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esternw Ester Cabral

Lynn estava de volta para sua antiga cidade, após seis anos distante. Ou mais precisamente, setenta e dois meses longe. Os lugares de suas recordações pareciam se dividir entre uma mesmice, que recordava-lhe os anos de adolescência, e a novidade gritante. A vida continuava, apesar de sua ausência. Seus amigos seguiram em frente com suas vidas, assim como ela tentou fazer com a sua. Apesar disso, poderiam dar-se bem novamente, era apenas uma questão de tempo. Havia apenas uma pessoa com a qual seu relacionamento dificilmente poderia ser o mesmo. Entre as correrias da vida adulta, tinha que ser justamente Kentin, seu ex-namorado, a sentar-se ao seu lado naquele mesmo ponto de ônibus.


Fanfiction Jogos Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Olá, meu povo!
Essa one é uma songfic da música Photograph da banda Nickelback, feita para uma interação no grupo Fanfics Amor Doce/Eldarya.
Bem, essa é a minha tentativa de dar um final feliz pro Kentin e que temo que alguns podem não gostar do final para Lynn/Docete e o Kentin, mas... Preparem os corações -q
Boa leitura ;)

XXX

Lynn se sentou no ponto de ônibus, capturando o celular de dentro da bolsa para responder uma mensagem de Rosalya. Sim, o currículo estava pronto para a entrevista de emprego mais tarde e ainda conseguiu tirar os xerox que precisava dentro da escola! Clicou para enviar e mirou o horizonte, vendo que seu ônibus ainda não estava à vista.

Era estranho encontrar-se naquela posição após... Seis anos? Setenta e cinco meses distante, poderia considerar como mais um ano completo. Era engraçado como tudo ainda parecia a mesmice de sempre. O mesmo ponto de ônibus em que se sentava após a aula para ir sabe-se lá para onde. A mesma escola em que estudou os últimos anos do ensino médio, os mesmos corredores. A secretária não era a mesma de sua época de estudante, talvez a única mudança em que encontrou naqueles quarenta minutos desde que chegou naquele quarteirão.

E duas semanas naquela cidade. Aquela mesma cidade minúscula da qual achou que não iria voltar nunca mais. Aquela faculdade que achou que nunca iria frequentar, mas, quem diria que seria a única em um raio de quilômetros onde poderia fazer o mestrado que desejava? E quem diria que encontraria alguns de seus antigos amigos ainda vivendo naquele mesmo município pacato? Formados e com suas vidas encaminhadas, é claro.

Como a dela também estava indo. Um diploma de curso superior pelo menos tinha. Agora, o resto? Ao menos poderia se manter financeiramente com um emprego. E talvez sair da casa de sua tia.

Desbloqueou a tela do seu celular. O mesmo aparelho havia três anos, não tinha dinheiro para comprar um novo. Teve a impressão de que alguém se sentou no banco ao seu lado no ponto de ônibus, contudo, ignorou, considerando ser mais importante checar seu aplicativo de mensagens mais uma vez. Mesmo sem notificação nenhuma.

— Não sabia que você tinha voltado, Lynn. — A voz do recém-chegado puxou conversa.

Lynn virou a cabeça para o lado em um piscar de olhos, deparando-se com olhos verdes por trás das lentes de um óculos. Aqueles mesmos olhos verdes que se lembrava de toda a sua adolescência. Aqueles mesmos cabelos castanhos e um sorriso de canto que ela lembrava-se de ver poucas vezes naquele rosto.

— Kentin! — ela exclamou em um sussurro, surpresa em ver o antigo melhor amigo e ex-namorado em pessoa na sua frente. Seu primeiro namorado, para quem quisesse detalhes. — Ah, meu... — ela gaguejou, sequer sabendo o que dizer. — Eu...

— Estou surpreso em te ver novamente. — Já que ela parecia não fazer a boca obedecer aos próprios pensamentos para articular uma fala, ele tomou a frente na conversa, repetindo sua afirmação de uma forma diferente.

Lynn surpreendeu-se ainda mais com a naturalidade que ele parecia portar ao seu lado. E ela? Ela estava totalmente desconcertada por encontrá-lo outra vez.

