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bia_triz_lion Beatriz Leão

Nove reinos. Um colar. E um poder extremo, que, se não usado corretamente, pode causar danos inimagináveis. Ágda Scarth nunca pensou que todas as lendas que escutara eram, de fato, verdadeiras até saber as origens de um colar que era proibida de tirar do pescoço. A garota só não sabia que estava conectada àquele novo universo, e, para salvá-lo, precisará se separar de sua família e usar o que foi ensinada a jamais tirar, porém jamais mostrar. ____________ Sobrinha de um comerciante e prima de três meninas, Ágda Scarth vai sair de uma vida normal para um mundo cheio de magia e criaturas diversas, incluindo deuses poderosos e monstros horrendos, descobrindo que as lendas contadas para amedrontar crianças ou servir de inspiração, eram verdadeiras. A diversão de explorar as belas terras de Álfheim, logo se tornará uma responsabilidade gigantesca quando a menina descobre que seu colar é muito mais que um objeto bonito e histórico. Ágda irá se aventurar por belos e perigosos reinos da famosa mitologia nórdica, se divertindo com fadas, rindo de anões raivosos e enfrentando gigantes para não ser afastada do seu tão importante e misterioso colar. ☆__________☆__________☆ Capa criada por: Beatriz Leão (bia_triz_lion).



Fantasia Épico Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo Um

Já era noite. Ou talvez as cortinas só estivessem fechadas. Tinha a sensação de ter dormido por dias, e ao mesmo tempo que eu apenas pisquei os olhos. É horrível, parece que não havia dormido o suficiente, mas ainda assim estava sem sono algum.

Levantei da cama, e de repente ficou tudo claro, eu não estava mais no cômodo que dormi por dias — ou por um segundo — e sim em um salão enorme e dourado como se fosse praticamente todo feito de ouro, onde pessoas elegantes dançavam uma música clássica de fundo. Sem entender ao certo o porquê desse baile, andei pelo salão me esforçando para desviar das pessoas sem tocá-las, então tornou uma brincadeira divertida, passei a correr no meio de toda aquela gente que não parava de se mover, até que bati de frente com uma mulher que apareceu de repente. Assim que levantei, olhei para o lado e me vi usando um longo vestido azul-marinho e joias através do reflexo do vidro da enorme janela, que ia do teto ao chão. Lá fora eu só consegui ver o céu negro.

Estava realmente de noite.

— Menina, se continuar correndo assim vai se machucar! — disse a mulher. Seu rosto estava meio turvo, mas parecia ser muito bonita. Olhei para ela com raiva por ter acabado com a minha brincadeira. — Querida, não me olhe assim, sei que estava se divertindo, mas sabe que perto dessa gente precisa mostrar elegância e educação. Terá outros momentos para brincar.

Cruzei os braços, emburrei a cara e abaixei a cabeça. Só consegui ouvir o riso leve e doce da moça. Sabia que ela não estava brava, sabia que quando ria assim, estava achando graça de algo fofo, logo eu não iria me encrencar.

Então lembrei que a conhecia. A conhecia minha vida inteira.

— Essas joias são minhas? — perguntou ela, rindo novamente em seguida. — Quem arrumou você? Tem apenas sete anos, é nova demais para usar esse tipo de joia. — Ela tomou minha mão com delicadeza, e começamos a andar juntas até chegarmos à um canto sossegado. — Achei que dormiria a noite toda, sei que não é muito fã de bailes. O que fez minha pequena sair da cama? — A moça se abaixou na minha direção e sorriu. Aquele sorriso que eu tanto gostava.

— Fiquei sem sono — respondi, e passei a ficar incomodada por não conseguir ver o seu rosto, meus olhos começaram a arder, e uma única lágrima caiu.

— Ágda querida, não chore, está tudo bem. Não vou brigar com você, e não deixarei os meninos brigarem com você também.

— Eu não consigo ver você — minha voz saiu suave e baixa demais.

— Minha pequena, fica calma — sua mão tocou meu rosto, acariciando minha bochecha e secando minha única lágrima.

— Por que eu vou embora? — perguntei, esfregando os olhos. Ela ficou quieta por um momento.

— Já falamos sobre isso, querida.

— Mas eu não entendo — lágrimas mais grossas começaram a escorrer pelo meu rosto, cada vez mais rápidas.

— Pare. Pare de chorar, Ágda — pediu.

— Eu não quero ir embora.

— Você vai voltar.

