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vevsss Verônica Souza

Uma paixão de colegial. Sete anos separados. Um reencontro que irá colocar à prova se os sentimentos permanecem ou estão mais fortes. Será suficiente para superar os obstáculos? • História adaptada e reescrita de uma antiga fanfic da minha autoria postada em outro site, inspirada na música de mesmo nome da história, de Frankie Valli.


Romance Todo o público.

#original #romance
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Em progresso - Novo capítulo Todas as Sextas-feiras
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Prólogo

O dia estava sendo exatamente como os outros, mas isso não é uma coisa boa. A monotonia me cansava. Primeiro, acordar às seis para estar às sete e quinze no colégio. Depois, as primeiras aulas que sempre eram as mais entediantes, como literatura e educação física. Não que eu não gostasse das matérias, mas os professores eram tão ruins que me faziam dormir ao invés de me chamarem a atenção. Nas aulas de literatura, a professora costumava ler um livro escolhido por ela (que na maioria das vezes era um extremamente chato), e se houvesse alguém que conseguisse ficar acordado, com certeza tinha um motivo especial, como Dave. Ele costumava ficar acordado nas aulas de literatura porque gostava de ver Anna dormir. Ela sentava-se ao lado dele, e Dave tinha um amor platônico por ela desde o primário. Ele costumava dizer que observá-la dormir era a coisa mais interessante que acontecia na sua semana. Eu preferia dormir.

Depois da aula cansativa de literatura, tínhamos a educação física nas segundas e quartas. Seria uma aula interessante, se a quadra do colégio não estivesse em manutenção há uns oito anos, e tivéssemos que ficar sentados na sala aprendendo sobre xadrez. Eu sabia jogar xadrez. Costumava jogar com meu pai todas as noites. Nas terças e quintas tínhamos aulas de álgebra, inglês e física. Mas, o melhor dia definitivamente era sexta feira. Não pelo fato de termos mais uma aula exaustiva de álgebra no primeiro tempo, mas por termos biologia e química o resto do dia. E a parte interessante, era que biologia e química eram as matérias preferidas dos alunos do último ano, porque valia como mérito extra. É claro que todo mundo gostaria de ter mérito extra, e por isso a turma estava sempre cheia com alunos de outras salas. Mas, havia apenas uma pessoa que me importava. A mais linda de todas. A mais linda do colégio. Rosalia Torres definitivamente era a garota mais doce que eu já tinha conhecido, e não digo isso apenas porque eu tinha uma queda por ela desde a quinta série quando ela me ajudou a limpar minha camisa preferida porque me distraí e deixei cair molho. Todos sabiam que Rosalia era uma garota doce, educada, bonita e inteligente. Extremamente inteligente. Todos sabiam que de todas as turmas do terceiro ano, Rosalia era a aluna que mais se destacava. Os professores a adoravam, os alunos a adoravam, até mesmo os funcionários da cantina e da faxina a adoravam. Era impossível existir alguém que não se encantasse com ela. E talvez seja por isso que eu nunca tenha criado coragem para chama-la para sair.

Haviam outros motivos para isso, e um deles era o fato de que Rosalia jamais me veria como um garoto digno de um encontro. Eu era apenas um aluno normal. Meu único amigo era Dave, e na maioria das vezes as pessoas só me conheciam como "o amigo do Dave". Ele também não era popular, mas graças às suas piadas em horas indevidas e seus comentários engraçados durante as aulas, as pessoas o conheciam. Até Dave era mais conhecido que eu. Eu nunca teria chance de fazer Rosalia aceitar sair comigo, e preferia não me arriscar. Mas, isso não queria dizer que eu não tirasse os longos cento e vinte minutos de aula para admirá-la enquanto ela fazia alguma experiencia correta na aula de química, ou quando ela debatia com o professor de biologia sobre não aprovar a dissecação dos animais para estudos. Definitivamente as sextas feiras eram os melhores dias.

- Droga! Tirei outra nota baixa em álgebra! – Resmunguei quando Dave e eu saíamos da sala.

- Pelo menos você tirou um C.

- Quanto você tirou?

- Prefiro não dizer. – Ele embolou sua prova e a guardou dentro da mochila.

- Acho que vou repetir. E se isso acontecer, meu pai me mata. Ele perguntou se eu queria um professor particular para me ajudar, e eu garanti que conseguiria fazer isso sozinho.

- Por que não aceitou o professor?

- Seria mais um gasto para ele, e as coisas estão um pouco apertadas lá em casa.

- Bom, eu me ofereceria para te ajudar, mas como sou pior do que você...

Balancei a cabeça rindo e continuamos caminhando pelo corredor. As pessoas começavam a se dispersar para irem para a próxima aula. Os professores costumavam ser bastante pontuais, e caso você se atrasasse, era impedido de assistir a aula e ainda levava uma advertência. Dave fazia coleção delas.

- Ei! Olha o seu amor ali!

Olhei para onde Dave apontava e vi Rosalia tentando abrir a porta do seu armário. Parei de andar no mesmo instante e a olhei tenso.

- Você precisa parar com isso. – Dave riu. – Você trava completamente quando a vê.

- É que não sei o que dizer caso ela converse comigo.

- Não seja bobo! Ela nunca conversa com você. Ela nem sabe que você existe.

- Obrigado, Dave. Você me anima muito.

No mesmo instante, Rosalia deixou seus livros caírem no chão e murmurou um "droga!". Foi a primeira vez que a ouvi dizer uma palavra assim, mas não pude evitar em sorrir. Antes que eu pudesse me aproximar para ajudá-la com os livros, ela olhou para mim e eu tive a impressão de que ela iria dizer algo. Meu coração disparou e minha garganta começou a se queimar. Para o meu desespero, eu estava certo, e pela primeira vez depois de um mês e quatro dias, Rosalia falou comigo.

- Oi! Será que você pode me ajudar aqui?

Fiquei parado por um tempo, até Dave me dar um leve empurrão e eu caminhar em direção à ela.

- É claro.

Tive medo de que demonstrasse meu nervosismo através da voz, mas pelo visto eu estava conseguindo disfarçar bem.

- Eu esqueci a chave do meu cadeado, e acabei fechando ele sem querer. Será que você não conseguiria abrir ele com algum jeitinho?

Chegar tão perto dela era ainda melhor do que apenas passar pela carteira dela quando eu precisava jogar algo no lixo. Normalmente eram as únicas vezes que eu conseguia sentir o cheiro dela de tão perto, mas aquele momento ficaria guardado em minha mente. Rosalia tinha cheiro de rosas, mas as melhores rosas da floricultura.

- É claro. Pode... Segurar minhas coisas para mim?

- É claro.

Ela pegou meus livros e eu tentei me concentrar no cadeado. Não poderia fazer feio na frente dela, e graças às gambiarras que meu pai fazia, eu sabia como abrir um cadeado sem as chaves.

- Por um acaso você tem alguma presilha ou algo fino para eu enfiar aqui?

