liadeoliv Julia Soares

A internet pode lhe trazer várias coisas, inclusive seu amor do passado. No auge de sua carreira Valentina reencontra Fernando, seu antigo "webnamorado", e depois de tantos anos, percebe que ele foi o percursor de vários problemas com sua própria autoestima. Diante disso ela deseja se vingar, sem se lembrar que a vingança é um prato que se come frio.


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#romance #drama #webnamoro
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O começo da história

Quando o relógio bateu 12:30, Valentina Ramos sabia que tinha que voltar a sua sala. Era a dona da empresa, mas cumpria uma hora de almoço como todos os outros empregados. Era o quinto ano da Editora Gráfica Nascimento. Ela não se arrependia do nome que havia escolhido para seu mais precioso bem, afinal, a ideia geral era que dali nascessem as histórias que não tinham visibilidade, como as que ela escrevia antes. Hoje em dia, a mulher que batia na porta dos 35 anos, não escrevia mais; seus dias como escritora foram substituídos pelo amor e dedicação que ela dava a empesa. Ela batalhou por aquilo, e no começo achou que tinha atingido o pico de sua vida acadêmica e profissional, mas percebeu que algo ainda não se encaixava. A verdade era que, não importa o que conseguisse, as vezes só queria voltar para as noites em claro que lhe proporcionava escrever, e chorar com seus próprios personagens. O bloqueio criativo era real e eterno para ela.

Antes de subir até sua sala, passou pelo primeiro andar onde alguns livros estavam sendo impressos. Queria verificar uma tiragem de livros novos que seriam o grande lançamento do mês e nada podia dar errado. Havia fundado a Nascimento com o dinheiro das vendas de seu primeiro livro, “Malaxofobia” tinha sido um sucesso total, tendo até uma boa porcentagem sendo vendida internacionalmente. Para um livro que havia sido tirado de uma plataforma online, o sucesso era até demais. Principalmente porque os livros que ela via fazendo tanto sucesso assim eram histórias rasas com personagens tóxicos e enredos duvidosos.

De qualquer forma, com o dinheiro do primeiro livro conseguiu fundar a pequena editora, e conforme foi lançando mais livros, e o dinheiro foi entrando decidiu que também seria responsável por imprimir o que publicava. Assim nasceu a Editora Gráfica Nascimento. No começo viu muitos homens poderosos torcerem a boca; alegavam que era mais uma editora pequena comandada por uma mulher com ideias muito grandes, mas ela provou que podia comandar tudo, nunca ficando sozinha na jornada, tendo sempre bons amigos ao seu lado, e principalmente bons consultores. Não era louca de dizer que podia comandar tudo sozinha, jamais teria chegado ali sozinha.

− Val! – Ouviu a voz do amigo a chamando fazendo sua atenção sair das lombadas firmes dos livros que inspecionava. – Finalmente encontrei você livre.

Valentina foi obrigada a rir, não sabia quando foi a última vez que esteve “livre” como o amigo se referia. Mas, não discutiria, era verdade que todas as vezes que Jean ia até seu escritório ela estava enrolada com algo sem poder lhe dar a devida atenção; principalmente sabendo que ele só queria a assinatura dela para alguma coisa.

− Em quê posso ser útil para você nesse “momento livre” que estou tendo? – Ela perguntou enfatizando a frase que o amigo havia lhe dito.

Com algumas pastas na mão, Jean acompanhou o riso da amiga enquanto olhava para cima para poder encontrar os olhos dela. Valentina era uma mulher de estatura média, não chegava a 1,70, mas com os saltos que usava ficava mais alto que o rapaz. Apesar de amigos de infância, eles tinham uma diferença de idade considerável, visto que a moça ainda atuava como professora quando o conheceu. Por sorte do destino, ele foi um dos seus melhores alunos e agora era seu melhor amigo.

− Eu estou o dia inteiro tentando falar com você. Mandei o e-mail sobre os novos empregados pra carregamento, mas a madame me ignora. O que você fez tanto essa manhã, posso saber? – Jean acompanhava a mais velha até o elevador, teria que segui-la até sua sala se quisesse ter atenção.

