninguém que estivesse vivo podia fazer coisa alguma com dinheiro. Hoje, até um pão dormido tinha muito mais valor. E pensar que há pouco tempo pessoas matavam e até vendiam o corpo por esse maldito papel me deixava enojado.

Meus melhores achados foram três garrafas de água e um álcool 46%. Os freezers há tempos tinham pifado, mas água era água, ainda que não tão refrescante. Pouco depois saí da loja e coloquei a faca na bainha. Senti algumas gotas caírem sobre meu cabelo crespo e minha velha jaqueta jeans. As nuvens soltaram suas lágrimas. Estas logo ficariam mais fortes, sinalizando que meu tempo ali tinha que acabar. Então veio um barulho... Um som que escutei bastante ao longo desses cinco anos.

Aquele grunhido ficava mais intenso a cada segundo. Levei a mão direita ao cinto e desenrolei o chicote. Uma longa corda de couro com um aguilhão de metal na ponta, uma lâmina fina e afiada, tal como um ferrão de escorpião. Diante dos meus olhos, lá estava a maldita Peste em carne e osso. Uma mulher com a pele acinzentada e apodrecida estava se aproximando da moto, vindo em minha direção. Olhos cinzentos e sem vida me fitaram. Sua mandíbula era exposta, lhe faltavam dentes e os poucos que restavam na gengiva eram pretos. Ela manteve a boca aberta, rosnando e babando. Comecei a girar o chicote que rodopiava no ar, e em seguida golpeei o chão, fazendo um forte estalo.

O golpe arrancou um pedaço do concreto no processo. Ela reagiu ao som com um urro e correu até mim. Girei o chicote mais uma vez e o lancei. Ele a atingiu como um bote potente de uma cobra, o aguilhão perfurou o olho esquerdo atingindo o crânio. Eu o puxei e a mulher caiu. Pude ver uma parte do cérebro podre cair junto com ela. Dei alguns passos e observei brevemente as margens da estrada. Passei álcool no aguilhão do chicote, o enrolei e prossegui até a moto. No entanto, outra mulher me aguardava. Distante, a silhueta turva feminina ia tomando forma até que tive uma visão nítida dela.

Ao contrário da Infectada, esta tinha uma cor acastanhada bem viva. Era uma mulata bonita, seus cachos negros e volumosos ficavam na altura do pescoço. Se aproximou graciosa e ameaçadoramente pela estrada esburacada e cheia de lama. Trazia nas mãos erguidas um 38 e referiu-se a mim por um nome. Um apelido na verdade, mas não qualquer apelido. Não como aqueles nomes bobos de infância, e sim do tipo se enraíza em você e as pessoas te reconhecem por ele como se fosse seu nome de verdade. Eu odiava esse apelido. Me chamo João. João da Silva. Mas durante esses 5 anos, ganhei um outro nome infame. Enfim, a mulata perguntou com mais ênfase.

— Responde cacete! Tu é o Lampião?!

14 de Agosto de 2020 às 21:07 9 Denunciar Insira Seguir história
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J Carreir J Carreir
Primeiramente: Uau! Como um aspecto fascinante da boa leitura, pude facilmente visualizar as cenas descritas, com a riqueza de detalhes sólidos e verossímeis, com os quais descreveu o cenário, incluindo a perspectiva e sensibilidade do João da silva ( rs ) coincidência não?! Confesso que não havia dado oportunidade a obra, por nao conseguir visualizar uma narrativa atraente com esse tema sendo abordado aqui no Brasil, mas isso é consequência da mesmisse de cenários apocalípticos se passando em USA e Europa. Felizmente, me interessei ao notar a presença de um personagem que muito me interessa^^ Estou extremamente satisfeita com a leitura. E muito interessada nos próximos capítulos*-* Parabéns! Está muito boa, bem escrita e instigante (⌒_⌒)
June 01, 2021, 13:48

