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esternw Ester Cabral

Conforme a profecia marcada pelo universo, os exércitos mais poderosos da galáxia cercavam Trenzalore. Havia apenas uma pessoa entre o planeta e a destruição: o Doutor. Segundo seus cálculos - que poderiam estar levemente errados, bem sabia, mas nunca daria o braço a torcer -, ele defendia a pequena cidade de Natal havia meio século. Apesar da missão solitária, o senhor do tempo tentava cercar-se da vida dos moradores da cidade, sendo amado e estimado por todos. Entre todas aquelas pessoas - das quais conhecia cada uma por nome - sempre havia uma que o marcava profundamente de tempos em tempos. Barnable fora um deles, que descanse em paz. Winnie Moorland, por sua vez, estava prestes a se tornar uma dessas pessoas. Da garota que vira nascer e crescer em Trenzalore, mal imaginava o Doutor que encontraria alguém que o marcaria mais que os breves minutos de amanhecer no planeta em um cerco permanente.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fanfic #aventura #drama #trenzalore #11th-doctor #doctor #doctor-who
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I. The Girl Who Was Born In Trenzalore

*Winnie-The-Phooh é o nome original do Ursinho Pooh.



A noite escura e gelada — como de praxe em Trenzalore — ia cada vez mais adentro, com um silêncio sepulcral na pequena cidade de Natal. A única alma viva nas vias tomadas por neve era o Doutor, em sua contumaz caminhada de ronda noturna. Era um hábito, andar por entre aquelas casas — que não eram muitas — e retornar para a Torre do Relógio quando a noite fosse alta. Assegurar-se uma última vez que mais um dia de sua missão fora cumprida e que os habitantes de Natal estavam seguros. E fazer a mesma coisa no próximo dia. E de novo e de novo e de novo enquanto ainda respirasse.

Com o passar dos anos, a caminhada tornava-se menos fácil do que outrora, necessitando do auxílio de uma bengala após o incidente que injuriou seu joelho permanentemente. Ao menos o objeto ajudava com a neve.

A primeira volta chegava ao fim conforme se aproximava da última fileira de casas do vilarejo, as lamparinas apagadas em todas as janelas e o silêncio indicavam que todos dormiam. Ou quase todos. Ao final da via, um casebre tinha uma das janelas iluminadas pela luz de um lampião, queimando forte do lado de dentro. As cortinas cerradas impediam a visão para quem estivesse de fora.

Passando em frente à cerca baixa de madeira que delimitava os limites da propriedade privada, o senhor do tempo encontrou o leiteiro da vila, David Moorland, com os pés enfiados na neve e quase a arrancar os próprios cabelos em aflição.

— Boa noite, Dave — o Doutor saudou-o com a voz alta para uma conversa na rua vazia. — Está tudo bem com a sua família? — ele perguntou, conhecendo praticamente cada uma das famílias de Natal. Os Moorland não eram exceção.

— Sim… Quer dizer, não. — O leiteiro deu um tapa na própria testa, respirou fundo e tentou acalmar as batidas de seu coração. — Ellie entrou em trabalho de parto. — Como se para confirmar o que David contou, um urro de dor foi ouvido de dentro da casa.

O leiteiro mordeu os lábios, pronto para dar meia volta e abrir de supetão a porta da própria casa. Mesmo que a parteira tivesse-o enxotado para fora uma hora antes, dizendo que aquela aflição toda apenas atrapalharia Ellie.

— Oh, eu nem sabia que Ellie já estava de nove meses. — O Doutor tentou fazer um cálculo mental em poucos segundos. Não seria de muita utilidade, pois ele sempre se perdia na passagem de tempo em Trenzalore, mesmo que portasse o título de senhor do tempo. Era uma ironia, mas era o que acontecia com dias tão iguais.

— Nasceu! — A porta do casebre escancarou-se repentinamente e uma senhora de meia idade anunciou da soleira.

David soltou toda a respiração que prendia até aquele momento e murmurou um agradecimento para os céus.

— Quer entrar, Doutor? Tenho certeza que Ellie irá adorar te ver — ele ofereceu solícito. Todos na cidade conheciam o Doutor e o estimavam, afinal, era ele quem os salvava de todos os ataques que sofriam rotineiramente.

