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vandacunha Vanda da Cunha

Este conto traz em seu contexto, as múltiplas facetas da personalidade humana. Aspectos escondidos ou reprimidos, mas que, por vezes fazem parte da pessoa. O que dá para perceber nesse conto, é que basta um gatilho para que sentimentos e desejos antes não sentidos aflorem, e uma nova personalidade seja revelada.


Conto Para maiores de 18 apenas.

#sexo #fetiches #desejos
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Heloísa

Nos anos oitenta, em Tangará da Serra, uma cidade do estado de Mato Grosso, vivia Heloísa e sua avó, elas moravam em um bairro afastado do centro, e para sustentar a neta, a avó lavava roupas de famílias mais abastadas. Embora Heloísa não possuísse uma beleza arrebatadora, algo nela chamava a atenção das pessoas, talvez fossem os dois belos olhos castanhos e a espessa sobrancelha sobre a pele cor de pêssego.

Muito estudiosa, Heloísa terminara o ensino médio, e sonhava passar no vestibular, ela já sabia a carreira que queria seguir, mas também sabia que, para realizar o sonho, teria que estudar muito.

Por esse tempo, chegou a cidade, um homem de nome Juliano Alves. Ele era filho de Antero Alves e Domicília Silveira Alves, uma ilustre família de Tangará da Serra. A avó de Heloísa lavava a roupa da família Alves.

A chegada do moço causou um certo alvoroço, e não por motivos fúteis. No passado, ele passara por sérios problemas pessoais e psicológicos que de alguma forma, marcaram-no, profundamente.

Numa manhã de quarta-feira, Heloísa foi a casa da família Alves buscar a roupa suja para a avó. Sentado em um dos bancos do jardim, Juliano viu quando a jovem adentrava pela garagem acompanhada de Dona Esmeralda a empregada da casa. Deslumbrado com o jeito de andar da jovem, Juliano acompanhou-a com o olhar. Logo lhe vieram a mente, pensamentos perturbadores que o deixaram meio eufórico.

E se ela deixasse? Oh! E se ela permitisse? E se... Ele apertou a cabeça com ambas as mãos queria espantar as ideias terríveis que o atormentavam. Só que a curiosidade em conhecer a moça foi mais forte que qualquer esforço, ele levantou do banco e deixou o jardim, muito rapidamente dirigiu-se para a cozinha. Lá chegando, viu esmeralda ajudando Heloísa a colocar a trouxa de roupa na cabeça. Então, ele aproveitou a oportunidade para demonstrar gentileza.

— É muito peso para ela carregar! — Observou Juliano.

Esmeralda torceu os lábios.

— Ela está acostumada Senhor Juliano!

— Deixe que eu faço isso! — Ofereceu ele.

Heloísa ficou rubra, um homem tão fino segurando uma trouxa de roupa, mesmo ele demonstrando cavalheirismo, ela sabia que não devia permitir tal gesto.

— Não senhor. — Disse ela levantando as mãos para pegar a trouxa de volta. — Não precisa se preocupar, eu consigo levar a roupa sozinha, eu sempre fiz isso.

— Nada disso! — Disse ele categórico. — Eu vou levar a roupa até sua casa.

Heloísa não teve mais argumentos, e nem quis mais reagir, permitiu que o filho do patrão, a levasse de carro até em casa.

A avó ao ver a neta descendo de um carro, correu até o portão para ver quem era, ao reconhecer o filho do patrão, convidou-o a entrar para tomar um café. O que não foi recusado.

— Quer dizer que o Senhor foi professor na faculdade em São Paulo? — Perguntou a avó de Heloísa interessada em saber mais sobre a vida do filho do patrão.

— Sim. Antes de me mudar para a Itália, eu lecionei alguns anos em São Paulo. Foi uma época muito proveitosa.

— Agora o Senhor não pretende mais lecionar?

— Por enquanto não... Quero dedicar meu empo a produção de artigos.

Ele nem sabia por que estava dando essas explicações para a lavadeira, certamente a infeliz não entendia nada do que ele falava, no entanto, a moça em pé próximo a janela, o fazia ser paciente e tolerante. Enquanto a velha senhora tagarelava sem parar, houve um lampejo promíscuo. Uma curiosidade capciosa veio à mente do mestre do saber.

— Por que a Senhora perguntou se eu não pretendo continuar lecionando?

— Nada demais meu filho, é que minha neta terminou o ensino médio, e está precisando de um professor para umas aulas de reforço... Aí eu pensei...

Juliano recostou-se na cadeira. Dar aulas para aquela...? Por que não?