O chão começou a tremer e um barulho ensurdecedor, como se fosse pegadas de um gigante, encheu os meus ouvidos. O medo me fez estremecer. Fiquei olhando para todos os lados, em uma tentativa falha de descobrir de onde vinha os estrondos. A moça estava falando algo que não consegui ouvir quando a olhei novamente, ela não parecia ter um pingo de medo, estava normal, como se não pudesse ouvir e ver o que estava acontecendo, assim como as pessoas atrás de mim que ainda dançavam tão animadas quanto antes.

Pedras começaram a cair, então vi que o teto do salão estava se abrindo. As janelas explodiram, fazendo pedaços de vidros voarem por todo lado. Eu tentei sair dali, mas não consegui me mover. Meus pés pareciam estar colados ao chão. A moça continuava a falar alguma coisa, continuava ignorando o que acontecia, e quando eu parei para prestar atenção no que dizia, pude entender: “até mais, meu amor”. Ela repetia essa frase sem parar. Tentei sair dali. Meus olhos encheram de lágrimas, deixando minha visão embaçada, então começaram a escorrer no meu rosto sem parar, que se misturavam com a chuva que passava pelo teto ao qual continuava se abrindo, revelando a imensidão negra do céu.

Os estrondos chegaram mais perto. Gritos desesperados começaram. Eu pude ouvir a lâmina das espadas partindo múltiplas carnes macias ao meio de uma vez, e o sangue delas explodindo no chão com força. Olhei para trás e me deparei com um mar vermelho cobrindo todo o chão do salão e pedaços de gente espalhados.

De repente, ficou tudo quieto novamente, quando voltei a olhar para frente, a moça tinha sumido, ao olhar para trás, o sangue e todos os restos humanos não estavam mais lá também. Estava tudo vazio. Ao olhar para frente novamente, só pude ver o brilho na lâmina de uma espada enorme vir na minha direção e...

— ÁGDA!

Acordei num susto que me faz cair de cara no chão. Olhei para cima desorientada e vi uma Lena irritada de pé ao meu lado.

— Para que o grito? — perguntei, esfregando os olhos.

— Te chamei mais de cinco vezes. Você estava se contorcendo, tremendo e chorando. Está toda suada e vermelha. Com o que sonhou? — Sua voz saiu mais calma e preocupada, o que fez com que eu me acalmasse também.

Suspirei pesado antes de levantar e quase cair de novo. Ainda estava meio desorientada por causa sono. Lena apenas se afastou de mim e cruzou os braços.

— Foi praticamente o mesmo sonho de sempre...

— Uma mulher e dois homens que você não vê o rosto? — perguntou, me interrompendo.

— Só tinha a mulher. Eu era criança, e estava em um... — fechei os olhos tentando tirar a lembrança da cabeça e sentei de volta na minha cama. — Deixa para lá, quanto menos falar sobre, mais rápido esqueço. — Ouvi Lena bufar antes de se aproximar e sentar ao meu lado.

— Olha, eu sei que eu nunca disse isso, e por mais que realmente não pareça, eu me preocupo com você às vezes...

— Às vezes? Uau, agora eu me sinto bem.

— Está bem, esqueça.

— Não, termina de falar! — pedi, tentando prender a risada por achar graça de como ela se irritou tão facilmente.

— Faz tempo que o sol nasceu, já era para estarmos lá fora — disse ela, levantando da cama.

Lena já estava vestida com as roupas que usava para caçar, diferente dos vestidos de sempre, usamos calças e blusas, sendo algumas de couro. Ela estava com uma camisa de linho, uma calça larga de tecido grosso e o cabelo preso em uma trança bem elaborada até a cintura, que só Lena sabia fazer com tamanha perfeição. Ela pegou seu arco, flechas e faca antes de descer, saindo do quarto.

Nosso quarto ficava no sótão, na verdade ele era o sótão. Não era muito grande, mas o suficiente para caber, confortavelmente, duas camas, um armário e uma poltrona ao lado de uma das janelas. A escada para o primeiro andar ficava em frente à minha cama, com uns dez pés de distância, já a de Lena ficava no outro lado do quarto com um criado-mudo e um armário a uns dois palmos de distância do mesmo, e logo em seguida era a nossa belíssima poltrona velha. A maioria dos móveis do quarto tinham pinturas de flores e pequenas paisagens que Lena fazia no tempo livre.

Vesti uma camisa de linho e uma túnica verde escura que ia até o meio das coxas, por cima, coloquei um cinto na altura da cintura, uma calça larga, calcei meus sapatos e peguei meu arco e minhas flechas ao lado da minha cama antes de descer depressa.

— Esqueceu de prender o cabelo — disse Lena, jogando uma maçã para mim enquanto eu descia as escadas, chegando na cozinha. — Chame Hasina para fazer sua trança.