Uma coisa era encontrar Rosalya, Alexy, Priya e todo seu squad de amigos da época de escola. Era estranho no começo? Sem dúvidas, mas nada que não pudesse ser superado com um certo tempo. Às vezes as amizades não eram as mesmas, mas, ao menos ela tinha sorte o suficiente para que isso não acontecesse. Agora, Kentin? Como reagir? Era uma pergunta da qual ela não sabia a resposta, ainda mais precisando da sua reação em poucos segundos.

As lembranças passavam em sua mente numa rapidez impressionante, enquanto aqueles olhos verdes a encaravam de volta por trás das lentes. Os mesmos que estavam passando por sua mente naquela fração de instante.

— Pois é... — Ela soltou um riso nervoso, desconcertada. — Eu consegui uma bolsa de mestrado na Anteros, então...

— Entendo... Parabéns. — Ele assentiu com a cabeça. Segundos de silêncio passaram, no que Lynn ficou em dúvida se estava desconfortável ou não. — Que bom ver que você está bem.

Ele sorriu e Lynn acabou fazendo o mesmo. Em dúvida se era apenas uma cordialidade ou não. Quem diria que um dia estenderia esse tipo de palavra a uma conversa com ele... Aliás, quem diria que um dia estariam frente a frente outra vez.

Seu nervosismo fazia as mãos suarem. Apenas acreditava não ser pelos mesmos motivos da garota apaixonada que foi anos atrás. Apesar das memórias daquela época estarem bem ali. No mesmo lugar em que estivera tantas vezes até seis anos atrás. Com a pessoa que não via durante o mesmo intervalo de tempo.

— E você? Como você está? — ela perguntou numa tentativa de iniciar uma conversa casual. Esse tipo de pergunta costumava funcionar para iniciar diálogos.

Ela era tão boa em iniciar conversas e fazer amigos, por que a hesitação?

— Bem — Kentin respondeu com um suspiro e passou as palmas das mãos sobre os joelhos da calça jeans. Lynn teve vontade de fazer o mesmo na sua, mas para secar o suor que começava a sentir. — Estou trabalhando como bombeiro...

— Ai, meu Deus! — ela exclamou alto, sequer dando oportunidade pra ele continuar. — Desculpa — pediu, levando as mãos até a boca. Kentin sorriu. Aquela mesma expressão que a fazia explodir de fofura por dentro anos atrás. — Eu só fiquei surpresa, por quê... Combina com você, essa coisa de proteger pessoas.

O rapaz deu um riso desconcertado, as bochechas corando e o rubor sumindo em uma fração de segundos. Lynn lembrou-se da época que as tocava com as pontas dos dedos, sentindo o quentinho dela e de seu rosto.

— Algumas pessoas dizem a mesma coisa. — A moça apenas sorriu com a afirmação. Novos segundos de silêncio. — Está esperando o ônibus também?

A resposta provavelmente era óbvia e Lynn deixou-se sorrir. Kentin nunca fora muito bom para esse tipo de conversa casual. Apesar do sucesso no começo, ali estava. Como bem se lembrava. Apesar do casaco fechado e da postura ereta, também poderia dizer que ele estava como ela bem se lembrava. Sua observação, porém, foi interrompida. Os olhos de Kentin viraram-se para ela, provavelmente sentindo ser observado.

— É, também estou — respondeu com um leve suspiro, organizando os próprios pensamentos entre as memórias. — Vou pra uma entrevista de emprego daqui a pouco mais. Vim na escola pra retirar uma cópia do meu histórico escolar. Perdi a que eu tinha e só fui perceber quando já estava aqui na cidade. — Foi a frase mais longa que qualquer um dos dois disse até então.

Talvez aquele fosse terreno seguro, Lynn pensou, falar coisas banais. Exceto que, para ela, Kentin era tudo, menos banal. E pensar que o reencontraria em um ponto de ônibus...

— Boa sorte na entrevista — ele desejou com um sorriso e a moça retribuiu.

Mais silêncio e mais longo que os anteriores. A morena desejava que o ônibus viesse logo, para quebrar aquele clima estranho.

Como podiam se comportar feito dois meros conhecidos, com toda a história que tinham juntos? É, se aquilo fosse um filme de romance, provavelmente passariam por todo um momento de drama e tensão. Seu primeiro amor e primeiro namorado, que não via há seis anos.

O problema? O problema era que aquilo não era um filme de romance. Aquilo era a vida real. E, apesar do que viveu nos seus anos de adolescência, sua vida de adulta não era uma ficção.