- Ah! – Ela sustentou meus livros com um dos braços e tirou uma presilha de seu cabelo, soltando metade dele. – Aqui.

Ela sorriu, e por um segundo eu me esqueci do que ia fazer. Ela provavelmente percebeu que eu estava parado com cara de bobo, e rapidamente peguei sua presilha.

- Obrigado.

Enquanto tentava abrir o cadeado, mal notei que o corredor ficou completamente vazio, e nem mesmo Dave me esperou. Sem me importar com isso, continuei me esforçando para abrir o cadeado, e finalmente consegui. Quando o tirei e olhei para ela, ela estava sorrindo como se eu tivesse salvado sua vida.

- Uau! Pedi ajuda à pessoa certa. – Ela riu. – Muito obrigada!

- Não há de que. – Sorri.

Ela olhou para seus livros no chão, e rapidamente eu me abaixei para pegá-los. Depois de juntá-los e devolvê-los à ela, outra vez ela sorriu e me entregou os meus.

- Obrigada de novo, é... Desculpe, qual é o seu nome?

- Barnie Cohen.

- Ah! Fazemos aula de biologia e química juntos, não é?

- Sim. – Sorri animado por ela se lembrar.

- Eu me lembro de você. Desculpe não saber o seu nome... – Ela riu, colocando uma mexa do cabelo atrás da orelha.

- Tudo bem.

- Meu nome é Rosalia. Mas costumam me chamar de Lia.

- É, eu sei.

Ela me olhou divertida e senti meu rosto corar.

- É que... Os professores estão sempre te elogiando, então eu já sabia o seu nome.

- Ah, claro!

Pela primeira vez eu estava tendo uma conversa de verdade com ela. Já tínhamos trocado palavras outras vezes, mas nada comparado àquilo. Normalmente eu ficava feliz quando ela apenas esbarrava em mim e pedia desculpas, ou quando me pedia um lápis emprestado quando o dela quebrava a ponta. Mas, agora que ela sabia o meu nome, as coisas poderiam começar a mudar, e eu poderia enfim criar coragem de chama-la para sair.

- Ei! O que estão fazendo aqui? – Foltest, o inspetor e pé no saco se aproximou. – Deveriam estar na aula.

Lia olhou para seu relógio e bateu a mão à testa.

- Desculpe. Eu tive um problema com meu cadeado e...

- Sem desculpas, mocinha. Atraso é atraso. Vão para a detenção.

- DETENÇÃO? – Ela praticamente gritou.

- Ela só estava tendo um problema com o cadeado dela. – Falei rapidamente. – Não nos atrasamos porque quisemos.

- Sem exceções. Vocês não são diferentes dos outros alunos. Detenção, agora.

Rosalia suspirou pesadamente e eu encarei Foltest com raiva. Ninguém naquele colégio gostava dele, por seu jeito autoritário e rude. Mas, eu pensei que ninguém conseguisse dizer "não" à Rosalia, pelo visto ele era o único.

•••

Rosalia parecia extremamente desapontada por estar na detenção. A cada dois minutos ela dava um longo suspiro e erguia a cabeça para olhar no relógio. Eu já estava acostumado. Não ia à detenção tanto quanto Dave, mas meus atrasos nas primeiras aulas já me renderam muito tempo naquela sala entediante. Pensei que poderia fazer algo para animá-la, mas não fazia ideia do que. Então, resolvi começar um assunto para distraí-la.

- Qual é sua matéria favorita?

Ela me olhou, e eu percebi que tinha sido uma péssima maneira de puxar assunto. Que tipo de pessoa pergunta qual a matéria favorita da garota que é afim?

- Bom... Gosto muito da biologia. Conhecer sobre o mundo, sobre tudo. Mas você me acharia louca se eu dissesse que minha matéria favorita é álgebra?

Sorri por ela não ter interpretado mal minha pergunta.

- Não. Estou surpreso, mas você não é louca.

- Eu me sinto à vontade com os números. É como se você tivesse um quebra cabeças que gosta muito, e quando enfim consegue montá-lo, você se sente satisfeito. Eu me sinto satisfeita quando consigo resolver um problema matemático.

- Não me admira você ser boa nisso.

Ela riu, e pela primeira vez eu percebi o quanto sua risada era bonita.

- Para dizer a verdade, é a primeira vez que venho para a detenção, desde o primário.

- Mesmo?

- Uhum. – Ela riu. – Eu estava tensa por isso, mas acho que... É uma maneira legal de terminar o colégio. Pelo menos terei algo para dizer quando alguém perguntar como foi minha época da escola.

- Você tem muitas coisas à dizer. Por exemplo... Está sempre recebendo prêmios de melhor aluna. Recebe elogios de todos os professores.

- Mas eu digo algo realmente legal. Diferente. Aposto que quando souberem "Rosalia Torres foi para a detenção", ninguém vai acreditar.

- Verdade. – Falei rindo. – Mas, qualquer coisa, eu confirmo para eles.

- Obrigada. – Ela sorriu. – Por que não conversamos antes?

- Eu... Não sei.

- Às vezes me sinto péssima por não conhecer alguém que estuda comigo. Parece egoísmo da minha parte. Se eu pudesse escolher um super poder, escolheria o de conhecer e conversar com várias pessoas ao mesmo tempo.

Sorri.

- Isso foi ridículo, não é? – Ela riu. – Esquece que eu disse isso.

O momento parecia propício para que eu dissesse que poderíamos ter a oportunidade de conversarmos mais. Eu estava prestes a convidá-la para tomarmos um sorvete ou comermos alguma coisa, quando o sinal tocou e ela me olhou empolgada.

- Ei, até que não passou tão devagar, não é? – Disse sorrindo.

- Não... – Sorri sem jeito.

A verdade é que tinha passado extremamente rápido. Aquele pouco tempo que tive com Rosalia não foram suficientes para que compensasse tantos anos sem conversar, mas foram suficientes para que eu tivesse certeza de que ela era a garota mais legal que eu já tinha conhecido.

- Vocês dois... – Foltest entrou na sala e nos olhou. – Estão liberados. Aqui os papeis para que seus pais assinem a advertência.

Lia o pegou e eu fiz o mesmo, acompanhando-a quando ela se levantou. Saímos da sala juntos e o corredor já estava cheio. Ao fundo avistei Dave que acenou para mim, e Lia me olhou.

- Bom... Aqui está uma prova de que meu ultimo ano do colégio não foi apenas estudos. – Ela riu, apontando para o papel de advertência.

- Vai se meter em problemas com seus pais?

- Não. Eles não são tão rigorosos assim, e provavelmente vão acreditar no que eu disser. Você vai ter problemas?

- Não. Os meus já estão acostumados com as advertências de atraso.

Ela riu.

- Bom... Foi bom passar um horário inteiro com você, Barnie Cohen.

- Digo o mesmo.

- Lia!