— Seria uma honra ajudar sua neta. Ela me parece bastante esforçada. — Disse olhando para Heloísa que continuava próxima a janela. Os fleches do sol desavergonhadamente a iluminavam, deixavam-na tão sedutora, tão única, tão... Juliano engoliu em seco. Precisava controlar certos instintos.

— Está vendo minha filha? —Vibrou a avó. — Agora você vai realizar seu sonho!

— Quero deixar algo bem claro! — Disse já recomposto dos desejos enfrenais que corrompem a alma humana. — Eu sou muito exigente; não tolero indisciplina, caso sua neta não se enquadre em meus métodos de ensino, descontinuarei os reforços imediatamente.

A avó tratou logo de alertar a neta, pois não era todo dia que aparecia uma alma caridosa para ajudar uma pobre moça sem fortuna.

— Tudo bem professor. Ela vai se esforçar! Não é minha filha?

A tímida donzela assentiu com a cabeça.

— Então tenho carta-branca para ensinar sua neta? — Perguntou o professor.

— Sim. E se ela não lhe obedecer; fale comigo! Está ouvindo Heloísa? — Resmungou a avó.

Heloísa balançou a cabeça afirmativamente. Em seguida saiu da cozinha.

Trancada em seu quarto, a imagem do professor não lhe saia da cabeça. Por que a olhara daquele jeito? O que nele, a deixara tão amedrontava? As mãos grandes ou o riso forçado no canto dos lábios.

— Eu tenho que ir, Senhora, outro dia conversaremos mais. — Disse Juliano se levantando da cadeira.

— Quando eu posso mandar minha neta a sua casa para a primeira aula? E quanto pretende cobrar pelo seu trabalho?

— Eu aviso quando começo as aulas e o preço a ser cobrado. Não se preocupe, tenho que encontrar um espaço adequado e comprar o material que irei utilizar. É que sou bem sistemático quanto ao meu trabalho. — Disse acalmando-a.

— Eu entendo. — Coaxou a lavadeira o acompanhando até a porta. — Avise-me quando puder começar!

— Eu aviso, senhora. Tenha uma bom dia. — Saudou-a educadamente antes de sair.

Depois desse dia, Juliano dedicou-se a preparação para receber a nova aluna, alugou uma casa um pouco afastada, e comprou o que julgou necessário. Cordas, fita adesiva, cinto de couro, palmatória... E materiais didáticos.

Mais alguma coisa, senhor?

No primeiro dia de aula, Heloísa estava um pouco ansiosa. Logo que chegou à casa verde, bateu palma, ao ver a porta da frente abrindo, sentiu medo.

— Entre! — Convidou Juliano em tom amistoso.

A passos lentos, ela seguiu pela curta calçada. O coração batia tão acelerado, que parecia que sairia pela boca.

— Eu ajudo você com os cadernos! — Disse ele em um riso amigável.

Ela recuou dois passos. O perfume que ele usava, sedutoramente a ameaçava.

— Não precisa! — Falou com voz desmaiada.

— Tudo bem. — Disse dando passagem para que a aluna entrasse.

Um dos quartos da casa fora transformado em sala de aula. Uma sala de aula de verdade. Doze carteiras arrumadas em quatro filas, armário com livros, mesa do professor, quadro negro, régua... E outros objetos. Logo que Heloísa se sentou, ele fez menção de riso, só que não riu, olhou-a seriamente e falou.

— Não ordenei que sentasse senhorita, Heloísa.

Ela se levantou imediatamente e meio sem jeito se desculpou.

— Desculpe-me. Eu... Eu...

— Agora pode sentar. — Ordenou Juliano confiante.

— Obrigada. — Disse Heloísa em tom baixo.

— Antes de começarmos nossa primeira aula. — Ele fez uma pausa. — Esclarecerei alguns termos que julgo serem importantes. —Disse cruzando os braços sobre o peito. —Eu não gosto de alunos desobedientes! Não tolero faltas, nem falhas tolas. — Olhou-a tão severamente que a deixou arrepiada. — Caso seja preciso, não temerei puni-la. Concorda, ou prefere nem começar?

Ela pensou um pouco. Sim, estava com medo, mas precisava das aulas de reforço. Precisava? Bom, o caso é que de alguma forma, a nova situação lhe era interessante.

"O que estou pensando? Oh! Anjo protetor, livrai-me do mal."

— Eu concordo, preciso das aulas.

— Ótimo! Sua avó já me deu carta-branca. Então não há muito o que discutir. — Disse ele muito seguro. — Agora sente-se, eu vou fazer a chamada! Ela arregalou um pouco os olhos e entreabriu os lábios. Chamada? Ele ia fazer a chamada?

É, ele ia.