  •  Silva Silva
    Olá! Realmente o gênero zumbi tem caído na mesmice faz tempo, e acho que mesmo Silêncio tenha alguns clichês, mas fico feliz que tenha tido uma primeira impressão bem positiva. Agradeço o carinho e até a próxima ❤️ June 02, 2021, 18:31
Sabrina Ternura Sabrina Ternura
É extraordinário o que você conseguiu construir nessa narrativa. A ambientação, a personalidade do personagem e cada elemento presente no texto, conseguem fazer uma imersão completa do leitor. Me senti ao lado desse protagonista, acompanhando cada um de seus passos, observando a devastação... É uma obra que cai como uma luva para os tempos que estamos vivendo. Obrigada por compartilhar conosco! Vou ir correndo ler o próximo capítulo! Parabéns ♥
April 01, 2021, 02:20
Felipe Hasashi Felipe Hasashi
Primeiramente, parabéns pela incrível e total narrativa de imersão que você com maestria soube me cativar e prender logo de cara, sempre achei arriscado narrativas em primeira pessoa e pode crer que muitos autores caem em armadilhas por não saber interpretar seu respectivo protagonista, o que obviamente não foi seu caso e cada ação, cada vislumbre, cada pensamento do João foi elaborado para fugir tanto do clichê do sofrido herói num mundo apocalíptico como para me identificar de imediato com ele. A gravação do áudio, um diário sonoro, relatando as agruras, diferenças de classe num momento frágil da humanidade, a alusão à incompetência dos governos em administrar uma cura, o cotidiano brutal onde o pouco é ouro e até o dinheiro tornou-se algo sem valor, tudo isso unido ao drama pessoal do João construiu rapidamente um sobrevivente duro, realista, engajado mais a sobreviver do que sonhar, acreditar em dias melhores e numa cura e com essa identidade, você com poucos parágrafos deu uma aula de como estabelecer um bom protagonista sem textões e passados super detalhados. A brutal cena do chicote com a lâmina a perfurar o olho da pobre zumbi, a chegada ao bagunçado posto de combustível, a velha moto companheira, sua única locomoção "segura", tudo isso contribuiu para uma realidade suja, sofrida, e vou te ser bem sincero, durante essa nossa pandemia, raras são as obras que tratam muito bem desse assunto que estamos esgotados de ouvir e presenciar e imagino que pra você é uma experiência diferente de produzir um tema assim que nos aproxima muito dessa ironia maior toda. Eu tenho fugido um pouco de histórias de pragas por estar realmente cansado de ouvir sobre praga, mas quando a Estella me contou sobre a qualidade da sua obra e me deparei com esse início perfeito, meu pensamento até mudou kkkk... Simples, cativante, direto ao ponto, com a nossa nação de fundo, uma abordagem excelente e um exemplo de que o nosso solo pode sim ser um magnífico cenário de boas tramas, você deu um novo sentido ao batido enredo zumbi, inovando e encantando. Parabéns meu amigo, até o próximo! :)
February 15, 2021, 11:14