Seu grupo de amigas a chamou, e rapidamente ela acenou para mim, afastando-se. Continuei parado por um tempo olhando para ela e em como ela contava a novidade para suas amigas. Elas pareciam surpresas por ela ter ido para a detenção pela primeira vez em sua vida, mas ela contava como se tivesse sido a coisa mais legal que fez em toda a sua vida.

- Oi! – Dave se aproximou, me assustando. - Desculpe, não tive tempo de te esperar. Se eu pegar mais uma detenção por atraso, meu pai me mata!

- Tudo bem. – Respondi ainda olhando para Rosalia.

- Como foi? Foltest estava muito irritado? Aquele desgraçado...

- Não. Ele não ficou muito tempo na sala.

Dave percebeu que eu olhava para Lia e me olhou abismado.

- Ela foi para a detenção com você?

- Sim.

- Uau! Você demorou seis anos para conversar com ela, e logo de cara já levou ela para o mal caminho?

Revirei os olhos e ignorei seu comentário.

- E você chamou ela para sair?

- Não. É claro que não.

- E por que não? Cara, era a sua chance!

- Porque só conversamos. Eu não iria chama-la para sair logo na primeira conversa.

- Você pode não ter essa oportunidade outra vez.

Apesar de Dave ter razão, eu preferia acreditar que Lia iria conversar comigo outras vezes. Faltavam apenas duas semanas para o fim das aulas, e até lá, eu poderia ter uma chance maior de convidá-la para o baile de formatura, quem sabe?

- Vamos. Eu estou faminto! – Dave bateu em meu ombro, e eu enfim perdi Rosalia de vista.

•••

- Você tem certeza disso?

- Tenho.

- Mas certeza mesmo?

- Eu já disse que tenho!

- Mas você tomou essa decisão muito rápido.

- Se eu não tomasse tão rápido, eu não tomaria nunca. Hoje é o último dia de aula e coincidentemente é o dia dos namorados. É o melhor dia para eu fazer isso.

- Ou o pior. Se ela disser não, você vai se lembrar dessa data para sempre.

Suspirei impaciente e olhei para o cartão em minhas mãos.

- Ao menos se ela disser não, hoje é o último dia e eu posso nunca mais vê-la.

- Moramos em uma cidade pequena. É claro que você vai vê-la.

- Eu sempre terei a opção de ir para o Canadá com Gabriel.

- Ah, é claro! Seu irmão passou o ano inteiro tentando te convencer à ir estudar no Canadá, e você só fará isso se levar o fora da menina que você gosta.

- Dave, você está começando a me deixar irritado.

- Desculpe. Mas é que é um grande passo. Vocês nem conversaram outra vez desde aquele dia.

- Mas ela sempre me cumprimenta quando entra na sala, e sorri para mim. Ah! E sempre me chama de Barnie Cohen quando vai me cumprimentar.

- Porque ela é educada.

- Não adianta. Eu já decidi, e assim que o sinal tocar eu vou até ela entregar esse cartão.

- Sabe de uma coisa? Deveria dar uma chance para a Olga. Ela é louca com você desde a terceira série. Ela é uma guerreira!

Olhei para Olga, que estava parada no canto da sala sorrindo para mim. Ela costumava fazer isso todas as aulas, e isso me deixava incomodado. Parecia que ela estudava cada detalhe de mim, para depois escrever tudo no seu diário. Ao contrário de mim, Olga era corajosa, e estava sempre dizendo o que sentia por mim, até que aquilo se tornasse uma coisa repetitiva e chata. Eu já tinha sido educado dizendo que não tinha nenhum interesse nela, mas ainda assim ela dizia que iria me "esperar". Olga não era uma garota estranha, e se não fosse por algumas coisas, não seria difícil gostar dela. Mas, eu sabia como ela era sufocante e possessiva, principalmente nas últimas semanas quando Lia me cumprimentava. Eu olhava para ela e poderia jurar que ela estava rogando alguma praga sobre mim.

- Ela até te deu um cartão! – Dave riu apontando para um cartão sobre meus livros.

- Quer parar com isso? Eu já disse que não quero e não vou ter nada com ela.

Enquanto as pessoas andavam pela sala pedindo assinaturas para o livro anual, Dave e eu estávamos sentados conversando sobre a possibilidade de Rosalia me dar o fora. Era o último dia de aula, e minha última chance de fazer o que tive medo durante seis anos. Eu finalmente tinha criado coragem de chama-la para sair, e mais do que isso, para convidá-la para o baile. É claro que existia uma grande possibilidade dela dizer "não", mas eu estava disposto à me arriscar. Como era o último dia de aula, eu poderia me arrepender de perder essa chance. Se não desse certo, nós não nos encontraríamos mais nos corredores para que eu me escondesse dentro de uma lata de lixo. E eu estava confiante. Bastante confiante.

O sinal tocou e todos começaram a se abraçar e comemorar o fim das aulas. Dave e eu nos levantamos e ele sorriu para mim, batendo em meu ombro.

- Boa sorte. Estarei te olhando de longe e torcendo para que ela não ria da sua cara.

- Obrigado, Dave. Você é um grande amigo.

Ele riu e eu tomei folego olhando para a porta da sala. Passei pelas pessoas que comemoravam e saí no corredor. Estava lotado e ainda mais festivo do que a sala. Eu estava animado com o fim das aulas e por finalmente pensar que na faculdade tudo poderia ser diferente. Apesar de ainda não saber o que eu queria fazer, eu estava disposto a descobrir. Mas, a última coisa que se passava na minha cabeça era sobre faculdade. Eu só queria conseguir chegar até Rosalia sem vomitar de medo. Um nó estava se formando em meu estomago, e por um segundo eu desejei que ela tivesse ido embora mais cedo. Seria uma boa desculpa para dar à Dave e ele não pensar que eu desisti. Mas, logo eu a vi mais ao fundo, conversando com suas amigas. Ótimo. Ela não está sozinha, e isso será ainda mais difícil.

Olhei em volta e as pessoas se despediam. Algumas estavam emocionadas e choravam, implorando para que o amigo mantivesse contato durante as férias. A maioria das pessoas ali não se veriam novamente, principalmente por morarmos em uma cidade pequena que não tinha muito o que fazer. 95% dos alunos desejava sair dali e ganhar o mundo. Os outros 5% só queria fazer qualquer coisa a não ser estudar. Eu me encaixava nos 95%, principalmente por ter longas conversas com meu pai sobre futuro. Às vezes eu sentia que meu pai se decepcionava por eu ter terminado o colégio sem saber o que fazer, principalmente por meu irmão mais velho ter ganhado uma bolsa para estudar no Canadá no meio do seu último ano letivo.