Em seguida Juliano pegou uma folha de papel sobre a mesa, puxou a cadeira e sentou, depois, colocou a data e outros detalhes da chamada no papel.

Heloísa permaneceu em silêncio, não entendeu por que ele faria a chamada se ela era a única aluna. Deu de ombros com um riso escondido.

— Do que está rindo, Heloísa? O que é engraçado? — perguntou ele a encarando.

— Na... Nada, professor.

— Muito bem! Vamos a chamada. Disse ele com voz firme. — Heloísa Barbosa pinheiro! — Chamou ele em alto e bom tom.

— Presente. — Ela respondeu baixinho.

— Muito bem Heloísa! — Disse ele levantando da cadeira. Apresente-se, por favor!

Ela engoliu em seco.

— Apresentar-me?

— Sim. — Respondeu Juliano categórico.

Não muito segura, ou completamente insegura, ela começou.

— Bom... Meu nome é Heloísa, eu tenho... Dezoito anos, moro com minha avó, e quero muito ser advogada. É isso.

— Você quer trabalhar em qual área da advocacia?

— Não sei ainda... Talvez eu seja advogada criminal.

— Interessante! Muito interessante

— É... É bem interessante. — Concordou ela não muito confiante.

— Pode sentar. — Disse o professor a encarando firmemente. — Vamos começar nossa primeira aula. Você conhece Os Lusíadas de Luiz Vaz de Camões?

— Já ouvi falar.

Camões? Sim ela já ouvira falar. Era um escritor ou pintor?

— Venha até a minha mesa, Heloísa! — Chamou ele.

De cabeça baixa ela se aproximou, o que despertou nele um sentimento de superioridade.

— Você disse que conhece a obra de Camões só de ouvir falar?

— Sim, professor.

— Vai conhecê-la pessoalmente. — Disse pegando um dos livros que estavam sobre a mesa. Ei-la. — falou entregando o livro para a aluna.

Ela folheou o livro, fez um bico antes de perguntar.

— O que isso tem a ver com direito?

Ele achou a pergunta da aluna tão imatura que nem respondeu, limitou-se a espremer um pouco os olhos e a olhá-la de alto a baixo. Ela desconcertada, voltou a sentar.

— Nossa primeira aula terminou Heloísa, pode ir para casa. — Disse ele levantando-se.

— Mas já? — Perguntou a aluna arregalando os olhos.

— Sim. Vá para casa, leia o livro, na próxima aula debateremos a narrativa de Camões.

— Mas... Não fizemos nada! — Reclamou a moça.

Ele cruzou os braços sobre o peito e aproximou-se dela forçando-a, a encará-lo.

— Você queria fazer mais alguma coisa Heloísa?

— Nããã... Nãão.... Eu já estou indo. — Gaguejou ela arrumando os cadernos.

— Heloísa. — Chamou o professor. Ela levantou a cabeça. Os olhos expressavam medo e sua garganta estava seca.

— Leia o livro! — Ordenou sisudo.

Chegando em casa, ela foi ajudar a avó, depois foi ler fotonovelas, Camões ficou descansando em cima da cômoda.

"Livro chato, livro bobo. Quem lê Camões?"

Na aula seguinte, novamente o professor fez a chamada de sua única aluna, depois iniciou um diálogo.

— Leu o livro indicado Heloísa?

— Sii...Sim. — Ela gaguejou.

— Gostou da narrativa?

— Hum, hum. — Murmurou balançando a cabeça.

— Bom. — Ele insinuou algo parecido com um riso. — O que você achou da fala do velho do Restelo?

Nervosa, ela agitou as pernas; e sem convicção respondeu.

— Achei bem interessante.

— E... Você acha que o Senhor do engenho agiu corretamente em punir a esposa? Afinal ela só contou uma mentira. — O professor fez uma pausa. — Você achou justo a punição?

— Achei. — Disse ela dando de ombros.

Juliano aproximou-se caminhou até a aluna. Expressão incerta, pensamentos desagradáveis.

— Então as pessoas que mentem devem ser punidas, Heloísa?

— Sim. — Afirmou Heloísa. — Afinal ela mentiu para o marido.

Ele riu friamente, virou-se e foi até o armário, voltou trazendo uma espécie de raquete feita de madeira. A mão forte e grande alisava a madeira como se a acariciasse. Olhos curiosos, mente intrigada. O que ele ia fazer com aquilo?

— Dê-me sua mão Heloísa! — Ordenou o professor.

— O quê? — Perguntou a moça sem entender a ordem.

— Sua mão! — Repetiu intimidando-a com o olhar.

Um calafrio subiu por sua coluna, o coração ficou como água, o estômago embrulhou. Obedeço ou não obedeço? Obedeceu.