— E você? — ela devolveu a pergunta, não querendo deixar o bate e rebate da conversa morrer entre eles.

O veículo de transporte público se fez visível no horizonte e ambos se levantaram, quase em sincronia.

— Estou indo pra casa. — Fez sinal para o ônibus. — Minha esposa estava querendo um lanche da lanchonete aqui por perto.

O veículo parou no meio fio e a mente de Lynn parou junto. Esposa? Kentin estava casado? Aquele Kentin entrando no ônibus agora era marido de alguém? E essa pessoa não era... Ela ouviu uma buzina e obrigou as próprias pernas a funcionarem. Sequer percebeu quando pagou a passagem e sequer percebeu que se sentou no banco ao lado de seu ex-namorado.

— Pa... Parabéns — ela conseguiu articular finalmente. Deu um sorriso simpático. Mesmo que por dentro mal soubesse o que fazer com o rosto. — Fico feliz por você.

Kentin agradeceu e sorriu. Aquele mesmo sorriso que ela perdeu. Que deixou ir embora. E que agora ele dava para outro alguém. Que não era mais ela.

— Como... — Sua voz saiu como um sussurro e limpou a garganta, obrigando-se a manter a compostura. Ela era uma mulher adulta, oras! Por que estava agindo feito uma adolescente? — Como vocês se conheceram?

Ela não pôde conter a curiosidade. Era um traço inato dela, fazer o quê. E, conhecendo-a tão bem como apenas Kentin a conhecia, ele sabia muito bem das inúmeras perguntas que viriam pela frente.

— Melinda é irmã de um dos meus amigos do trabalho — ele explicou, a embalagem de papel escondendo a comida que levaria para sua esposa. — Nos conhecemos em um churrasco que ele me convidou.

Lynn forçou-se a sorrir, imaginando a cena em sua mente. Kentin, introvertido como era, calado no meio de tanta gente. Até que essa Melinda foi até ele. Ela deveria ser linda e perfeita. E mais do que isso, ela não o abandonava, como Lynn fez no passado.

— Ela deve ser muito sortuda por ter alguém como você. — Desviou o olhar para a bolsa em seu colo, querendo fugir daqueles olhos verdes de suas memórias.

Kentin sempre fora apaixonado por ela. Por literalmente anos. Mudou de escola quando ela foi embora, esperou por ela quando ele foi para a escola militar, e quando retornou... Ele sempre esperou por ela. Enquanto ela? Lynn nunca esperou por ele. Os garotos com quem ficou naquele meio tempo distantes eram prova disso. Isso quando ainda eram adolescentes.

Seria uma ilusão juvenil acreditar que ele esperaria por ela para sempre, ainda mais quando ela provavelmente nunca voltaria. Ou pelo menos isso era o que todos acreditavam, ela inclusa. Mas não era isso que as viradas da vida provavam.

— Eu é que sou sortudo por ter alguém como ela. — Lynn o encarou de canto de olho, vendo a forma como ele sorria quando falava da esposa. Será que ele falava assim dela na época em que eram namorados no colégio? De qualquer forma, era passado. — Melinda... — parou, parecendo hesitar.

O bombeiro voltou os olhos para ela, um encontro de olhares. Que não acontecia há seis anos. Ele hesitava e ela mexeu a cabeça para incentivá-lo. Um gesto conhecido entre eles.

— Eu esperei por você, Lynn, achei que não fosse ter outra depois de você — ele sussurrou, quase como se fosse mais para si mesmo. E desviou os olhos. A moça sentiu o coração pesar e pareceu pequeninha no banco daquele ônibus que chacoalhava.

— Eu sinto muito... — respondeu no mesmo tom de voz. — Não foi minha escolha ir embora, eu...

— Você poderia ter mantido contato. Mas simplesmente desapareceu depois de um tempo. — Os raios de sol que entravam por aquele lado da janela sombreavam o rosto do bombeiro. Porém, Lynn supunha que as sombras que via não eram por aquela razão.

— Eu, eu não tinha tempo! — ela exclamou, forçando-se a manter a voz no mesmo tom. Ninguém daquele ônibus precisava ouvir a conversa dos dois. Mesmo que o veículo estivesse quase vazio àquela hora. — E quando vi... Já tinha tempo demais desde a última vez que falei com você. Com todos vocês.