Deixando o assunto de faculdade de lado, eu criei coragem para ir até ela. Afinal, as pessoas estava se despedindo, e eu não sabia como seria o dia seguinte. Eu poderia nunca mais ver Rosalia, e poderia perder a oportunidade da minha vida. Eu não queria me lembrar de que terminei o meu colegial sendo um frouxo que nunca teve coragem de convidar a menina que gosta para sair. Com esse pensamento, caminhei à passos firmes em direção à ela, e quando me viu aproximar, ela sorriu e me deixou ainda mais nervoso. Minhas mãos começaram a suar, e por pouco eu não amassei o cartão em minha mão. Coloquei as mãos para trás para que ela não visse o cartão, e sorri nervoso quando estava perto o suficiente.

- Oi Barnie! – Ela sorriu.

- Oi. – Por sorte minha voz não falhou.

Suas amigas olharam para mim e deram alguns passos para trás para que conversássemos. Assim me senti um pouco mais aliviado.

- Eu... Queria... Saber se...

- Você pode assinar o meu livro para mim? – Ela perguntou abrindo o livro em minha frente.

- Eu? Assinar o seu...?

- Sim! É claro, se você quiser. – Ela riu.

Não soube o que dizer. Eu não esperava que ela me pedisse isso. Com as mãos tremulas eu peguei a caneta que ela me entregou e pensei em algo diferente para escrever. A única coisa que veio em minha cabeça foi nossa conversa no dia da detenção, e sem muita alternativa, escrevi "não tenha medo de se arriscar". Assinei o meu nome e olhei para ela depois.

- Eu adorei! – Ela sorriu olhando para o livro. – Foi a melhor assinatura que recebi.

Era hora. Tive duas provas de que muito provavelmente ela não me daria o fora, e teria a possibilidade de aceitar o meu convite.

- Então... Você queria me falar alguma coisa?

Tirei minhas mãos de trás do meu corpo e me preparei para entregar o cartão.

- Eu... Só queria saber se você... Gostaria de...

- LIA!

Nos viramos para Richard, que se aproximou e abraçou Rosalia pelos ombros. Ela o olhou parecendo incomodada, mas ele parecia animado demais para notar. Richard era o tipo de cara que conquistava qualquer menina que quisesse apenas pelo seu porte físico. Até porque se fosse pela sua inteligência, ele morreria solteiro. Eu não me considerava inteligente, mas ele passava dos limites. Dizia coisas sem nexo, mas que por algum motivo as pessoas à sua volta riam apenas para manter a amizade. Eu tinha os meus motivos para detestá-lo, mas tentei me manter firme enquanto o via abraçado à Rosalia, como se eu nem estivesse presente.

- Eu quero que você assine o meu livro. – Ele disse próximo à ela.

- Tudo bem. Onde ele está?

- Está na minha casa.

- Então como quer que eu assine? – Perguntou impaciente.

- Quero que vá a minha casa hoje a noite.

Ela riu parecendo sarcástica.

- De maneira alguma, Richard.

- E por que não? É dia dos namorados, podemos ver um filme romântico. Que tal as oito?

- Por três motivos: Um, eu não tenho permissão de ir na casa de garotos. Dois, eu não saio de casa depois das oito. E três, eu não gosto de filmes românticos.

- Então você pode ir às sete. E podemos ver um filme de terror.

- Sinto muito, mas você vai ficar sem a minha assinatura. A não ser que queira levar seu livro até a loja do meu pai. Eu fico lá até as quatro.

Ela tirou os braços dele em volta de seu ombro.

- E eu estava conversando com o Barnie. Você está nos atrapalhando.

- Barnie?

Pela primeira vez ele olhou para mim.

- E por que está conversando com ele?

- Oras, porque ele é um amigo!

Amigo. Ela nunca tinha me chamado de amigo antes, e eu não sabia que depois de apenas uma conversa eu já poderia ter sido considerado seu amigo. Estufei o peito orgulhoso e olhei para Richard, que me olhava com desdém.

- Ah, já sei. – Ele sorriu. – Pensou que por ser o ultimo dia de aula poderia ter coragem de vir falar com ela, não é?

- Richard! – Ela o olhou.

- O que é isso? – Ele pegou o cartão da minha mão e começou a rir. – Olha só, Lia. Ele ia te dar um cartão de dia dos namorados. Quantos anos você tem? Oito?

Lia olhou para mim e eu senti meu rosto se avermelhar, mas não de vergonha. E sim de raiva. Desde a quinta série Richard gostava de me provocar, e eu já estava cansado daquilo.

- Que futuro você vai dar para ela? – Ele me olhou ainda rindo. – Vai cuidar daquela pensão mal-assombrada do seu pai? Quantos hóspedes tem lá? Dois? Uma barata e um rato?

- Richard, para com isso! – Rosalia disse com raiva.

- Ela nunca iria sair com você. E não vai ser um cartão bobo que vai fazer ela mudar de ideia. Ela merece mais do que ficar com um cara que o pai tem uma pensãozinha de quinta categoria.

Por seis anos aguentei Richard descontar sua raiva (por algum motivo) em mim. Ele sempre procurava algo para me irritar, mas aquela foi a gota d'água. Era o ultimo dia de aula, e eu não sairia daquele colégio sendo zombado por um cara que tem um amendoim no lugar do cérebro. Percebi que as pessoas ouviam tudo, e tive ainda mais raiva. Não pensei duas vezes antes de acertar um soco em sua cara. Lia soltou um grito e outras pessoas nos olharam assustados. Richard se recompôs e me olhou furioso, pronto para vir em cima de mim. Mas, imediatamente Dave chegou, e por sorte ele tinha a mesma altura que Richard, apesar de não ser tão forte quanto ele. Mas, isso foi suficiente para que ele o segurasse antes que ele me desmaiasse com um único soco.

- VOCÊ É UM IDIOTA! – Richard gritou. – VOCÊ JÁ ERA NESSA CIDADE, BARNIE COHEN!

Olhei para Rosalia, que me olhava assustada. Se eu tinha alguma chance de chama-la para sair, aquelas chances tinham terminado. Aliás, eu já não queria ter mais nenhuma relação com ninguém daquela cidade. Já estava cansado de tudo e de todos, e a única coisa que fiz logo depois foi virar as costas para todos e sair andando. Dave me chamou, mas eu o ignorei. Só queria sair daquele colégio, e nunca mais voltar. Aliás, eu queria sair daquela cidade, e nunca mais voltar. Nem mesmo o Canadá parecia longe o suficiente para mim.

•••

Percebi que meu pai me olhava há algum tempo, provavelmente curioso para saber o que eu estava fazendo. Desde que cheguei à pensão, eu estudava cada coisa daquele lugar, e eu tinha os meus motivos para isso. Depois de um tempo que eu estava tão observador, meu pai escorou-se ao balcão da recepção e tocou a campainha que ficava ali em cima, chamando minha atenção.

- Filho, está tudo bem?

- Sim. Por que?

- Desde que chegou você está olhando para as paredes como se nunca tivesse visto esse lugar.

Me aproximei do balcão e me escorei sobre ele.

- Pai, você não tem vontade de fazer uma reforma nesse lugar?