Seguiu-se seis bolos em cada mão, Heloísa segurou o choro, e mais alguma coisa que a inundava por dentro. Depois do castigo as mãos ardiam, ela pegou o material escolar para fugir o mais rápido possível. Antes que ela alcançasse a saída, ele a segurou pelo braço.

— Sabe por que foi castigada? — Perguntou forçando a encará-lo.

Ela engoliu em seco, e com dificuldade o encarou.

— Sabe por que foi castigada? — Ele repetiu rispidamente.

— Por que não li o livro? — Perguntou com os olhos marejados de lágrimas.

— Por que não leu o livro, e principalmente por que mentiu. Sua avó não vai gostar de saber que você mentiu. Mas eu prometo não contar nada a ela, a velha senhora não suportaria saber que a neta é uma mentirosa. Agora vai para casa, leia o livro, na próxima aula debateremos a narrativa.

Heloísa saiu da sala o mais rápido que pode. A passos rápidos caminhou rumo a casa da avó, não queria mais voltar a assistir as aulas do professor Juliano.

Não queria? E aquele olhar estranho? Distante. E a forma como a intimidava. Terrível? Sufocava-a com o olhar. Sim terrível.

Embora tivesse a certeza que ele exagerara no castigo, uma segunda opinião tomou mais força. Afinal uma ordem foi dada e ela não a cumpriu, além disso teve a petulância de mentir. É, não há justificativas para mentiras.

A avó sempre lhe dizia que os mentirosos devem ser castigados, que o pai da mentira era o diabo.

Depois de muito analisar, Heloísa chegou à conclusão que o professor agira corretamente. Recostada na cabeceira da cama ela olhou para as mãos. Deu de ombros e fez muxoxo. Os doze bolos não doeram tanto assim.

Na aula seguinte, mil maravilhas, professor e aluna discutiram a obra de Camões, riram de algumas situações, ao final dos estudos, Juliano a recompensou com dois chocolates.

— Obrigada professor. — Ela agradeceu com um sorriso tímido.

Ele também mencionou um riso lacônico, sisudo, estranhamente sedutor.

— Você mereceu. — sussurrou antes de despedi-la.

Na quarta aula de reforço, Juliano pediu para Heloísa declamar um poesia, disse que era um método ótimo para desenvolver a oralidade. O problema é a ela estava nervosa, nunca fizera nada parecido, a falta de experiência em falar para um público a desmoronou emocionalmente, Heloísa começou a gaguejar, a repetir o mesmo verso, isso irritou o professor, que agitado deu um forte tapa na mesa assustando a aluna.

— Pare! — Pediu ele levantando a mão.

— Des... Desculpa. Eu... Eu acho que não vou conseguir. — Disse ela mordendo o lábio inferior.

Uma lágrima insistia em sair do olho esquerdo.

Ameaçadoramente, o professor ficou frente a aluna, cruzou os braços sobre o peito e a encarou.

— O que você disse? Olhos comprimidos, maxilar rijo, e o que mais? Punhos fechados.

— Eu... Eu não vou conseguir... Eu...

— Você está nervosa? Vai ficar nervosa na hora de defender seus clientes? Vai ter medo de encarar o juiz e dizer que seu cliente é inocente? Lamentável, Heloísa, lamentável! — Um riso irônico brotou em seus lábios. — Você devia se envergonhar em querer ser advogada, não tem talento para a profissão!

Ela baixou a cabeça envergonhada.

— Desculpa, professor!

— Ah Heloísa! — Disse ameaçador. — Eu terei que te punir de novo. Quantas vezes mais você me fará ser cruel? Saiba que isso não me agrada nem um pouco. Ainda mais com esse frio. Olha só o vento gelado batendo na janela.

— Professor...

— Fale.

— Tudo bem. Eu mereço. — Disse estendo a mão para o carrasco.

— Seja inteligente. Eu não vou bater na sua mão.

— Não? — Perguntou intrigada.

— Venha! — Chamou ele.

Levou-a para um canto e a fez ajoelhar-se sobre caroços de milho, deixou-a de castigo por quarenta minutos. Quando a tirou do suplício, ela mal conseguia andar, teve que ser amparada para não cair. Como recompensa, ganhou um afago nos cabelos.

— Eu já posso ir? — Ela perguntou com voz baixa.

— Sim. Dê um abraço na sua avó, diga a ela que estamos prosperando.

— Sim, professor.

Já em casa, consumia-se por ter errado, por não ter conseguido algo tão simples.

Declamar uma poesia, deixar a alma falar, o espírito voar livre, o corpo flutuar no espaço sideral, o prazer invadir as entranhas.