— Prefiro chamar Kaira. Não vou me submeter à uma menina de quatorze anos que faz tranças melhor do que eu — falei, mordendo a maçã.

— Hasina faz tranças melhor que vocês duas — revidou.

— Você a ensinou. Por que nunca faz minhas tranças? — fui até a mesa de jantar, deixei meu arco sobre ela e ajeitei minha faca no cinto.

— Porque seu cabelo é cheio e grande demais para que a minha paciência suporte.

— Não é muito maior que o seu.

— Eu considero trinta centímetros muita coisa em relação à cabelo. — Revirei os olhos e fui até o quarto das meninas, ao lado da cozinha.

A verdade é que eu nunca tive talento para mexer no meu cabelo, muito menos fazer qualquer tipo de penteado, e, por isso, sempre esqueço de cortá-lo, o que é um dos motivos por ele estar uns trinta centímetros abaixo da minha cintura.

Ao chegar perto da porta do quarto, pude ouvir uma música suave vindo de dentro, sorri e abri a porta me esforçando para ser a mais silenciosa possível. Assim que olhei, Hasina já tinha os olhos em mim. Coloquei o dedo indicador em frente aos lábios, pedindo para que ela não falasse e fingisse que não estivesse me vendo, então ela voltou a dar atenção à boneca no seu colo. Ao entrar, vi Kaira sentada em sua cama tocando giga como eu já previa.

Ela estava tão concentrada que terminou a música sem perceber minha presença. Quando acabou, eu bati palmas, o que a fez pular de susto.

— Está aí há quanto tempo? — perguntou ela, com uma mão no peito, como se pudesse pedir para que seu coração se acalmasse.

— Mais ou menos dois minutos — respondi com um sorriso bobo.

Kaira sempre foi apaixonada por música e jardinagem. Ela é o principal motivo pelo terreno da casa ser tão bonito. Eu amava ouvi-la cantar enquanto cuidava do jardim ou colhia a plantação. De vez em quando ela saía para procurar flores e plantas diversas que pudesse plantar perto de casa, isso quando não pedia a mim ou Lena para trazer.

Kaira me olhou surpresa e levantou, indo guardar sua giga no armário.

— Não devia estar caçando, Ágda?

— Não devia estar costurando, Kaira? — Ela me olhou com um sorrisinho, como se tivesse gostado da minha resposta.

Meu tio tinha uma pequena loja de peles e roupas de pele na cidade, longe da aldeia onde moramos, por mais que nossa casa fique longe da aldeia também, próxima à uma enorme floresta.

Kaira amava animais, era a que mais cuidava dos nossos dois cavalos, por isso odiava caçar e vivia se lamentando pelos bichos mortos que trazemos, já Hasina só preferia ficar em casa por causa de suas bonecas. As duas costuram roupas de pele, lã, seda e linho em casa para meu tio levar para a loja, enquanto eu e Lena saímos todas as manhãs para caçar os animais que tem essas peles que trocamos maravilhosamente pelo famoso dinheiro, cujo nos sustenta. A carne desses costumam ficar para o nosso jantar.

— Meu tio saiu há muito tempo? — perguntei.

— Antes do amanhecer. Ele acha que as pessoas levantam antes do sol só para comprar peles — ela negou com a cabeça, indignada. — Mas o que você quer de mim? Ah, nem precisa dizer, já vi que não fez sua trança.

— Acordei tarde hoje.

— Eu vi. Vocês saem de casa antes do papai — ela fechou as portas do armário e veio até mim. — Por que não pede à Hasina? Ela faz tranças melhor que eu.

— Isso é verdade — disse Hasina, sem parar de pentear o cabelo de lã da sua boneca.

— Você tem mais paciência — falei para Kaira. Ela soltou um breve suspiro e me chamou com um aceno de mão. Sentei na sua cama, virada de frente para a parede, e ela sentou atrás de mim.

Kaira mexia no meu cabelo com delicadeza, tomando cuidado com cada fio como se pudessem arrebentar a qualquer instante. Atrás de mim Hasina falava com a boneca como se fosse sua filha. Eu sempre achei estranho ela gostar tanto dessas bonecas, mas meu tio jamais se importou muito com isso já que ela mesma fazia a maioria delas, mesmo quando Kaira brigava por ela estar sempre pegando pedaços de tecidos para as roupinhas e o cabelo.

As mágicas mãos de Kaira fizeram uma trança perfeita, deixando o meu cabelo um pouco mais curto. Lena ensinou todas nós a fazer tranças de diferentes tipos, mas nunca teve muita paciência comigo porque eu nunca tive muita paciência para aprender.