- É claro que tenho, mas me falta dinheiro para isso. – Ele riu. – Você sabe que por mim, eu teria transformado isso aqui em um hotel.

- Você ainda pode.

- O que?

- Pode transformar essa pensão em um hotel. Pode ser o maior hotel da cidade.

Ele riu.

- Barnie, o que deu em você hoje?

- Só... Estou sugerindo.

- É uma ótima sugestão, mas não é tão simples assim.

- Gabriel logo vai se formar e vai voltar para casa. Ele pode ajudá-lo com isso.

- Seu irmão tem interesses diferentes. Já conversamos sobre isso, e ele disse que não tem interesse em cuidar desse lugar. E você também disse isso, por isso estou estranhando toda essa preocupação.

Fiquei em silencio, encarando o balcão.

- Aconteceu alguma coisa?

- Não. – Respondi rapidamente.

- Está preocupado com a faculdade?

Na verdade, faculdade era a última coisa que se passava em minha cabeça. Desde a discussão com Richard, eu não conseguia parar de pensar na maneira que ele zombou de meu pai, e cada vez que eu me lembrava disso, a raiva tomava conta de mim.

- Sim. – Menti. – Estou um pouco preocupado. Hoje foi o último dia de aula, e ainda não sei o que vou fazer.

- Bom... Você ainda tem um mês de férias para tomar essa decisão. Pode pesquisar sobre o que gosta, e tentar algumas bolsas como seu irmão.

- Você nunca quis sair daqui? Dessa cidade?

- Na sua idade, era o que eu mais queria. Principalmente quando me formei.

- E por que aceitou cuidar dessa pensão?

- Porque era a única coisa que tínhamos. Seu avô só tinha a mim para continuar os negócios da família, e eu decidi ajudá-lo.

- E não se arrependeu disso?

Ele sorriu.

- Não, porque se eu tivesse feito outra coisa, não teria conhecido sua mãe, e vocês não estariam aqui hoje.

Sorri olhando para ele.

- Mas vou entender se você não quiser cuidar disso. – Ele olhou em volta. – Realmente o tempo não ajudou, e a falta de dinheiro também não. Mas enquanto eu estiver vivo, vou me esforçar para manter esse lugar.

Encarei meu pai por um instante, até ouvirmos um barulho vindo do lado de fora. Ele suspirou impaciente e sai detrás do balcão.

- Essa porcaria de placa fica caindo toda hora, não importa quantas vezes eu a pregue.

- Eu te ajudo.

Acompanhei meu pai até o lado de fora da pensão e realmente a placa havia caído no chão. Segurei a escada enquanto ele colocava a placa de volta e aproveitei para prestar atenção naquele lugar. Richard estava exagerando dizendo que estava caindo aos pedaços. Meu pai se esforçava para cuidar dali, e mesmo que sua aparência não ajudasse muito, era um bom lugar. Eu me lembro que quando criança, ali era o meu refúgio. No meu aniversário de doze anos as dívidas estavam ainda maiores, e justamente na época, Eloise tinha fraturado o seu braço direito, e meus pais tiveram que gastar um pouco mais com sua recuperação. Eloise era minha irmã caçula, e era o xodó de toda a família. Eu não me sentia enciumado, principalmente porque eu era o que mais a mimava desde quando ela nasceu. Mas, nesse aniversário, a única coisa que eu queria era uma bicicleta, já que a que eu tinha era uma usada de Gabriel que já não servia mais. Meu pai tinha prometido que me daria uma de presente naquele ano, mas com tudo o que aconteceu, isso não foi possível. Ele se sentiu péssimo com isso, e acabou me dando uma chave de presente. A chave era de um dos quartos da pensão, e ele disse que jamais iria aluga-lo para que ali fosse o meu refúgio quando eu precisasse. Foi o melhor presente que ganhei, porque eu me sentia independente. Diversas vezes passei a noite trabalhando com meu pai, e ele me deixava dormir naquele quarto quando o sono me pegava.

Eu gostava daquela pensão. Ao contrário do que as pessoas diziam, era um bom lugar. Só precisava de uma boa reforma para que os hóspedes não se assustassem e pensassem o mesmo que Richard. Meu pai trabalhava duro para sustentar aquele lugar, e não parecia certo nenhum de seus filhos não dar valor à isso. Enquanto eu observava meu pai pregar a placa com o nome da pensão, eu tomei uma decisão. Eu iria cuidar daquele lugar, e ainda mais do que isso. Ia fazer por ele o que meu pai não teve a oportunidade de fazer. Eu o transformaria no maior hotel daquela cidade, e surpreenderia todos que um dia pensaram que nossa família não teria futuro com aquela pensão. A ideia de querer sair da cidade para nunca mais voltar tinha desaparecido totalmente. Eu ficaria, e ainda mais do que isso, eu passaria por todas as críticas e zombarias e tornaria meu pai o homem de maior respeito ali.

•••

Terminei de escrever a carta e me preparei para colocá-la no envelope. Estava tão concentrado no que eu fazia, que mal notei quando a porta do meu quarto se abriu e Eloise entrou em silencio, me assustando logo depois. Ela costumava fazer isso, e apesar de sempre se entregar quando pisava em uma madeira que rangia, eu fingia espanto para não deixa-la sem graça. Mas, naquela noite eu estava preocupado com várias coisas, e não tive tempo nem ao menos de fingir que estava assustado.

- Ah! Eu pensei que conseguiria dessa vez. – Ela disse desanimada, sentando à minha cama.

- Já disse que você tem que pular a terceira madeira para não fazer barulho. – Respondi sem olhá-la.

- O que está fazendo?

- Nada.

- Como nada? Está escrevendo para o Gabe e nem me chamou?

- Não estou escrevendo para ele.

- E para quem é essa carta?

Suspirei e me virei para ela.

- Consegue guardar um segredo?

- Sim! – Ela disse animada.

- Estou me inscrevendo para uma bolsa de estudos.

- Sério? No Canadá?

- Não, não tão longe.

- E para onde você vai?

- Para qualquer faculdade próxima. A bolsa é para um curso de administração.

- Pensei que você não soubesse o que queria fazer. E por que administração?

- É uma longa história, mas um dia eu te conto em detalhes. – Sorri.

- Então... Você só vai passar mais um mês aqui...

- Se tudo der certo, sim.

- E vai me deixar sozinha.

Sorri divertido e me levantei, me sentando à cama ao lado dela.

- Você não está sozinha. Tem nossos pais.

- Mas eles são velhos. Não terei ninguém para me divertir.

Eu gargalhei.

- Deixa a mamãe ouvir que você está chamando ela de velha.

Ela me olhou e sorriu triste.

- Eu não tenho muitos amigos aqui.

- Mas você vai para uma nova escola, pode fazer novos amigos.

- Você acha?

- Claro! Além do mais, não é como se eu fosse ficar longe para sempre. Eu volto quando terminar a faculdade.