Muito consciente, prometeu a si mesma, nunca mais cometer erro tão grosseiro.

Na aula seguinte, Juliano pediu a aluna prosseguir com a declamação do poema da aula anterior, novamente ela não conseguiu. A figura imponente de Juliano a desconcertava.

Ele era um deus ávido por desejos sombrios ou era ela que deixava vãos pensamentos lhe dominarem a mente?

— Você teve tempo para ler esse poema em casa, por que não o fez?

— Eu... Eu...

— Está nervosa de novo, Heloísa?

— Nãã... Não. — balbuciou ela.

— Venha até minha mesa! — Ele falou asperamente.

Assombrada, ela se aproximou. Em seu interior, não sabia se temia pelo castigo, ou se a curiosidade camuflava parte do temor.

— Tire a roupa Heloísa! — Ordenou ele.

Dessa vez ela de fato ficou boquiaberta, não acreditou no que ouvira. Engoliu em seco, e refugiou-se no fundo da sala.

A passos lentos veio até ele.

— Eu pedi para você tirar a roupa. — Rugiu com voz baixa, porém ameaçadora.

— O que o senhor disse? — Resmungou empalidecida.

— Eu sinto muito ter que fazer isso Heloísa, mas qual alternativa você me dá? Infelizmente você pediu por isso. Eu vou ter que te punir. — Disse comprimindo o maxilar.

Heloísa se afastou uns três passos para o canto, Juliano avançou, ameaçador.

— Eu não vou tirar minha roupa! Não vou fazer isso! Não vou permitir que me violente! — Relutou assustada.

— Violentar você? Do que está falando?

— De... De... De... — Ela gaguejou.

— O que pensa que eu vou fazer com você? Acha que eu transaria com uma mulher que não sabe nem quem foi Camões? Uma mulher que mal sabe conjugar o verbo haver? Isso seria no mínimo, esdrúxulo!

Ela engoliu em seco, ele tinha razão. Quem era ela diante de tanto saber? Entendeu que não merecia nem engraxar os sapatos dele.

Lentamente ela tirou toda a roupa. Colocou as peças sobre a mesa do mestre. Juliano pegou uma das carteiras e pediu a aluna que o acompanhasse, chegaram ao banheiro, onde ele amarrou Heloísa debaixo do chuveiro, ligou o registro. Um fino filete de água começou a cair sobre a cabeça da moça. Devido ao tempo frio, em poucos minutos, Heloísa batia o queixo. Ele saiu e a deixou no castigo. Meia hora depois, retornou trazendo uma toalha, desligou o chuveiro, desamarrou-a, e ajudou-a a se enxugar. Ela tremia de frio.

— Vou buscar um secador. — Disse enrolando-a na toalha.

Minutos depois, Juliano despedia a aluna.

— Dê alguma alegria para sua avó Heloísa. Esforce-se um pouco mais.

— Sim Senhor. Farei isso. — Prometeu antes de deixar a casa.

Seguiu-se outras aulas, e outros castigos, uma vez, surrou-a de cinto, outra vez, obrigou que ela escrevesse mil vezes a frase: “Nós vamos ao mercado.” Por duas vezes a eletrocutou com pequenos choques. Um castigo que a fez sentir-se plena, foi quando o professor a obrigou ir de quatro até ele, e lhe pedir perdão (de joelhos) por não ter feito a tarefa de casa. Mas o pior castigo foi quando a amarrou de cabeça para baixo, e a obrigou a citar artigos e incisos da constituição brasileira.

Houve um dia que ao retornar para casa, ela parou frente a uma serraria abandonada. Confusa, a moça caminhou por sobre as toras de madeira, e do alto viu que o mundo era seu, e que podia fazer o que quisesse. Desceu e deitou-se sobre a serragem, cobriu-se com o pó escurecido pelo tempo, e então percebeu que agora estava sóbria e pensava com lucidez. O professor abrira sua mente.

— Eu consegui. Eu sinto! — Falava para si mesma.

Nunca fora tão feliz em toda sua existência, a chuva de serragem entrava-lhe pela boca, olhos e nariz. Enquanto jogava o pó da madeira para alto, ela ria alto e repetia o nome de Juliano. Sentia-se como uma borboleta que acabara de sair do casulo.

Não se sabe como, mas a rígida metodologia surtiu efeito, em alguns meses, a menina indouta de outrora, tornou-se detentora de muitos saberes, conhecia as leis que regem a pátria amada e os deveres dos cidadãos.

Também não há uma explicação para a admiração que ela tinha por seu mestre. Venerava-o como se venera uma divindade, talvez até com mais ardor. Tinha-o como um dos homens mais inteligente da terra, e o mais adorável também. Tudo nele a encantava: os gestos, o sentar ereto, o riso preso, o semicerrar os olhos...