Levantei da cama assim que minha trança foi finalizada e agradeci.

— Não quer ver como ficou? — perguntou Kaira abrindo a gaveta do seu criado mudo, provavelmente procurando um espelho.

— Não é como se eu fosse para uma festa. Desde que esteja firme, está ótima — falei, finalmente saindo do quarto.

— Tomem cuidado! — gritou ela da porta assim que eu e Lena saímos de casa vestindo nossas capas para nos protegermos do fio lá fora. Kaira parecia a mãe da família. Todas cozinham, exceto eu, mas o que ela fazia não devia ser chamado de comida. Talvez Divindade dos deuses pudesse ser um nome que fizesse jus aos seus pratos.

Eu sempre fui a mais agitada da casa. Vivi brincando em lamas, indo para a floresta comer frutas e matando animais. Nos nossos momentos de crise, eu costumava fazer minhas flechas, por mais que não saíssem perfeitas. Sou apaixonada pelo que faço, ainda mais quando posso trazer dinheiro e alimento por isso, já Lena via a caça apenas como obrigação. Ela o fazia por não ter medo de matar animais, mas jamais gostou do cargo.

Nossa casa ficava a dez minutos da aldeia e meia hora da cidade andando. A floresta era praticamente em frete, demorando uns dois minutos para estar dentro dela. Éramos proibidas de caçar ursos, se caso um cruzasse o nosso caminho, tínhamos de fazer o máximo possível para fugir. A regra era a mesma em relação aos lobos.

O inverno chegou há pouco tempo, o clima estava de trincar os dentes, mas pelo menos a neve ainda estava baixa. Por mais duros que fossem os dias de inverno, eu sempre gostei pela beleza, as árvores brancas, o chão fofinho. Às vezes me sentia culpada por gostar tanto, é fato que faltava comida e dinheiro já que não era muito fácil encontrar animais vagando pela neve congelante.

A primeira coisa que fazíamos antes de realmente começar a caçar é verificar as armadilhas. Nós sempre as deixamos espalhadas pela floresta para garantir que tenhamos peles todos os dias, mas, como esperado, hoje a maioria está vazia.

Conseguimos apenas três coelhos e um guaxinim raivoso. O animal enfiava as unhas na minha túnica enquanto eu tentava abatê-lo, e só percebi que conseguiu alcançar minha pele quando minha roupa tinha um pouco de sangue. Quebrei seu pescoço com ódio na primeira oportunidade. Lena estrangulava os coelhos enquanto isso, sem sinal de preocupação comigo, a não ser quando pediu para irmos para casa cuidar do meu ferimento.

Eu não fiz questão de puxar a manga para olhar. Não tinha muito sangue, e não estava doendo tanto. Apenas ignorei.

Como a pele dos animais precisava estar perfeita para vendermos ou fazer uma bela peça de roupa, não podíamos danifica-las usando flecha ou faca, por furar e manchar de sangue, o que nos obrigava a jogar um bom pedaço fora. Então tivemos que nos acostumar a matar dessas maneiras. Nós só usávamos armas no caso de encontrarmos algum animal solto.

Eu me recusei a ir para casa com quatro bichos só por causa de um arranhãozinho de nada, então continuei andando com uma Lena irritada atrás de mim. A ignorei. Era o melhor que podia fazer.

Ficamos horas andando pela floresta branca, tão silenciosas quanto os flocos de neve que caiam. Não tinha sol, mas suponhamos que eram mais ou menos quatro horas da tarde, e ainda carregávamos apenas os malditos coelhos e o guaxinim. Minha prima só não abria a boca para reclamar porque espantaria qualquer bicho que poderia estar por perto. Com o passar do tempo não vimos ou ouvimos nada além dos galhos das árvores se roçando por causa do vento fraco.

Lena estava na minha frente, distante, caminhando com cautela e atenção. Ela parou e esticou as costas, mas não mirou em lugar algum, pelo contrário, ela abaixou o arco, deixando a ponta encostada no chão e guardou a flecha que antes usava.

Ótimo.

Eu sabia que a paciência dela já tinha se esgotado, então só esperei começar a discussão.

Lena virou para mim bruscamente, assim que ia começar a falar, sua boca parou aberta e seus olhos arregalados. Travei, não me movi por nada enquanto Lena não permitisse. Ela pegou uma flecha que havia guardado e deu sinal para eu contar até cinco, enquanto eu contava, ela preparava o arco. Ao chegar no um, me abaixei tão rápido quanto a flecha que ela disparou.