  •  Silva Silva
    Opa, cara, valeu mesmo por esse comentário. A ideia veio do meu tédio durante essa quarentena e mano, espero que continue curtindo, agradeço também a Estella que me incentivou muito. Fico feliz que tenha o capítulo tenha feito jus ao marketing dela kkkkk No mais, muito obrigado. February 17, 2021, 00:45
Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, Silva! Tudo bem? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Bom, a verdade é que eu não sei nem por onde poderia começar de tanto que gostaria de elogiar em vários aspectos essa história. Acho que o ponto que mais me deixou encantada é que o que ocorre na sua história, de certa forma, o leitor enquanto lê os relatos, consegue imaginar facilmente isso acontecendo no dias de hoje, entende ? Ainda mais com tudo que vem ocorrendo no mundo… Eu sei que esse aspecto que deu, entre associar sua história com algo que realmente pode acabar acontecendo, dita o contrário do que acreditamos hoje em dia, por exemplo: em outros tempos isso seria considerado totalmente ficção, enquanto hoje em dia existe mesmo uma hipótese disso acontecer. Bom, agora vamos para a coesão e a estrutura do seu texto, eu acredito que eu não preciso economizar nas minhas palavras quando digo que está tudo simplesmente perfeito demais! A narrativa está simplesmente cativante e o fato de você ter dado tantas informações indispensáveis para a construção do ambiente e cenário, só ajudou mais ainda para que eu conseguisse imaginar tudo perfeitamente, conforme você me induziu. Quanto ao seu personagem principal, não tem muito o que eu poderia dizer sobre ele, além do que eu construí na minha mente, digo a forma com que eu posso imaginar ele agindo, fazendo e até mesmo sendo, aliás, pode parecer estranho, mas tudo isso só acontece porque você dá uma boa margem de parâmetro para que o leitor consiga interpretar algumas coisas sozinho. Quanto à gramática, seu texto está muito bem planejado, elaborado, construído e bem escrito. Existe, sim, um pequeno probleminha de vírgulas, mas nada que seja considerado um erro ou que complique o entendimento da história. No geral é um texto muito bom, de verdade! Desejo a você sucesso e tudo de bom. Abraços.
December 05, 2020, 21:51

  •  Silva Silva
    Oi Ísis! Sempre um prazer te ver por aqui. Essa história foi o que me salvou do tédio durante a quarentena. Fico muito feliz pela sua verificação e obrigado pelo feedback sincero. Pretendo melhorar no ponto que você indicou. Que não venham zumbis nessa pandemia kkkk December 06, 2020, 16:13
Estella Monteiro Estella Monteiro
Que começo maravilhoso! Vamos falar do que você já sabe; ortografia perfeita, vocabulário variado e com palavras bem empregadas. Descrições que desenham cenas na mente do leitor, mas não se tornam longas e massantes, são na medida certa. Agora sobre a trama: Deu até um medo, afinal estamos em uma pandemia e tirando a parte da mutação zumbi, tudo o que foi relatado tem grandes hipóteses de acontecer. Sobre a vacina falsa só para fazer uma seleção e deixar a verdadeira para os ricos. Essa ironia foi deliciosa, mandaram os pobres para os túmulos, mas eles voltaram para se vingar. Perfeito, a justiça existe ao menos nas histórias. E o João é apaixonante, essas observações realistas com um humor acido, satírico foi incrível.” Nordeste é o rabo do Brasil” kkkkk A narrativa da sobrevivência, os rituais já adotados e as descrições do estado atual do mundo, do Brasil, estão impecáveis eu pude ver com clareza. Esse pequeno confronto com a zumbi, que descrições! Eu fiquei numa empolgação, o aspecto físico do monstro, a arma usada pelo João. Os seus zumbis correm: Kyahhh nem sei como expressar minha empolgação com esse fato que faz toda diferença. E que final foi esse? Que genialidade, o apelido dele é Lampião! Tenho que admitir que vibrei com isso. Essa mulata estilosa e aparentemente muito gata? Que descrição empoderada! Amei a apresentação do nosso moderno Lampião biólogo. Capitulo curto, direto, mas que não deixou nada a desejar e já mostrou ao que veio. Teve explicação, descrição com pitadas de humor e uma dose de confronto. Vou seguir leitura, muito empolgada. Parabéns. Abraços!
December 05, 2020, 13:58

  •  Silva Silva
    Oi! Quando olhei as notificações fiquei até leve kkkk Fico muito feliz que o início tenha deixado uma impressão positiva. Muito obrigado Estella! December 05, 2020, 16:29
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O Silêncio dos Túmulos
O Silêncio dos Túmulos

Neste universo, uma pandemia fez os mortos saírem dos túmulos ruindo toda organização política e social do Brasil. Enquanto mortos-vivos vagam pelas ruas, facções armadas lutam por sobrevivência e poder. A trama acompanha João da Silva, um sobrevivente que busca desesperadamente uma cura quando se vê envolvido pelos confrontos entre esses grupos. Leia mais sobre O Silêncio dos Túmulos.