Um dia a avó contou algo intrigante sobre seu adorado mestre.

— Você sabia que ele já foi casado, Heloísa? Ele falou algo sobre isso?

— Não. — Murmurou a jovem.

— Pois é. A Esmeralda me contou, disse que o Senhor Juliano já foi casado com uma mulher estrangeira, parece que ele a tirou de um desses lugar de vida fácil.

— O professor? — Perguntou Heloísa interessada.

— Sim! O professor! — Confirmou a avó. — A Esmeralda disse que ele tentou fazer a mulher virar uma dama respeitada, ao que se sabe, a coitada não aguentou a pressão e cortou os pulsos.

— Ela se suicidou? — Retrucou a moça franzindo a testa.

— Foi. A Esmeralda disse que o professor ficou meio perturbado, teve até que ser internado num hospício. O coitado se sentiu culpado pela morte da mulher. O que de certa forma foi.

— Ele não foi culpado! Ela quem não seguiu às regras. — Disse o defendendo com veemência.

A avó levantou as sobrancelhas e pigarreou antes de falar.

— É. Pode ser. Vai ver que a pobre tinha a cabeça fraca.

— Ou talvez percebeu que não estava a altura do professor. Certamente era uma infeliz que imaginou que poderia se tornar uma dama. — Ela fez uma pausa para então concluir. — O mundo letrado não é para todos vovó. Não mesmo.

A avó não prosseguiu com o assunto, percebera que a neta adquirira certa incomplacência. Seria inútil debater, pois a hostilidade a temas comuns, habita o coração dos doutos.

Os dias passaram e Heloísa estava cada vez mais acostumada com os métodos do professor Juliano, sentia-se privilegiada de ter alguém tão culto e com tanto entusiasmo para ensinar.

— Obrigada Professor. Aprendi muito com o senhor. — Disse ela agradecida. — Vovó mandou perguntar quanto o senhor vai cobrar pelas aulas, já que nunca tocou no assunto.

Ele se levantou da cadeira e foi até ela, cruzou os braços sobre o peito e a encarou.

— Quanto você acha que eu mereço, Heloísa?

Ela ficou rubra. Baixou a cabeça, e mordeu o lábio inferior.

— Nãã... Não sei. — Gaguejou. — O senhor é quem sabe.

— Você não sabe...? — Ele murmurou.

— Não. — Ela respondeu num balbucio.

— Alguma sugestão? — Ele parecia ansioso.

— Minha avó pode pagar... Quer dizer, desde que o senhor não cobre muito caro.

— E... Você? Pode pagar?

— Eu... Eu não tenho dinheiro.

— Não tem dinheiro. — Ele afastou dois passos. — Então eu vou facilitar a negociação. — Fez-se um silêncio conveniente, depois ele perguntou. — O que sentia quando eu a castigava?

— Eu... Bom... No início eu tinha medo... Depois...

Ela não conseguiu concluir o pensamento, sabiamente ele a incentivou.

— Depois?

— Depois... Comecei a sentir algo estranho.

— Defina estranho, Heloísa.

— Ahh! — Ela grunhiu indecisa.

— Sente dificuldades para falar?

Ela assentiu com a cabeça.

— Então deixe-me ajudá-la. — Ele disse com voz mansa. — Sabe Heloísa, as vezes, o que é estranho para alguns é normal para outros. E o que eu fiz com você, foi tudo muito normal. A interpretação dos meus atos depende do ponto de vista de cada pessoa. Muitos podem achar que sou um louco... Você me acha louco, Heloísa?

Ela balançou a cabeça depois confirmou verbalmente.

— Não, eu não acho que sejas louco.

— Estamos progredindo, Heloísa. Agora, diga-me. Qual dos castigos a deixou mais excitada?

Ela tremulou por dentro, engoliu em seco antes de confessar.

— Quando o senhor mandou eu... Eu tirar minha calcinha, e me bateu com o cinto.

Ele apertou um pouco os olhos.

— Quer que eu faça isso de novo?

— Sim. — Murmurou baixinho.

Horas depois, Heloísa retornava para a casa da avó, com a bunda ardendo, e um gozo estranho queimando suas entranhas.