Seus olhos se encontraram mais uma vez e ela sentiu os seus encherem de lágrimas. Por que não conseguia ficar séria? Por que sempre tinha que se comportar como uma menina? Ela já tinha vinte e quatro anos!

— Tudo bem... — ele balançou a cabeça, surpreendendo-a.

Um silêncio se instaurou outra vez. Lynn se sentia desconfortável e com vontade de sair correndo dali. Mas, tinha que encarar seu passado e seus arrependimentos à sua frente. E como se arrependia...

— Eu ainda era apaixonado por você naquela época... — Kentin retornou para o seu relato em um quase murmúrio. — Tinha esperanças que você voltasse.

A moça conteve a língua na vontade de dizer “sinto muito”. Já repetiu isso muitas vezes nos últimos minutos. Apenas balançou a cabeça.

— Melinda não desistiu de mim, mesmo assim. E eu... Com o tempo, eu me permiti ver a mulher maravilhosa que tinha à minha frente e que não poderia perdê-la. — Ele sorriu com doçura, os olhos de um eterno apaixonado por trás das lentes daqueles óculos.

Desde quando ele voltou a usá-los?

— Ela não desistiu de você, assim como você não desistiu de mim naquela época — ela completou o raciocínio anterior e voltaram a se encarar.

Permitiram-se sorrir, compartilhando juntos memórias em comum.

— Você parecia não gostar que eu vivia no seu pé naquela época — ele comentou, no que Lynn desviou o olhar, envergonhada.

— Impressão sua — mentiu. Ela ficava incomodada, sim.

— Eu era grudento demais naquela época. — Ele permitiu-se rir baixo.

Lynn apenas balançou a cabeça, achando melhor manter suas considerações para si mesma. Ela não era a única a se arrepender de algumas coisas do passado de ambos. Mas, sem dúvidas ela era aquela a manter mais arrependimentos dos dois.

— Eu... — Kentin começou e pareceu hesitar mais uma vez. Passando a língua pelos dentes e evitando mordê-la, resolveu continuar. — Eu queria entregar uma coisa pra você, Lynn. Quando você puder...

— Eu tenho tempo agora — ela interrompeu-o, contendo a vontade de colocar as mãos sobre a boca. Por que tinha que ser tão espontânea às vezes? — Digo... — Pegou o celular, olhando as horas. Guardou-o novamente na bolsa. — Tenho uma meia hora antes da entrevista no Cosy Bear.

— Cosy Bear? É perto da minha casa. — Ela acabou sorrindo com a coincidência. — Naquele fliperama que costumávamos ir com o Armin.

— O fliperama fechou?! — ela questionou alto demais, censurando-se. — Pelo menos agora eu sei onde fica o Cosy Bear. — Riu baixo, no que Kentin apenas sorriu simpático. — Mas e o Armin? Você sabe dele?

— Alexy apenas disse que ele está fazendo um trabalho importante com informática... Também foi embora de repente.

— É, Alexy me disse a mesma coisa.

— Então você encontrou nossos amigos? — ele interrompeu-a, não contendendo a breve surpresa.

— Alguns deles, sim.

Kentin apenas assentiu e apontou que estavam quase no ponto em que desceriam. Os dois se levantaram, deram sinal para o motorista e saíram do veículo quando este parou. Ambos se encontraram sozinhos com os desconhecidos que passavam pela rua enquanto o ônibus se afastava com seu pequeno rastro de poluição.

— É na próxima quadra — o bombeiro anunciou e se puseram a caminhar juntos.

Lynn observava os arredores, percebendo como estava mais mudado do que suas lembranças de adolescentes se recordavam. Ela olhou para a placa do Cosy Bear e para a porta do estabelecimento, onde dois jovens conversavam despreocupadamente. Entre uma sorveteria, uma caminhonete estacionada no meio fio e uma pastelaria. Ela podia se lembrar de todas as vezes em que ela e Kentin se beijaram naquele mesmo ponto onde os desconhecidos estavam. As tardes que passaram juntos naquele lugar... Teria mesmo que aguentar todas aquelas lembranças caso conseguisse o emprego no café?

— Então... — A moça voltou a trazer algum assunto à tona. — O que você tem pra me entregar? — questionou, percebendo que aceitou o pedido do amigo sem sequer pensar o que iria pegar.