− Passei a manhã conversando com alguns tradutores estadunidenses para as obras que foram encaminhadas para fora. Pelo visto tem alguns erros, estou quase traduzindo eu mesma. – Valentina apertou o botão do sexto andar e encarou o amigo – Vai pra onde?

− Pra sua sala, você vai me dar atenção. Montei uma tocaia pra te esperar voltar do almoço, e agora você vai me escutar. É importante.

Revirando os olhos já imaginando quanto tempo teria que ouvir Jean, Valentina viu as portas dos elevadores se fecharem e agradeceu pelo amigo ser o único preso no cubículo com ela. Do jeito que devia atenção a outras coisas se encontrasse mais alguém era capaz de ser cobrada também.

− Os novos empregados, sei. Começaram na segunda e você precisa da minha assinatura para liberar o que? Vale-refeição?

− Algo assim. – As portas do elevador abriram e ao sair Valentina teve que se esquivar das outras pessoas que desciam para almoçar. Todas queriam lhe cumprimentar e lhe falar algo, mas ela já estava ocupada com o amigo. – Sabe, eu sou seu gestor de RH você deveria me dar mais atenção.

− Ótimo. – Ela disse com certo desdém e abriu a porta da própria sala convidando o amigo a entrar. – Vamos fazer um acordo, eu assino o que você precisa, e depois você mandar alguém subir com alguns dos exemplares de “O grande pagamento” que está sendo impresso lá embaixo e você não me deixou acompanhar.

Jean levantou as mãos para o céu como se disse aleluia e finalmente se sentou a frente da amiga em sua mesa falando os nomes dos funcionários que ela precisava registrar no sistema de tickets. Era óbvio que aquele serviço teria sido poupado se ela tivesse feito tudo com o e-mail que ele lhe mandou, mas Valentina queria estar por dentro de tudo na empresa e não era de hoje que ela sabia que não conseguia. Algo sempre passava despercebido, e era por isso que ela agradecia ter seus melhores amigos em cargos responsáveis na empresa.

Depois que saiu da faculdade de Letras e começou a lecionar na rede pública, ela acabou conhecendo Jean, que acabou se tornando seu melhor amigo mesmo quando deixou de ser professora. Pelo menos quando não lecionava mais podia sair com ele para as festas sem ser cobrada por estar bebendo na presença de um aluno; como se professores fossem sempre chatos e não tomassem cervejas aos finais de semana. Ainda no mesmo ano conheceu Vinicius e Diogo, que já eram conhecidos de seu ex-aluno, os três treinavam vôlei juntos como atividade extracurricular, mas nunca passaram em times grandes para tornarem atletas profissionais. Quando atingiram certa idade, desistiram de tentar. Jean estava no meio da faculdade de Recursos Humanos quando Valentina o chamou para trabalhar na pequena editora que ela iria fundar com o dinheiro do primeiro livro. Ele a ajudou a lançar todos os livros, dela e de outros autores naquele ano, foi a ajuda de que ela precisava. Quando a empresa começou a crescer Vinicius estava se empenhando a ser um influencer digital, mas infelizmente não conseguia decolar, a oportunidade de se juntar a equipe de marketing lhe caiu como uma luva e por isso não demorou muito a subir para gestor. Já Diogo sempre tinha sido muito bom com trabalho braçal, e por isso quando a editora se acoplou com a gráfica, Valentina não pensou duas vezes em chamar o amigo. Sendo assim, o quarteto fantástico trabalhava todo junto, mesmo que agora não se reunissem como antes, ainda assim, estavam todos ali embaixo do mesmo teto.

No começo, Valentina e eles saíam com muita frequência, adoravam dançar e beber juntos; mas com o tempo a mulher começou a se preocupar mais com o trabalho e agora raramente tinha tempo e pique pra acompanhar os amigos. Mesmo assim eles sempre convidavam, por sorte em algum momento ela acabaria aceitando.