Com um pensamento de "por que não?", o Doutor aceitou o convite e entrou junto do homem, tagarelando sem parar sobre bebês.

— É uma menina! Parabéns, Dave — a parteira felicitou assim que os dois homens entraram e fechou a porta em seguida, ambos caminharam para o quarto ao fundo na casa de apenas dois cômodos. Lá dentro, outro lampião no criado mudo iluminava mãe e seu pequeno embrulhinho no colo.

— Dave! — A mulher com o rosto suado e os cabelos grudados à testa abriu um largo sorriso assim que avistou o marido. — Venha ver, ela é linda!

David chegou até a cama e Ellie passou o bebê enrolado na manta para o marido. O homem encarou a filha com lágrimas nos olhos. O Doutor caminhou para perto do casal, parando ao lado do leiteiro e observando a recém-nascida por cima do ombro do outro.

— Ela não é a coisa mais linda desse mundo? — O homem mostrou a filha para o senhor do tempo, aninhando-a com cuidado nos braços.

O Doutor abaixou o rosto, aproximando-o da pequena humana. Talvez sentindo a presença dele, ela movimentou-se no colo do pai, abrindo um pouco os olhinhos.

— Você tem os olhos da sua mãe — ele disse para a recém-nascida, acariciando cuidadosamente a cabecinha de cabelos escuros. — Qual o nome dela?

Com a pergunta, o casal se encarou.

— Vamos mesmo dar o nome da sua mãe a ela? — David inquiriu para a esposa, que cruzou os braços sobre os seios, mostrando que não mudaria de ideia.

— Já conversamos sobre isso, Dave — ultimou e o marido não fez nada se não dar-se por vencido. Decerto tiveram aquele debate muitas vezes.

— Podemos ao menos usar o apelido? Winnie? — Com a sugestão, a mulher assentiu e seu semblante tornou-se mais leve. Ao menos ambos entraram em consenso. — Quer segurá-la? — o homem ofereceu para o Doutor.

Cuidadosamente, passou a filha para os braços do outro, que aninhou-a com carinho, tendo deixado a bengala encostada na beirada da cama.

— Bem vinda ao mundo, Winnie... — o Doutor disse para o bebê, que ergueu uma das mãozinhas na direção dele. — Winnie-the-Pooh. — A recém-nascida soltou um grunhido agudo e o senhor do tempo sorriu largamente. — Ela gostou! — Depois de erguer o rosto para os pais, que franziram o cenho para o nome estranho, voltou-o na direção do bebê. — Bem vinda, Winnie-the-Pooh — disse por fim, vendo os olhos castanhos semiabertos em sua direção.

Naquela noite, a pequena Winnie chegava ao mundo na cidade de Natal, em Trenzalore. Um dos últimos lugares que qualquer um desejaria para nascer. Sem escolha, Winnie era saudada amorosamente pelos pais e pelo Doutor.

Naquela mesma noite, sozinho na Torre do Relógio, após se despedir dos Moorland em sua pequena casa e com sua nova filha, o Doutor ocupou-se com os brinquedos que tinha para fazer para as crianças da cidade. Mesmo que interrompesse alguns dos projetos e deixasse-os para o dia seguinte, ele arranjou tempo para esculpir em madeira um ursinho para a humana que nascera naquela mesma noite.

Poucos minutos antes do curto nascer do sol de Trenzalore, o Doutor cortou a última lasca de madeira, dando forma ao ursinho da pequena Winnie. Um mimo para a mais nova criança de Natal.

— Mãos para cima e vamos lá! A dança da girafa bêbada, crianças! — O Doutor fez seu famoso passo de dança com as mãos para cima e toda a falta de coordenação que só aquela encarnação possuía.

As crianças riam e imitavam-no enquanto a pequena banda tocava uma música animada, embalando mais uma comemoração pós-batalha em Trenzalore. Toda a comunidade tomava parte, com uma mesa farta em comida, teatro de fantoches, música, dança e brincadeiras. Para as crianças, era a parte mais mágica do dia, após minutos de terror em mais uma batalha.