Seguiu-se outros pagamentos, certo dia, ele a amarrou novamente debaixo do chuveiro, só que sem roupas, e de pernas abertas. O filete de água morna, não caía sobre a cabeça da jovem, e sim sobre seu sexo, excitando-a lentamente. Submetida a deliciosa tortura, ela se permitiu sentir. Amarrada a cadeira, sem ter como se tocar, num frenesi desesperado, ela mexia os quadris e gemia alto. Ávido pelo desejo, o corpo febril foi convulsionado pelos espasmos do gozo. Impávido, o professor assistia a moça despedaçando em mil pedaços de prazer, sem no entanto tocá-la. Depois que a viu completamente exausta pelo orgasmo prolongado, ele a desamarrou, e ajudou-a ir para o quarto, deitou-a na cama para que descansasse, e então anunciou.

— Você não precisa mais vir, já pagou o que me devias.

— Eu pensei que... — Ela balbuciou.

— Pensou o quê?

— Eu... Sou virgem. — Falou com voz abafada. — Então pensei que... Talvez...

— Fale Heloísa.

— Eu queria que você fosse o primeiro.

Ele semicerrou os olhos e mencionou um riso.

"Então terei que desflorá-la. Isso vai ser como um doce e inefável pecado"

Pensou enquanto puxava uma cadeira, para sentar-se próximo a cama.

— Está realmente preparada para isso, Heloísa?

— Sim, professor. Eu estou preparada. Ela confessou. Só que... — Ela fez um hiato de segundos. — Quero fazer isso quando eu passar no vestibular. Será como uma recompensa pelos esforços.

— Ótima ideia. O ápice! O desfecho final. — Ele comemorou entusiasmado.

— Então está combinado, se eu passar no vestibular, prometo que deixarei você fazer o que quiser de mim.

— Vou esperar ansioso. — Disse com os olhos fixos nela. — Promete que cumprirá o que disse?
Ela sentou-se na beirada da cama, e o beijou no rosto, depois sussurrou-lhe ao pé do ouvido.

— O que fará comigo, professor?

— O que você quer que eu faça? — Disse num tom persuasivo.

Ela afastou-se dele, abriu a boca, mas não teve coragem de falar, mordeu o lábio, tinha vergonha.

— Fale. Descreva com detalhes o que você quer que eu faça. — Encorajou-a.

— Oh, Deus! Eu não posso! Tenho vergonha de revelar meus desejos!

— Não reprima seus desejos mais ocultos, Heloísa, deixe que aflorem, que fluam livremente. — Ele falou gentilmente.

Nunca o vira tão amável, não podia decepcioná-lo. Foi com voz macia que ela começou.

— Oh, professor... Como desejo ser tocada e invadida por ti. Como sonho com suas mãos apertando meus seios... — Disse ela deitando-se novamente na cama.

— Continue minha ninfa. — Ele pediu com voz ardorosa.

Ela deslizou as mãos sobre a barriga e continuou.

— Eu quero ser beijada, sentir sua língua na minha boca, e tocar seu membro duro sobre a calça. — Ela umedeceu os lábios com a língua, para então prosseguir. — Depois, tire a minha roupa, e admire meu corpo. Sim eu quero que você conheça cada detalhe do meu corpo, minhas imperfeiçoes, minhas marcas e segredos. Em seguida... Desça seus lábios até meus seios, acaricie-os, chupe-os. Deixe-me louca de prazer. Oh professor... Desça a língua até meu umbigo. — Ela gemeu. — Por favor... desça mais...

— E depois? — Perguntou ele vendo-a tomada pelo desejo.

— Faça-me implorar para ser penetrada. Deixe que eu implore por seu pênis dentro de mim. E quando finalmente me penetrar, faça-o devagar, sem pressa. Oh! Mexa com mais força! Faça-me gozar, professor! — Ela disse enquanto acariciava o próprio corpo.

Ele engoliu em seco, viu-a contorcendo-se na cama, pedindo para ser amada. Num gesto rápido, arrancou-lhe a calcinha de algodão, em segundos, os lábios alcançaram a rala penugem. Fê-la gozar profundamente.

Após satisfazê-la, ele a viu tão linda, tão pura como uma flor de jasmim, entendeu então, que havia se apaixonado, e que a queria só para si.

Ensinar-lhe-ia, a promíscua arte do sexo e a faria conhecer os desejos mais sombrios e profamos da alma humana. A possuiria em lugares pitorescos e inusitados. Quem sabe em um cemitério em uma noite sem lua, ou em um bucólico bosque afastado da cidade.

Há quanto tempo não tocava em uma mulher? Oh, sim, desde a tenebrosa morte de Angelina. Pobre Angelina, nunca conseguiu conjugar o verbo haver corretamente. Uma pena, visto que era tão boa de cama.

No dia da prova, Heloísa estava preparada, cada questão foi respondida com precisão. Tinha quase certeza que gabaritara a prova.

