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Amargura, Aflição e Desesperança

Pés descalços, em chãos lotados de espinhos, pedras pontiagudas e pétalas de rosas. Braços caídos ao lado do corpo, magro de fome. Garganta arranhada de tanta sede, de tanta seca, falta água, de tanto calor. Roupas esfarrapadas vestindo o que ainda resta de um farrapo humano. Cabelos embaraçados, piolhos. Rosto sujo de terra, pedaço de chão que ele sempre sonhou, mas que nunca teve; seu sonho: um pedacinho só para plantar milho e feijão, pra colher, vender e comer o que sobrar, pra não passar fome e não sofrer com a barriga roncando e ter de encarar os olhinhos dos filhos pequenos suplicando por um punhado de qualquer coisa.

Pobre homem. Anda horas por dia em busca de algo e volta sem nada, nada além dos pés esfolados e das canelas doloridas. No rosto o traço da derrota, mais uma vez e ele tentou, entretanto fracassou. Um dos filhos veio correndo quando ele chegou; de um salto pulou nos braços do pai, esse que o agarrou e sentiu os ossinhos das costelas do filho, magro de tanta fome.

Ele nada trouxe. Restava apenas cansaço e frustração. Botaria os filhos para dormir de barriga vazia. Ele ficaria sentado no banquinho improvisado com tijolos, olhando o céu carrancudo de estrelas e sonhando com um futuro melhor: sem fome, com roupas limpas, sem lágrimas de sofrimentos e com sorrisos nas caras dos filhos.

No céu carrancudo de agosto, um mês tão sem gosto, um sol de rachar o coco faz a testa de José Fritar. Entre pingos de suor e batidas da enxada no chão duro de terra ele ouve um grito. O instrumento de trabalho é jogado de lado, o suor é enxugado com a manga da camisa sem dois botões, de tecido velho e sujo, de uso diário, pois era a única que ele tinha.

Nas pernas bambas ele andou, o sol o perseguia. Do lado de fora da humilde casa de paredes de barro, o filho, de lágrimas nos olhos e voz que não queria sair, mas queria falar. O irmão mais novo estava morto. A culpa era da fome, da falta de sorte, da falta de arroz, de carne, de tudo. Dentro daquela casa não faltava amor, mas com amor não se enche barriga, não se alimenta, não se sustenta.

E José caiu. De joelhos cruzou as mãos por sobre o peito, numa prece desesperada, aflita, numa agonia só. Seu filhinho tinha morrido sim, e a culpa era dele, homem sem futuro.

O destino fora lhe cruel. Primeiro levou a esposa, agora levara o filho, o próximo poderia ser ele, ele não se importava mais.

Os braços fracos segurando o pequeno caixão. Desesperança. Os olhinhos fundos inundados de lágrimas, o peito corroído de tanta tristeza, tanto remorso, tremenda amargura. O filho mais novo morrera de fome. O filho que pulava em seu colo e com um arzinho triste suplicava por algo, ele queria comer.

O pai desprovido de sorte lamentava a partida do filho, os outros, mais velhos, sentados no chão de terra olhavam-no cavar uma pequena cova. O caixão, feito de madeiras de caixas de frutas, repousava perante um sol escaldante. Buraco feito, filho enterrado. Com o chapéu sobre o peito uma prece. A vista fechada, o olhar apertado, o coração dilacerado.

Os três, pai e filhos, os que restaram, caminham lentamente pelo solo rachado, de terra seca, da maldita seca. De longe avistam a carcaça de um animal, ali só tinha ossos, o filho morto, debaixo da terra também seria só ossos nessa terra desgraçadamente maldita.

FIM...

8 de Agosto de 2020 às 20:39 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Fernando Camargo Escrevo desde os oito anos de idade, culpa da professora de português. De tanto gostar de fazer isso (escrever), resolvi estudar jornalismo. Formado, atualmente eu passo meus dias a criar personagens e novas histórias.

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