O Doutor saiu da pista de dança, sorrindo e esquivando-se por entre os pequenos que divertiam-se a valer. Passava por eles com um sorriso e cumprimentava animadamente cada um, conhecendo todos os rostos por nome. Ou quase todos, já que ele sempre acabava confundindo alguém, era inevitável.

Um pouco mais longe de todos os presentes, mirou a Torre do Relógio, observando aquela que era a maior construção da cidade, sendo visível a quilômetros de distância, e também seu lar havia quatro séculos. A Tardis, estacionada permanentemente após a última visita de Clara, hibernava em um sono sem aventuras.

Clara… Fazia mesmo cem anos desde a última vez que a vira? Não parecia ter passado tanto tempo assim, contudo, o que era um século para um senhor do tempo se não um piscar de olhos? Para um humano, um século poderia ser mais do que uma vida. Mas não para ele.

Baixando o olhar do alto da Torre, vendo que ainda faltavam horas para os breves minutos de sol que nunca perderia a oportunidade de observar, analisava a construção, até parar os olhos nas portas. Aos pés delas encontrava-se uma pequenina figura encolhida, afastada de todos aqueles que comemoravam mais uma vitória.

O Doutor começou a aproximar-se dela, aos poucos reconhecendo a menina como a filha do casal Moorland. Ela deveria ter quantos anos agora? Oito? Nem percebera como a garota crescera… Bem, nem tanto, já que ela era uma das mais baixinhas das crianças do vilarejo. Mesmo assim, parecia não ter tantos anos desde que pegara aquele bebê recém-nascido nos braços.

— Olá — ele cumprimentou, fazendo com que a menina voltasse os olhos castanhos para cima. Estava assustada, conseguiu perceber. — Está tudo bem com você? Não está se divertindo com as outras crianças. — Deixando a bengala aos pés, sentou-se no chão gelado ao lado da garotinha.

— Você é o Doutor, não é? Que tá sempre salvando a cidade — ela perguntou, olhando para as botinhas cinzentas.

— Sim, eu sou. E você é a Winnie, não é? Winnie-the-Pooh — ele repetiu o apelido que dera na primeira noite em que a vira, minutos após ela ter chegado ao mundo.

— Não me chama assim! Só os meus pais podem me chamar de Winnie-the-Pooh. — A menina cruzou os braços e fez um bico emburrado. Pareceria fofo, para alguém de fora da conversa.

— Okay, okay, somente Winnie, certo? — O senhor do tempo ergueu as mãos como em rendição e Winnie assentiu, ainda com o rosto emburrado. — Quando era bebê você me disse que gostou do apelido.

— Mas eu não sou mais um bebê! — a garota exclamou em uma indignação infantil, erguendo o narizinho em desafio. — Eu já tenho oito anos, não sou mais um bebê.

— Oito anos? Você cresceu bastante desde a última vez que conversamos. — A garota não compreendeu a afirmação, afinal, a última vez em que conversaram ela tinha apenas alguns minutos de vida. — Mas o que você faz aqui sozinha, Winnie? Não quer se divertir com as outras crianças? Eu estava ensinando uma dança bem legal agora pouco.

A garotinha descruzou os braços e desfez o bico, claramente amuada.

— Eu me perdi da minha mãe. Procurei por todos os lados e não achei, acho que ela esqueceu de mim e foi embora sozinha. — Winnie abraçou os joelhos, olhando para a comemoração metros à frente. As outras crianças corriam e riam enquanto brincavam.

— Tenho certeza que a sua mãe nunca abandonaria você, Winnie. Tem certeza que procurou bem? — A menininha assentiu à pergunta, ainda abraçada aos joelhos e com os grandes olhos assustados. — E que tal se eu te ajudasse a procurá-la? — O Doutor propôs, porém, Winnie não respondeu, mais concentrada nos próprios temores. — Winnie? — chamou, fazendo com que a garota olhasse-o com seus grandes olhos castanhos.

O Doutor tirou algo do bolso do colete, tão pequeno que ocultou-o na palma. Ele manteve a mão fechada, fazendo sinal para que a menina estendesse a mãozinha. Feito isso, depositou o ursinho de madeira sobre a palma da criança.

— Que é isso? — Winnie inquiriu, erguendo o brinquedo para mais perto do rosto e analisando-o com uma curiosidade infantil, movendo-o e observando cada detalhe cravado na madeira.