- Gabriel disse a mesma coisa, e hoje mamãe disse que ele pretende morar no Canadá.

- Mesmo?

- Sim.

- Bom... Mas eu não vou fazer como ele. Eu tenho um assunto pendente aqui.

- Qual assunto?

- Como eu disse, um dia eu te conto.

- Você está muito misterioso.

Toquei em seu nariz divertido e ela riu, batendo em meu ombro.

- Sabe de uma coisa? Se lembra do curso de artes que você quer fazer?

- Sim.

- Eu vou pagá-lo para você quando eu terminar a faculdade.

- Mas o curso é caríssimo. Como vai pagar?

- Vou ter os meus meios.

- Eu não acredito em você.

- Ora, que absurdo! Desde quando eu minto para você?

- Mas o papai disse que...

- Esqueça o que eles disseram, ok? Você é muito boa no que faz, e seu talento não pode ser desperdiçado. Seus desenhos são ótimos, e eu tenho certeza que um dia você irá ganhar muito dinheiro com isso.

Ela sorriu.

- Você acha mesmo?

Segurei sua mão com carinho.

- Tenho certeza.

Eloise e eu éramos muito próximos desde quando ela nasceu. Nossa relação com Gabriel não era tão diferente, mas desde quando ele se mudou para o Canadá, Eloise e eu ficamos ainda mais próximos.

- Ah! Eu me lembrei o que vim fazer aqui.

- O que?

- Perguntar se você entregou o cartão para a sua namorada.

Me levantei incomodado.

- Ela não é minha namorada.

- Então ela não aceitou o cartão?

- Quer saber, eu não deveria ter contado sobre isso para você. – Falei pegando a carta sobre a cômoda.

- O que ela disse?

- Nada.

- Como nada? Ou ela disse sim, ou disse não. Ela vai sair com você?

- Não, ela não disse nada porque eu não a convidei.

- E por que não? Pensei que tivesse dito que estava preparado.

- Eloise, eu não quero falar sobre isso.

Ela me encarou por um instante e eu me virei, culpado por ter sido tão duro. Eu contava tudo para ela, mas realmente não queria falar sobre aquele assunto. Principalmente por ela ter apenas doze anos e não saber exatamente o que eu estava sentindo. Na verdade, nem mesmo eu sabia o que eu estava sentindo naquele momento. Passei a tarde inteira preocupado com a faculdade e com meus planos para o futuro, que quase não tive tempo de pensar como minha relação com Rosalia ficaria. Mas, aquilo parecia insignificante no momento, principalmente porque naquele momento ela deveria pensar o mesmo que Richard, depois que eu o soquei no rosto na frente de todo o colégio.

- Pode fazer um favor para mim?

- Claro. – Ela se levantou.

- Pode colocar isso no correio, por favor?

Ela sorriu, pegando a carta.

- Vou colocar, e ainda vou dar um beijo de boa sorte para você.

Eloise beijou a carta e eu sorri.

- Obrigado.

Imediatamente ela seguiu para a porta do quarto, e quando a abriu, Dave estava parado à porta.

- Oi, cabeça de melão. – Eloise riu passando por ele.

- Cuidado, baixinha! Você está crescendo, mas nem tanto.

Dave riu e entrou no meu quarto.

- Oi!

- Eu deveria saber que minha mãe deixaria você entrar. – Falei divertido me sentando à cadeira.

- Que história é essa de "não quero receber ninguém". – Ele usou uma voz completamente ridícula para expressar sua indignação.

- Porque eu estou ocupado.

- Ocupado para o melhor amigo?

- Quanto drama.

- E afinal, quem mais viria aqui a não ser eu?

Encarei a mesa em minha frente.

- Ninguém.

- Bom... Eu só vim para saber como você está. Você saiu correndo do colégio hoje e não tivemos tempo de conversar.

- Passei a tarde ajudando meu pai na pensão.

Dave sentou-se em minha cama e me encarou.

- Sobre isso...

- Não quero falar sobre isso, Dave.

- Mas acredite, Richard se arrependeu do que disse. Principalmente porque ficou com o nariz sangrando e ninguém o ajudou. Nem a Lia.

Tentei não demonstrar minha curiosidade para saber o que aconteceu quando fui embora, mas eu sabia que Dave contaria mesmo assim.

- Ela ficou furiosa com ele e saiu logo depois de você. Eu pensei que ela tivesse te alcançado para conversarem.

- Não.

- De qualquer maneira, ele foi um idiota. E se você não tivesse socado ele, eu teria feito isso.

Ficamos em silencio por um instante.

- Sabe... Hoje eu pensei em uma coisa. – Ele quebrou o silencio. – Não sei se quero sair da cidade.

Me virei para ele. Dave estava sempre dizendo que não via a hora de se formar na faculdade para sair daquela cidade, mesmo sem saber o que ele queria fazer da sua vida além de comer e dormir.

- Quando Richard disse aquilo para você, eu pensei bem e... Talvez pudéssemos ser as primeiras pessoas que não se formam com pressa de sair daqui. Você entende? Há várias gerações as pessoas tem se mudado daqui e nunca mais voltam. Talvez por isso a cidade seja tão desanimada. E se ficássemos e mudássemos isso? Construíssemos danceterias, bares e várias diversões? Isso aqui se transformaria em um atrativo turístico!

Não pude evitar em rir da ideia de Dave.

- Eu estou falando sério!

- Dave, você tem preguiça de ler o cardápio da lanchonete, tem certeza que quer estudar para mudar uma cidade inteira?

- Quem falou sobre estudar?

- Inacreditável. – O olhei rindo.

- Não preciso estudar para ser o dono de um dos maiores bares da cidade. E nem você. Podemos fazer isso juntos. O que acha? Ficaríamos ricos e conhecidos!

- Eu tenho outros planos.

- Ah é? Quais são?

- Você vai saber quando chegar a hora.

- Está falando como sua mãe.

- Espero que isso não seja uma ofensa, Senhor Brock. – Minha mãe disse, parando à porta do meu quarto.

- Não Senhora! Só falamos bem!

Balancei a cabeça rindo e minha mãe o encarou, entrando no quarto.

- Preparei algo para vocês. Já sei que Dave está sempre com fome.

- A Senhora me conhece tão bem, Sra. Cohen.

- Espero que estejam falando sobre o que irão fazer na faculdade, e não dizendo besteiras.

- Dave só diz besteiras. – Falei rindo e ele fez uma careta.

- O que é isso na sua mão? – Minha mãe pegou minha mão direita, que estava com alguns roxos sobre ela. Imediatamente a escondi, pensando numa boa desculpa.

- Eu... Bati quando estava ajudando na pensão

- Bateu onde?

- Na... Escada.

- Bateu sua mão na escada?

Dave me olhou.

- É um desafio novo que fizemos. – Ele disse rapidamente.

- Desafio? – Ela nos olhou. – Meu Deus, vocês têm cada ideia! Não quero nem saber que desafio é esse.