Minha prima sussurrou um “droga”, foi quando eu soube que, seja lá qual fosse o animal, ela não havia conseguido mata-lo. Então, me baseando na direção do olhar dela, peguei minha faca, virei e joguei no animal num movimento tão rápido quanto um piscar de olhos. A lâmina e uma segunda flecha de Lena acertaram ao mesmo tempo, cravando lado a lado no crânio do... lobo.

Ele estava caído morto bem na minha frente.

— O qual longe essa coisa estava de mim quando decidiu atirar sabendo que não o mataria de primeira?! — perguntei, desacreditada que por pouco esse cachorro enorme podia ter arrancado minha perna.

— Eu tinha o controle da situação — disse ela, neutra.

— Estou vendo! — Me arrastei um pouco e chutei o fusinho do animal para mostrar o quão perto estava. —Você podia achar que tinha o controle, mas a noção definitivamente deixou em casa! Como pôde acertá-lo na perna?! — perguntei, abismada. Quis perguntar se sua intenção era me matar realmente, mas fiquei com medo da resposta.

— Chega, Ágda!

— Claro, desculpe-me se não foi a sua vida que quase foi tirada por um lobo!

Silêncio. Lena me encarou calada por um tempo.

— Já acabou? — Não respondi. — Eu não conhecia esse seu lado dramático. — Ela andou até o cadáver do animal e arrancou suas duas flechas cravadas. Respirei fundo antes de levantar e pegar minha faca com um puxão.

Não é como se fossemos o melhor banquete para o lobo. Somos tão magras que sua barriga ainda roncaria ao terminar de dilacerar nós duas. Mesmo se engolisse todas as quatro mulheres da casa, continuaria com fome.

Carregar um lobo pesado pela floresta e a minha quase morte por causa do mesmo não foram motivos suficientes para irmos para casa. Não era bom ficarmos fora até o anoitecer, mas parece que depois do maldito canino, mais animais começaram a aparecer. Só dois na verdade, mas foram dois em um pouco mais de meia hora. No final ficou difícil carregar três coelhos, um guaxinim, um lobo, uma raposa e um lince, então resolvemos deixar os menores e voltarmos para pegá-los depois de deixar os maiores em casa.

Chegamos pouco antes do sol se pôr, eu com o lobo nos ombros e Lena com a raposa e o lince. Tivemos de parar algumas vezes para eu descaçar. As duas únicas maçãs que comemos na floresta não foram o suficiente para me dar forças e conseguir carregar um lobo.

Jogamos os animais no chão em frente a porta antes, então, sem entrar em casa, voltamos para a floresta onde deixamos nossos amados coelhinhos e guaxinim. Fomos quase correndo para casa, faltava pouco para ficar completamente escuro, e mesmo que não fosse normal meu tio chegar cedo, se ele estivesse lá, seriam horas de sermão.

Hasina estava sozinha costurando quando entramos e deixamos os bichos mortos em cima da mesa de jantar. Ela olhou para trás e fez uma careta ao vê-los.

— Parece que não foi um dia tão bom — disse Hasina.

— Está muito frio lá fora, esses coelhos e o guaxinim deviam ter entrado nas armadilhas horas antes de chegarmos para pegá-los — expliquei.

— Conseguimos uma raposa e um lince. Estão lá fora — disse Lena, enquanto andava lentamente até uma poltrona na sala de estar, como se o corpo pesasse uma tonelada.

— Como mataram? — perguntou a mais nova, surpresa, largando os tecidos e a agulha.

— Flecha — respondi. Ela pareceu decepcionada.

— Kaira não vai gostar disso.

— Quero ver ela fazer melhor — disse Lena, o tom desafiador.

Por ser a mais velha, Lena sempre se achou a líder da casa depois de meu tio, nenhuma de nós podíamos ir contra suas ideias, por mais que Hasina, mesmo sendo a mais nova, discutisse com ela sempre que achava certo. Já eu... bem, eu e Lena éramos como cão e gato. Ela me suportava por não ter mais opção.

— Não tinha outro jeito — falei, ignorando a mais velha. — Mas conseguimos um lobo — não pude esconder o sorriso de orgulho.

— Um lobo?! Como?! — Hasina levantou da mesa que trabalhava, mais animada que o normal. E com razão.

Não era todo dia que voltávamos para casa com um lobo, principalmente por meu tio ter-nos proibido de caçá-los por ser perigoso demais e andarem em alcateia. Eu mesmo fiquei surpresa quando me dei conta de que este estava sozinho.

— Você não vai querer saber — respondeu Lena por mim.

— Posso dizer que uma de nós quase teve a vida tomada — falei, dando um ar de suspense, o que fez Hasina ficar mais empolgada ainda. Ela não perguntou mais nada, sabia que não responderíamos.