— Eu fiz isso para você na noite em que você nasceu. Infelizmente nunca tive a oportunidade de entregá-lo… — Winnie ergueu o rosto para cima, vendo o senhor do tempo observá-la com um olhar carinhoso. — Até hoje.

— Obrigada — a menina agradeceu tímida, voltando a olhar para o brinquedo que girava na mão. — Da onde…

— Oswin Moorland! — Ambos ouviram Ellie Moorland gritar para a filha alguns metros de distância da Torre, usando o nome completo da garota, e não o apelido. — Quantas vezes vou ter que te dizer para não se afastar demais das outras crianças?

— Mamãe! — Winnie gritou, levantando-se em um pulo, sequer importando-se de bater a neve das roupas, correndo direto para os braços da mãe, que a abraçou fortemente e ergueu-a no colo. — Eu achei que você tinha ido embora sem mim.

— Nunca, meu amor. Eu nunca esqueceria de você.

Observando a cena de reencontro entre mãe e filha, o Doutor se levantou de onde estava sentado todo aquele tempo, pegando de volta a bengala que estava aos pés. Caminhou em direção as duas em posse de um sorriso.

— Bem, acho que minha parte aqui está cumprida — disse para ambas, acariciando os cabelos castanhos de Winnie ao chegar perto.

Disfarçadamente, observava-as com a mente em um turbilhão de dúvidas. Por que Ellie chamara Winnie de Oswin? Se bem recordava-se, Ellie desejava colocar o nome da mãe na própria filha, porém o pai, David, não era muito entusiasmado pela ideia, optando usar um apelido para a menina. Winnie era apelido para Oswin, o Doutor chegou à conclusão nos segundos em que observava as duas.

Era apenas uma coincidência o nome Oswin passar mais uma vez por sua vida, tinha certeza. Era apenas uma coincidência aquela garotinha parecer — até demais — com a versão criança de Clara Oswald, que encontrara enquanto fazia uma busca completa por toda a linha do tempo da mulher, no tempo em que ela ainda era um mistério que desejava desvendar. Era apenas uma coincidência, por que não?

O problema era que coincidências raramente eram presentes em suas vidas.

— Olha, mãe, o que o Doutor me deu. — Winnie ergueu o ursinho de madeira em frente aos olhos da mãe, ansiosa por mostrar o mimo que recebera.

— É lindo, filha — Ellie disse, depositando um beijo sobre a fronte da garota. — Obrigada, Doutor. Obrigada por cuidar da Winnie para mim.

— Ora, disponha — ele manifestou-se finalmente, saindo das dúvidas em sua mente. — Tivemos uma conversa muito divertida, não foi, Winnie?

A menina assentiu, mais atenta à própria mãe do que ao senhor do tempo que falava com ela.

Despedindo-se, as duas rumaram para casa, com Winnie ainda agarrada ao colo da mãe. A garotinha acenou ao longe para o Doutor, que retribuiu o gesto de onde estava.

Era apenas uma coincidência, tinha certeza. Winnie Moorland era apenas a garotinha que vira nascer e crescer. Apenas isso, apenas Winnie.

Os últimos Sycorax remanescentes deram meia-volta, batendo em retirada para a própria nave, aceitando a derrota dessa vez. Mas ainda voltariam, tão logo se recuperassem. Restava saber quem viria no dia seguinte.

O Doutor afrouxou o aperto da mão na chave de fenda sônica, fazendo com que a luz esverdeada apagasse. Soltou um respiro fundo, olhando ao redor e vendo os destroços pelo chão. Mais construções, além de um moinho, teriam que ser reconstruídas dessa vez. Era rotineiro o realinho após a devastação da batalha, não demoraria muito para que os habitantes colocassem tudo de pé, para ser destroçado novamente dali algum tempo. Apesar de tantos séculos, ainda se impressionava com a capacidade dos humanos em recomeçar.

Pronto para dar as costas para o campo com marcas de batalha, percebeu alguma movimentação pela visão periférica. Com a chave de fenda sônica em punho, preparado para agir em um milissegundo, ele aguardou em silêncio, até ouvir nova movimentação. Dessa vez, apontou a chave na direção, aproximando-se com firmeza.