Jean estava noivo de um homem que o grupo conhecia bem, se chamava Gusman, era um imigrante da Bolívia que começou a trabalhar na editora quando a gráfica abriu. Vinicius e Diogo encheram o saco do outro integrante do grupo para que eles ficassem juntos e a força dos demais valeu a pena pois agora estavam a um passo do altar. Vinicius estava atualmente solteiro, seu relacionamento anterior não tinha dado muito certo, mas como o mesmo repetia para si mesmo todos os dias “o que não mata te fortalece” e era por isso que continuava seguindo a vida com bom humor e um sorriso no rosto. Diogo era a pessoa mais misteriosa do quarteto; quando o grupo foi formado ele podia jurar por todos os santos sua heterossexualidade, mesmo assim, depois de um tempo ficou óbvio que ele pertencia tanto ao vale quanto os demais, e agora estava conversando com um rapaz online que ele não falava o nome para ninguém, por enquanto, era um assunto que apenas dizia respeito a ele.

Agora, se precisássemos falar sobre a vida amorosa de Valentina um novo livro seria escrito. Valentina passou a vida inteiro sofrendo por homens que não a valorizaram. Ela tinha outro nome na época, o atual ela usou quando começou a escrever e quando fundou a editora, acabou adotando o nome que escolheu. Já havia passado por relações com homens, mulheres, namoros a distância, webnamoros, e depois de ter se casado, era atualmente divorciada. O casório não durou muito depois do aborto do primeiro e único filho que ela teria. Havia sido uma escolha sua, desistir da gravidez tinha sido a melhor escolha na época, e mesmo que tenha sido de maneira clandestina ela não se arrependia do que fez.

No fim, sua vida era dedicada aos livros. Lançou uma duologia de fobias “Malaxofobia” e “Nostofobia” venderam o suficiente para que a editora se levantasse do pó. Logo depois veio “Apenas Deus Sabe” um romance bem água com açúcar que a trouxe outro público. Então, a primeira bomba de vendas da editora com seu nome nasceu, se chamava “Sanguinem” abordava vampiros e outras criaturas sobrenaturais, foi um grande estouro no país. Com as vendas do livro de vampiros a gráfica nasceu e as coisas começaram a criar um bloqueio criativo na moça. “Sanguinem” tinha sido escrito enquanto ela ainda estava na faculdade, tinha tempo para isso, só estava com o arquivo. Depois que começou a trabalhar no próprio negócio, Valentina ainda terminou de escrever uma trilogia; “Alice”, “Alice VS Diego” e por fim “Alice para sempre” também com vampiros que contava a história de uma mocinha lidando com o fato de ser mestiça vivendo no Brasil. Seu último lançamento tinha sido “Do Anoitecer até o Amanhecer” com um toque mais sombrio e erótico e até fez um sucesso considerável. Foi um sofrimento terminar este último, visto que não tinha mais o mesmo pique e tempo para escrever, acabou contando com a ajuda de alguns gosthwriters no caminho. Agora não escrevia mais nada, havia virado uma workaholic de primeira, e muitas vezes a impressa pegava pesado nessa parte.

Quando Jean finalmente terminou com sua tarefa forçada para cima de Valentina, a mesma deu risada cansada e tirou os óculos do rosto coçando os olhos, havia deixado muitas coisas importantes de lado para atender o pedido do amigo. Mesmo que aquilo ainda fosse importante, não era o que tinha planejado para sua tarde.

− Agora que acabamos, pode por favor mandar alguém trazer pelo menos uma das cópias do livro novo pra que eu examine? – Ela apontou para a estante a direita da sua mesa. Todos os livros lançados pela editora estavam ali e havia um espaço vazio aguardando o novo.

− Claro que posso. Agora que já fez o que eu queria, pode me pedir qualquer coisa gata. – Jean mandou um beijo no ar para a amiga e saiu feliz da sala.

Quem via o homem no seu dia a dia do trabalho nem imaginava que na adolescência ele era pioneiro em usar o adjetivo de “poc” da época.

Valentina apenas dava risada, mal dava pra acreditar que tinha ido à primeira parada do orgulho lgbtqia+ acompanhada daquele serzinho. Na época os dois eram solteiros e apenas dois jovens querendo se divertir, haviam ficado cara a cara com Pablo Vittar naquele dia, nunca esqueceriam tal marco.

