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kztironi Karina Zulauf Tironi

Um conto sobre desastres iminentes, os barulhos que as coisas fazem e o silêncio que fica depois de uma explosão. "Como você impede um desastre de acontecer, quando você sabe de antemão que ele vai acontecer? Como os videntes conseguem lidar com isso, lidar com o conhecimento de que algo que existia pode não existir mais a partir de certo ponto?"


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Ode à Alegria

Eu nunca soube que a tentação poderia ter um gosto tão doce até que me cedi à ela, nunca entendi direito a fixação doentia das pessoas por um filme, uma comida, uma cidade ou uma pessoa até me ver presa nas mesmas garras, no mesmo firme e interrupto olhar – que por si só já assemelhava-se com uma cela, quente e úmida e grande demais, apesar de apertada –, até me encontrar eufórica ou melancólica ao extremo, às vezes pela mesma razão. Jazia em mim mesma todo o poder que eu precisava para fazer tudo isso acabar, um estalar de dedos, um sopro, um “adeus” sussurrado ao vento, que transmitiria ao Universo meu consentimento para o fim. Eu sabia disso, sabia que eu era a única que poderia fazer as risadas, os sorrisos e o sangramento do meu coração parar ou estender a linha do ciclo um pouco mais, um pouco mais longe e por um pouco mais de tempo. Quem sabe pra sempre, se eu fosse insistente, teimosa e completamente cega.

Eu teria perdido tanto, acredito, que não sei se chegaria a notar; quando tudo começasse a desabar, faria diferença o que me acertou primeiro? Ou o que finalmente teve a audácia de me nocautear de vez? Talvez fizesse diferença, mas quando penso em tudo que já aconteceu, imagino que mais algumas noites encolhida chorando baixinho não fossem mudar, acrescentar ou tirar algo do todo.

Uma árvore que desaba em uma floresta, longe de qualquer um – humano ou animal – ainda provoca som? Minhas lágrimas, escondidas no travesseiro, os soluços quando estou sozinha: isso faz sentido e sequer importa, se não há ninguém no mundo para presenciar? Quem sabe eu esteja sendo egoísta, querendo tudo demais e demais e sempre pra mim, porque eu quero ou porque acho que preciso/mereço. Afinal, minha mãe sempre me disse isso, “você puxou o ego de seu pai”. Mas talvez não seja essa a questão, mas a de que eu realmente acreditei, no fundo do meu coração que fosse um presente para mim, embalado em um pacote bonito e com uma fitinha azul. Você não recusa um presente, recusa? Eu deveria ter lido com mais cuidado o nome escrito nele, porque acho que o presente não era para mim. Nossa mente é capaz das mais grandiosas e surpreendentes coisas, quando realmente queremos algo. Você fica pensando que o aceno daquela pessoa do outro lado da rua é para você, que seu irmão comeu seu chocolate por implicância, que aquela pessoa sente por você o mesmo que você por ela. É tão fácil enganar a si mesmo, a psicologia e os traumas estão aí para comprovar isso.

Mas estou fugindo do ponto.

O ponto é: como você impede um desastre de acontecer, quando você sabe de antemão que ele vai acontecer? Como os videntes conseguem lidar com isso e o fato de que, apesar de seus esforços, eles talvez não consigam avisar a pessoa que vai sofrer um acidente, ou fazê-la acreditar, ou ainda eles mesmos lidar com o conhecimento de que algo que existia pode não existir mais a partir de certo ponto? E você sabe disso. Você é o meio do caminho, o lugar onde dois trens se encontram em alta velocidade, imprudentes e sem um pingo de arrependimento. Teria sido diferente se você tivesse dito a eles, contado sobre os trilhos que se encontram, causando toda aquela explosão linda e aterrorizante? Trens conseguem, afinal, mudar de rota assim do nada? Teria feito diferença ter ido devagar, ou nunca saído do lugar?

Nosso amor é como uma rádio mal sintonizada que ambos insistimos em continuar escutando, apesar dos ruídos que nos impedem de ouvir a música. Ninguém tem coragem de mudar de estação. Mas estou fazendo link com os trens de novo.

Peço perdão por todo esse drama, é que eu nasci com o sol em leão e a lua em câncer, eu só sei viver a vida como se estivesse no meio de um filme onde sou a protagonista. Quando penso em algo engraçado, rio e olho para o nada como se compartilhasse o humor com um grupo de pessoas invisíveis, toda vez que sou injustiçada, tenho certeza que há gente irritadíssima pelo pouco caso que me fazem, jogando pipoca na tela e vaiando. Quando eu corro muito rápido, chego a ouvir a nona sinfonia de Beethoven tocando ao fundo, então não me peça para dar pouca importância para as coisas, porque eu sempre vivenciei tudo intensamente. Mesmo quando não sinto nada, o sinto completamente.

Alguns dias na semana eu me lembro de algumas coisas que não me fazem bem e às penduro na árvore em meu jardim, feito enfeites de natal. Elas são pesadas e aos poucos convencem a árvore enorme a se torcer, cansada. Conforme penduro mais lembranças nela, mais perto do chão fica. Mas não paro. Eu quero ter certeza que, mesmo se estiver dormindo, quando aquela árvore cair, eu escute cada barulho que ela fizer. Talvez quem sabe assim eu me convença que não há diferença na dor, e que eu posso chorar em silêncio sem medo de ser egoísta; porque, na verdade, esse filme é mesmo meu e todos os presentes que surgem debaixo da minha árvore têm meu nome escrito em caneta vermelha.

29 de Julho de 2020 às 23:29 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Karina Zulauf Tironi Como escrever sobre mim, quando me torno tantas outras pessoas enquanto estou escrevendo? Só uma menina tentando transformar seus monstros em histórias que possam entreter.

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Aghata Lunes Aghata Lunes
Sol em leão e lua em câncer não é só a protagonista mas sim a protagonista de um drama! HHAHHAHA Muito gostoso de ler, adorei <3
August 01, 2020, 00:09

  • Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
    Imagina só hahah! Eu que tenho sol em câncer e vênus em leão já sou um tiquinho dramática hahaha, mas a parte positiva é que ajuda na escrita. Obrigada pelo comentário, xuxuu <3 August 01, 2020, 00:16
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