Amigo? Ainda eram amigos? Depois de tantos anos separados... Preferia acreditar que sim. Desejava que sim. Entretanto, sabia que seria difícil. Ainda mais quando... Além de que, pareciam ser pessoas bem diferentes do que costumavam ser. Ao menos ele. Já ela... Às vezes sentia-se como a mesma garota por dentro.

— As suas fotografias da formatura...

— Eu não acredito! — exclamou, mais uma vez alto demais e interrompendo o bombeiro. — Minha mãe sempre quis tanto ver essas fotos.

— Você foi embora tão rápido depois da formatura, que nem deu tempo de ficarem prontas. — Kentin constatou um fato em voz alta. Lynn procurou por qualquer indício que indicasse um possível ressentimento. Não encontrou.

— Obrigada por ter guardado — ela agradeceu, percebendo o outro oferecer um sorriso gentil como resposta. Sentiu seu coração apertar por dentro.

— Chegamos — ele anunciou, após atravessarem a rua.

Lynn olhou para cima, vendo o prédio de apartamentos com vários andares. Entraram e o bombeiro cumprimentou o porteiro na portaria.

— Não me lembro desse prédio... — ela começou, enquanto esperavam pelo elevador.

— É novo. A construção foi finalizada tem uns dois anos — ele explanou e entraram, prontos para subir para o sétimo andar em que a família do bombeiro vivia.

Lynn cruzou os braços, escondendo a vontade de abraçar a si mesma. Ao mesmo tempo em que ela e Kentin estavam tão próximos, pareciam tão distantes... E ele parecia tratar isso com naturalidade. Ou ao menos era bom em esconder isso. O que era um pouco surpreendente, vindo dele.

— Sua esposa está em casa? — ela finalmente puxou assunto, a voz ecoando no ambiente enclausurado. Apenas seus reflexos faziam-lhes companhia e isso a intimidava um pouco. Por que não podia simplesmente agir com um pouco mais de maturidade?

— Está — ele confirmou e saíram do elevador. O sétimo andar era bem iluminado, com portas idênticas umas as outras, sendo a única forma de diferenciá-las os números marcados. — Melinda está de licença maternidade ainda — ele simplesmente soltou a informação enquanto procurava a chave nos bolsos.

— Você é pai, Kentin? — Sua boca se abriu em surpresa e levou uma mão até ela, numa falha tentativa de disfarçar. — Parabéns!

A porta foi aberta e ele deixou que ela entrasse primeiro. Lynn percebeu o sorriso no rosto dele. Com certeza Kentin faria o tipo de “pai babão”.

— Olha só quem chegou, Ste — uma voz disse, naquele mesmo tom que todas as pessoas parecem usar para falar com bebês, assim que a dupla cruzou a soleira da porta. — O papai!

Lynn olhou para baixo, vendo a moça sentada no carpete com o filho sobre as pernas dobradas, inúmeros brinquedos espalhados ao redor. Parecia ter quase seis meses... Talvez a licença maternidade de Melinda estivesse perto do final.

— Tá cheiroso, Ste — Kentin afirmou com o nariz nos cabelos do pequeno Steven.

Enquanto Melinda entregava o filho para o pai, ela recebeu o pacote com o lanche das mãos do marido, deixando-o sobre uma mesa de centro, que estava parcialmente empurrada para o lado.

E Lynn ficou parada na soleira da porta aberta, sentindo-se uma total intrusa ali. Eles eram uma família feliz, o presente que Kentin tanto mereceu. Enquanto ela era apenas o passado passando para uma visita rápida.

O bombeiro deu um beijo na bochecha fofa do bebê, que explodiu em gargalhadas, gerando risos no casal. Lynn queria sorrir junto de tanto amor num mesmo lugar, mas seu peito parecia se comprimir por dentro.

— Essa é a Lynn, Linda — Kentin finalmente anunciou para a mulher, que se aproximava da estranha para cumprimentá-la. A moça achava que a outra apenas fecharia a porta e a mandaria embora dali, para longe do marido. — Ela veio buscar umas coisas.

Formalmente apresentadas, Melinda convidou-a para sentar-se em um dos dois sofás da sala de estar.

— Desculpa a bagunça, mas o Steve é cheio de energia — a dona da casa pediu, pegando novamente o bebê dos braços do marido.