Depois que Jean saiu de sua sala, se passaram quase 30 minutos para que alguém trouxesse o que havia sido pedido por ela, mas logo uma batida sutil foi ouvida na porta. Provavelmente o amigo tinha mandado algum dos novos contratados fazer a entrega, todos sabiam que podiam entrar em sua sala sem bater, era só não fazer nenhum alarde.

− Pode entrar. – Ela disse alto para que fosse ouvida. Ainda tinha tanta coisa para resolver e de repente trabalhar doze horas seguidas tinha ficado pouco para o que precisava fazer.

A porta se abriu e um homem alto de barba rala passou pela mesma, Valentina mal tirou os olhos do computador para examinar quem entrava, não precisava disso. Só pegaria o livro e com um sorriso agradeceria, já estava acostumada com aquela ação.

− O seu Jean pediu para entregar este livro para a senhora. – Ele estendeu o livro por cima da mesa chamando a atenção de Valentina que encarava a tela do computador com os e-mails abertos. Ela abaixou a cabeça olhando para o livro por cima dos óculos e parou por um momento quando viu uma tatuagem de teias de aranha na mão do homem. – Devo colocar de lado?

Valentina levantou o rosto e encarou o rosto daquele homem. Não era possível, qualquer pessoa teria aquela tatuagem no mesmo lugar, mas ela reconheceria aquele rosto em qualquer lugar do mundo mesmo que só o tivesse visto por uma webcam.

− É você. – Ela sussurrou achando que tinha falado apenas para si mesma, mal podia acreditar no que seus olhos estavam vendo.

O homem a sua frente era sua paixão do passado. Sua paixão de internet, e se não fosse, se parecia muito com o rapaz que ela conheceu com dezesseis anos de idade nas redes sociais.

− Eu sou? – Ele perguntou encabulado. – Dona Valentina, eu sou novato, desculpa se fiz algo.

Só então ela percebeu que deveria estar agindo como uma verdadeira idiota para o homem, e se levantou retirando os óculos dando uma risada nervosa tentando disfarçar o clima desconfortável que ela criou.

− Claro, você é um dos novatos. Repassei as fichas de contrato de vocês essa tarde, me desculpe. – Ela pegou o livro da mão do homem e percebeu que mesmo de salto ele era maior que ela. – Posso saber seu nome?

Isso, ela só precisava saber o nome dele e logo tiraria a dúvida. Talvez só estivesse enlouquecendo com o trabalho.

− Desculpa, eu me chamo Fernando. Comecei hoje.

− Fernando Dias Martins. – Ela disse desacreditada. Não podia ser verdade. Seu webnamoro estava trabalhando para ela. Só então percebeu que tinha falado o nome inteiro de um homem que aparentemente não lembrava dela. – Desculpe, deve ser estranho me ouvir falando seu nome assim, eu vi na sua ficha. – Valentina balançou o livro de leve com uma das mãos – Obrigada Fernando, e seja bem-vindo a editora, espero que esteja feliz conosco.

− Obrigado. É ótimo. Vou voltar para meu serviço, seu Jean disse para não roubar muito de seu tempo.

Valentina apenas sorriu sem saber como continuar a conversa enquanto Fernando saía de sua sala. Era ele, o rapaz que quebrou seu coração por um tweet estava ali, em forma de homem com barba e tatuagens novas. Ele tinha voltado para sua vida.

11 de Agosto de 2020 às 17:53 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Julia Soares Olá, Lia é apenas um apelido, sou ariana do dia 4, por enquanto 20 invernos. Gosto de escrever e ler principalmente do gênero de vampiros. Estou escrevendo um romance drámatico chamado A História Que Ninguém Contou. TENHO DOIS LIVROS PUBLICADOS: Sanguinem foi publicado pela Editora Gráfica do Heliópolis, favor entrar em contato para adquirir. ALICE foi publicado no clube dos autores, você pode adquirir pelo site https://clubedeautores.com.br/livro/alice-5

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