— Ei, ei, sou apenas eu. — Winnie ergueu as mãos em rendição, o rosto parcialmente lívido.

— O que você está fazendo aqui? Mandei todos para a Torre, não é seguro ficar do lado de fora — o Doutor censurou, afinal, ela era a única do lado fora da torre além dele. Aos habitantes era orientado se proteger durante os ataques, salvo algumas vezes em que a ajuda deles era necessária. Contudo, raramente acontecia, pois o Doutor preferia trabalhar sozinho, para a segurança das outras pessoas.

Vendo que a garota prendera o pé em um buraco fundo na neve, o senhor do tempo estendeu a mão, ajudando-a. Quando finalmente viu-se livre, Winnie ergueu o rosto na direção do Doutor.

Caso não estivesse acostumado com a visão, soltaria um arquejo naquele instante: ela era idêntica à Clara. Não apenas um nível de semelhança como um nariz, uma expressão ou coisa simples. Winnie era a Clara, sem tirar nem pôr — a única exceção sendo o cabelo castanho na altura da cintura —. Ela poderia muito bem ser Clara Oswald, se ele não a tivesse mandado de volta para a Terra há cento e dezoito anos.

E há dezoito anos via aquela menina crescer, cada dia mais parecida com a mulher com a qual encontrara três vezes, — ao menos das que se recordava —. Mesmo que tentasse vê-la apenas como Winnie Moorland, a garota que vira nascer e crescer em Trenzalore, isso se tornava cada dia mais difícil.

— Você deveria procurar os seus pais, eles devem estar preocupados com você. — Após ter certeza que a jovem estava bem e orientá-la, o Doutor deu as costas e começou a caminhar para longe dela.

— Por que você me evita? — ela questionou sem rodeios, caminhando com seus passos curtos até estar lado a lado com o senhor do tempo, que parou onde estava ao ouvir a pergunta direcionada a ele.

— Por que eu evitaria você? — devolveu como uma nova pergunta. Não podendo mentir dentro daquela cidade, tudo o que restava era procurar meios para contornar a verdade. Não responder diretamente era uma ótima maneira.

— Porque, de todas as crianças e adolescentes da cidade, eu sou aquela que você menos interage. Porque sempre que eu estou perto, você se afasta de mim e vai para o mais longe possível. Porque você sempre me manda embora quando ofereço ajuda, preferindo outras pessoas em vez de mim. — Winnie cruzou os braços e ergueu o rosto em desafio, postando-se à frente do senhor do tempo. — Se isso não significa que você me evita, então eu queria saber o que é.

O Doutor abriu e fechou a boca, procurando por meios de contornar a verdade sem dizer uma mentira. Mexendo-se em seu lugar, abrindo e fechando os punhos, finalizou apontando o indicador para a garota.

— Você realmente devia procurar os seus pais. Eles devem estar preocupados por você não estar com os outros na Torre — reiterada a advertência, pôs-se a caminhar novamente, ignorando completamente a presença da garota.

— Ei! Você não respondeu minha pergunta.

Os dois continuavam afastando-se das ruínas do campo de batalha, indo em direção a uma das linhas de casebres, desertas dadas as circunstâncias. Winnie corria para alcançar as passadas longas do senhor do tempo. Ele andava rápido para alguém com uma bengala.

— Por que você é tão sozinho? — ela continuou o questionário enquanto os dois iam para cada vez mais perto dos limites da cidade.

— Eu não sou sozinho.

— É sim. Você gosta de se cercar da presença dos outros habitantes, mas quando menos se espera, está sozinho de novo na sua Torre. — Desta vez, o Doutor cessou o caminhar, virando-se de frente para a garota. Ela também parou, com a respiração cansada pela breve corrida. — Por que você sempre fica sozinho lá? Os adultos costumam dizer que a sua caixa azul pode te levar embora a qualquer instante. Então, se você pode sair daqui quando quiser, por que você ainda fica aqui lutando contra monstros para proteger os outros? — Aproveitando que os dois estavam frente a frente, sozinhos na brancura da neve e sem interrupções, Winnie soltou em cima do Doutor todas as perguntas — ou as que mais a intrigavam — sobre ele.