Não demorou muito para a porta abrir atrás de nós e Kaira aparecer horrorizada.

— Nunca vou me acostumar com esses bichos mortos! Já vi que mataram a raposa e o lince com arco e flecha. Vamos perder um bom pedaço de pele já que foi bem na costela.

— Não viu mais nada? — perguntei, ansiosa.

— Está se referindo ao enorme lobo que quase me impediu de entrar em casa? — Assenti freneticamente. — Pois bem, não quero detalhes. Meus parabéns, mas eu realmente não tenho interesse em saber como arriscaram a vida para matar aquela coisa — disse, parecendo, de fato, desinteressada. Kaira passou por nós para pôr o cesto de roupas que segurava em cima da mesa. Fiquei feliz por saber que teríamos roupas lavadas.

Não era muito normal lavarmos roupas, custava dinheiro e trabalho.

Assim que a menina se aproximou da mesa, eu me esforcei até a alma para não rir do susto que ela tomou ao ver os bichos mortos.

— Pelo amor de minha mãe! Eu já não falei para não entrarem em casa com esses animais mortos?! Ágda, se não tirar a pele agora, apenas deixe-os lá fora, por favor!

— Por que não manda Lena fazer isso? — perguntei, irritada.

— Porque ela não manda em mim — respondeu Lena, interrompendo qualquer coisa que Kaira fosse dizer em seguida.

— E por que tem que mandar em mim?

— Porque ela é mais velha que você. O que papai diz sobre obedecer e respeitar os mais velhos, Ágda? — perguntou, como se eu fosse uma criança rebelde e teimosa.

— Que devemos obedecer e respeitar os mais velhos? — falei, dando a entender que sua pergunta foi idiota.

— Parabéns. Agora faça o que Kaira mandou — abri a boca para responder, mas fechei antes de sair qualquer som. Não adiantaria de nada insistir nesta discussão, para Lena ninguém tem mais razão que ela, então peguei os coelhos e o guaxinim e saí de casa quando Kaira abriu a porta para mim. Ao sair, pude ouvir elas continuarem com o assunto.

— Não precisava disso, somos primas dela, não mães — a voz de Kaira saiu suave. Ela sempre foi a mais gentil de nós.

— A mãe dela morreu, então somos responsáveis junto com meu pai. — Não me permiti ouvir mais nada, saí de perto da porta em passos pesados, me esforçando para não jogar esses coelhos ridículos longe.

Eu cheguei aqui há dez anos, aos sete anos de idade e fui obrigada a dormir no quarto com Lena já que ela era a única que dormia sozinha. Lembro exatamente como eu odiei aquela notícia, mas nos entendemos depois de um tempo. Hoje somos as que mais brigam na casa. Meu tio diz que eu e minha mãe sofremos um acidente, no qual perdi a memória já que eu não lembrava de nada além do meu idioma, nem mesmo o meu nome eu sabia, e por isso vim morar aqui.

Ele jamais disse como cheguei e como foi o acidente. Com o tempo eu parei de perguntar.

Meu tio já pensou várias vezes em começar a criar os animais que caçamos para podermos ter o dinheiro garantido, mas nunca deu certo. Ele já foi um grande caçador, nos ensinou tudo o que pôde mesmo quando teve um acidente envolvendo um urso que o impossibilitou de andar normalmente, hoje ele anda mancando com a ajuda de uma bengala. Mesmo que ele tenha matado animais a vida inteira, cria-los é completamente diferente, tirar a liberdade deles e tranca-los em celeiros ou cercados não fazia o tipo do meu tio.

Fui para trás da casa onde havia um pequeno espaço com uma mesa grande e um telhado e comecei primeiro a tirar a pele da raposa. Antes de enfiar a faca no bicho, senti uma presença atrás de mim, sem pensar duas vezes, me virei rapidamente mirando com a faca.

— Ah, é você de novo. Me deu um susto enorme, sabia? — guardei a arma no cinto e me aproximei dele com cautela. — Como vai você? Faz tempo que não te vejo, por onde estava? — perguntei, mesmo sabendo que não responderia. Cheguei perto o suficiente e comecei a acaricia-lo. — Sempre vou me perguntar se tem algum dono. Nem os pelos dos meus cavalos brilham tanto, e todos os dois são muito bem cuidados, por Kaira, é claro. Não é sempre que eu quero perder o meu tempo cuidando deles. Ah, você já deve saber disso, sempre falo sobre eles. Poderiam ser amigos se você não sumisse toda hora. Até eu cuidaria de você se quisesse ficar.