Kentin sumiu pelo corredor e Lynn foi encarada pelos olhinhos curiosos da criança. Verdes como os do pai. Eram enormes e emoldurados por um cabelo negro que estava ficando grande demais. A criança era uma perfeita mistura dos pais, a moça pontuou para si enquanto observava Melinda. Ela era linda, os cabelos negros com cachos até a altura dos seios, os olhos castanhos, baixinha como Lynn... Parecia ser a única semelhança entre elas.

— Quer água, Lynn? Um suco? — Melinda ofereceu como uma boa anfitriã.

— Não, obrigada — ela negou com educação. — Eu tenho um compromisso daqui a pouco. — Sorriu para a outra, tentando soar simpática.

A atenção de Melinda estava mais focada no próprio filho, inquieto no colo.

— Que foi, Ste? — Como em resposta para a mãe, o bebê começou a chorar. — Parece que alguém precisa ser trocado... — disse ainda para a criança. — Pode ficar à vontade, Lynn, Kentin logo deve estar de volta — escusou-se e se levantou, no que a moça apenas assentiu com a cabeça.

Com um suspiro, observou a mulher sair da sala com o bebê chorando nos braços. Além de linda, Melinda parecia alguém amável e uma boa mãe. Alguém mais do que capaz de formar uma família feliz.

E ela teve certeza de ouvir a voz dele aos sussurros com a esposa, quando provavelmente se encontraram no corredor. Sequer conseguia distinguir o teor da conversa, dada a rapidez das palavras.

Não estranharia se o tópico do breve diálogo fosse ela própria. Também não estranharia se Melinda estivesse irritada com o marido por ter trazido a ex-namorada para dentro da casa deles. Mesmo que fosse apenas para pegar algo e que não estivessem sozinhos. Melinda deveria saber muito bem como controlar o próprio ciúme. Coisa que ela própria nunca soube fazer muito bem... Riu para si mesma com suas recordações.

— Aqui está. — Kentin finalmente retornou para a sala de estar, pulando os brinquedos do filho sobre o carpete. — Essas são as suas, a professora entregou para a minha mãe.

Lynn recebeu as fotografias, olhando rapidamente cada uma delas. Uma com a classe reunida, uma com ela pegando o canudo, outra com professor Faraize enquanto segurava o canudo, outra com alguns de seus amigos, outra apenas ela e Kentin. Não evitou sorrir, lembrando-se perfeitamente daquele dia.

— Ela sabia como nós éramos próximos e pediu para entregarmos pra você — o bombeiro finalizou a explicação, com a moça voltando os olhos para ele, parado à sua frente.

— Obrigada — agradeceu com um sorriso, vendo-o retribuir com gentileza. — Eu vou mostrar pra minha mãe quando for visitá-la.

Com as imagens em mãos, ela percebeu que havia uma corrente entre os dedos de Kentin. Não poderia ser...

— Isso é o nosso cordão da amizade? — Como se fosse resposta, recebeu o próprio em suas mãos.

Era apenas uma metade dourada de um coração com a palavra “best” escrita no metal barato. Tanto que estava um pouco gasto devido o tempo.

— Essa é a sua parte do cordão. Sua tia me entregou e disse que você tinha deixado junto com algumas coisas quando foi embora — ele explicou em um tom ameno, os braços cruzados.

Lynn levou as mãos à boca, não acreditando como deixara um memento como aquele para trás. Justamente o cordão que tinham desde os dezesseis anos?

— Eu, eu achei que tivesse perdido. — Utilizou a motivação que usou para si mesma desde o momento em que não encontrou mais o objeto em nenhum lugar. — Você ainda tem o seu?

Kentin negou.

— Eu acabei me desfazendo dele alguns anos atrás. Meio como... — ele deixou a frase por suspenso por alguns segundos, em dúvida se falava em voz alta ou não. No último instante, mudou de ideia. — Como uma forma de deixar o passado pra trás. Eu queria entrar em uma nova fase e...

— Entendo — Lynn interrompeu-o, meneando a cabeça. As lágrimas voltaram, porém, ela ainda conseguia contê-las por um milagre.

Ainda lembrava-se do dia em que o amigo apareceu com aquele colar, comprado em uma lojinha após a escola. Metade com “best” para ela e a outra com “friends” para ele. Apertou sua metade na palma, segurando as fotografias entre os dedos.

— Acho melhor eu ir, tenho a entrevista daqui a pouco. — Levantou-se do sofá e balançou a cabeça, tentando se recompor.