— Você é uma garota muito curiosa, não é? — o senhor do tempo apenas devolveu o questionamento com mais um, curvando-se levemente para aproximar um pouco mais a face da de Winnie.

De perto, podia observar cada detalhe do rosto da garota, desde os reflexos em seus olhos, até o leve franzir das sobrancelhas e crispar de lábios. Não havia como negar: ela era um dos ecos de Clara Oswald. Ele apenas se questionava por que ali, por que em Trenzalore? Não precisava ser salvo, então por que ela estava ali?

— Não é minha culpa se você é misterioso. Isso desperta a curiosidade de qualquer um. — A jovem cruzou os braços, mantendo um sorriso divertido nos lábios enquanto olhava para cima para encarar o Doutor.

Ele permitiu-se emular a expressão da garota, afastando a face dela. Até mesmo a maneira de desafiar-lhe era a mesma de Clara. Até mesmo aquele diálogo poderia ser a versão de um de seus debates com a Garota Impossível. Ele fazia o certo ao manter distância de Winnie Moorland.

— Você devia manter…

— Manter o que?

— Manter o seu nariz engraçado fora de problemas. — Ele permitiu-se uma brincadeira, cutucando o nariz da garota com o indicador, para dar as costas em seguida.

— Ei! Eu não tenho um nariz engraçado! — Winnie reclamou, colocando as mãos sobre a face.

— Sim, você tem — o Doutor rebateu sem voltar-se de frente para ela, caminhando lentamente com a bengala para longe.

— Eu posso ter um nariz engraçado, mas você tem um queixo enorme — ela disse alto para ser ouvida à distância.

O Doutor permitiu-se rir pela primeira vez naquele diálogo.

— Boa noite, Winnie — finalizando com uma despedida, não olhou mais para trás, caminhando para os limites da cidade. Os habitantes deviam ter saído da Torre do Relógio, visto o silêncio após a batalha, e logo tomariam as vias. Ele afastava-se, pois precisava retirar-se para os próprios pensamentos por alguns instantes.

— Boa noite, Doutor — Winnie devolveu, fazendo com que os lábios do senhor do tempo se curvassem em um sorriso.

Finalizado o diálogo, cada um tomou caminhos opostos.

Mais uma noite fria tomava conta da cidade de Natal. E em mais uma noite o Doutor escondia-se na solidão da Torre do Relógio, tendo como companhia apenas a rachadura que causava todo aquele conflito sem fim. Além de seus próprios pensamentos, tudo o que ouvia eram os sussurros das duas palavras que ecoavam há séculos: Doutor quem?

Ocupando sua mente, entediado com a solitude, esculpia a madeira para uma das crianças da cidadela. Tinha certeza que Alex adoraria aquele porquinho de madeira para a fazendinha de brinquedo.

Tudo parecia ocorrer como sempre, quando ouviu uma batida na porta. Colocando de lado o estilete, aguardou, ouvindo novamente a mesma batida. Deixando as coisas sobre a mesa encostada em uma das paredes, coxeou até a porta de entrada. Abrindo, foi saudado por um vento gelado e por Winnie com um sorriso amigável.

— Olá — ela cumprimentou tão logo o senhor do tempo apareceu na soleira.

— Olá — ele devolveu com certa incerteza. — O que está fazendo aqui, Winnie? Está frio aí fora.

— Quando não está frio aqui fora? — a jovem rebateu a afirmação com uma risada e o Doutor permitiu-se sorrir. Winnie limpou a garganta. — Eu vim oferecer um recomeço. Acho que a conversa de ontem à tarde não foi uma boa forma da gente voltar a se falar.

— Você quem começou com as perguntas e falou sobre o meu queixo — ele fingiu-se de ofendido, sendo que, no fundo, divertia-se pelo diálogo. Sabia que deveria censurar-se e manter distância daquela garota, pela segurança dela.

— Você quem começou falando do meu nariz — ela devolveu, porém, parou com as provocações. Não era por isso que viera ali. — Além do recomeço, vim oferecer um suflê que eu fiz hoje à tarde. É o melhor suflê da cidade. — Ergueu uma cesta de vime coberta por um pano. Finalmente o Doutor percebeu que ela carregava algo nas mãos em frente ao corpo.