Desde que eu cheguei um cavalo completamente preto, robusto e de pelos brilhantes aparece para mim, e, por mais que possa tocá-lo, às vezes eu suspeitava que fosse realmente coisa da minha cabeça, já que sempre que chamava alguém para vê-lo, ele sumia completamente. Jamais me atrevi a lhe dar nome, talvez tivesse um dono e não seria bom se eu o acostumasse errado.

— Está com fome? Deve ter sobrado...

— Ágda! — Atrás de mim ouvi de longe uma voz masculina familiar e soube na hora quem era. Sorri para mim mesma.

— Não saia daqui. Eu já volto — me afastei do cavalo e, assim que me virei, lá estava ele, sorrindo como sempre — O que faz aqui, Eric? — corri alguns passos até o garoto, que fazia o mesmo até mim.

— Não é assim que se cumprimenta um amigo. — Revirei os olhos sem responder. — Ah, que isso, não nos vemos há uma semana.

— Mesmo? Pois não estou com saudades — falei numa tentativa terrivelmente falha de parecer séria.

— Até parece — disse, sem tirar o sorriso do rosto. — Lamont está?

— Não devia chamar meu tio de Lamont. Não é educado — falei, para provoca-lo.

— O Sr. Scarth está? — se corrigiu num tom debochado, o que me fez soltar uma risada curta.

— Não. Ele deve chegar mais tarde como sempre. Sabe como ele trabalha.

— Sei bem.

Eric é meu vizinho, mesmo que nossas casas não fiquem tão perto assim. Ele começou a trabalhar com meu tio aos nove anos, exatamente no dia que cheguei aqui, então nos conhecemos desde sempre. Ele ajudava na loja enquanto aprendia a caçar, já tão novo. Faz uns três anos que começou a trabalhar com o pai como ferreiro.

Eu não diria que ele era um garoto muito bonito, atraente talvez. Sempre achei seu rosto fino demais que era quase escondido pelo cabelo louro-escuro na altura dos ombros. As ondas das madeixas quase formavam cachos largos. Suas sobrancelhas eram grossas, praticamente castanhas, e os olhos grandes e... castanho-claros? Verde-escuros talvez? Eu nunca parei para perceber, mas era algo assim. Ele era alto, não do tipo que se fica com dor no pescoço para conversar enquanto o olha, mas uma altura agradável.

— Vi que conseguiu um lobo e está inteira. Parabéns, menina — ele deu um tapa fraco na minha cabeça, o qual eu retribuí rindo. — Vai querer ajuda para tirar as peles? — perguntou, acenando com a cabeça para os animais trás de si.

— Pode ser, mas antes deixa eu... — ao olhar para trás, vi que o cavalo não estava mais lá.

E como estaria? Eric já teria o visto faz tempo.

— O que foi?

— Nada... — minha voz saiu claramente decepcionada, e antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa, abri um grande sorriso. — Vem, vamos tirar as peles antes que o meu tio chegue.

No geral eu não peço ajuda para fazer qualquer coisa, mas como está de noite e ficando cada vez mais frio, eu só queria acabar com isso o mais rápido possível.

Já se foi o tempo em que eu achava que Eric gostava de mim e eu gostava dele, chegamos a dar um beijo rápido, sem jeito e sem graça há uns quatro anos, mas eu não senti nada. Depois daquilo ele passou a falar muito de Kaira, como ela cantava bem e era linda. Ele sempre citava as sardas que vão de uma bochecha a outra quando a via, assim como os olhos verde-claros.

Ela era a única entre as irmãs que tinha o cabelo castanho e olhos claros.

Hasina era ruiva, seu cabelo até a cintura quase se igualava ao laranja flamejante do fogo, assim como a cor das sardas que se espalham por todo seu rosto, diminuindo a quantidade pelo corpo. Ela era a única com tantas sardas. Já Lena tinha o cabelo meio acobreado, nem castanho nem ruivo, era entre os dois. Suas poucas sardas que iam de uma bochecha a outra tinham a mesma cor. As características que as faziam parecer realmente irmãs eram as sobrancelhas grossas, a boca carnuda e o nariz pequeno que mais parecia uma bolinha.

As meninas puxaram essa tonalidade de cabelo da mãe, que foi morta queimada por ter sido acusada de ser uma bruxa só por causa do cabelo. Por isso Hasina jamais pode pôr os pés na aldeia, muito menos na cidade. Só os pais de Eric, que são amigos do meu tio e de sua falecia esposa desde crianças, podem ter contato com minha prima mais nova.

Já era tarde quando terminamos de jantar. Meu tio disse que foi um ótimo dia de vendas.