Quando foi saber o resultado final, ela passou na casa do professor. O encontrou em meio à livros e tomando chá. Justo nesse dia, ela vestia um fino vestido branco, o que o deixou bastante excitado. Juliano gostava de roupas brancas. Principalmente mulheres vestindo roupas brancas.

— Eu vou saber o resultado do vestibular, professor. — Ela anunciou.

— Aproxime-se mais. Deixe-me sentir o tecido do seu vestido!

Ela riu e chegou bem junto a ele, que inebriado, segurou a barra do traje e o cheirou avidamente.

— Comprei-o especialmente para o senhor. — Ela fez uma pausa. — Se eu voltar; é porque passei... Se eu não voltar... O senhor já sabe.

— Você vai voltar. Eu sei que vai. — Ele falou com voz marcante.

— É o que mais desejo. — Ela disse num murmúrio sensual.

— Vá. E não demore. Eu estou esperando por você.

À tarde, Juliano descansava na rede, sorriu ao ver Heloísa abrindo o portão para entrar. Ela estava especialmente linda, os cabelos castanhos, esvoaçando ao vento, o vestido leve pedindo para ser arrancado. Quando a viu subindo a pequena escadaria, a comparou a um anjo decaído pronto para o levar para o inferno dos prazeres carnais.

Foi um momento único, quase transcendental. Sem pressa ele a levou para o quarto e a amou, fez tudo como ela havia descrito. Um culto sublime e pueril. Depois que a amou. Dormiu profundamente. Acordou sozinho na cama. O cheiro e a presença dela ainda estavam com ele.

Quatro dias depois, Juliano foi visitar a mãe, ele estava feliz, sentia-se curado das dores do passado, Heloísa tinha conseguido o que mulher nenhuma conseguira. Enfim ele encontrara alguém digno do seu conhecimento, enquanto lia Homero, planejava compartilhar com ela todas as leituras, todos os artigos e teses relevantes. Também a faria gozar ouvindo Mozart, Beethoven e Tom Jobim!

Foi a cozinha tomar um copo de água, e estranhou ver a mãe consolando a avó de Heloísa, que derramava rios de lágrimas. Preocupado aproximou-se para saber o que estava acontecendo.

— Então o senhor não está sabendo professor? — Disse a velha senhora aos prantos.

— Não estou sabendo do quê? O que aconteceu? — Ele perguntou intrigado.

— A Heloísa meu filho, ela...

— O que aconteceu com a Heloísa? — Interrompeu antes que a mãe terminasse de falar.

Domicília baixou a cabeça e com voz embargada falou.

— Ela se foi. Virou um anjo.

— Sim, professor. Ela se foi. — Bradou a avó em choro.

Juliano estremeceu. Aquilo não era possível!

— Se foi? Como assim. Se foi? — Ele quis saber.

— Ela morreu meu filho. — A mãe fez uma pausa. — Pobrezinha. Tão jovem, nem soube que passou no vestibular. — Esclareceu a mãe do professor.

— A minha Heloísa... Não, não pode ser! — Gemeu atordoado com a trágica notícia.

Juliano ficou pasmo. Boquiaberto, puxou uma cadeira para sentar. Não era possível!

— Quando e como ela morreu?

— Foi na segunda-feira. Ela foi saber o resultado do vestibular. Um caminhão a atropelou. Coitadinha. Morreu na hora. — A mãe relatou entristecida.

Juliano colocou a mão na boca.

— Não, não, não é possível! Ela não pode ter morrido na segunda-feira! Eu a vi, e conversei com ela!

— Eu sei professor. — Disse a avó. — Ela me falou que passaria na sua casa. Ela o admirava muito. O senhor seria o primeiro a saber que ela estava indo pegar o resultado da prova. — A velha engoliu em seco. — Infelizmente, ela não pôde retornar. Minha pobre netinha! Tinha tantos sonhos!

Juliano deixou as duas mulheres na sala, e se trancou no quarto.
Vinte dias depois, foi internado num hospício.



Autora: Vanda da Cunha Valderez

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8 de Agosto de 2020 às 00:05 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Vanda da Cunha Estou viva quando escrevo, as vezes nem sei se o que escrevo é bom, mas isso não tira minha vontade de continuar. Meu marido diz que eu sou uma escritora, eu não acredito muito nisso, prefiro acreditar que as palavras tem vida, e de alguma forma, elas me vivificam. Escrevo de tudo, mas o que realmente me atrai é o místico, o sobrenatural e todos os elementos dese universo.

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Vanda da Cunha Vanda da Cunha
Olá leitores. Eu reescrevi o conto e postei-o novamente. Diminuí a história, pois percebi que compactá-la tornou-a mais fluida.
August 08, 2020, 00:39
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