Ela se afastou e olhei para Dave, agradecendo mentalmente.

- Ah! – Minha mãe me olhou. - Uma pessoa esteve aqui procurando por você, mas como você disse que não queria receber a visita de ninguém, pedi para ela voltar outro dia.

- Ela? – Perguntei curioso. – Quem era?

- A filha dos Torres. Rosalia o nome dela, não é?

Meu coração disparou inevitavelmente.

- Ela é uma garota tão boa. Eu não sabia que eram amigos.

Nem eu.

- E o que... Você disse?

- Disse que você estava se sentindo mal e perguntei se ela queria deixar algum recado. Ela disse que não e agradeceu. Algumas pessoas não são iguais ao Dave que insistem tanto. – Ela riu. – Desçam antes que a comida esfrie.

Assim que minha mãe saiu do quarto, Dave e eu nos olhamos e nos levantamos rapidamente, indo até a janela do meu quarto. Tive e esperança de que Lia ainda estivesse ali, mas a rua estava vazia.

- Não deveria ter feito tanto drama e pedido à sua mãe para ninguém te incomodar. Aposto que ela iria dizer que também é apaixonada por você e que deu outro soco no Richard depois que você saiu.

- Você tem uma imaginação tão fértil, Dave. – Falei revirando os olhos. – De qualquer maneira foi melhor assim. Não estou com cabeça para conversar com ela.

- Então vai passar o mês inteiro ignorando ela?

Não o respondi. É claro que eu não poderia fazer isso, principalmente porque a loja do pai dela ficava a dois quarteirões da pensão, e provavelmente eu a veria muito durante aquele mês, ao menos até eu conseguir a bolsa. Eu só não sabia se estava pronto para vê-la depois de tudo. Na verdade, eu não sabia se ainda queria ter alguma relação com ela. Depois do que aconteceu, na minha cabeça, todas as pessoas daquela cidade eram iguais Richard, exceto Dave e minha família.

•••

Eu estava totalmente concentrado no assunto "faculdade". Não consegui dormir direito na noite anterior, e estava ansioso para que a resposta da bolsa chegasse. Acompanhei o carteiro quando ele pegou a minha carta no correio e desde então não consegui parar de pensar nisso. Aproveitei o primeiro dia de férias para cuidar da pensão logo cedo para que o meu pai descansasse, mas como estava um tédio total naquele lugar, comecei a fazer planos de como iria transformá-lo em um grande hotel. Primeiramente eu precisava pensar em como conseguiria dinheiro depois de me formar. Afinal, só ter a faculdade não me tornaria automaticamente rico para fazer uma reforma geral na pensão. Eu precisava pensar em tudo, e queria começar o mais rápido possível. Mas, enquanto eu me concentrava nos meus "desenhos" e esboços, alguém entrou na pensão e eu logo me animei pensando que seria um novo hospede. Mas, logo percebi que não era um hospede, e minha animação deu lugar para o nervosismo.

- Oi.

Lia sorriu quando se aproximou do balcão.

- Oi. – Respondi simplesmente.

- Eu... Fui na sua casa ontem, mas sua mãe disse que você estava se sentindo mal.

- Ahm... Sim.

- Você está melhor?

- O que?

- Estava se sentindo mal.

- Ah... Sim. Estou melhor.

Por algum motivo, eu não estava com vontade de ter uma conversa com ela, pela primeira vez na minha vida. A cada vez que eu a olhava eu me lembrava da humilhação que Richard me fez passar, e novamente ficava com raiva. Mesmo que a culpa não tenha sido dela.

- Eu... Só queria me desculpar por ontem.

- Desculpar?

- Sim. Richard é um idiota, e o que ele disse foi horrível.

- Eu não me importo com o que ele diz.

Ela baixou os olhos e observou minha mão, que rapidamente eu a coloquei no bolso.

- De qualquer maneira, eu precisava vir aqui. Você... Ia mesmo me entregar aquele cartão?

- Deixa isso pra lá.

- Não, porque... Ninguém nunca fez isso para mim antes.

- Nunca te deram um cartão?

- Nunca fizeram isso com boa intenção. – Ela sorriu. – Eu sinto muito por termos nos conhecido melhor perto das aulas terminarem. Teria sido legal se tivéssemos conversado mais desde a quinta série.

Franzi o cenho surpreso.

- Você sabia que estudamos desde a quinta série?

- Eu disse que não sou boa com nomes, mas sou boa com rostos. – Ela riu. – Eu me lembro de você, e também me lembrei que algumas vezes quando vou até a loja do meu pai, você está aqui. E algumas vezes você se ofereceu para carregar meus livros na sua bicicleta quando voltávamos da escola, quando eu me empolgava demais na biblioteca. Eu me lembro disso, mesmo você sendo tímido e nunca me dando a oportunidade de saber seu nome.

Me senti um idiota por ter demorado tanto tempo para conversar com Rosalia. Nós praticamente nos esbarrávamos todos os dias, e tivemos várias chances de conversarmos antes. Quem sabe nos tornaríamos amigos? E quem sabe as chances de eu conseguir um encontro com ela não fossem tão impossíveis assim?

- Espero que não se importe, mas eu guardei o cartão que você me deu.

- Você guardou?

- Sim. – Ela sorriu. – E eu adorei.

Sorri sem jeito.

- Então... Você não achou uma coisa idiota?

- É claro que não. Pelo contrário. Foi uma graça da sua parte fazer isso.

Pela primeira vez depois do que aconteceu, eu não estava pensando mais na pensão ou na faculdade. A raiva que eu tinha desapareceu, e novamente eu senti meu coração bater por Rosalia. Ela já tinha me dado provas suficientes de que eu poderia chama-la para um encontro.

- Eu... Estava pensando... – Falei tenso. - ... em te chamar para... Fazermos alguma coisa amanhã. Eu sei que você já deve ter recebido outros convites, mas... Se ainda não tiver um compromisso...

Eu estava parecendo um idiota, gaguejando e com as mãos suadas, mas para o meu alívio, ela sorriu ainda mais e tocou no balcão, com a mão próxima à minha.

- Eu adoraria.

A sensação que senti naquele momento foi algo inesquecível. O frio na barriga desapareceu, e deu espaço para várias borboletas voarem ali. Eu precisei de um tempo para cair na real de que não era a imaginação de um jovem bobo por ter o seu primeiro encontro aos dezesseis anos. Combinamos de nos encontrar na lanchonete mais conhecida da cidade no dia seguinte, e eu nem mesmo me importei que outras pessoas nos vissem ali e pudessem comentar, principalmente após a briga com Richard. Todo o mal humor que eu tive nos últimos dois dias desapareceu como mágica. Até mesmo minha mãe notou que durante o jantar eu parecia mais à vontade e alegre. Eloise obviamente usou isso para me provocar, mas nem mesmo isso me deixou impaciente. Mais uma vez não consegui pregar os olhos, até perceber que eu estava parecendo um idiota dessa maneira. Afinal, seria um encontro. Ela me considerava seu amigo, então apenas iríamos falar sobre várias coisas que não pudemos falar em seis anos. Eu não era mais uma criança, e não deveria agir como uma, mesmo que estivesse ansioso para o meu primeiro encontro com Rosalia. Assim, consegui pegar no sono.