Eu já esperava.

Não haviam muitas pessoas que vendessem peles e roupas de peles de qualidade, e eu diria que Kaira e Hasina eram excelentes costureiras. No inverno, por mais que fosse complicado caçar, era fácil vender, já que muitos procuram os melhores agasalhos para se proteger contra o frio congelante. A pior parte era quando as peles e as roupas ficavam em falta na loja e não podíamos atualizar o estoque porque os animais também ficam em falta na floresta.

Era reconfortante e desesperador ao mesmo tempo.

Meu tio ficou na mesa por mais um tempo depois que saímos. Lena e Hasina foram para os seus quartos enquanto Kaira voltou a sentar na mesa de costura. Ela costumava trabalha à noite, dizendo que se sente inspirada e mais concentrada com o silêncio absoluto, que só é interrompido pelo zumbido do vento lá fora.

Como quase todos os dias, eu ia para o quarto das meninas tentar fazer Hasina dormir contando histórias, mas resolvi tirar um pouco de tempo para o meu tio. Não trocamos mais que duas palavras hoje.

— Está sem sono, querida? — perguntou ele ao perceber minha presença. Voltei a sentar na mesa, colocando uma cadeira ao lado dele.

— Hasina pediu para eu contar histórias para ela.

— Qual será a de hoje? — perguntou ele, com um sorriso singelo, mas sem parar de encarar as mãos juntas sobre a mesa.

— Não sei, mas ela anda interessada sobre como Thor conseguiu o martelo.

— Uh, essa é uma ótima história. — Seu sorriso aumentou, ele pareceu mais empolgado.

Desde pequena ele me contava história sobre os deuses, e quando não o fazia, eu implorava tanto que chegava a chorar.

Por mais que a grande maioria da sociedade julgasse a existência dos deuses como lendas depois de décadas de crença nos mesmo, meu tio não se deixou persuadir por um Deus cristão que apareceu. Mesmo que ele não nos deixe ver, eu sei que ainda reza para seus tão amados deuses. Já eu não posso dizer que acredito de fato, me interesso nas histórias, tenho curiosidade sobre os antigos costumes dos vikings para agradá-los, como os sacrifícios de animais e até mesmo de pessoas.

— Uma das minhas favoritas — falei, e deixei minhas mãos sobre a mesa na mesma posição das dele. — Tio? — ele murmurou um “hum?” — Está tenso? — ele me olhou. — Parece tão pensativo. Aconteceu alguma coisa com a loja? — Ele ficou me encarando por um tempo até um sorriso voltar a repuxar seus lábios. Então uma de suas mãos tocou meu rosto.

— Não. Não aconteceu nada. É só o inverno, sabe como é uma época difícil. Não se preocupe comigo, querida. — Ele estalou um beijo na minha testa antes de levantar. — Durma bem.

Meu tio pegou sua bengala e se virou, indo lentamente até seu quarto. O vendo andar com tanta lentidão não fazia parecer que tinha apenas quarenta e quatro anos. Fico nervosa ao vê-lo parecer tão velho quando é tão novo.

Pude ouvir a porta abrir atrás de mim, mas sabia que ele não tinha entrado.

— Ágda. — Olhei para ele ao ser chamada. — Parabéns pelo lobo. Estou orgulhoso de vocês duas. — Ele me lançou uma piscadela antes de entrar e fechar a porta.

Mesmo Kaira estando de costas, pude ver que sorria. Ela sempre gostou das demonstrações de afeto do meu tio, por mais simples que fossem. Não comentei nada com ela, e ela fez o mesmo, então saí da mesa e fui até o quarto de Hasina, que me esperava deitada na cama, agarrada com umas de suas bonecas.

— O que deseja ouvir hoje, filha de Surt? — Hasina revirou os olhos ao ouvir o apelido que odeia.

Surt era um gigante, ou Jotun, líder dos gigantes de fogo no reino de Muspelheim. É claro que, como a existência dos deuses, todos os nove reinos e suas criaturas tornaram-se lendas.

— Me conte como Thor conseguiu o martelo! — pediu, animada, soltando a boneca e sentando na cama.

— É uma longa história — avisei, fechando a porta atrás de mim.

— Tenho tempo. Kaira não deve vir dormir tão cedo.

— Você quem sabe.

10 de Agosto de 2020 às 19:44 1 Denunciar Insira Seguir história
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João Pedro  Neves João Pedro Neves
Já achei épico , é um dos poucos que vou acompanhar ahsuhasuhas mesmo sem tempo , meus parabéns viu !!
August 11, 2020, 03:15
~

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