— Você cozinha suflês? — ele espantou-se, exclamando um pouco mais alto do que deveria. Apesar de cada eco ter suas próprias peculiaridades, todos mantinham algumas características em comum, únicas à Clara original. O amor por suflês era um deles.

— Não precisa fazer essa cara, não é tão ruim assim, sabe? É até bem gostoso. Minha mãe me ajudou a fazer dessa vez, porque da última eu quase causei um acidente na cozinha. — Ela riu sozinha e olhou para o Doutor, vendo que ele trazia um sorriso nostálgico no rosto. — Por que você me olha assim?

— Assim como? Estou apenas olhando para você — devolveu outra pergunta e Winnie passou por baixo do braço que ele apoiava no batente de um dos lados da porta. — Não! Não entre aí! — O Doutor tentou correr para impedi-la, porém, Winnie já analisava tudo com olhos curiosos.

— Assim, como se você não estivesse me vendo de verdade… Você guarda todos os desenhos que as crianças fazem para você! — Winnie observava as gravuras infantis pregadas pelas paredes. Eram tantas que certos pontos eram tomados pelos papéis coloridos, impedindo de ver o concreto por baixo.

— É claro que eu guardo os desenhos que as crianças me dão — o Doutor disse como se sentisse ofendido apenas pela ideia de descartar os presentes que as crianças faziam com tanto carinho. — Eu me lembro de cada um deles. — Ele parou, analisando uma das colunas com outro olhar nostálgico, diferente daquele dirigido à Winnie ainda na porta.

— Quantos anos você tem? Sempre ouvi dizer que você está em Trenzalore há quase meio milênio.

— E talvez eu tenha vivido mais de um milênio também. — Com a resposta sem rodeios pela primeira vez, Winnie postou-se boquiaberta, fazendo com que o Doutor risse. — Você ama fazer perguntas, não é? — Ele parou frente a ela, curvando o pescoço para encará-la mais abaixo.

— Eu disse ontem, não tenho culpa se você é misterioso desse jeito. — A garota ergueu o rosto para cima, olhando diretamente para os olhos verdes do senhor do tempo em desafio. — Quem é você, Doutor?

O Doutor soltou uma risada anasalada com a pergunta. Sempre curiosa, sempre querendo mais saber mais sobre a origem dele. Sempre tão… Ela.

— E você? Quem é você, Oswin Oswald Moorland? A garota nascida em Trenzalore, mandona, apaixonada por suflês e por fazer perguntas sobre mim.

Dessa vez, Winnie é quem riu e o Doutor meramente crispou os lábios.

— É estranho ouvir alguém falar o meu nome. Apenas a minha mãe me chama assim, quando vai me dar uma bronca. — Winnie deu outra risada e o Doutor sorriu, lembrando-se de outras vezes quando ouviu aquele mesmo riso. Mas Winnie não era ela. —E como você sabe o sobrenome de solteira da minha mãe?

O Doutor encontrou-se pego pela própria curiosidade, dessa vez, contudo, não tinha a mentira como subterfúgio para esconder-se. Entretanto, dessa vez, não precisou preocupar-se com o que dizer ou não, pois algo maior clamava pela sua atenção. Os sinos da cidade badalavam ininterruptos.

XXX

Por essa ninguém esperava, não é? Sim, Winnie é um dos ecos da Clara e já sabemos o que virá pela frente...

Bem, uma das coisas que eu queria aproveitar nas notas finais é para comentar sobre como surgiu a ideia para essa fic. Acho que a maioria de nós, quando assistiu o episódio The Time of the Doctor já se perguntou o que aconteceria caso o Doutor não tivesse mandado a Clara de volta para a Terra, não é? E se a Clara tivesse ficado em Trenzalore? Com essa linha de pensamento, chegamos a: e se o Doutor encontrasse um eco da Clara em Trenzalore. Olhando para alguém tão parecida com a Clara todos os dias, ele se lembraria o porquê não deixou que a Clara original ficasse com ele em Natal...
Ainda temos mais um capítulo e aproveitarei as notas finais do próximo para falar da Winnie, essa menina que a gente mal conhece e já considera tanto -q

14 de Agosto de 2020 às 00:03 0 Denunciar Insira Seguir história
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