******

No dia seguinte, quando voltei da lanchonete, Dave me ligou quase em um timing perfeito para perguntar sobre tudo. Eu não queria ter que dizer exatamente o que aconteceu, principalmente porque apenas conversamos. Por isso, poupei ele dos detalhes das nossas conversas, resumindo apenas que tínhamos falado sobre o colégio e sobre coisas que gostamos. Ele não pareceu satisfeito com a história resumida, mas ficou tão empolgado por eu ter conseguido um encontro com Rosalia que não me irritou por isso. Omiti que nossa conversa começou de fato sobre o colégio, já que eu estava nervoso e não fazia ideia do que perguntar. Mas como não tínhamos muito o que falar sobre o colégio (e não queríamos), falamos sobre nossos planos. Ou melhor, Rosalia falou sobre seus planos. Queria estudar matemática, provavelmente se tornar professora, e a maneira com que ela planejava o seu futuro detalhadamente era encantador. Não falei sobre os meus planos, mas consegui deixa-la satisfeita respondendo apenas "estou decidindo sobre isso". Mudei o assunto rapidamente para os tipos de filmes que ela gostava, e acabamos falando sobre músicas, livros e a conversa se estendeu por algumas horas.

A melhor parte desse encontro com Rosalia foi conhece-la melhor. Eu pensava que apenas de estar perto dela seria suficiente, mas nossas conversas se mostraram realmente interessante. Dois dias depois, ela voltou na pensão, mas dessa vez o convite partiu dela. Me convidou para irmos ao cinema assistir à um filme novo que estava em cartaz. Eu já havia visto o filme com Omar, mas não iria recusar o seu convite. Fomos ao cinema, e mais uma vez nada aconteceu. Não porque eu estivesse nervoso ou tenso dela se assustar com qualquer aproximação, mas porque eu me sentia tão bem de estar na companhia dela, que não sentia que precisava de um momento romântico para me sentir melhor. Embora, obviamente, o sentimento que cultivei por ela naqueles seis anos estivesse mais forte. Grande parte daquelas férias foram resumidas em passeios com Lia, e nem mesmo me lembro qual de nós dois fazia os convites. Eu gostava de ouvi-la falar sobre seus assuntos preferidos, e me sentia bem estando em sua companhia. Mas, em uma tarde, Dave me fez pensar em algo importante. As férias estavam acabando, e se eu fosse aceito na faculdade, não veria Rosalia por um bom tempo. Aquilo me deixou ansioso e nervoso, e pensar nisso me fez perceber que apesar de estar aproveitando cada segundo ao lado dela, eu deveria ser sincero sobre o que eu sentia por ela. Mesmo que parecesse uma paixonite boba de criança, eu não poderia ficar tanto tempo fora sem dizer isso à ela. Eu seria um homem de responsabilidades em pouco tempo, e deveria agir com sinceridade e determinação.

Em uma manhã, convidei Rosalia para irmos ao parque no fim de semana. O parque era um bom lugar para dizer essas coisas. Eu poderia presenteá-la com alguma pelúcia, andaríamos na roda gigante, e as coisas pareceriam menos assustadoras. Pelo menos, era o que parecia nos filmes. Mas, para a minha decepção e surpresa, a resposta dela foi mais ou menos assim:

- Desculpe, Barnie. Eu... Não posso.

- Oh! – Tentei não demonstrar toda a minha decepção, mas foi em vão. – Tudo bem. Não sei porque imaginei que você iria querer ir ao parque...

- Não, eu quero. Quero muito!

- Você quer? – Perguntei surpreso.

- Sim, mas... Eu realmente não posso.

- Por que não?

- Porque eu vou embora ainda essa semana.

Por um tempo eu fiquei travado, olhando para ela.

- Embora?

- Sim. – Ela encarou as próprias mãos, apertando-as uma na outra. – Eu vim para te contar isso. Consegui uma bolsa de intercâmbio, e vou passar um tempo na casa dos meus avós no Brasil antes de ir.

Parecia que um piano enorme tinha caído em cima de mim naquele momento. Embora eu soubesse que Rosalia era boa demais para ficar confinada naquela cidade pacata, eu nunca esperei que ela dissesse que iria tão rápido. Na minha cabeça, ainda teríamos o restante do mês para tirarmos o atraso de seis anos sem conversar. Eu me senti um idiota por ter demorado tanto tempo para criar coragem e conversar com ela.

- Aqui... – Ela colocou um papel sobre o balcão e eu o olhei.

- O que é isso?

- Eu me lembrei de que não assinei o seu livro, então escrevi isso para você colocar lá.

Peguei o papel e o li.

- Vou passar os próximos dias empacotando as minhas coisas, então acho que não vamos conseguir nos ver até lá.

Eu não sabia o que responder. Queria dizer que iria me despedir dela antes de ir, mas temi que isso fosse íntimo demais.

- Foi bom te conhecer melhor, Barnie Cohen. – Ela sorriu. – Nossos passeios foram ótimos.

- Igualmente... Rosalia Torres.

Ela riu e passou pelo balcão onde eu estava, me dando um abraço. Retribuí sem saber se era mesmo um abraço de despedida ou se algum dia voltaríamos a nos ver outra vez. De qualquer forma, foi um abraço reconfortante, e mesmo que não tivesse a mesma intensidade de um primeiro beijo, ficou em minha memória por um bom tempo, juntamente com o cheiro de rosas do seu perfume. Depois de um tempo abraçados, ela sorriu e afastou-se, deixando o seu perfume pelo caminho que ela seguiu.

- Ah! – Antes de sair ela me olhou outra vez. – Desde criança eu tinha vontade de me hospedar na pensão do seu pai. Acho que nunca disse isso.

Sorri olhando para ela.

- É um ótimo lugar.

Não tive tempo de agradecer. Logo depois de dizer isso, ela se afastou e eu a perdi de vista. Embora estivesse com uma péssima sensação de saber que era muito improvável que eu voltasse a vê-la de novo, me senti feliz por não termos nos despedido com um clima ruim. Peguei o seu papel sobre o balcão e o abri, sorrindo ao ler o que ela escreveu. Como se não bastasse, sua caligrafia também era perfeita, e eu definitivamente guardaria aquele bilhete com muito carinho, e jamais me esqueceria daquilo.

"Você é fantástico! Nunca deixe que alguém diga o contrário.

Com carinho, Lia."

30 de Julho de 2020 às 17:48 0 Denunciar Insira Seguir história
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Continua… Novo capítulo Todas as Sextas-feiras.

Conheça o autor

Verônica Souza Aspirante à escritora.

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