Ela encarou Kentin mais uma vez. Ele não estava inabalável a tudo aquilo. O que estava por trás daquelas lentes?

— Você fica bem com esses óculos — comentou, sem controlar a própria língua e censurando-se por isso.

— Obrigado — ele agradeceu, coçando a bochecha e um pouco sem saber como lidar com a situação. Lynn menos do que ele. — Eu... Melinda me fez ver que eu também fico bem com eles. — Sorriu, talvez com alguma memória feliz.

— Ela está certa. — Lynn foi obrigada a concordar com a outra. — Fico feliz que você está mais feliz com você mesmo e... Você tem uma família linda. — Permitiu-se ser sincera, vendo um sorriso nos lábios do outro.

Era nítida a harmonia naquele lar. Nítido a felicidade que Melinda e o pequeno Steve proporcionavam ao bombeiro naquele apartamento.

— Eu... — Ele pareceu procurar pelas palavras. Ou talvez escolhendo qual seria a melhor a dizer. — Boa sorte pra você, Lynn. Não só com a entrevista, mas... Desejo o melhor pra você.

A moça sorriu com a doçura do rapaz. A amabilidade tão característica dele... Sentiu seu celular vibrar dentro da bolsa, trazendo-a de volta para a realidade. Ela era uma mestranda em busca de um emprego para se manter. Morava na casa da tia e estava solteira havia alguns meses. E Kentin estava casado. O passado era apenas passado.

— Eu realmente tenho que ir, não posso me atrasar. — Segurou na alça da bolsa, seu desconforto visível pelos dedos que dançavam pelo tecido. Na outra mão ainda as fotografias e o cordão.

— Espero que ocorra tudo bem — Kentin desejou mais uma vez e abriu a porta, com a moça precipitando-se para fora.

Encaram-se, sem saber o que dizer. Aquilo seria mais uma despedida? Não se veriam outra vez? Mesmo com ele morando tão perto do café? Ela mordeu o lábio inferior, incerta do que dizer.

— Adeus, Lynn. — Ele quebrou o silêncio com a fatídica palavra.

Aquela que nunca puderam dizer um para o outro, já que Lynn deixou a tudo e a todos repentinamente. Como um ladrão sorrateiro no meio da noite. Levou apenas aquilo que era dela, sem nem olhar para trás.

— Adeus, Kentin. — Ela sentiu o amargor enquanto aquelas palavras deslizavam pela língua.

Kentin tinha uma nova vida, da qual ela não poderia mais fazer parte. Ela era um passado que ele teve que esquecer para poder seguir em frente. Assim como ela bem fez enquanto levou a vida na outra cidade. Um passado que não tinha mais espaço na vida dele.

A porta se fechou lentamente, com um leve clique da fechadura por dentro. Lynn encarou a madeira lisa e o número dourado pendurado nela por mais alguns instantes.

Sentindo as lágrimas novamente, dessa vez algumas foram teimosas e caíram pelo canto dos olhos. Com a mão livre, secou-as. Com a outra, ainda segurava o cordão e as fotografias, as únicas recordações que teria do seu passado com Kentin. As únicas além de suas memórias e uma cidade misturada entre a mesmice e a novidade.

Simplesmente deixou-se ir embora dali.

XXX

Bem, nem sempre ficamos junto pra sempre com nosso primeiro amor/namorado/namorada e foi isso que eu quis mostrar aqui. As pessoas mudam e a vida continua, apesar das nossas escolhas. Espero que vocês tenham gostado e qualquer opinião que queiram compartilhar, chega mais nos comentários!
Se quiserem uma fic do tipo para os outros paqueras excluídos, tenho uma one com o Armin e uma mais longa com o Lysandre, só dar uma olhada no meu perfil :D
Até mais ver, povo o/

14 de Agosto de 2020 às 16:53 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Ester Cabral Diretamente do interior de São Paulo e com duas décadas de vida nas costas [apesar da carinha de menina], que sequer sabe o que falar sobre ela mesma pra fazer uma descrição interessante por aqui. Amante da música, fã da Fresno, de temperaturas amenas, de gatos, contos e que de vez em quando resolve se aventurar em uma história mais longa. Quer saber que histórias eu ando inventando por aí? Pegue uma xícara da sua bebida favorita e vamos nos aventurar por esse mundão de fics <3

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